Rebobinando #73 | Jiraiya, o incrível ninja

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Houve uma época nos idos dos anos 90 onde a ação japonesa ocupava boa parte das tardes da molecada. Monstros gigantes, robôs, ninjas e plots incrivelmente densos para crianças de 9 anos acompanharem eram figurinhas fáceis na TV. Entre times coloridos e heróis metálicos, um deles se destacava por ser um herói metálico, mas de roupa colorida. Vem comigo rebobinar Jiraiya, o Incrível Ninja!

Como de praxe, dá play e volta no tempo comigo, disponha.

Eu era um singelo moleque de uns 6 anos de idade em 1988, quando os tokusatsus começaram sua nova onda pelo Brasil. Changeman acabou sendo o primeiro seriado com o qual eu tive contato, seguido de Jaspion. Nos anos seguintes, outros seriados se destacaram na minha então condição de fã de “seriado japonês”, como Flashman, Jiban e, claro, Jiraiya. E apesar de curtir todos os outros mais ou menos de igual forma, Jiraiya era de fato um dos meus seriados favoritos de verdade. Talvez porque ele fugisse um pouco do formato tradicional dos Super Sentais e dos outros Metal Heroes, afinal de contas, uma das coisas que eu achava mais bacanas era que ele não possuía um robô gigante (OH, WAIT). Ou talvez ainda fosse pelo fato de ele ser um ninja e que tudo aquilo que ele conseguia fazer na tela era fruto de treinamento e não super poderes.

Eu não sabia na época, mas o nome original do seriado era Sekai Ninja Sen Jiraiya, algo como “Jiraiya & Guerra Mundial dos Ninjas” em português, e foi diretamente influenciado pelos Jogos Olímpicos de Seul de 1988. A série estreou originalmente em janeiro de 88 no Japão e foi até janeiro do ano seguinte, totalizando 50 episódios. Aqui no Brasil, ela foi então trazida como uma das séries mais recentes, tendo estreado em outubro de 1989 na extinta Rede Manchete. Diferente de seus conterrâneos que estrearam pra lá de 1985 no Japão e chegaram por aqui também em 89.

Se tudo mais falhar, eles pelo menos podem lançar uma equipe de dança.

Por conta da pegada internacional de “guerra mundial” e “olimpíadas” um dos pontos bacanas de Jiraiya era o rico background (ok, talvez nem tanto) dos personagens secundários. Quase como um esquema “Freak of the Week” (ou “monstro da semana”) da maioria dos seriados americanos, a cada episódio éramos apresentados a um ninja diferente de alguma outra parte do mundo. Claro que isso gerava situações e personagens engraçadíssimos, olhando em retrospecto. Como o Barão Owl, que era um ninja britânico que se vestia como um cavaleiro das cruzadas. Ou ainda o Bakunin Homem-Míssil que era um ninja americano que usava um lança-foguetes e cujo uniforme mais parecia um manto da ku-klux-klan. Sem esquecermos do outro ninja americano Rainin Wild, que além de ser descendente de Billy the Kid, usava uma magum 44 como arma e usava um uniforme jeans. Haja calor!

Kazenin Storm (o refugo de Tron), Rainin Wild (o ninja de JEANS), Barão Owl (o ninja britânico fugido de Monty Python) e o Homem-Míssil que seria completamente insensível nos dias de hoje!

A história

Ela gira em torno do jovem Touha Yamaji, um jovem adotado pelo sucessor do clã ninja de Togakure Tetsuzan Yamaji (chamado de “Velho” pelo herói). O velho tem dois filhos biológicos a menina Kei e o pirralho Manabu. No desenrolar da série todos eles acabam entrando na tal da guerra entre os clãs ninjas e usando seu próprio uniforme de batalha. O herói ainda conta com a ajuda de dois membros da polícia secreta japonesa que são, por aum acaso (isso mesmo) ninjas! Reiha e Spiker. A primeira era uma policial super competente, além de ser a “namoradinha” dos fãs da série. Todo mundo achava ela gata. E o outro tinha um uniforme maneiro e era quase um sidekick confiável do Jiraiya.

Logo no primeiro episódio o Velho conta a Touha qual a missão de sua família. O Clã dos Togakure foi escolhido a milhares de anos atrás como os protetores de uma tabuleta de barro que continha a localização de Pako, uma espécie de tesouro alienígena que diziam conter um enorme poder. Como representante da 34ª geração dos togakure, o Velho recebeu de seu mentor o dever de proteger a tabuleta de todo o mal. Porém um antigo amigo e aprendiz das artes ninjas, Oninin Dokusai, deixou-se levar pela ambição e tentou roubá-la de Tetsuzan, e acabou fugindo com apenas metade dela. Após alguns anos ele ressurge com um novo clã de ninjas chamado Família dos Feiticeiros. E isso dá início a toda saga dos ninjas.

Dokusai era o Capeta!

Equipamento

A fim de derrotar Dokusai e seu Clã, Tetsuzan confere a Touha a lendária armadura olímpica de Jiraiya! Por estar velho demais para vestí-la, ele confia em seu filho adotivo para que ele, como o novo sucessor de Togakure, defenda o tesouro lendário Pako e proteja a Terra de todo o mal. Para isso, além da armadura, ele conta com outros equipamentos.

  • Armadura Olímpica. Com o passar da série, nós descobrimos que Touha na verdade é o descendente do alienígena que trouxe originalmente o tesouro espacial à Terra. Portanto, ele é o único capaz de utilizar todo o poder da armadura, por conta de sua biologia. Além de proteção ela aprimora a força, velocidade e outras habilidades de quem a veste.
  • Espada Olímpica. Com o nome original de Jikō-shinkūken, algo como Espada de Vácuo Luminoso Magnético, em português, esse seria um nome complicadíssimo de se usar na dublagem. Mas como a Toei decidiu lançar o personagem internacionalmente como Jiraiya, The Olympic Ninja, por conta dos Jogos Olímpicos de Seul, a tradução do nome aqui no Brasil ficou como Espada Olímpica (que é bem melhor, convenhamos). Como o nome já diz, e pela habilidade inata de Touha, ela é capaz de virar momentaneamente uma espada laser, capaz de derrotar os inimigos com uma série de golpes. E causar explosões maneiras. Não vamos esquecer das explosões maneiras.
  • Ombreiras e Viseira. Um dos personagens que faz amizade com o grupo de heróis da série é um cara chamado Dr. Smith. Apesar do nome super genérico, o Doutor Silva consegue aprimorar a armadura olímpica de Jiraiya com uma série de equipamentos tecnológicos que permite a ele obter uma maior vantagem na luta contra o mal. E deixando a armadura incrivelmente mais maneira, claro. Além das ombreiras ele ganha um protetor de pescoço e um visor eletrônico que o permite utilizar habilidades especiais como zoom, infravermelho, raio-x e visão noturna.
  • Deus Jirai. Ao fim da série, descobre-se que Pako, na verdade levava a uma arma poderosa. Era um robô gigante conhecido como Deus Jirai. Imagina a minha decepção, um garoto que curtia o seriado justamente porque não tinha robô gigante, ver o fim dele se dar na luta de um robô gigante! Maldita Toei. O robô era muito poderoso, porém no final, Touha se vê obrigado a se livrar dele para salvar a vida na Terra.

A Armadura Olímpica e o Robô Gigante Deus Jiray.

Sucesso

Assim como tantas outras série da época, Jiraiya fez um enorme sucesso. Tinha disco em LP com as músicas do seriado, tinha brinquedos (meio furrecas, é verdade), tinha kit ninja e eu lembro de passar tardes correndo no play com uma espada de plástico e uma camiseta amarrada na cara, fingindo ser um ninja. Era muito legal.

O seriado também foi um daqueles que começou a moldar parte da minha infância por me introduzir ao mundo dos plots complexos e uma visão de mundo com mais tons de cinza do que os desenhos de super-heróis habituais do Xou da Xuxa, ou Clube da Criança. Tenho na memória episódios específicos onde Jiraiya enfrenta um lutador do estilo kung-fu bêbado e ao final derrota o cara, só para vários episódios depois ele voltar e eu ficar chocado, porque lembro de ter sido uma luta muito difícil. No fim, descobre-se que não era o cara, propriamente dito e sim seu filho, em busca de vingança. Aos 8-9 anos isso me deixou boladíssimo.

E foi assim que eu aprendi que os seriados japoneses não pisam em ovos ao tratar de temas mais complexos. E curti muito.

Considerando que Kannin Dragon bebia que nem um gambá, e Chang Kung-Fu era um ninja do fogo, eu acho que eles não deveriam andar juntos!

Curiosidades

Jiraiya, no fim das contas, existe nas lendas japonesas. Tanto que o seriado não foi a primeira, nem a última encarnação do personagem. Os fãs de Naruto, por exemplo, conhecem uma versão bem mais… er… tarada. A lenda original chamada Jiraiya Gōketsu Monogatari (O Conto do Galante Jiraiya) conta a história de um jovem ninja com o poder de se transformar em sapo gigante (de todas as coisas no mundo… ele escolheu um sapo). Ele se apaixona por uma jovem donzela chamada Tsunade e tem como inimigo um ex-aprendiz chamado Orochimaru, mestre da magia das serpentes (um poder bem mais maneiro que o dos sapos). Jiraiya, no japonês pode significar “jovem trovão”, e a história foi adaptada para um romance do século XIX, uma peça de teatro kabuki, vários filmes, e obviamente seriados e mangás.

Dizem até que a máscara de ninja do nosso Jiraiya (o do seriado, não o do Naruto) tem uma vaga semelhança com um sapo. Coisa que acabei achando interessante, porque tirando o nome, a história da série não tem mesmo nada a ver com a do folclore japonês.

Será que quando o Jiraiya canta, é porque tá frio?

Tô LendoPontos Fortes
  • Empolgante. Revi o primeiro episódio no youtube e posso dizer, quando entra o tecladinho com a música de abertura correu um arrepio de nostalgia e as lutas pareceram muito mais empolgantes. O trabalho de dublês japoneses naquela época era absolutamente sensacional. E os truques de câmera, hoje bobinhos para quem conhece, eram bastante criativos.
  • História. O bom dos seriados japoneses é que eles tem início, meio e fim. Mas mesmo assim ainda rola uma continuidade. Jiraiya tinha uma história bacana e ao longo dos seus 50 episódios apresentou uma cacetada de personagens que trocaram de lado, que morriam, que voltavam, etc. Culminando num final empolgante também.
  • Visual. Sei lá. Prum cara que é considerado um Metal Hero, baseado num sapo folclórico, acho o uniforme do Jiraiya simples mas efetivo.
Tô LendoPontos Meh
  • Antigaço. Talvez as crianças de hoje em dia não curtam muito, não sei. Os novos tokusatsus estão repletos de efeitos digitais e acabam atraindo a atenção da garotada por outras coisas. Jiraiya é mais roots, cheio de truques de câmera, mas meio tosquinho na edição final.
  • Disponibilidade. Apesar de estar no youtube, não sei se tem completo. O som da dublagem varia muito e a imagem de alguns videos estão com cara de ripado de VHS da década de 90. Tem uma versão remasterizada que foi lançada em 2014, acredito, mas não pude conferir para saber se tem a versão dublada original.
  • Roupas. É muito da época, né? Enquanto eu acho a armadura do Jiraiya maneira até hoje tem muita, mas M U I T A fantasia tosca nesse seriado, meojesuis. Tudo que eles gastaram nos efeitos toscos, eles economizaram nas fantasias dos atores!

Ainda acho incrível que o Jiraiya seja considerado um Metal Hero. É o que mais diferencia de todos os outros, tanto na aparência quanto na temática da série.

Jiraiya é um clássico eterno para mim. De coração. É um daqueles seriados que eu planejo rever com o meu filho algum dia, quando ele tiver mais idade para assistir. Esperando ansiosamente que ele não reclame dizendo que “isso é coisa de velho, pai”. Acho que vale super a pena correr atrás e rever alguns episódios. Curtir a musiquinha de abertura e as coreografias de luta!

E se você ainda curte tokusatsus e super sentais, deve saber que em 2015 uma das equipes chamada Shuriken Sentai Ninninger precisou da ajuda do sucessor de Togakure para recuperar a espada olímpica e… deu até um arrepiozinho quando o tecladinho tocou nessa cena! *chuif*

Jiraiya, o Incrível Ninja vale com certeza cinco rebobinandos! 📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2019-03-18T23:06:07+00:00 18 de março de 2019|0 Comentários