Olhem, lá no céu! É um relâmpago? É um deus do trovão? É o Thor? Não! É a poderosa Thor! Ou mais especificamente, Jane Foster, a Thordis! Não sabe do que eu estou falando? Então vem comigo rebobinar um clássico da Heróis da TV #28!

Thordis não perde tempo e sai dando sopapo em todo mundo.

Se você já lê a Rebobinando há algum tempo, provavelmente já deve conhecer todo o conceito por trás da série em quadrinhos What If…? da Editora Marvel, conhecida por aqui pelo longuíssimo nome de “O Que Aconteceria Se…?”. Por conta de diversos acontecimentos multiversais que têm ocorrido por toda a cultura pop atual, a coluna aqui acabou tratando de diversos universos paralelos dos quadrinhos que viajavam pelo conceito e se perguntavam como seria se o Capitão América fosse descongelado mais tarde, ou se ele criasse os Vingadores, ou se os heróis da Marvel fossem zumbis, etc. etc.  

A ideia original da revista era uma espécie de “cala boca” para os leitores mais cata-piolhos que reclamavam de mudanças nas equipes ou de qualquer outro detalhe irrelevante, mostrando que “em outro universo” teria dado uma merda federal se as coisas fossem minimamente diferentes, hehe. Mas na verdade, as histórias serviam como um campo de testes de ideias novas e até absurdas, para testar o gosto do público. Tanto que no decorrer de mais de quarenta anos de publicação, muitas dessas histórias até então “absurdas” acabaram sendo reaproveitadas na cronologia oficial da editora. Um dos maiores exemplos é este do qual estamos falando hoje.

Thor mãe, Thor filha.

HERÓIS DA… TV?

Mas antes, só um apanhado rápido sobre a versão da revista brasileira onde a edição americana de What If…? #10 veio a ser publicada. A revista Heróis da TV é praticamente um marco no mercado editorial brasileiro (bom, eu posso estar exagerando, mas é fato que ela é um gibi muito mais longevo do que eu pensava). Nascida em 1962, ela surgiu com esse nome justamente porque publicava histórias adaptadas de seriados policiais que eram exibidos na televisão da época. Por volta dos anos 1970, as séries policiais deram espaço aos desenhos animados da Hanna-Barbera, voltados para o público infantil. Algumas das histórias, inclusive, eram criadas pelos próprios artistas da Abril Jovem, assim como nos gibis da Disney.

Depois de mudar de nome algumas vezes, indo de Almanaque Super-heróis da TV para Almanaque Heróis da TV, foi só em 1979 que a revista finalmente virou a Heróis da TV que nós conhecemos e trazia no seu mix diversas histórias dos heróis da Marvel (o que fazia dela, essencialmente, um “pré-superalmanaque Marvel”). Inicialmente, por conta dos “desenhos desanimados” da Marvel que eram exibidos na época, o gibi acabou fazendo jus ao seu título. Porém, com o passar do tempo, outros heróis foram sendo introduzidos no mix e outras revistas foram ganhando um pouco mais de espaço. O título durou uns bons dez anos, no fim das contas, indo de 1979 a 1988, totalizando 112 edições. E no ano seguinte a Abril Jovem lançou o Superalmanaque Marvel e continuou com a Heróis da TV numa nova fase, publicando histórias dos heróis dos tokusatsus japoneses tão em moda na época.

Imagina se a amiga dela se chamasse Dagmar?

HERÓIS DOS GIBIS

A história, publicada originalmente em What If…? #10, não é lá das melhores, convenhamos. Hoje em dia chega até a ser engraçado porque notoriamente, nenhum dos envolvidos fazia A MENOR IDEIA de como escrever uma história com uma protagonista feminina. Bom, pelo menos não como nós estamos acostumados hoje em dia. A carga de machismo inerente nas páginas não chega a ser um problema em si, eu particularmente achei curiosa a total falta de tato do roteirista Don Glut, inclusive porque não parece tão distante dos próprios textos do Stan Lee que colocavam tanto a Mulher-Invisível quanto a Vespa como duas cabeças-de-vento que não serviam para muita coisa. Mas enfim, eu sou homem, né? Não duvido que uma mulher lendo isso aqui fique furiosa, provavelmente.

A trama começa basicamente da mesma maneira que a história do Thor original. Há uma invasão alienígena meio que do nada, de seres da raça kronan (a mesma do personagem Korg dos filmes e da saga Planeta Hulk) que pousam coincidentemente ao lado de Donald Blake e Jane Foster. Na história como a conhecemos, Blake fica preso numa caverna e encontra um cajado de madeira que usa para tentar mover uma pedra e sair, mas acaba acidentalmente batendo com ele no chão e transformando-o no Mjolnir e, consequentemente, se transformando no poderoso Thor, o Deus do Trovão. Aqui, quem acaba ficando presa na caverna é Jane Foster, que passa pelos mesmos apuros e se transforma numa versão feminina do herói.

O martelo da Jane se transforma NUMA ESCOVA DE CABELO, bróder!

O cúmulo das “decisões de roteiro de última hora” é COMO ela decide o nome dela, no entanto. Porque DO NADA ela já descobre que está com o Mjolnir em mãos, que ela se transformou no Thor da mitologia nórdica e então simplesmente decide se chamar Thordis. Só porque era “o nome de uma moça norueguesa que cursou a escola de enfermagem” junto com ela e era um “nome que soava muito legal”. Hahahah.

Resumindo bastante, o drama da edição fica por conta de Thordis ter que dividir sua atenção entre ser uma heroína e atrair a atenção de Donald Blake, que só fica choramingando pelos cantos, se achando um merda porque é manco! Juro por deus! Eles ficam num chove-não-molha eterno pensando “nossa, eu a amo, mas ela não vai querer ficar com um homem manco, chuif chuif” e ela “ai, eu o amo, mas ele acha que eu não quero nada com ele porque ele é manco, mas na verdade eu não me importo, chuif chuif”. Mas claro, além disso temos as trapaças inevitáveis de Loki, o meio-irmão dos infernos.

Odin fulo da vida!

Ao longo da edição, Loki leva Thordis à Asgard onde ela é confrontada por Odin que fica INDIGNADÍSSIMO de ver uma mulher segurando o Mjolnir. Os outros amigos de Thor, no entanto, acham a mudança muito agradável e começam a passar umas cantadas horríveis em cima da heroína, que não leva desaforo para casa e sai quebrando todo mundo. Com isso, Odin a bane de volta para a Terra, não sem antes lamentar a perda de seu filho (que foi banido também como uma lição de humildade, no corpo de Donald Blake, e destinado a encontrar seu martelo quando fosse a hora certa). Como Jane agora possuía o poder de Thor, Blake jamais teria a chance de voltar à Asgard.

Na Terra, Thordis faz sucesso como heroína. Ela derrota os mesmos vilões de Thor em referência a outras edições e chega até a fazer parte dos Vingadores (o que gera mais um momento constrangedor em que o Gigante fica de olho nela, com sorrisinho na cara e mão no queixo enquanto ignora solenemente a Vespa, SUA PRÓPRIA ESPOSA). Enquanto isso, Lady Sif fica deprimida porque era apaixonada por Thor e agora não poderia mais vê-lo. Então ela vai à Terra para encontrar Donald Blake, mesmo sem poder revelar a ele o seu segredo. Ainda assim, ela cura a… er… a “manquice” dele e declara o seu amor, causando ainda mais confusão quando Jane descobre que os dois estão juntos (acho que o roteirista pensava que mulheres heroínas só tem drama quando precisam disputar o amor do mesmo homem).

FOGE do Hank Pym que é cilada, Thordis. Aproveita e leva a Vespa também.

Mas quis o destino (ou eu deveria dizer, o Loki) que o ragnarok chegasse à Asgard, na figura de um vilão superpoderoso chamado Mangog! A história original com esse personagem foi uma saga de cinco edições na revista original do Thor, mas aqui no Brasil foi publicada pela Ebal em 1972, depois pela Editora Bloch em 1976 e finalmente republicada pela Salvat em 2016 na Coleção de Graphic Novels Marvel #13. O tal de Mangog destruiria o universo, mas Thordis consegue voltar ao reino dos deuses, trazendo a tiracolo Donald Blake e Lady Sif, que a ajudam na batalha. Porém o vilão é tão poderoso que a nossa heroína tem que fazer O SACRIFÍCIO SUPREMO DE USAR O SEU MARTELO E…

acordar o Odin!

O heroísmo de um despertador!

Juro pela minha mãe! O problema maior era que o Pai dos Deuses estava sob efeito do seu sono restaurador milenar e não poderia ser acordado. Mas num momento de urgência do seu povo, ele levanta, espanta o vilão mega-ultra-poderoso e resolve toda a questão do gibi nas pouquíssimas páginas restantes. Ele toma o Mjolnir de Jane e o entrega a Blake, para recompensá-lo por ajudar na batalha. O médico ex-manco volta a ser o Thor e se declara para Sif e os dois ficam juntos para sempre. Jane, no entanto, também ganha uma recompensa e é transformada em uma deusa nórdica pelas mãos de Odin! Mas ela fica incrivelmente #xatiada porque o amor da vida dela está nos braços de outra, enquanto ela mesma se tornou uma imortal destinada para sempre a ficar sem amar. É nessa hora que Odin FAZ O SACRIFÍCIO SUPREMO E…

passa uma cantada na Jane Foster.

MEODEOSDOCÉO que revista é essa? Hahahaha. O mais sensacional é que ela fica abalada a princípio, mas depois ACEITA! Os dois se casam e ela se torna a mais nova rainha de Asgard, ao lado de Odin e o Thor volta para a Terra, com Sif como sua esposa, para os dois brincarem de super-heróis! 

E a notinha do editor ali dizendo: “Olha, nessa realidade, Odin não é casado, tá? Então tá tudo bem!”

Pois é, cara. Nesta edição, o Vigia não estava para brincadeira.

Tô LendoPontos Fortes
  • Surtada. Bicho, essa é uma história absolutamente surtada, bem típica da época em que foi escrita mesmo. O machismo dela pode até ser encarado como um fator de comédia de tão absurdo que era o modo de escrever personagens femininas. E bom, para refletirmos um pouco também, pensando que AINDA BEM que isso mudou.
  • Inspiração. A saga de Jane Foster como a Poderosa Thor foi muito bem recebida pela crítica, mesmo que tenha sido muito mal vista por “fãs” de quadrinhos na época. Provavelmente era uma galera que, se dependesse deles, os gibis com heroínas ainda seriam escritos até hoje, como eram na época dessa edição de What If. Para mim, é inegável que a nova Thor tenha sido inspirada nessa história, mas muito melhor trabalhada. Ufa.
Tô LendoPontos Meh
  • Machismo. É péssimo. E, enquanto eu gosto de pensar que tenhamos avançado bastante desde essa época, às vezes parece que os avanços são muito poucos e a passos de tartaruga. E enquanto a história tenta mostrar em alguns pontos que a Thordis é tão capaz e tão poderosa quanto o Thor, em certos aspectos ela é tratada só como uma menininha incapaz de ser feliz sem o amor de um homem. Enfim. Leiam com isso em mente.
  • Desenhos. A arte de Rick Hoberg não é das melhores. Não chega a ser horrorosa, ou a atrapalhar a leitura (e ele ainda tenta com um certo afinco emular a arte de Jack Kirby), mas não chega , sabe? Pelo menos em certos pontos o ar retrô (que não é retrô, porque o traço é antigo mesmo) carrega uma vibe de Mike Allred. Mas, de novo, não chega . Fica só no quase.

“Nossa, Thordis. Não encontrei minha enfermeira favorita, mas você limpou o suor da minha cabeça igualzinho a ela!”

Para ser bem sincero, não recomendo muito essa história não. Achei bem mais fraca do que a média das O Que Aconteceria Se? e, bom, ninguém morre grostecamente, ora bolas! Que diabos de universo paralelo é esse onde ninguém morre da forma mais horrorosa possível? Mas enfim, se te interessou a título de curiosidade, vale a pena procurar na internet para ler, porque infelizmente nenhuma editora se interessou em publicar essa história de novo, nem mesmo nos encadernados mais recentes. Porém, a Panini lançou três volumes com a Poderosa Thor em 2021:

  • Thor: A Deusa do Trovão 
  • Thor: Trovão nas Veias (Vol. 2)
  • Thor: Senhores de Midgard (Vol. 3)

Esses sim, são bem mais interessantes e serviram de inspiração para o filme mais recente do herói. Recomendo.

As capas dos encadernados mais recentes da Poderosa Thor.

Mas diz aí, você já leu esta história? Curte a Jane Foster de Thor, ou prefere alguma outra heroína no lugar dela? Eu gosto demais da Tempestade Deusa do Trovão, acho que posso até fazer uma Rebobinando sobre ela no futuro. Conta aí nos comentários.


O Que Aconteceria se Jane Foster virasse a Thor vale um trovãozinho. ⚡

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.