Quando você pensa na “raspa do tacho” da Marvel, o que vem à cabeça? A equipe canadense da Tropa Alfa? O ciborgue do futuro Deathlok? Ou ainda heróis como o Falcão de Aço ou o Sonâmbulo? Porém um grupo que muitos esquecem que existiu é a família de gênios britânicos conhecida como o Clã Destino! Vem comigo rebobinar agora!

“Essa família é muito unida / E tem 800 anos…”

Mas quem é o Clã Destino? Recentemente, após uma leve menção no seriado Ms. Marvel do Disney Plus (que, convenhamos, pode não dar em nada, como muita coisa no MCU), os fãs de quadrinhos entraram em polvorosa! Será que mais uma equipe, ou melhor, uma família de seres superpoderosos do segundo escalão da editora vai ter uma versão mais modernizada para o cinema e TV? Depois dos Inumanos e dos Eternos a Marvel ainda não entendeu que povo quer mesmo é ver os X-men lutando lado a lado dos Vingadores? Enfim.

Como eu disse antes, a menção ao termo “clandestines” pode realmente não ser nada muito específico, mas de qualquer maneira, acendeu uma luzinha aqui no baú da Rebobinando e eu saquei minhas edições empoeiradas para dar uma olhadinha e contar aqui para você. *cof, cof, cof* Afinal de contas, vai que né?

Honestamente, nunca dei muita bola para o Clã Destino, a não ser pela arte de Alan Davis, que eu AMO DE PAIXÃO. Acho o traço dele muito esguio e limpo, bem definido e, depois de acompanhar várias histórias da equipe mutante Excalibur, arrisco dizer que ele seja talvez o melhor desenhista do Noturno que eu conheço. Mas lá pelos idos de 1998, surgiu uma revista nova nas bancas, com o seu traço inconfundível e… bom, chamou minha atenção.

Meteu um Homem-Aranha na capa, é sucesso de vendas com certeza!

A FAMÍLIA DESTINE!

Por ser britânico, acho que o Alan Davis sempre tenta puxar um pouco da sardinha (ou dos fish’n chips) pro lado dele. Mais especificamente o lado de lá do Atlântico, na Inglaterra. Isso porque talvez a obra mais famosa dele tenha sido o seu longuíssimo run nas histórias do Excalibur, uma das muitas equipes mutantes da editora Marvel. Apesar de contar com personagens não britânicos como o já mencionado Norturno e Lince Negra, a equipe tinha como base a Ilha Muir, que fica no litoral da Escócia. Além disso, vários membros do time tinham raízes na terra do Rei Arthur, como o próprio Capitão Britânia, o agente especial Peter Wisdom e a cientista Moira MacTaggert

Dito isso, quando surgiu a oportunidade de criar o seu próprio grupo de super-heróis, Davis os sediou na Inglaterra também. Mas diferente da maioria das equipes que eram formadas por pessoas desconhecidas que se uniam por um bem em comum, ele achou que seria interessante que todos os membros fossem da mesma família (algo que, a princípio, os forçaria a conviver juntos, por conta dos laços familiares). Aparentemente, Alan Davis nunca precisou ignorar a existência de um tio homofóbico na mesa do natal. Que bom pra ele.

A equipe britânica de X-men com um alemão, duas americanas e uma porrada de alienígenas no elenco.

Com relação aos poderes, no entanto, os personagens não tinham uma originalidade tão grande quanto ao power set em si, mas os prós e os contras da maioria deles eram bem engenhosos (em especial quando bem aplicados). Ainda mais levando em consideração o lançamento original do gibi em 1994 nos EUA. Alguns dos poderes eram o pacote básico de superforça, ou telepatia, mas o de outros personagens eram bem legais como uma hipersensibilidade que permite sentir modulações de onda diferentes no ar, ou um controle gravitacional capaz de garantir voo e superforça, ou ainda a transferência de mente para evitar a morte.

Nos EUA, a série durou apenas 12 edições entre 1994-95. A princípio, os personagens não chamaram muita atenção e passaram meio que em branco pela editora, apesar das participações especiais do Homem-Aranha, do Doutor Estranho e uma pequeníssima participação do Justiceiro nesse run todo. Aqui no Brasil, ele saiu em seis edições pela Editora Metal Pesado, em 1998. Além disso, também saiu por aqui um encadernado com as seis primeiras edições, mas pela Editora Tudo em Quadrinhos, em 1999. E finalmente, o crossover Clã Destino versus X-men (1996), saiu pela Pandora Books em 2002, com uma edição encadernada em 2003.

Quem diria que nem todos os gênios são azuis, né?

CLÃS, DESTINOS E DJINNS

A história do Clã Destino é longa e começa com o seu patriarca: Adam Destine! Nascido em 1168 D.C. em uma pequena vila saxônica da Inglaterra durante a ocupação normanda, Adam Ravenscroft sofreu um acidente mortal após completar dezesseis anos. Desacreditado por todos os xamãs e curandeiros do local, ele acorda um dia completamente curado e revigorado como se fosse por um milagre. Durante o seu tratamento, ele tinha sonhos com uma figura do distante oriente e de uma mulher muito bela, que lhe salvou a vida. Após sua recuperação, ele passou a ser conhecido como Adam do Destino (ou Adam of Destine, em inglês), que passou a ser seu novo nome.

Durante as cruzadas, ele viajou ao oriente e, durante uma batalha, foi capturado por um senhor local chamado Al Kadhdhaab. Esse cara disse que de acordo com uma profecia, Adam era o escolhido para enfrentar um poderoso feiticeiro e tomar de suas mãos uma preciosa jóia, que conferia poderes incríveis a quem a possuísse. O que Adam não sabia ainda era que após o seu renascimento anos antes, ele havia se tornado imortal e invulnerável. Com isso, ele é capaz de subjugar o velho feiticeiro e, ao encontrar a joia, percebe que há algo em seu interior e a quebra, libertando de lá uma djinn (também conhecida como “gênia”). Chamada Elalyth, a gênia havia se apaixonado por Adam e salvado sua vida anos antes, preparando-o para este momento, em que ele a salvaria.

“And kids, this is how I met your mother!”

Os dois passam a viver juntos na Terra e, através dos séculos, acabam gerando vários filhos. Todos eles com poderes especiais que se desenvolvem na adolescência e com alguns deles possuindo grande longevidade, capazes de viver por algumas centenas de anos também. O interessante desta trama é que, ao longo de oito séculos, há a possibilidade de que ainda existam outros membros desconhecidos da família, todos eles descendentes de uma djinn. Alan Davis faz questão de mencionar nas primeiras edições que, além dos personagens que estamos conhecendo, ainda há outros espalhados pelo mundo. O que deixa a história em aberto para a criação de ainda mais novos personagens. Ainda assim, obviamente ainda há muitas outras histórias e segredos por trás dessa família, que ele faz questão de mencionar, mas não contar tudo. O ruim é que nesse primeiro run, muitas delas ficam para depois e, com o cancelamento da série no número #12, acabam sendo resolvida só alguns anos depois, em 2008.

Alan Davis deixa o título depois do número #8, mas garante uma aventura simples envolvendo Alpha Griffin, um vilão albino dono de uma corporação maligna e Lez, um monstro criado pela I.M.A. (Ideias Mecânicas Avançadas). As duas partes estão atrás de um artefato mcguffin capaz de alterar o código genético de qualquer ser já desenvolvido e a família Destine acaba ficando no meio desse imbróglio por conta de seus dois membros mais jovens. As doze edições encerram essa história, mas fogem um pouco do planejamento de Davis. Então, quando ele retorna em 1996 para escrever ClanDestine vs. X-men, acaba fazendo um retcon desse final.

No Brasil eles seriam o Comunistinha, Guria Minissaia, Curupira Brucutu e Caipora Ginasta.

QUEM É O CLÃ DESTINO?

Vamos a um apanhado rápido da família Destine:

  • Rory e Pandora Destine (os gêmeos): São os mais jovens membros da família, com 11 anos. Quando eles tinham apenas um ano de idade, seu pai, Adam Destine, se exilou no espaço depois de precisar matar um dos seus filhos. Eles são criados por um de seus irmãos mais velhos, mas acreditam ser sobrinhos dele. Os dois são fascinados por super-heróis e criaram uniformes coloridos para combater o crime assim que descobriram seus poderes (que surgiram cedo demais, de acordo com os outros membros da família). Rory adotou a alcunha de Cruzado Escarlate e pode controlar a gravidade. Pandora usa o nome de Imp e controla a luz, sendo capaz de lançar rajadas laser e estroboscópicas, entre outras coisas.
  • Walter Destine: É um escritor de romances, aparentemente pacato e tranquilo. Seu poder o transforma numa espécie de Hulk de pele azul e cabelo de fogo, tal qual um curupira. Seus braços também são mais longos que o habitual e ele pode ampliar o seu tamanho indefinidamente. O porém é que sua transformação de volta ao normal é bem lenta. Ele ganha o apelido de Wallop dos gêmeos (que significa algo como “sopapo” em português) e odeia qualquer coisa relacionada a super-heroísmo.
  • Jasmine Destine (Cuco): É a telepata da família e a mais velha de todos, com aproximadamente 800 anos também. Sempre que está à beira da morte, ela consegue se salvar transferindo sua mente para um outro corpo que esteja mortalmente ferido (e “desocupado”). Com a ajuda dos poderes de cura de um de seus irmãos, ela retorna à vida num corpo diferente e tem feito isso ao longo dos séculos. É uma poderosa telepata, com um certo grau de telecinésia. E praticamente zero escrúpulos.

Walter (o azulão); Newton (de óculos, à esquerda); Cuco (de verde); Hex (o David Bowie de folhas); Argenta (de armadura); Adam Destine, o patriarca (no centro); Pandora (a menina) e Rory (o menino). Os outros não interessam muito.

  • Samantha Destine (Argenta): É a mais nova dos adultos do clã. Ela nasceu nos anos 1950 e tem o poder de gerar uma “segunda pele” de armadura em volta do seu corpo, com durabilidade e sensibilidade variadas. Ela é uma artista e o design de sua armadura está em constante alteração (basicamente uma desculpa para o Alan Davis desenhá-la sem se preocupar com continuidade e detalhes demais). 
  • Dominic Destine (Hex): Dominic é um dos poucos que nasceu diferente dos irmãos. Com cabelos cor de fogo e pele verde claro (provavelmente herdada da mãe djinn, que possui pele verde) ele sempre se sentiu isolado dos demais, em especial do próprio pai, Adam. Seu poder é sua hipersensibilidade, capaz de notar odores diferentes em pessoas com extrema precisão, de ouvir sons através de paredes de concreto, ou de sentir frequências de luz diferentes na própria pele. Ele se tornou um mágico e um artista de fugas por um tempo, mas com o desenvolvimento cada vez maior dos centros urbanos, seus sentidos foram sendo cada vez mais sobrecarregados. Ao início da série, ele está isolado em uma ilha deserta, distante de tudo e de todos.
  • Newton Destine. É o supergênio da família. Mas “gênio” no sentido de inteligência, não de magia. Ele é o responsável pela maioria dos equipamentos tecnológicos do Clã Destine, mas vive em uma Terra alternativa, onde ele é o líder supremo. Mas sempre dá um jeito de voltar quando a família precisa dele. Newton possui dois corpos diferentes que gosta de usar, o seu original baixinho e de óculos, que usa para trabalhar em seus inventos; e outro mais bonitão, musculoso e seminu que ele usa sempre que precisa atuar como o líder dessa outra Terra alternativa, chamada Ehterea

E essa é a família Destine. Pelos menos os membros mais conhecidos e que aparecem mais nas histórias. Há váááários outros que eu não mencionei, mas basicamente porque eles só ficam relevantes depois mesmo. Vamos cobrir o básico do básico que já tá bom.

Tô LendoPontos Fortes
  • Arte. Gosto muito do Alan Davis e acho ele um desenhista excelente. Depois da edição #8, no entanto, ele sai e dá lugar a um tal de Pino Rinaldi, que tenta imitá-lo, mas não fica tão bom. A edição #11 porém, é desenhada pelo Bryan Hitch que também emula o estilo de Davis, mas já fica bem melhor.
  • Personagens. Eu gosto dos personagens. São bastante criativos e bem desenvolvidos. A trama é meio rocambolesca, mas alguns dos membros da família ficam bem definidos e acaba sendo uma pena que não tenham durado tanto. Gostaria de ver mais deles.
Tô LendoPontos Meh
  • Difícil de achar. Meio complicado de achar. Há coleções incompletas sendo vendidas online e algumas a preços absurdos! Até hoje, ninguém se dignou a republicar as histórias dos anos 1990, mas vai que muda, com esse novo interesse nos personagens?
  • Trama rocambolesca. Até certo ponto ela é interessante. Eu curto esse lance da família viver há séculos escondida, mas é algo que já foi feito com os Eternos, basicamente. E, de certa forma, com os Inumanos também. O problema é que ela demora um pouco a engatar.

O volume 2, lançado em 2008.

Em 2008, Alan Davis retornou ao Clã Destino e lançou um volume 2 em formato de minissérie, com apenas cinco edições, concluindo algumas pontas soltas do primeiro volume. Depois disso, apenas alguns membros do clã apareceram em três histórias anuais chamadas Marvel Tales by Alan Davis e publicadas em 2012 nas revistas Fantastic Four Annual #33, Daredevil Annual #1 e Wolverine Annual (Vol. 2) #1. Tirando isso, não é de se admirar que muita gente não tenha ouvido sequer falar dos Destine.

O que é uma pena, pois, como já comentei, os personagens são bem legais. Não é nada fora do comum ou incrivelmente diferente do que Alan Davis já tivesse feito (em especial no Excalibur), mas pelo menos eram personagens diferentes do que nós já conhecemos. Será que os Clã Destino entrou de fato para o MCU? Será que, de alguma forma, isso vai gerar um novo interesse nos quadrinhos a ponto da Marvel relançar algum material com todos eles envolvidos? Só o tempo vai dizer.

E os uniformes são maneiros também, vai?

E você? Já conhecida o Clã Destino? Curtia os personagens, ou nunca tinha ouvido falar deles? Conta aí nos comentários!


Clã Destino vale três rebobinandos. 📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.