“Se o crime tentar…” bom, vão acabar se dando mal com essa duplinha de detetives que invadia nossa tevê nas manhãs de domingo e depois durante a semana, nos programas infantis da Globo. Então faça como os esquilinhos em sua música-tema e veeeem comigo rebobinar Tico & Teco: Defensores da Lei.

Teve um período ali em meados dos anos 1990 em que a Disney deu uma renovada em seus filmes e na televisão. Com o advento dos canais por assinatura e a criação do Disney Channel no início dos anos 1980, foi só na década seguinte que tudo começou a pegar mais gás, muito por conta da popularidade do estúdio com os lançamentos mais recentes dos seus filmes de animação. Já no finzinho da década dos mullets, o canal da Disney viu o sucesso crescer com o lançamento de Ducktales (1987) e os Ursinhos Gummi (1985) e decidiu enveredar ainda mais pela programação de TV infantil. Assim, ela aproveitaria melhor o recém-adquirido status de canal básico para os assinantes a cabo dos EUA, em vez de premium exclusivo para poucos.

Foi a partir do ano de 1990 no entanto que diversas outras séries foram ao ar, tentando seguir a mesma fórmula dos patos aventureiros de Patópolis. Com isso, foram lançados os desenhos do urso-piloto Balu em Esquadrilha Parafuso (1990), o pato super-herói Darkwing Duck (1991) e Turma do Pateta (1992). Antes de todos eles, porém, tivemos as aventuras dos esquilos Tico e Teco, que deixaram para trás o seu papel de personagens secundários em desenhos do Pluto ou do Pato Donald e assumiram o protagonismo pela primeira vez como os detetives “defensores da lei”.

As tardes da Disney eram movimentadíssimas.

Nos EUA, o desenho foi ao ar pela primeira vez ainda em 1989, com uma exibição-teste no Disney Channel, seguido por um especial de duas horas em setembro do mesmo ano, intitulado Defensores da Lei: Ao Resgate. Posteriormente, esse especial foi dividido em cinco episódios de 20-e-poucos minutos cada, que servem de “abertura” para a segunda temporada do desenho. Aqui no Brasil, no entanto, ele só começou a ser exibido junto com todos os outros desenhos mencionados acima em 1993, durante as manhãs de domingo da TV Globo (pouco antes das corridas de Fórmula Um, se me lembro bem). Nunca entendi essa mania da vênus platinada em exibir desenhos de manhã, na verdade, porque eu sempre acordava tarde no domingo e durante a semana eu estava no colégio. Então essa programação só me atendia durante as férias… Enfim.

Nos EUA, até meados da década de 1990 todos esses desenhos também eram exibidos juntos, geralmente num bloco só pelo canal da Disney formando o famoso bloco da “Disney Afternoon”! Esse bloco tinha como objetivo fugir da concorrência dos Saturday Morning Cartoons habituais da cultura americana, e ajudou em parte a alavancar ainda mais o sucesso da empresa durante este período. Posteriormente, em terras brazucas, essa programação inteira acabou sendo exibida nos outros programas da Globo da época, desde a TV Colosso até a finada TV Globinho, ali por volta de 1999, mais ou menos. Depois disso, os Defensores da Lei e seus parceiros foram para o SBT e ficaram relegados em sua maioria aos canais a cabo também.

Uma boa galeria de vilões e um aviãzinho irado!

E O TICO E TECO VÊM! (FAZER O BEM!)

A série foi criada pelo animador e produtor Tad Stones, responsável entre outras coisas pelo desenvolvimento e criação de talvez a melhor série animada dessa época, Darkwing Duck. Stones, porém, já havia trabalhado como animador no filme Bernardo e Bianca (1977) e como roteirista em O Cão e a Raposa (1981), e passou por vários departamentos nos estúdios do rato até finalmente chegar a ser produtor e roteirista da terceira temporada de Os Ursinhos Gummi. Esse currículo deu a ele a oportunidade de apresentar um pitch aos cabeças do estúdio, na época Michael Eisner e Jeffrey Katzenberg (o babaca), para um novo desenho que encabeçaria a nova leva de produções para o Disney Channel

Com isso, ele bolou uma história com base nas aventuras de Bernardo & Bianca (daí o nome “rescue” no original), mas a ideia foi rejeitada porque um segundo filme com os personagens já estava em produção. Com isso, ele resolveu manter a ideia de um grupo de roedores que faziam resgates e ajudavam pessoas e desenvolveu o projeto que chamou de Metro Mice. O desenho é basicamente um protótipo de Defensores da Lei, mas sem a presença de Tico e Teco. No entanto, o personagem principal, chamado Kit Colby, era um rato muito esperto que usava uma jaqueta de aviador muito parecida com o visual de Indiana Jones do Tico. Além dele, já havia versões dos personagens que viriam a se tornar a Geninha, o rato australiano Monterey Jack e a mosquinha Zip, além de dois personagens extras, um camaleão de chapéu com pinta de alívio cômico e um grilo de quimono com cara de estereótipo chinês.

Kit Colby e os “Rascunho” Rangers!

Todos gostaram da ideia, mas Michael Eisner sugeriu que trocassem o personagem Kit Colby por outros mais conhecidos para reforçar melhor a marca da Disney. Daí para escolherem os esquilos Tico e Teco foi uma conclusão lógica. O visual de Kit acabou sendo realocado para o sensato Tico; e o Teco, por já ser o alívio cômico em geral, acabou ganhando um visual mais despojado, com uma camisa havaiana. Não é segredo que os dois ficaram a cara de Harrison Ford como Indiana Jones e Tom Selleck como o detetive Magnum, porém, dizem que pelo menos o segundo não foi uma “homenagem” intencional. 

Só faltou o bigode nos esquilos.

Mas, para mim, o curioso mesmo é que os dois acabaram virando basicamente duas versões diferentes do mesmo Tom Selleck, já que ele tinha sido a escolha original para ser o famoso arqueólogo, mas teve que abandonar as gravações por conta de conflitos na agenda!

Depois de definidos os personagens, o desenho ganhou o nome de Chip’n Dale and the Rescue Rangers (algo como “Tico e Teco & o Comando de Resgate”), mas que aqui no Brasil virou “e os Defensores da Lei”.

Os esquilos com nervos de aço!

CH-CH-CH-CHIP AND DALE! (RESCUE RANGERS!)

Um dos destaques maiores dessa nova leva de desenhos nessa época também era a música. Desde a batida viciante de Ducktales que tinha toda uma estrutura de música pop e não de “mera abertura de desenho” que a Disney vinha investindo pesado nessa produção. Para os Rescue Rangers, eles não marcaram bobeira e chamaram novamente o mesmo responsável pelo hit do Tio Patinhas e cia: o compositor Mark Mueller. Ele chegou até a receber duas indicações ao Emmy por conta desses dois temas de abertura. O cantor original, Jeff Pescetto, também foi chamado de volta e, pelos menos nos EUA, a música bombou um pouquinho entre as crianças. Aqui no Brasil, no entanto, como a Globo costumava cortar as aberturas, não tivemos um contato muito grande com ela a não ser por parte do refrão “E O TICO E TECO VÊM!”, uma leve acochambrada dos versos em inglês “ch-ch-ch-chip and dale” que, convenhamos, não dava para traduzir ao pé da letra, né? Ia ficar “ti-ti-ti-tico e teco” e daí pra virar com “titico e teco” é um pulo.

É chiclete e não sai da cabeça, mas é legalzinha, vai?

Tô LendoPontos Fortes
  • Divertido. Para os padrões da época, era bem infantil. Mas era divertidinho. Hoje em dia os episódios de 22 minutos parecem ser até intermináveis diante da média de 8 ou 11 minutos atual. Mas ainda assim, se sustentam bem diante da garotada mais novinha.
  • Disponível. Entrou há pouco tempo no catálogo do Disney Plus que subiu todos os 65 episódios da série sem dividir por temporadas (são três, mas com um número de episódios bem irregular).
Tô LendoPontos Meh
  • Antigo.  Vamos ser honestos. o tipo de storytelling era meio engessado com aquela coisa da premissa, resolução e piadinha no final. Digo que ele sustenta bem porque vi 2 episódios com o meu filho pequeno que curtiu bastante, mas não vimos muito mais do que isso de uma vez só. Além disso, o desenho ainda tem aquelas pausas para intervalos comerciais que muitas produções não têm mais hoje em dia, o que deixa o ritmo meio esquisito.
  • Música. A música é fofinha, mas pelamordedeos, eu não aguento mais ficar repetindo “E O TIQUETECO VÊM” na minha cabeça! Socorro!

O enrgaçado é pensar que eles eram atores e não aventureiros…

Recentemente, foi lançado a “continuação” da série dos pequenos esquilos também no Disney Plus e foi uma das coisas mais engraçadas que eu vi ultimamente. O filme tem uma vibe muito grande de Uma Cilada Para Roger Rabbit, mas com um humor meio esquizofrênico, mais atual, com muitas piadas no fundo das cenas, coisa de “piscou perdeu”. No original, ele conta com as vozes de John Mulaney (o Porco-Aranha de Aranhaverso) como Tico e o genial Andy Samberg (de Brooklyn Nine-Nine) como Teco e mostram o reencontro dos dois esquilos depois de se separarem nos anos 90 com o cancelamento da série animada.

O bom do filme é que ele ainda sustenta um humor bem adulto, mas sem alienar as crianças totalmente. Ainda assim, fico com a impressão de que quem cresceu na década de 1990 vai curtir ainda mais. Mas é uma boa opção para ver com a família no fim de semana.

Ótima escolha de roupas.

Eu não era particularmente um grande fã de Defensores da Lei, mas acabava assistindo alguns episódios na rebarba de Darkwing Duck e Ducktales que eram, de verdade, os meus favoritos. Mas lembro muito bem deles porque foi mais ou menos nessa época em que eles faziam sucesso que eu fui para a Disney e acabei tirando muitas fotos com os dois vestidos de Indy e Magnum nos parques da Flórida. 

E você? Gostava dos desenhos do Tico e Teco? Qual era o seu desenho preferido dessa época? Conta aí nos comentários.


Tico e Teco: Defensores da Lei vale três rebobinandos. 📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.