Todo mundo adora um mistério né? Uma historinha de detetive básica para descobrir quem é o assassino, no melhor estilo Agatha Christie e Arthur Conan Doyle. Quem será o culpado? O mordomo? O Coronel Mostarda na cozinha com o candelabro? Ou o promotor público que viveu o suficiente para se tornar o vilão? Essas e muitas outras perguntas são respondidas em Batman: O Longo Halloween.

“Chamou, chamou?”

Nos anos 1980, tivemos várias releituras do Batman que prepararam o caminho para uma nova década mais sombria e violenta. O uniforme azul e cinza tinha sido deixado para trás e, em 1986, descobrimos como seria o futuro terrível do Cavaleiro das Trevas com, bom, O Cavaleiro das Trevas de Frank Miller. Dois anos depois, o mesmo Miller nos mostraria também como foi o início de carreira do Homem-Morcego nas páginas de sua belíssima Ano Um. Com o tom mais sério estabelecido e depois com o lançamento do filme de 1989 dirigido por Tim Burton, o Batman entrou nos anos 1990 com um novo gás e um novo estilo.

O tom daquela década não foi dos melhores para os quadrinhos em especial, com os heróis passando por mortes, substituições, clones e reformulações mais violentas em busca de um público maior (tanto em quantidade quanto em idade). Mas nem tudo são apocalipses e desastres, e algumas coisas lançadas nesse período também foram muito bacanas. Entre elas, essa própria minissérie do morcegão em treze partes, pelas mãos de Jeph Loeb e do mestre Tim Sale

Treze capas, gente. Não cabe tudo aqui.

Lançada inicialmente em 1996, ela chegou às comic shops dos EUA um ano depois de Batman Eternamente (1995). Um filme que foi no máximo “ok” para o público infanto-juvenil da época, mas que mostrou um herói beeeem diferente do que o público havia visto nos dois primeiros filmes do Burton. Dirigido por Joel Schumacher, ele trouxe de volta alguns aspectos mais bregas do passado, servindo de arauto para a tragédia que se estabeleceria alguns anos depois… Enfim, isso é assunto para outra Rebobinando. O ponto é que, muitos pais estavam assustados com a carga de violência nos filmes do morcegão e fizeram apelos aos estúdios por algo um pouco mais “kid-friendly”… E assim, a gurizada que queria curtir um aspecto mais sinistrão do herói acabou focando mesmo nos quadrinhos.

É mais ou menos nesse contexto que entra O Longo Halloween.

Aqui não tem galhofa não, cara!

HOLIDAY! CELEBRATE!

A ideia da minissérie não surgiu do nada, na verdade ela se deve ao sucesso de três especiais anuais do gibi Batman: Legends of the Dark Knight, publicadas nos EUA como edições especiais de Halloween. Essa revista era diferente das revistas de linha da época e “tecnicamente” não fazia parte da cronologia oficial, com muitas de suas histórias sendo colocadas sob o selo Elseworlds algum tempo depois (inclusive uma com o herói virando um vampiro sedento por sangue).

Nos EUA, as edições especiais foram publicadas originalmente em 1993, 1994 e 1995, com os títulos de Choices, Madness e Ghosts (“Escolhas”, “Loucura” e “Fantasmas”, respectivamente). No Brasil elas foram publicadas em outubro de 1995, 1996 e 1997 com o título mais simplificado de Batman: Dia das Bruxas Parte 1, 2 e 3. Mas se você não viveu nessa época, pode se tranquilizar porque as histórias também foram republicadas mais recentemente. Especificamente em 2011, pela editora Panini com o nome de Batman: Dia das Bruxas, e também em 2021, pela editora Eaglemoss, pela coleção DC Comics: A Lenda do Batman #47. Um detalhe curioso foi que a primeira história “Choices” virou “Temores” na edição da Panini e “Medos” na da Eaglemoss.

As capas de “Dia das Bruxas” que saíram no Brasil, a série que saiu antes do “Longo Dia das Bruxas”.

Ao final dessas publicações, em 1997 Loeb e Sale se juntaram mais uma vez para fazer o Homem-Morcego encarar mais um dia das bruxas! Só que desta vez com a duração de um ano inteiro, fazendo dele “o longo dia das bruxas” (rola os créditos). Como as histórias anteriores já mostravam um Batman mais maduro e à vontade com seu papel de vigilante e detetive, a proposta da nova minissérie era ser uma continuação das histórias de Ano Um, basicamente um “Ano Dois”. Bruce Wayne ainda estava começando sua parceria com o (ainda) Capitão James Gordon e com o promotor público Harvey Dent. Suas habilidades de investigação deixam muito a desejar e, durante toda a trama, ele parece apenas ser levado de um lado para o outro por informações contraditórias de fontes nada confiáveis.

Loeb portanto usa um Batman meio novato ainda, mas extremamente competente em encher os bandidos de porrada, e desenvolve uma trama bem no estilo de Agatha Christie com um assassino misterioso. O maior problema é que Loeb NÃO É Agatha Christie, mas um autor cheio de altos e baixos, e o mistério em si acaba deixando um pouco a desejar conforme vamos nos aproximando do final. A história é repleta de tramas paralelas que acrescentam muito pouco para o leitor em matéria de pistas para identificar quem é o assassino (algo que, para mim, é absolutamente essencial em um whodunnit). 

Um dos poucos momentos reais do Batman detetive na história.

Mas algo que faz os defeitos da trama passarem quase em branco é a arte de Tim Sale. O cara é um desbunde! O cara pinta obras de arte no formato de quadrinhos, sérião. É praticamente uma Monalisa de 24 páginas todo mês por um ano inteiro, bicho. Splash pages maravilhosas com um Batman incrível e um design único para sua galeria de vilões, com visuais que eu nunca tinha visto em lugar nenhum. E como cada edição é sobre uma data comemorativa do ano, Sale faz um passeio temático com cada um dos vilões de Gotham.

Olha que coisa linda, essa! Que vontade de enquadrar.

THIS IS THE DAWNING OF THE REST OF OUR LIVES! ON HOLIDAY!

A trama gira em torno da máfia da Família Falcone, os reis do crime em Gotham City. O patriarca Carmine Falcone está celebrando o casamento de seu sobrinho Johnny Viti e em meio a muitos convidados está um decidido Bruce Wayne. A cena inicial toda tem umas referências visuais muito fodas de O Poderoso Chefão e desenvolve um clima tenso entre os dois antagonistas quando Falcone pede a Bruce que o apoie junto à diretoria do Banco de Gotham para poder realizar suas operações internacionais através da instituição. Bruce sabe que se trata mesmo de uma maneira de lavar dinheiro da máfia e se opõe veementemente.

Algumas peças são colocadas no tabuleiro do mistério quando vemos Harvey Dent, Gordon e Batman estabelecerem um pacto para acabar com o império dos Falcone e colocar Carmine atrás das grades. “Podemos entortar as regras, não quebrá-las”, reforça Gordon. Do lado dos mafiosos, vemos que Carmine sabia que o Johnny Viti estava prestes a entregá-lo para a polícia e daí o casamento, uma forma de “comprar” o sobrinho de volta para a família. Ficamos conhecendo também o filho de Carmine, Alberto Falcone, que fica afastado dos negócios da máfia porque seu pai prefere “protegê-lo” dessa vida.

Acho que o Batman luta tanto no esgoto quanto o Homem-Aranha, viu?

Em casa, Gordon e a esposa, Barbara, estão vivendo razoavelmente felizes. No entanto, Harvey e sua esposa Gilda enfrentam alguns problemas no relacionamento. Ela deseja ter um filho e quer que o marido passe mais tempo em casa, e ele afundado em trabalho e em sua cruzada quase obsessiva contra Carmine Falcone.

Tudo desanda quando, no dia das bruxas, Johnny Viti é assassinado em casa por uma figura misteriosa utilizando uma pistola calibre .22 com um bico de mamadeira na ponta servindo de abafador. Após a morte, o assassino deixa a arma do crime no local junto com uma lanterna de abóbora. A pistola é impossível de ser rastreada pois tem o número de série raspado e também com o cabo revestido por fita, que impede o rastreio de digitais. 

A fatídica arma.

Tanto o mundo do crime quanto a polícia são pegos de surpresa, não só pelas pistas bizarras deixadas para trás, mas também pela audácia do assassino de ir atrás de alguém da família Falcone! A partir daí tem um jogo de gato e rato de todas as partes envolvidas: Os Falcone e seus rivais, a família Maroni; Batman, Harvey e Gordon; e até mesmo alguns dos vilões da galeria do Homem-Morcego como Coringa, Espantalho e Chapeleiro Louco, Hera Venenosa, Solomon Grundy e Julian Day, também conhecido como o Homem Calendário

Os ânimos se exaltam cada vez mais com o passar dos meses, já que o assassino começa a atacar outros membros da máfia dos Falcone sempre em uma data comemorativa, o que faz com que ele ganhe o apelido de Feriado. As mortes seguintes acontecem no Dia de Ação de Graças americano, no Natal, no Ano Novo, no Dia dos Namorados americano, no Dia de São Patrício, no Dia da Mentira, no Dia das Mães, no Dia dos Pais americano (que é em junho), no Dia da Independência Americana, no aniversário de Carmine Falcone, no Dia do Trabalho americano (que é em setembro) e finalmente, no Dia das Bruxas seguinte.

O Homem-Calendário fica com muita inveja do Assassino Feriado.

Cada edição tem um twist maneiro que tem a ver com o tema do feriado em específico, como por exemplo o do dia da mentira (que é o meu favorito)! Além disso, as capas também são artes incríveis de Tim Sale e, bom, eu só queria um espaço de novo para falar o quanto a arte desse cara é incrível! Apesar disso, o finalzinho da trama tem mais umas reviravoltas que meio que surgem do nada, o que meio que mata boa parte do clima dela para mim. Algo que eu apelidei de “Loebzices”, típicas do autor, que ele também usou em histórias mais fracas e menos consagradas como Ultimatum e Supremos 3.

Sombriiiiiooooo…. BuuuuUuuuuUUUUUuuu…

Tô LendoPontos Fortes
  • Personagens. Ok, que alguns já são personagens mais consagrados, mas eu gosto muito da utilização de todos nessa história, mesmo com a vibe mais “séria” e pé no chão de conspirações criminosas. O uso da Hera Venenosa e do Charada como coadjuvantes em suas edições foram alguns dos melhores que eu já vi.
  • Arte. Tim Sale é incrível. Não sei nem como descrever o nível do trabalho dele nessa mini. É só Monalisa, bicho. Só obra de arte.
  • Continuidade. O sucesso foi tanto que gerou continuações que mantiveram o mesmo nível. Em 1999 a dupla lançou Vitória Sombria que se passa na mesma ambientação dessa minissérie, e também Mulher-Gato: Cidade Eterna, em 2004.
  • Obras Relacionadas. A mini é tão reverenciada que foi adaptada diversas vezes em outras produções. A terceira temporada de BTAS a adaptou em um episódio chamado Estações Ruins (“Mean Seasons”), assim como a quarta temporada de Gotham. Além disso, Cavaleiro das Trevas (2008) de Christopher Nolan adaptou vários elementos da jornada de Harvey Dent e da HQ. Dizem que The Batman (2022), o filme mais recente, também adaptou algumas coisas… Mas como ainda não vi, não posso afirmar.
Tô LendoPontos Meh
  • Loebzices. Pois é, eu tenho uma relação de amor e ódio com o Jeph Loeb. Acho que ao mesmo tempo ele consegue escrever histórias brilhantes e histórias absolutamente horrorosas. Para mim, O Longo Dia das Bruxas fica no meio do caminho. É uma trama com momentos incríveis e tensos, mas também com conclusões tiradas do nada de um jeito que ninguém esperava.
  • Ritmo. Por ser uma minissérie em 13 edições, é um pouco difícil ler numa tacada só. Tem um problema de ritmo gigantesco o que deixa alguns desenvolvimentos meio lentos. Há muita repetição de balões descritivos dos personagens e lá pela terceira edição eu já estava agarrado num ódio de ler “Carmine Falcone. O Senhor do Crime intocável de Gotham City.” Imagino se não seria mais produtivo adaptar as edições ao lançar um encadernado, mas ok. O filme em animação de 2021 faz um bom trabalho nessa área.
  • Batmané. Como eu disse antes, esse é o “ano dois” da vida de vigilante de Bruce Wayne. Mas isso não fica explicitamente dito na HQ e em certo ponto a gente a se pergunta: por que diabos o Batman é um detetive tão merda aqui?

“Apenas o começo”… De fato, pois a mini foi adaptada um monte de vezes até hoje.

Assisti recentemente O Longo Halloween, o longa de animação da Warner disponível na HBO Max e ele resolve muitos dos problemas que eu tive ao reler a HQ. Recomendo demais a leitura dela ainda assim, e recomendo mais ainda ver o filme em duas partes logo depois. Acho que torna a experiência mais completa, sabe? 

Não é exatamente “a melhor história de detetive do Batman”, mas definitivamente é uma “boa história do Batman”. E hoje em dia, sabendo que ela é o Ano Dois do personagem, algumas coisas fazem mais sentido e já passei a achar que é uma ótima porta de entrada para fãs novos do personagem, junto com Batman: Ano Um de 1988. Além disso, ela também serve muito bem como um “Ano Um” do Harvey Dent (mais do que isso acho que pode configurar spoiler).

Spoiler?

E você? Já leu O Longo Dia das Bruxas? Curte essa história do Batman, ou tem alguma outra preferida onde ele trabalha melhor como detetive? Diz aí nos comentários. Apesar dos pesares, ainda gosto muito da minissérie.


Batman: O Longo Dia das Bruxas vale quatro lanternas de abóbora! 🎃🎃🎃🎃

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.