É o auge da Guerra Fria! A União Soviética invade um país pequeno com o qual faz fronteira. Os EUA resolvem intervir, mas de maneira indireta, para não causar uma guerra nuclear. Mas dá tudo errado! E quem é a única pessoa capaz de resolver essa bagunça? Sim, ele mesmo John Rambo! Pega sua metranca, sua faixa de cabelo e vem comigo rebobinar Rambo III.

Imagens que você é capaz de escutar!

O ano era 1988. O homem era Sylvester Stallone. E a guerra era fria. Só isso já é o suficiente para dizermos que Rambo III é definitivamente um filme de sua época. Tudo porque é muito difícil desassociá-lo do momento político no qual é inserido, e também em como isso carrega o roteiro em si. Os anos 1980 foram uma década em que os heróis machões suados e cheios de músculos ocuparam os cinemas e o imaginário popular, e isso serviu de certa forma como uma propaganda dos Estados Unidos para o mundo como um país forte a ser seguido. Posso até estar soando como um professor de história de ensino médio filiado ao PC do B, mas é fato que Hollywood serve até hoje como um veículo de propaganda para as forças militares do tio Sam.

Desde o fim da segunda guerra o mundo vivia com medo de uma guerra nuclear entre a América e os Soviéticos. Nada mais natural que as produções culturais de ambos os países refletissem isso em suas histórias, gerando assim uma enorme quantidade de filmes de espiões durante os anos 1960. Porém nos anos 1970, além do fantasma do comunismo que assombrava os cinemas, outro tipo de fantasma começou a ganhar espaço com a Guerra do Vietnã. Só que este fantasma foi bem mais difícil de lidar pois, já que a Guerra Fria se estabelecia através de um equilíbrio de forças, no Vietnã os americanos perderam e tiveram que voltar para casa com o rabinho entre as pernas.

Não adianta chorar sobre o napalm derramado, John.

Essa foi uma derrota que abalou os ânimos dos estadunidenses como um todo, e talvez ainda mais os veteranos que tiveram que retornar para suas vidas sem o mínimo amparo ou auxílio. Daí tivemos dois tipos de filmes que passaram a chamar a atenção: 1) os filmes de guerra que analisavam os impactos que o Vietnã teve em seus soldados e sobreviventes, que em geral eram dramas pesados; e 2) os filmes de “vingança” do Vietnã, onde em geral um herói que era um “exército de um homem só” destroçava por completo as forças inimigas de algum país fictício (mas que era incrivelmente parecido com o Vietnã).

O mais incrível é que Rambo: Programado para Matar, foi um filme que poderia ser considerado do primeiro tipo, no entanto Rambo II: A Missão definitivamente era do outro. E então chegamos aos anos 1980 e os filmes de guerra e de espiões deram espaço a uma nova leva de heróis ultra-americanos, ultra-musculosos, que resolviam todos os problemas na porrada e com armas gigantes! E com isso, tivemos uma enxurrada de histórias onde os EUA e a URSS se enfrentavam constantemente em todos os campos menos o de batalha. Tivemos Rocky IV (1985), por exemplo. Jogos de Guerra (1983) com Matthew Broderick, ou Inferno Vermelho (1988) com Schwarza e Jim Belushi, ou ainda próprio seriado MacGyver (1985) que também brincava muito com a rivalidade soviética. Sem contar é claro as toneladas de filmes do Chuck Norris da mesma época também…

Ah, os anos 80…

O fato era que o “medo vermelho” estava tão na moda quanto agora em 2018 e o cinema e seus heróis refletiam isso. Era nesse contexto, que bem no finalzinho da década, quase no apagar das luzes, chega aos cinemas Rambo III

QUEM É VOCÊ? / O SEU PIOR PESADELO!

Rambo III vem como mais um filme surfando a onda da disputa contra os soviéticos, mas dada as origens do personagem, a disputa não era num ringue de boxe ou dentro de uma delegacia de polícia, mas sim em um campo de guerra literalmente. A guerra fria estava sendo travada nas fronteiras da Rússia em um país até então desconhecido por muitos, chamado Afeganistão

O filme começa com uma cena de luta onde Rambo participa de brigas ilegais para juntar dinheiro com apostas. O curioso é que, mesmo com a história abrindo com todos os clichês visuais do personagem (a faixa na testa, os músculos das costas, o colar de jade, as bandagens nas mãos), ela ainda tenta dar um tom de seriedade ao Rambo, tentando nos mostrar que ele é o mesmo cara daquele primeiro filme… um cara que só quer viver em paz num local, longe das guerras, longe das mortes, longe do trauma. Porém, como em toda jornada do herói, esse é um desejo que dura muito pouco tempo.

Ele usa preto para simbolizar o luto do herói americano de blábláblá…

A primeira meia hora de filme é de longe a mais interessante pois mostra qual é o status quo de Rambo após os eventos de Rambo II: ele está morando na Tailândia em um monastério budista, onde faz trabalhos pesados e manuais em troca de moradia, alimentação e paz de espírito. Uma vez por mês ele vai a Bangkok para participar das brigas ilegais onde consegue juntar dinheiro para dar aos monges e ajudar a manter o monastério. É nesse momento da vida em que ele é sondado por seu antigo comandante, o Coronel Trautman

Do ponto de vista de um personagem atormentado, a conversa entre os dois é uma comprovação do tamanho da filhadaputice de Trautman com Rambo. Onde ele se isenta de toda a responsabilidade de ter transformado o soldado em uma “máquina de matar” (palavras dele) e diz que esse “monstro” que vive dentro dele na verdade sempre esteve lá. O exército só deu um jeitinho de soltá-lo… Fico imaginando o quanto deve ter sido doído para Rambo escutar que ele só serve para isso, né? Mas enfim, sem esse convencimento, não tem filme.

Na verdade, o maior vilão de Rambo é o Trautman.

Trautman diz que precisa de ajuda para levar armas, mísseis e promover um treinamento para um grupo de rebeldes afegãos, chamados de mujahideen. Segundo o coronel, eles precisam de ajuda pois são um povo nobre que não quer se dobrar às vontades dos soviéticos, que invadiram seu país. Ao mesmo tempo, o filme ainda dá um jeito de não jogar a culpa totalmente na União Soviética, dizendo que o maior problema era em uma área específica do país, onde um excepcionalmente cruel general russo fazia o que bem entendia, a despeito das ordens do Kremlin. Rambo recusa ajudar. Trautman engole em seco e diz que vai resolver tudo sozinho.

Obviamente, tudo dá errado e ele acaba sendo capturado pelo exército russo e Rambo, que só queria ficar no canto dele, se vê obrigado a partir em uma missão aparentemente suicida para resgatar a única figura paterna que ele ainda respeita nessa vida. O operativo da CIA que dá a notícia ao soldado, interpretado pelo nosso querido Kurtwood Smith, enfatiza que Rambo deverá ir sozinho, com o mínimo de ajuda e que, se for capturado, o exército dos EUA vai negar sua existência e fingir que não o conhece. “Já estou acostumado”, é sua resposta.

Carinha de quem já foi muito maltratado pelo tio Sam.

A partir daí é incrível como o filme praticamente vira uma paródia de si mesmo. Acho curioso como tem cenas dele (como a inicial) que foram tão bem parodiadas por filmes como Top Gang: Ases Muito Loucos, que é praticamente impossível assistir sem rir. Junto com essas cenas temos também momentos memoráveis como o diálogo da luz azul, onde um afegão pergunta a John Rambo o que é um determinado objeto em sua mochila e ele lhe diz que é uma “luz azul”. O cara então pergunta o que ela faz e ele responde: “fica azul”. #FÓN

Há muitas outras frases memoráveis também. Como quando o general russo pergunta a Trautman se ele acha que Rambo era uma espécie de deus, e o coronel responde: “Deus teria misericórdia. Ele não!”. E talvez a mais clássica de todas, repetidas à exaustão em diversos outros filmes depois. Mais próximo do fim, o vilão encara Rambo e pergunta enraivecido: “Quem é você?!” e o nosso querido herói responde, seco: “O seu pior pesadelo.”

A batalha final é literalmente “o exército de um homem só”. Claro, há um certo deus ex machina ali onde o grupo de rebeldes aparecem montados em cavalos para enfrentar os russos em tanques, jipes e helicópteros de combate e acabam vencendo, particamente uma refilmagem dos ewoks derrotarem Stormtroopers em O Retorno de Jedi. Porém, de acordo com as regras de Hollywood, eu tenho certeza isso só ocorreu porque tinham Rambo ao seu lado, que sozinho dizimou a maior parte dos adversários! E só para mostrar que mesmo às portas dos anos 1990, o Vietnã ainda não tinha sido superado, há um diálogo entre Trautman e o vilão onde ele diz que já estava na hora da Rússia ter sua própria derrota na “guerra do Vietnã”, e que ela viria com o Afeganistão.

Rambo é a representação viva da expressão “sangue, suor e lágrimas”.

DEUS TERIA MISERICÓRDIA, ELE NÃO.

Ninguém diria, mas a produção de Rambo III  foi super tensa. Mentira, qualquer um diria. Como comentei na coluna sobre o primeiro filme, quando Stallone recebeu a proposta de fazer Rambo: Programado para Matar, ele não estava muito afim de pegar esse papel. Só o fez com a condição de reescrever o roteiro e dar ao personagem um peso dramático um pouco maior. E essa mudança é possível de notar na cena final do filme, onde ele se encontra com Trautman pela primeira vez em anos e é talvez uma das melhores atuações de Stallone na vida. 

A essa altura, o Rambo já era praticamente um personagem próprio do ator. Talvez até mais do que o autor do livro original. Então, mesmo não estando na cadeira da direção, Sylvester Stallone comandava tudo como produtor, ator principal e roteirista! Tanto que já durante as filmagens ele mesmo demitiu mais de metade da equipe, incluindo o diretor de fotografia e o diretor principal, Russel Mulcahy. O cargo ficou então para o estreante (e diretor de segunda unidade em Rambo 2) Peter McDonald. Segundo o próprio Stallone, uma das razões de demitir o diretor original foi:

Ele foi para Israel duas semanas antes de mim para contratar duas dúzia de soldados russos mal encarados. Eram homens que tinham que fazer o seu sangue gelar só de olhar. Quando eu cheguei no set de filmagens, vi duas dúzias de modelos loiros com olhos azuis que pareciam ter saído de uma competição de surfe. Nem preciso dizer que o Rambo não tem medo da concorrência, mas ninguém quer levar porrada de um bando de modelos de cueca de quinta categoria. Expliquei ao Russell porque eu estava desapontado e ele discordou veementemente. Então pedi a ele que fosse embora e levasse junto seu exército da moda.

Kourov fazendo o sangue do Stallone gelar.

No fim, apesar de algumas cenas de ação divertidas e memoráveis (quem consegue esquecer dele cauterizando uma ferida usando a pólvora de uma bala?), o filme foi recebido com um certo escárnio pela crítica e pelo público. Tanto que chegou até a receber seis indicações para o Prêmio Framboesa de Ouro, levando para casa o troféu de Pior Ator! O que não ajudou também foi ele ter sido lançado totalmente carregado de uma paranóia anti-comunista justamente em uma época em que a URSS estava perdendo a força. Pior ainda, a Rússia chegou a admitir a derrota na guerra do Afeganistão e começou a retirar suas tropas do país apenas dez dias antes do lançamento de Rambo III.

A cena mais memorável.

Tô LendoPontos Fortes
  • Cult. Virou cult né? Na época todo mundo meio que fez piada, mas hoje em dia é ok você gostar do filme não-ironicamente. Eu particularmente adoro, justamente por ser uma obra de época que permite que a gente faça vários tipos de leitura em cima. E como filme de ação é divertido.
  • Ação. Gosto bastante da ação dele. Para os padrões da época, é claro. Uma coisa interessante nos filmes do Rambo é que ele sempre tem uma cena de “massacre silencioso”, mesmo em meio a uma guerra barulhenta. É o momento onde ele se esconde e faz armadilhas e derrota os inimigos não só na porrada bruta, mas na inteligência. E aqui no terceiro filme, é a cena da caverna que funciona maravilhosamente bem (e ainda fica bonita por causa da tal da “luz azul”).
  • Rambo. Apesar dos pesares, eu gosto do Rambo. E nessa época, ele era “O” auge dos heróis… mesmo que estivesse à beira da extinção. Ainda assim, ele tinha um desenho animado lançado em 1986 e uma linha de bonecos no mesmo estilo do Falcon.
Tô LendoPontos Meh
  • Roteiro. Começa com muita promessa, mas logo, logo descamba para a propaganda americana típica. Antigamente a gente consumia isso sem pensar muito, mas hoje em dia é um bocado irritante. Ainda mais se pensarmos em retrospecto, vendo como a presença americana também não ajudou em nada o povo daquele país, chegando até mesmo a influenciar a criação de grupos terroristas que atacariam os EUA anos depois. Mas eles estariam melhores nas mãos dos russos? Provavelmente também não.
  • Tom de piada. Sei lá, eu curto e acho engraçado. Mas ainda assim tem um humor ali que parece meio fora de tom. O diretor deu uma entrevista em 2013 dizendo como ele tentou mudar um pouco o Rambo, mas que falhou miseravelmente. De acordo com ele mesmo, “não estava filmando nenhum Shakespeare, mas tinha horas que era bem difícil levar [o filme] a sério”.

Lenda Urbana, Efeito Mandela ou Ação da CIA?

Há uma lenda urbana envolvendo a dedicatória do filme nos créditos finais, dizendo que o estúdio de cinema resolveu mudá-la após os ataques de 11 de Setembro. Reza a lenda que originalmente, a dedicatória dizia: “Este filme é dedicado aos corajosos guerreiros mujahideen”; mas que havia sido alterada para: “Este filme é dedicado ao galante povo afegão”. E de acordo com uma rápida pesquisa no Google, essa história é balela mesmo. Eu não posso garantir, porque realmente não me lembro da dedicatória naquela época. Pode ser que a CIA tenha resolvido destruir todos os vestígios digitais e alterar a história, no melhor estilo 1984

Perfeitamente possível.

Mas eu vou dizer que foi isso o que aconteceu? Nem em um milhão de anos. Ainda assim, isso não muda o fato de que o filme em si se contorce de amores pelo povo afegão! Há inclusive uma certa idolatria e respeito por ver que até um garotinho de dez anos faz parte do grupo de rebeldes e pega em armas para matar russos. “É só um garoto, mas luta como um homem” diz um dos amigos do Rambo que, verdade seja dita, até se assusta de primeira ao ver o garoto na guerra, mas logo depois ele o admira com respeito. E isso é muito bizarro.

Imagina se em Rambo 4, ele precisa voltar ao Afeganistão para lutar contra o jovem Hamid, hein?

Um outro ponto interessante é quando Rambo chega ao acampamento rebelde pela primeira vez e o seu guia fala das força e da tenacidade dos afegãos, quando cita uma prece, criada por seus inimigos, que diz: “Que Deus nos proteja do veneno da cobra, das presas do tigre e da vingança do povo afegão!”

Pois é. O próprio Rambo avisou…

Agora não adianta se esconder no buraco, John…

E você? Tem algum filme da “paranóia anticomunista” preferido? Curte os filmes de espiões, os dramas de guerra, ou as porradarias de brucutus mesmo? Conta aí nos comentários!


Como filme Rambo III vale duas rebobinandos.📼📼

Como memória afetiva vale três rebobinandos. 📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.