Toda família tem uma ovelha negra, um pária, um… “Bruno”, do qual não falamos. Durante muitos anos, a saga da família Skywalker teve um desses membros que muitos gostariam de ter esquecido. Vem comemorar o Natal atrasado rebobinando o Especial de Natal de Star Wars.

Programa de culinária, show de dança, show de música, desenho e bloqueio comercial ao planeta do Chewbacca?! É O X-TUDÃO DE NATAL DE STAR WARS!

A saga Star Wars já nasceu clássica no verão de 1977! Criada pela mente do cineasta George Lucas, ela é parte da fundação do que consideramos “cultura pop” hoje em dia e responsável pelos mega eventos cinematográficos arrasa-quarteirões que assombram nossas férias (e muito provavelmente o sono do Martin Scorsese). Sem ela, talvez não tivéssemos as toneladas de bonequinhos, colecionáveis, gibis e mangás que compramos até hoje, muito menos os filmes de super-heróis que tanto adoramos destrinchar nas redes sociais. Mas todo esse impacto só surgiria com o tempo, claro, pois na época de seu lançamento o filme era considerado apenas mais um “fenômeno” que muitos esperavam que fosse passageiro.

Ainda assim, antes da produção do MELHOR filme da saga DE TODOS (claro que estou falando de O Império Contra-Ataca), Lucas e sua equipe estavam tão atabalhoados com diversas responsabilidades que, ao receberem uma proposta de uma rede de TV dos EUA para um especial de fim de ano, não deram muita atenção e deixaram que comandassem o projeto por conta própria. Impressionante como ninguém teve um mau pressentimento com relação a isso.

Mau pressentimento? Como assim?

Exibido pela rede CBS de televisão em 17 de novembro de 1978 (uma semana antes do feriado de ação de graças norte-americano), o especial foi recebido com muito desgosto por fãs e não-fãs em geral. Tido como “um dos piores eventos televisivos da história”, o especial de 2 horas que foi planejado como uma espécie de “intervalo” entre os lançamentos dos dois primeiros filmes (ESB seria lançado só em 1980), acabou sendo a mais absoluta decepção. E um saco de assistir também.

DÁ RADÚGUI NELE RYU!

QUE A FORÇA ESTEJA COM VOCÊ!

Reza a lenda que Lucas tinha um plano de fazer um filme só com Wookies, a raça alienígena da qual faz parte Chewbacca, o fiel copiloto de Han Solo. Aparentemente, a paixão do diretor pelo seu cachorro Indiana (que foi a inspiração tanto de Chewie quanto do nosso adorado arqueólogo aventureiro) era tanta que ele sempre quis incluir mais wookies nos filmes da série, sendo impedido apenas por conta dos custos. Se não fosse por isso, muito provavelmente teríamos os eventos de Retorno de Jedi se passando nas luas de Kashyyyk em vez de Endor.

(perdão pelo momento ultra nerd que, se você não conseguiu entender, não sei nem como chegou aqui)

Enfim, com a ideia de usar apenas wookies, os planos do especial de fim de ano prosseguiram, muito a contragosto dos executivos da rede de televisão. Afinal de contas, como bancar duas horas de um programa com uma espécie que grunhe para se comunicar? E sem usar legendas? Como o único wookie conhecido era o Chewbacca, a decisão final ficou por focar no núcleo familiar do personagem, apresentando uma família tipicamente americana com uma esposa, Malla; um filho, Lumpy; e o avô (pai de Chewie), Itchy. O plano geral ficou de apresentar uma história com todos eles, envolvendo os personagens do filme original, intercalados por outras atrações, como apresentações de uma banda, de dança e de comediantes da época. Todo mundo achou que o especial fosse uma ótima ideia de manter o nome “Star Wars” na cabeça das crianças e, segundo um dos produtores da Lucasfilm, Gary Lutz:

No início, o programa era bem melhor, com um roteiro diferente. Tivemos meia dúzia de reuniões com a rede de televisão responsável por ele. Entretanto, por causa do nosso trabalho promovendo Star Wars e com a produção do segundo filme, percebemos que não tínhamos tempo para nos dedicar ao programa. Então deixamos tudo nas mãos deles e só realizamos algumas reuniões esporádicas, fornecemos os equipamentos e os atores, e foi isso.

Aparentemente, todo mundo lava as mãos com relação a esse especial. Mas já era de se esperar, pois ele é todo muito ruim. Bom, é ruim de um jeito muito diferente do que o George Lucas costuma fazer, sabe? Por exemplo, os prequels são ruins, mas mesmo assim possuem um certo elemento de ligação com a saga que faz valer a pena assistir, pelo menos uma vez. O programa de tv, no entanto, nitidamente não tem a mão ou o envolvimento de ninguém com profundo conhecimento de Star Wars além do ocasional nome de equipamentos, ou de espécies (coisa simples de se ler num compiladão enviado pela empresa). E parece ser apenas uma costura desses esquetes com comediantes, números musicais e de dança com um fiapo de história. No fim das contas, o destaque fica mesmo para o desenho animado que apresenta pela primeira vez o personagem Boba Fett, o caçador de recompensas adorado por muitos fãs.

Vivo ou morto você vem comig… opa, franquia errada!

HE’S NO GOOD TO ME DEAD!

O meu plano com a Rebobinando de hoje era falar desse desenho, na verdade. Só que é praticamente impossível falar dessa pérola sem pelo menos mencionar o mar de bosta que é esse especial de fim de ano. Tanto que, apesar do status de cult que ele ganhou ao longo dos anos, sendo exibido em eventos de fãs de maneira irônica e como forma de piada, nunca foi confirmado como algo canônico aos filmes da saga skywalker além desse segmento em animação estrelando o Boba Fett (e também uma menção ao “Dia da Vida” no primeiro episódio da série O Mandaloriano). Talvez por isso, o curta de 9 minutos intitulado “A História do Wookie Fiel” seja o único rastro do especial a ser incluído no catálogo do DisneyPlus.

O curta foi produzido pela empresa Nelvana, a mesma responsável pelos desenhos animados dos Droids e dos Ewoks, e possui uma qualidade de animação assustadoramente boa para a época. Com os talentos dos atores originais fazendo as vozes, ele também é carregado de um estilo bem anos 70 mesmo, mas de um jeito interessante. Bem diferente dos desenhos seriados que eu mencionei antes (o que faz sentido, né? Já que o nível de dedicação para um curta-metragem em animação é bem diferente de um desenho que vai ao ar todo dia de manhã antes da escola).

Incrível como a gente teve ESSES desenhos nos anos 80, mas NENHUM com Luke e cia.

A história de O Wookie Fiel gira em torno de Han Solo e Chewbacca sendo capturados e do Luke indo atrás dos dois até um planeta chamado Panna, coberto por água. Lá, eles encontram o caçador de recompensas Boba Fett e, tanto Luke quanto Han acabam sendo infectados por um “vírus do sono” que afeta apenas humanos. Boba diz que conhece o tal vírus e que há uma cidade controlada pelo império perto de onde estão, que possui uma cura. Ele se propõe a ir buscá-la, mas Chewie não confia assim tão imediatamente no misterioso caçador e resolve ir junto. Chegando na cidade, Boba Fett se separa de Chewbacca e envia uma transmissão para Darth Vader, que acaba sendo interceptada por R2-D2.

Ao retornarem para a Millenium Falcon com a cura, os dois são interceptados por guardas do império e Chewie dá cabo deles com facilidade. Porém, quando Han e Luke finalmente despertam, o plano de Boba Fett de se fingir de amigo para invadir a base rebelde vai por água abaixo quando R2 conta a todos que o caçador de recompensas trabalha para Vader. Encurralado, ele se despede de todos e foge usando sua mochila-foguete, enquanto Chewbacca se gaba de nunca ter confiado em Boba Fett porque ele “não tinha um cheiro de gente boa”.

Acho incrível que até a Ellen Degeneres topou participar desse especial!

No final, todos riem igual a um episódio de He-Man e a desgraça do programa continua…

Tô LendoPontos Fortes
  • Boba Fett. Em retrospecto? Acho que o único ponto bom do especial de fim de ano é esse curta do Boba Fett. É rapidinho, meio bobinho até, mas interessante. É engraçado como o personagem surgiu como um “reaproveitamento de design” do Vader para ser usado no curta de animação, mas que de repente ganhou uma fama cult entre os fãs até virar o personagem que amamos hoje.
  • Animação. É bonitinha. Tem uma fluidez típica dos desenhos dos anos 70 e uma cara de caricatura do Monty Python em certos momentos (a cara do Harrison Ford tá impagável). Mas é maneirinha.
Tô LendoPontos Meh
  • O especial como um todo. Sem sacanagem, ele é MUITO ruim. Ruim demais, bicho. Os efeitos especiais são particularmente piores do que os efeitos do filme, obviamente. Mas não é só isso, o lance de meter uns comediantes da época que não tem absolutamente nada a ver com Star Wars, sabe? Uns números musicais de umas bandas que ninguém lembra, uns números de dança e de circo nada a ver… Nada disso particularmente carrega a “marca” da saga Skywalker, então tudo parece super deslocado. É basicamente um Plunct Plact Zum com a família do Chewbacca a tiracolo!

Broder, o pai do Chewbacca é uma das COISAS MAIS ASSUTADORAS DESSE PROGRAMA!

Como fã tardio de “Guerra nas Estrelas”, só fui conhecer a saga de verdade e prestar atenção na história poucas semanas antes da estreia de Episódio I nos cinemas. Tinha um amigo que curtia a saga e tinha a trilogia original em VHS e que me emprestou para que pudéssemos ver o filme nos cinemas juntos. Foi muito legal redescobrir a franquia nessa época. No entanto, só depois de um bom tempo fui saber da existência do especial de fim de ano e fiquei na maior curiosidade até a internet se desenvolver um pouco mais no Brasil, e depois com o surgimento do programa no  youtube. Ainda assim, só consegui assistir uns 20 minutos antes de desistir solentemente e pular para o desenho animado. Você pode conferir, mas meu conselho é que o faça por sua própria conta e risco. São duas horas de vida que não voltam mais!

O curioso fica mesmo pelo nascimento oficial do Boba Fett, né? Acho incrível como ele surgiu apenas do reaproveitamento de ideias de George Lucas para o Darth Vader. Quando o personagem era apenas um “caçador de recompensas” e não o “cavaleiro do lado sombrio” como o conhecemos hoje. Os planos de Lucas para Fett era que ele fosse tipo o personagem de Clint Eastwood nos faroestes de Sergio Leone, o caubói sem nome e sem alinhamentos, mas não por isso menos perigoso. Tanto que o design final dele, criado pelo artista Joe Johnston, foi desenvolvido em cima de uma série de rascunhos que Ralph McQuarrie havia feito para Vader.

O primeiro são os designs de McQuarrie para o “Vader Caçador de Recompensas”. Os outros dois são os de Joe Johnston adaptando as ideias para o Boba Fett.

E hoje em dia, conhecendo o passado de clone de Boba Fett e seu pai Jango Fett, é ainda mais curioso que Dave Filoni e Jon Favreau tenham utilizado EXATAMENTE ESSE CONCEITO para a criação de Djin Djarin, o Mandaloriano. É referência a dar com pau, minha gente! Ou pelo menos a dar com blaster!

E você? Já assisitiu O Especial de Natal de Star Wars? Curtiu? Duvido! Mas e as origens de Boba Fett, você já conhecia também? Conta aí nos comentários!


O Especial de Natal de Star Wars vale 1 Rebobinando. 📼

O desenho animado do Boba Fett vale 4 Rebobinandos. 📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.