O que é real? Tive um professor na faculdade, no auge da era Matrix, que adorava fazer essa pergunta em sala de aula. Não era de se espantar, já que no final dos anos 90, todo mundo estava se perguntando a mesma coisa. Bem, sobe no elevador e vem comigo rebobinar O 13º Andar.

Ah, os anos 90.

Os anos 90 foram uma década no mínimo interessante. Depois do otimismo e da paranóia dos anos 80, o mundo (em especial os EUA) perceberam que as coisas não eram muito bem por aí, causando uma enorme depressão coletiva nas produções culturais falando do fim do mundo num apocalipse climático, ou de distopias futuristas ou simplesmente do fim do sonho americano. Lá por volta de 1999, a gente começava a questionar o próprio conceito de realidade em si, na esperança de que estivéssemos vivendo em uma simulação super-avançada e que, de alguma forma, pudéssemos acordar do pesadelo em que vivíamos para encontrarmos uma vida melhor. Triste, né?

Mas era uma temática recorrente, apesar de não ser exatamente nova, digamos assim. No passado, vários filmes questionaram o conceito de “alma”, “vida” ou até mesmo “realidade” de outras formas. Afinal de contas, não é como se o gênero cyberpunk tivesse surgido com Matrix, né? Mas enquanto o filme das Irmãs Wachowski questionava todo o nosso modo de vida através da mistura de várias referências embaladas num pacote de couro preto, kung fu e bullet time, outros filmes com menos recursos (ou talvez apenas visões diferentes) tentaram fazer o mesmo de forma mais contida e menos apelativa. E é aí que entra O 13º Andar.

A estética verde computadorizada dos anos 90 estava em todo lugar.

“PENSO, LOGO EXISTO”

Produzido por Roland Emmerich (diretor de Stargate, Independence Day e O Dia Depois de Amanhã) e dirigido pelo levemente desconhecido Josef Rusnak, o filme surfou nessa onda mais niilista da década de 1990, mas… como everything is a remix nesse mundo, assim como Matrix, ela foi buscar suas referências em outras obras. Mas especificamente o livro de 1964, Simulacron-3 do autor Daniel F. Galouye, e uma minissérie alemã que adaptou a mesma obra em 1973, chamada World on a Wire (ou O Mundo em um Fio, em português). Lendo sobre o plot de ambas as histórias, pode-se notar que a série adaptou livremente a ideia do livro, servindo de inspiração mais direta para o roteiro do filme de 1999. 

Ainda assim, é interessante percebermos que a ideia em si de uma realidade simulada não é exatamente “original” por assim dizer, porque podemos encontrar tramas parecidas. Há um conto de 1955 do autor Frederik Pohl chamado O Túnel Sob o Mundo (The Tunnel Under the World, no original) que fala de um mundo simulado totalmente mecânico, cujas consciências de seus habitantes vivem em um computador. Além dele, também temos O Tempo Desconjuntado (Time Out Of Joint, em inglês), do aclamadíssimo Phillip K. Dick, um conto de 1959 que conta a história de um homem que não sabe que vive em uma cidade simulada até que a realidade à sua volta começa a mudar abruptamente. Ou seja, a cópia da cópia da cópia da referência da cópia do remix da referência da cópia é um tema subjacente a essas obras e, curiosamente, faz todo o sentido quando paramos para pensar na metalinguagem dessa situação toda. É uma ironia digna de uma fita de mobius.

Nada se cria, tudo se copia

Simulacron-3 é a história de uma cidade virtual, que foi criada como uma espécie de pesquisa de marketing a fim de eliminar a necessidade de pesquisas de opinião. A simulação é tão bem-programada que todos os seus habitantes possuem consciência própria, mas não sabem que vivem em um mundo virtual. Quando o cientista-chefe do projeto morre misteriosamente, e um outro funcionário desaparece sem deixar vestígios, o protagonista Douglas Hall acaba sendo incriminado. Ao buscar pela verdade, ele topa com um homem que alega ter saído do sistema do Simulacron-3, e que a própria realidade de Hall também é uma simulação. 

O livro de 1964 acaba funcionando como uma crítica distópica com relação às mega-corporações e tem uma visão bastante nociva com relação a estratégias de marketing e pesquisas de opiniões. Aparentemente, estamos todos sendo manipulados por grandes empresas, vivendo em uma realidade simulada onde todos os filmes do cinema são produzidos pela mesma companhia, comandada por um rato e… errr. Espera. Deixa eu pegar uma pílula azul aqui.

Barata alienígena, policial autista, rei do crime, simulacro de graçom, programador… tem algo que esse cara não faz?

Já a minissérie World on a Wire segue a mesma linha de uma simulação com pessoas que não sabem que são seres programados num computador, cujo cientista-chefe morre misteriosamente. O protagonista também acaba sendo incriminado, mas no meio do caminho ele encontra a filha do criador da simulação, uma moça que ninguém sabia que existia. No entanto, os dois acabam se apaixonando, levando a história por reviravoltas bem loucas e confusas no fim.

Ambas as histórias são bem parecidas no sentido de que precisam lidar com o mistério do assassinato do criador da simulação em questão. Mas enquanto o livro envereda pela crítica ao mundo corporativo e suas manipulações de opinião, a minissérie foca no mistério em si e na reviravolta existencial do protagonista. O filme de 1999 acaba bebendo bastante das duas fontes para criar uma história parecida, mas que parece ser só dele também. 

Também estamos nos anos 20. Será que esses dois últimos anos foram uma simulação?

“A IGNORÂNCIA É UMA BENÇÃO”

Muita gente na época disse que Matrix foi uma cópia de 13º Andar, mas apesar dos temas de realidades simuladas e de pessoas vivendo dentro de um computador sem saber, não passa muito disso. São histórias que não poderiam ser mais diferentes, aliás, até porque suas próprias fontes de inspiração são extremamente distintas (sem contar, é claro, que o filme das Irmãs Wachowski foi lançado dois meses antes). Enquanto Neo e cia tinham elementos da cultura cyberpunk e de animes e outras produções orientais, O 13º Andar tinha um apelo mais noir de história de detetive, com um drama mais novelesco. 

Na época eu não sabia, mas prestando atenção nas dicas que encontrei durante a escrita dessa coluna, é muito provável que Roland Emmerich, o produtor alemão nascido em 1955 tenha assistido a, também alemã, minissérie The World on a Wire em 1975 e resolveu transformar num filme um pouco mais de 20 anos depois. As Wachowski, no entanto, desenvolveram suas ideias a partir de Akira, Ghost in the Shell e Neuromancer.

Se a Gretchen Mol já é assim, imagina multiplicada por 6 x 10^23

Enfim, a trama básica do filme segue a mesma linha das duas obras que eu mencionei acima. A história começa em uma Los Angeles dos anos 20 e acompanhamos um senhor de idade bastante rico e conhecido no meio que frequenta, o vemos sair de uma festa num hotel, sendo cumprimentado por todos que o vêem. Visivelmente transtornado, ele retorna para casa e vai dormir ao lado de sua esposa, mas ao fechar os olhos, vemos que ele desperta novamente dentro de uma máquina, no que parece ser “os dias de hoje” (mas na verdade é uma Los Angeles dos anos 90). 

Com uma vida visivelmente não tão rica e glamourosa quanto a da simulação onde estava, o homem, que se chama Hannon Fuller (Armin Mueller-Stahl) marca um encontro com uma outra pessoa e acaba sendo assassinado. No dia seguinte, encontramos Douglas Hall (Craig Bierko), o segundo em comando na empresa de Fuller e co-líder do projeto da simulação da Los Angeles dos anos 20. Ele acorda e percebe um punhado de roupas sujas de sangue em seu banheiro e fica chocado ao descobrir que seu amigo e mentor havia morrido violentamente na noite anterior. Sem lembrar de nada, ele é interrogado pela polícia e acaba sendo identificado como o principal suspeito. Ao mesmo tempo, a filha de Fuller, uma mulher chamada Jane Fuller (Gretchen Mol), surge de repente e levanta ainda mais suspeitas de Hall.

Para ele ter mais pinta de anos 90, só se estivesse com uma camiseta do Norvana.

Porém, antes de morrer, Hannon Fuller havia deixado uma pista dentro da simulação e enviou uma outra mensagem a Hall, informando o que deveria fazer se algo lhe acontecesse. E é aí que as coisas começam a ficar mais interessantes no filme, que até este momento parecia só um murder mystery qualquer com muitas pistas soltas e poucas soluções. Lembro que tive um pouco de dificuldade para acompanhar a trama na época em que assisti (que foi um pouco depois de Matrix, na verdade), mas numa segunda assistida, sabendo exatamente como a história se desenrola, tudo pareceu bastante óbvio.

Quando Hall entra na simulação em busca de respostas, descobrimos que as pessoas só podem entrar no mundo virtual “ocupando” uma outra pessoa igual a ela e colocando a consciência daquele corpo em uma espécie de stand-by. Na verdade, o que ocorre é a boa e velha troca de mentes, com o humano ocupando o corpo virtual e vice-versa (mas como o corpo humano fica dormente dentro de uma máquina, a consciência virtual não desperta). Parece meio complicado de explicar, mas é bem mais simples do que parece. Enfim. O corpo virtual acaba experimentando uma série de “blecautes” e surtos de amnésia sempre que é ocupado por um ser humano do mundo, er, real. 

Quase consigo escutar o barulhinho do modem…

Entender os funcionamentos da máquina e da imersão de humanos no mundo virtual é algo integral para sacarmos a evolução da trama, pois o protagonista passa pelos mesmos blecautes e surtos de amnésia no decorrer da história. Além disso, ele diz abertamente no início do filme que “não fuma”, mas aos poucos aparece vez ou outra fumando um cigarro, levantando dúvidas sobre sua própria autenticidade.

A essa altura da coluna, não estou me preocupando muito com spoilers, mas fica aqui a dica, caso você nunca tenha visto filme e tenha interesse em assisti-lo. Atualmente, O 13º Andar está disponível no HBO Max.

Ainda aqui?

Beleza.

[[ Falha em carregar o Horizonte de Eventos ]]

No fim, acaba sendo bem óbvio que Douglas Hall está vivendo também em uma simulação. Esse era o segredo que Fuller queria lhe contar e foi por isso que ele foi assassinado. Porém, quem o matou foi o próprio Douglas, que estava com o corpo “ocupado” por alguém do mundo real. Jane Fuller, a “filha” de Hannon Fuller, revela ao protagonista que existem várias simulações no mundo real, mas que apenas a dele foi capaz de criar uma outra simulação dentro de si. Esse foi o motivo dela ter entrado no mundo virtual como filha do dono da empresa, para encerrar o projeto de vez. O único problema foi que ela se apaixonou por Douglas, que obviamente, era o avatar de seu próprio marido, um homem violento que ficou embevecido pelo poder de matar pessoas no mundo virtual sem ter que lidar com as consequências. Olhaí o aspecto novelesco!

O marido de Jane acaba entrando na simulação, assumindo o corpo do protagonista, e tenta matá-la… O filme então deixa de ser um film noir e vira de repente um terror slasher com o assassino perseguindo a mocinha, até que ela consegue matá-lo através de um plano mega elaborado. Ela abandona a simulação e volta ao mundo real, para encontrar a consciência de Douglas Hall habitando o corpo do marido. Os dois se abraçam e admiram a paisagem idílica de uma praia no ano de 2024 (tá logo ali), quando o filme encerra como se fosse uma televisão sendo desligada mostrando que até o “mundo real” deles é uma “simulação”.

Olha o paraíso em que vamos viver daqui uns 2-3 anos.

Pelo menos para nós, os espectadores, né?

NÉ?

Tô LendoPontos Fortes
  • Trama. Sinceridade? A história é bem honesta. Claro, é bom evitarmos comparações com outras distopias computadorizadas, mas para fazer o que ela se propõe, ser um filme de detetive com uma pitada de sci-fi, é bem maneiro.
  • Disponibilidade. Graças ao HBO Max, o filme é bem fácil de encontrar. Na época em que assisti, só o encontrei por causa das locadoras de bairro, já que as mega locadoras não tinham essas opções mais obscuras.
Tô LendoPontos Meh
  • Atores. Não são dos mais fortes. Todos são atores meio que coadjuvantes de outros filmes e séries, mas com um certo status de protagonistas aqui. Os destaques ficam para Gretchen Mol, que fez uma vários filmes menores nos anos 90, o policial interpretado por Dennis Haysbert (o presidente Palmer de 24 Horas), e claro, Vincent D’onofrio, nosso querido Rei do Crime.
  • Novelesco. Apesar d’eu curtir a trama de maneira geral, sofro um pouco com o finalzinho do filme. Quer dizer que a mulher basicamente entra num videogame vitaminado e mata o marido dentro do jogo porque se apaixonou por uma versão digital dele que era mais boazinha, sabe? Parece fofo, mas é meio bizarro se a gente parar para analisar por mais do que 5 minutos.

Só o amor verdadeiro para levar uma pessoa a trocar o marido pelo Mario Bros, basicamente…

Matrix, 13º Andar, Cidade das Sombras, são todos filmes dessa mesma época que basicamente têm quase as mesmas influências. Apesar de acusações de plágio por parte dos fãs e de alguns críticos, todas as produções têm suas particularidades contribuindo para a história do cinema à sua própria maneira. E dadas suas próprias origens que foram buscar influência em diversas outras obras de outras épocas, parece que tudo tem meio que a ver com o zeitgeist do início do milênio mesmo: novas fronteiras digitais, Y2K, aquecimento global, fim do mundo e, óbvio, a esperança de que nossa realidade fosse outra.

E você? O que é real para você? Tem alguma teoria sobre a existência da nossa realidade que só você acredita? Prefere Matrix ou 13º Andar? Conta aí nos comentários!


O 13º Andar vale três rebobinandos. 📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.