No auge da popularidade de Star Wars nos anos 80, vários filmes de ficção científica foram lançados na esperança de pegar uma rabeira no sucesso de George Lucas, com variados graus de sucesso. Um desses filmes foi o famigerado Duna, de 1984. Vamos rebobinar esse clássico cult que sofre de uma certa falta de… tempero.

É um planeta de tempero, mas não sinto o cheiro. Que estranho.

Eu já vou começar aqui mandando a real e avisando aos desavisados. Eu nunca tinha ouvido falar de Duna até mais ou menos meus 20-e-poucos anos de idade, já na faculdade. Meu grupo de amigos conversava sobre filmes de sci-fi e fantasia antigos que tínhamos visto ainda crianças e que nos impactaram de alguma forma. Eu mencionei coisas como Krull, O Último Guerreiro das Estrelas, e Blade Runner como filmes que eu lembrava com um certo carinho (e que me assustaram um pouco também). Outras pessoas ainda falaram de Alien, Mad Max e Caravana da Coragem (“nave estelar caiu”). Mas de repente, uma menção me chamou a atenção e foi justamente Duna. Passada a vergonha inicial por não conhecer tal clássico dos anos 80, eu havia me prometido que assim que tivesse uma oportunidade, eu veria o filme.

Corta para 2021.

O remake de Duna chega aos cinemas. E o Kadu finalmente tira um final de semana para corrigir esta mácula no meu histórico de cinéfilo. E FOI UMA DAS PIORES EXPERIÊNCIAS CINEMATOGRÁFICAS DA MINHA VIDA. Juro. Eu devo ter um problema com os filmes do diretor David Lynch (que os cinéfilos de verdade jamais me ouçam), porque é o segundo filme dele que eu vejo na vida, e é o segundo filme dele que me deu um ódio imensurável. 

Então se você é fã de Duna, ou do Lynch, essa coluna não é para você. Pode dar meia volta e ir comer um prato de jiló com quiabo e maxixe, ou tomar uma vacina antitetânica no olho, sei lá. Deve ser basicamente a mesma sensação de gostar de qualquer um dos dois. 

Sim, Bene Gesserit, podem me julgar que eu julgo vocês de volta.

“O TEMPERO É VITAL PARA A VIAGEM ESPACIAL”

De qualquer forma, é inegável que Duna seja um clássico. Assim como Uma Princesa de Marte (1912) de Edgar Rice Burroughs é um clássico da literatura de ficção científica no mundo, estabelecendo muitos parâmetros e clichês que são copiados até hoje, Duna (1965), o romance de Frank Herbert, é muito aclamado e conhecido por seus fãs como a inspiração de diversos livros e filmes do gênero que vieram depois. Reza a lenda que o tio George bebeu das duas fontes na hora de criar a saga Skywalker. O curioso é como ambos os livros precederam e influenciaram Star Wars, mas quando viraram filmes foram considerados fracassos de bilheteria justamente por quererem “copiar a cópia”. 

Mas nem tudo são dunas de areia, e o livro é até hoje considerado por muitos como “o melhor livro de ficção científica do mundo”. Claro, que há controvérsias e o livro não foi um sucesso absoluto assim, do dia para a noite. Lançado em 1965, ele só foi angariando sua legião de fãs no decorrer dos anos seguintes, chegando até meados dos anos 1970, que foi quando ele chamou a atenção dos produtores hollywoodianos. Por volta de 1974, após uma breve venda de direitos que não deu em nada porque o primeiro produtor morreu antes de fazer o filme, um estúdio de produção francês resolveu colocar o diretor Alejandro Jodorowsky para comandar o projeto. Ele juntou uma equipe competentíssima e gigantesca, e tinha uma visão tão enorme para trazer o livro para as telas, que a duração inicial do filme era de um épico de quase 14 horas!!! A banda Pink Floyd seria responsável pela música, enquanto nomes do calibre de H.R. Giger e o quadrinista Moebius eram cotados para o design de produção. Além disso, o elenco contava com artistas como Salvador Dalí como o Imperador, Orson Welles como Barão Harkonnen, David Carradine como Leto Atreides e Mick Jagger como Feyd-Rautha (papel que acabou indo para o cantor Sting, no filme). Imagina um Duna com uma equipe dessas, bicho? 

Um Duna desses, bicho.

No fim, obviamente o filme de QUATORZE HORAS com um elenco gigantesco jamais saiu do papel porque não havia dinheiro em Hollywood (ou pelo menos não havia um investidor louco o suficiente em Hollywood) para bancar esse projeto. O dream team de Jodorowsky, no entanto, foi aproveitado em outras produções da época como por exemplo Alien (1979), de Ridley Scott. Tem um documentário de 2013 que conta toda essa jornada, chamado Duna de Jodorowsky. Infelizmente, ele não está disponível no Brasil, mas tem para alugar no Prime Video dos EUA. Então dá seu jeito. 

No finalzinho dos anos 1970 ainda houve uma tentativa de aproveitar o sucesso de Alien e o produtor Dino De Laurentiis (que havia adquirido os direitos da produtora francesa) colocou o próprio Ridley Scott para comandar um novo projeto para o filme. Mas segundo o próprio diretor, a pré-produção caminhava a passos de lesmas e, em meio a uma tragédia pessoal, ele acabou desistindo do filme e foi fazer Blade Runner (1982) em vez disso. O que valeu mais a pena, porque se vocês lembrarem do início da coluna, esse era um dos filmes que eu lembrava da infância! 

O verme da areia do Giger, teria um pinta meio… alien, né não?

“O TEMPERO AUMENTA A VIDA, O TEMPERO EXPANDE A CONSCIÊNCIA!”

No fim, quem teve essa tarefa árdua de trazer as brigas de família e a disputa por especiarias (que eu chamo de “tempero” pq deixa as coisas mais divertidas) (se chamar de “tompêrro”, fica ainda melhor) para a tela grande foi o diretor David Lynch. Com isso, todas as etapas das pré-produções anteriores rolaram duna abaixo e Lynch ficou responsável por escrever o novo roteiro. Foram cinco ou seis versões que culminaram no menor, porém ainda épico, tempo de duração de mais ou menos três horas. Quando o estúdio reclamou horrores, Lynch e os produtores Dino e Rafaella De Laurentiis remontaram um quebra cabeça de cenas reduzindo o tempo total para o padrão de duas horas e dezessete minutos. 

Com o orçamento de 40 milhões de dólares na época, o filme acabou com uma bilheteria de pouco mais de 30 milhões, sendo considerado um fracasso. David Lynch reclamou da produção, dizendo que não teve oportunidade de fazer o filme que queria, e com isso surgiu uma lenda de que haveria uma espécie de “snydercut” do Lynch (um lynchcut?), mas não há nada que confirme essa informação. Ainda assim, o filme teve diversas versões, às vezes com mais cenas, às vezes com menos… Porém acho que o trauma foi tão grande para todos os envolvidos que ninguém, em especial o diretor, gosta de falar sobre Duna em entrevistas.

Não adianta fingir que não fez, David. Teu nome E TUA CARA tão no filme!

“QUEM CONTROLA O TÔMPERRO, CONTROLA O UNIVERSO!”

Não é de se admirar que a saga da família Atreides tenha sido muito mal representada nessa primeira incursão nos cinemas. O plot, para quem não leu o livro (como eu) é muito confuso e dá saltos de um lugar para o outro sem nenhum motivo aparente. Todo mundo quer testar ou treinar Paul Atreides, o herói da história, e ele passa meio que incólume por tudo sem nenhuma sensação real de perigo, ou mesmo de desenvolvimento. Quer dizer, até tem porque no fim ele se torna o ser supremo, mas como todo mundo em volta dele já sabia que isso iria acontecer, pro público em si não há nenhuma tensão. 

Enfim, o básico da trama é a disputa entre duas famílias pelo controle do planeta Duna, cujo nome verdadeiro é Arrakis. Este é o único planeta no universo onde é possível encontrar a especiaria melange, um espécie de “pó mágico” que é capaz de tudo, conforme você leu pela coluna: de  prolongar a vida e expandir a consciência, até ser processada e usada como combustível em viagens espaciais, permitindo que as naves “dobrem o espaço” e naveguem pelo cosmos instantaneamente. 

🎵 🎵 Pegar carona nessa cauda de cometa / ver a via láctea / viajando no tempero 🎵 🎵

Os Atreides são a família “do bem” e os Harkonnen são a família do “mal”. Isso é bem denotado no filme, onde um lado é bem arrumado e usa uniformes limpinhos e o outro é um monte de gente sebosa, acima do peso, cheia de pústulas e com tendências homoeróticas (o que já é algo que pega muito mal em si, ainda mais hoje em dia). Os Harkonnen trabalham para o Imperador do Cosmos que está a serviço de uma Corporação Espacial que utiliza a especiaria e quer manter o controle do planeta Duna. Essas três frentes montam uma emboscada no planeta para eliminar de vez os Atreides. Especialmente o herói, Paul.

Em paralelo a isso, acompanhamos a saga de um grupo de freiras (???), bom, de sacerdotisas chamadas Irmandade Bene Gesserit. Elas vem a milênios trabalhando em cruzamentos (argh) das suas próprias beatas com homens de poder no universo, na busca de gerar um ser supremo chamado Kwisatz Haderach. O objetivo da ordem era ter um ser poderoso que elas fossem capazes de controlar e, ao que tudo indica na história, já que existem muitos personagens com capacidades psíquicas e premonitórias, quase todo mundo já desconfiava que tal ser era de fato Paul Atreides.

Tempero nos olhos dos outros é refresco, né Paulinho?

Em meio a muito lenga-lenga que não desenvolve de fato nenhum personagem, a emboscada maligna ocorre, resultando na morte do patriarca Duque Leto Atreides e na fuga de Paul e sua mãe, Lady Jessica. Aliás, parêntese. Só eu acho estranho que essa história tenha uma porrada de nomes esquisitos como “atreides”, “harkonnen”, “Tufir”, “Feyd Rautha” e de repente DO NADA tem gente com um nome super banal tipo “Paul” e “Jessica”. Imagina se Star Wars tivesse personagens como Sandro Solo e seu parceiro Cláudio Barbosa. Ou Luciano Skywalker e Benjamin Kenobi… não, pera! Ou então Leia, e… Capitão Panaka? Erm, esquece.

Paul e sua mãe se unem ao povo do planeta Arrakis, os Fremen, e com eles montam um exército que vai levar uma “guerra santa” aos novos donos de Duna. Sério, o autor Frank Hebert era vidrado no estudo de desertos e de suas populações e acabou incorporando uma enorme variedade de termos árabes e/ou hebreus em sua obra, coisas que talvez não fossem muito conhecidas do grande público em 1965, mas que hoje em dia definitivamente pegam meio mal. Essa “guerra santa” a que eles se referem é chamada de “Jihad” tanto no livro quanto no filme. O que é meio bizarro.

Existem várias coleções de Duna por aí. Até o filho de Frank Herbert continuou e aprofundou o lore da saga.

No fim, Paul Atreides alcança um novo nível de consciência e se torna de fato o Kwisatz Haderach das profecias, capaz de controlar os assustadores vermes da areia, criaturas gigantescas que são atraídas por qualquer tipo de vibração no solo e que tem uma relação muito intrínseca com a tão cobiçada especiaria melange.

O filme acaba como começou. Meio do nada, com mais um diálogo de exposição e uma luta bem #FUÉN entre o personagem de Kyle MacLachlan e o personagem do Sting (que eu não lembro o nome porque só chamo ele de Sting mesmo).

Além de Duna, dizem que o Sting também participou dos filmes de Senhor dos Anéis e do Hobbit!

Tô LendoPontos Fortes
  • Olha. Difícil, hein? O bom do filme é que ele acaba, sei lá. Pode ser que o livro, mesmo com seus problemas temáticos que só passaram a ser enxergados recentemente, seja mais divertido. Ou até mesmo o remake, não sei. Mas o filme é bem ruim.
  • Retorno de Jedi. Bom, por causa desse filme, David Lynch não foi dirigir o Retorno de Jedi, olha que coisa boa!
Tô LendoPontos Meh
  • Ó, Deos! Por onde começar? 
  • Pensamentos em Off. Sério, o filme começa com uma moça muito bonita narrando a história até aquele momento. Depois um computador narrando a história até aquele momento. E depois duas pessoas conversando sobre algo que elas já sabem, narrando a história até aquele momento. E no meio disso, tem umas cenas de gente parada, olhando para a tela, sem mexer a boca e o “pensamento” delas pode ser ouvido em off. ISSO. ACONTECE. O FILME. INTEIRO. E faz com que ele pareça uma novela mexicana daquelas bem canastronas. É horrível.
  • Efeitos Especiais. Tipo, é um absurdo que em 1984 os efeitos sejam tão ruins assim! Bicho, a gente já tinha dois Star Wars, já tinha E.T., já tinha Caçadores da Arca Perdida… e mesmo que esses filmes originalmente tenham efeitos que hoje em dia sejam meio toscos, não tem motivo para estarem tão além da tosquice assim. As cenas da guerra em Arrakis são RISÍVEIS, com dublês saltando de trampolins no chão antes das explosões acontecerem. Com “armas de som” que não emitem nenhum tipo de rajada que o público possa ver… são só os atores apontando a arma e gritando RÁ! É patético.
  • Trama. Confusa. Confusa toda vida. Os termos estranhos roubados de outros idiomas são jogados com uma naturalidade que ninguém tem, nem o público, nem os atores. Então quando falam “fulano pode ser o Muad’dib” e todo mundo fica OOOOHHHH! A gente fica, “que porra é essa?”

Imagina a AUDÁCIA dessa galera de achar que esse filme modorrento iria desbancar Star Wars no coração das crianças a ponto de fazer bonequinhos!

E é basicamente isso. Duna foi um filme problemático desde o início, ainda mais para a época em que foi feito. A história, que muitos fãs consideram fantástica e cheia de significados, insights e boas sacadas, hoje em dia vem sendo taxada de homofóbica, machista e islamofóbica. Muitos acusam Frank Herbert de ter praticado um caso extremo de apropriação cultural na hora de criar o universo de Duna, além de propagar ideias como imperialismo e o conceito de “salvador branco”, coisas tão criticadas em outras obras que vão desde Tarzan e O Fantasma, até Doutor Estranho e Punho de Ferro.

E realmente, obras deste tipo são especialmente problemáticas, mas não sou eu quem vai te dizer se você deve ler ou não. O que eu recomendo é que, caso você leia, que o faça com um senso crítico bem estabelecido na cabeça. Algo que, por si só, já é muito válido. A obra é inegavelmente reconhecida como uma das grandes da ficção científica mundial, então é provavelmente muito difícil “cancelá-la” por causa de seus problemas. O que não dá para fazer é atacar quem não gosta dela por causa disso, ou de outros fatores que não sabemos, conhecemos, ou entendemos.

Olha o Sir Patrick Stewart ali, coitado. De capitão da Enterprise e Professor de Escola para Jovens Superdotados, para um papel desses… tsc.

O filme hoje em dia tem um status de cult que o faz ser adorado por muitos justamente por ser meio ruim (eu diria, BEM ruim). Mesmo com isso, me sinto na obrigação de dizer que me senti extremamente incomodado com o vilão Vladimir Harkonnen no filme, justamente pelo fato de que ele é abertamente homossexual e obeso como forma de tratá-lo como vilão. Não basta o rosto cheio de pústulas e a risada maligna, essas são as duas únicas características que ele exibe como forma de construção de um personagem “mal”.

No fim, fica a dica. Quer ver? Vê. Mas vai com calma e se enche de senso crítico para aproveitar alguma coisa. Depois não diz que eu não avisei.


Duna (1984) vale um frasquinho de tômperro. 🧂

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.