Estamos de volta à URSS! Bom, metaforicamente falando, é claro. Hoje vamos rebobinar uma guerra de aranhas, opa, uma batalha entre duas Viúvas Negras! Pega sua pulseira de choque, sua peruca ruiva e vem comigo rebobinar Viúva Negra: Guerra Biológica.

Alô, eu queria pedir uma pizza meio americana, meio comunista…

A Viúva Negra é uma personagem curiosa. Criada ainda em 1964, no auge da paranóia comunista dos EUA, ela surgiu pela primeira vez em Tales of Suspense #52 como uma adversária do Homem-de-Ferro. Ela era um tipo de personagem muito conhecido, a da espiã russa femme fatale, mas com um visual bem diferente do que conhecemos, já que ela se vestia literalmente como uma viúva. Essa história saiu aqui em dois encadernados: Biblioteca Histórica da Marvel – Homem-de-Ferro #2 (Panini, 2010) e Os Heróis Mais Poderosos da Terra #6 – Viúva Negra (Salvat, 2015). Nossa querida Viúva Negra no entanto só viria a ganhar os cabelos ruivos e o macacão de couro preto anos depois, já na década de 70, nas páginas da revista do Homem-Aranha. Em The Amazing Spider-Man #86 ela surge com a missão de matar o cabeça-de-teia e possui alguns poderes bem diferentes também, mais próximos de uma aranha de verdade, como grudar nas paredes e soltar fios de teia dos seus braceletes. Aqui em terras brazucas, essa história saiu em diversos lugares: nos gibis do Aranha da editora Ebal (edição #43) e Bloch (edição #33), no encadernado da Salvat que eu mencionei mais acima, na Coleção Histórica Marvel: Homem-Aranha #8 (Panini, 2014) e em Teia do Aranha #12 (Abril, 1990), ufa! 

Foi durante essa fase nova dos anos 70 que ela alcançou uma nova popularidade, em parte impulsionada pelo sucesso dos filmes de espião na cultura pop e também por outra paranóia política, a da guerra fria. Natalia Alianovna Romanova, ainda teria muitas aventuras ao lado de seu crush, o herói Demolidor e também de um supergrupo de heróis meio falido nessa época, os Campeões (sério, quem é que põe no mesmo grupo o Anjo dos X-men, o Motoqueiro Fantasma e a Viúva Negra? Como que combina isso?). Por volta dos anos 90, no entanto, a personagem foi ficando esquecida, aparecendo de vez em quando numas histórias dos Vingadores, e até mesmo numa one-shot dos X-men, onde ela encontra o Wolverine e o Capitão América. Fica subentendido nessa história que ela era criança ainda na época da segunda guerra, e que ela tem parentesco com o clã dos Romanov, a família imperial russa deposta durante a revolução socialista. Em algum momento dos gibis, Natalia muda seu nome para Natasha e altera a escrita de seu sobrenome para Romanoff.

A viúva vestida como viúva e depois vestida com o seu maiô de couro tradicional

Ela fica nesse vai e vem dos gibis até ser reutilizada em uma das reformulações de maior sucesso da Marvel dos anos 2000: Os Supremos, do universo ultimate! Mark Millar e Brian Hitch trouxeram um apelo cinematográfico nunca antes visto para as páginas de sua adaptação moderna dos Vingadores e colocou a Viúva Negra e o Gavião Arqueiro em uma história com ares de Matrix com muita ação e couro preto! Como o ultiverso foi uma fonte de inspiração direta para as adaptações do MCU, não demorou muito para que apresentassem a personagem no segundo filme do Homem-de-Ferro, e aí você já sabe! Porém, com um histórico desses, era de se esperar que ela ganhasse um filme anos antes, né?

Hoje em dia parece que ela é um clone, e que a verdadeira Viúva Negra morreu. Mas nunca se sabe. Afinal de contas, são quadrinhos! ¯\_(ツ)_/¯

A NOVA VIÚVA

Em 1999, a Marvel tinha o seu selo Marvel Knights, que era uma espécie de “linha adulta” da editora. Era um período de muitas reformulações e os cabeças da casa das ideias queriam tirar aquele ranço que os anos 90 deixaram na maioria das suas publicações (TÔ OLHANDO PRA VOCÊ, SAGA DO CLONE). Com isso, vários heróis mais casca-grossa como o Justiceiro, Luke Cage e Cavaleiro da Lua ganharam seus títulos sobre este selo. Não demorou muito para que a Viúva ganhasse o seu também.

O primeiro arco de histórias de sua série de gibis em muito tempo tinha o singelo nome em inglês de The Itsy Bitsy Spider, que tem a ver com a cantiga infantil da famigerada dona aranha que subiu pela parede, fazendo referência não só à nossa querida heroína aracnídea, como também ao surgimento de uma nova “dona aranha”, tão insistente quanto a antiga. Aqui no Brasil o título foi mais objetivo e a minissérie ganhou o nome de “Guerra Biológica”, sendo publicada primeiro naqueles gibis HORROROSOS  da linha Premium no início dos anos 2000, em Homem-Aranha #5 (que, por um acaso tem aquela história HORROROSA da “morte” da Mary Jane naquela fase HORROROSA do John Byrne). Mas ok, a Panini resolveu esse problema agora em 2020 lançando um encadernado que contém não só as três edições do arco Guerra Biológica, como também os outros dois arcos com roteiros e colaboração de Greg Rucka.

A capa dupla da edição original americana e a capa brasileira do encadernado de 2020

As três primeiras edições, no entanto, contam com os roteiros da escritora Devin Grayson (Asa Noturna, Batman: Crimes de Guerra) e com os desenhos de J.G. Jones (Antes de Watchmen, Mulher-Maravilha: Hiketeia). A trama é uma espionagem gostosa de acompanhar, sem nada a dever para a maioria dos filmes de espiões a que estamos acostumados. E a arte de Jones, apesar de colocar algumas poses meio, er, “apelativas” ali no meio, tem uma dinâmica bem interessante, em particular nas cenas de ação. Ao reler, eu senti que ele tentou buscar umas referências de gibis dos anos 70, meio na vibe das antigas histórias do Nick Fury, ficou bem legal. Tem umas splash pages muito iradas ali no meio, aliás.

A história começa com um exército de homens em meio ao deserto do que parece ser o Oriente Médio, num país fictício chamado Rapastão (zero esforço dessa galera em criar um nome de país, hein?). Os homens lutam contra um cara só, meio ensandecido e superforte… só que logo depois ele começa a definhar rapidamente e morre como um esqueletinho esfumaçado. Ficamos sabendo que na verdade ele foi infectado com uma espécie de biotoxina capaz de aumentar muito a força de uma pessoa, mas levando-a à loucura e, logo depois, à morte. O general do exército está ao lado do cientista que criou a parada e já mete logo uma encomenda!

É quase um “crepúsculo” da espionagem: você é #TeamPentagono ou #TeamKremlin?

Em seguida, vemos Natasha em casa dando uma olhada em coisas do seu passado, memórias de histórias que nós, como leitores, já tínhamos visto. De repente, ela recebe duas ligações ao mesmo tempo: é o Pentágono e o Kremlin. Ambos entraram em contato pelo mesmo motivo, querem que a Viúva Negra vá até o tal do Rapastão, eliminar o cientista responsável e pegar todas as amostras dessa perigosa biotoxina. Logo depois ela recebe uma visita de um Matt Murdock todo metido a engraçadinho e nós descobrimos que ela está sendo investigada por uma outra espiã, uma mulher loira com uma roupa muito parecida com o uniforme da própria viúva negra, mas com a barriga de fora e uma calça de cintura baixa (anos 90, né meninas?).

Natasha é seguida por essa misteriosa mulher desde sua saída de Nova Iorque até a chegada em um galpão militar no meio do Rapastão. E é no momento em que ela descobre a maleta com ampolas da biotoxina, que ela escuta uma comoção e vê que a mulher que a seguia foi interceptada pelos soldados locais. De longe, ela observa a espiã misteriosa até que resolve interferir na luta. É aí que descobrimos que a tal mulher se chama Yelena Belova, e que ela foi treinada pelo mesmo serviço de espionagem que Natasha Romanoff, o Quarto Vermelho. Yelena conta também que é uma espiã de primeiríssima linha e que foi a primeira e única “viúva negra” do programa a tirar notas ainda melhores que Natasha, e que agora ela veio reclamar seu título oficial de Viúva Negra, eliminando sua adversária.

A Natasha natánemaí pra Yelena!

Nat, por outro lado, está completamente blasé diante de tal revelação. E é muito engraçado quando Yelena diz que é uma viúva melhor que ela, que só responde: “ao menos no papel”. Ou seja, a nova viúva ainda precisa comer muitos maridos para alcançar o nível de Romanoff! As duas têm um embate rápido e acabam atraindo a atenção de mais soldados. No fim, as duas escapam e Natasha ainda passa a perna na novata.

Ela continua sua investigação e encontra o cientista responsável pela biotoxina na França e parte em seu encalço. Enquanto isso, os cabeças de cada país (EUA e Rússia) discutem em reuniões ultrassecretas a lealdade de Natasha Romanoff e para qual país ela deve levar a toxina… A Viúva Negra, no entanto, tem seus próprios planos e esconde o cientista em um dos seus abrigos secretos e o obriga a sintetizar uma cura para o agente biológico que ele inventou. 

Discurso bonito, e o final foi um estouro!

Yelena, no entanto, pode ser uma novata, mas não é de se jogar fora. Ela consegue rastrear Natasha e quase consegue eliminá-la. As duas discutem à beira de um rio congelado e a velha viúva diz que não é um modelo a ser seguido ou copiado, e que Yelena se daria muito melhor se encontrasse seu próprio caminho e seu próprio estilo como espiã, ou que abandonasse essa vida de vez, já que não é lá uma vida muito boa de ser vivida. Contudo o discurso é cortado no meio já que uma equipe da SHIELD mete uma bala nas costas de Natasha, que cai no rio congelado e desaparece nas águas. Yelena, movida por orgulho, resolve levar a cabo a missão de Nat e volta ao Rapastão para interceptar a entrega de mais biotoxinas para o general/ditador local.

O plot twist fica por conta da ação da viúva novata que é capturada pelo exército inimigo, ao mesmo tempo em que uma equipe médica chega ao local para vacinar os soldados. Uma da enfermeiras é a própria Viúva Negra disfarçada, que veio aplicar uma vacina criada pelo cientista da biotoxina… Aproveitando o ataque de uma força conjunta de russos e americanos ao campo militar, Yelena consegue fugir e esbarra com Natasha. É nesse momento que o ditador ordena a liberação do agente biológico em cima do próprio exército para vencer essa batalha ao custo da vida dos próprios soldados. Porém, como Natasha conseguiu vacinar todos menos o general, ele foi o único afetado e vira um monstro ensandecido!

Queria só uma vez ver uma cena dessas com uma onomatopeia de PIMBA!

A Viúva Negra é a única capaz de lidar com ele e parte para a luta para salvar a vida de todos, porque afinal de contas ela é uma heroína. Ela consegue distrair o ditador por tempo suficiente até a biotoxina fazer efeito e ele morrer em uma pilha de ossos fumacentos. Há mais um discurso sobre como é ser uma vingadora e uma heroína de verdade, e Natasha deixa que Yelena fuja para que elas possam se enfrentar novamente algum dia.

J.G. Jones dando uma de Ed Benes, o maior desenhista de popôs do mercado de quadrinhos

Tô LendoPontos Fortes
  • História. É um mergulho interessante no que significa ser uma espiã como a Viúva Negra. Apesar de suas ligações com os Vingadores e alguns outros heróis, sua vida como agente secreta ainda é muito vazia e solitária. Nem mesmo Matt Murdock consegue ter mais intimidade, e olha que eles já foram namorados.
  • Personagem. Ao mesmo tempo, vemos uma agente secreta muito segura de si em suas missões, e inabalável mesmo diante de uma substituta que rivaliza com suas habilidades, em teoria, pelo menos. 
  • Arte. J.G. Jones manda muitíssimo bem. A arte tenta emular um estilo mais “adulto” por conta do selo Marvel Knights, além do estilo anos 70 que eu mencionei antes.
Tô LendoPontos Meh
  • Arte. Bom, sempre tem um porém, né? A arte é boa, mas tem uns lances meio forçados, muito provavelmente por envolver duas mulheres em forma lutando em roupas apertadas de couro. Ainda assim, Jones manda muito e se você conseguir passar disso, a arte não incomoda tanto.
  • Conteúdo Adulto. Que não é tão adulto assim, convenhamos. Ok, ninguém espera putaria e tripas voando como o “conteúdo adulto” de The Boys, sabe? Mas tirando uma cena onde Yelena metralha um grupo de soldados (fora de quadro), não vi muita razão para essa história ter sair sob o selo de Marvel Knights. Poderia muito bem ter saído como uma mini normal porque é uma trama de espionagem básica, no estilo James Bond.

John Woo gostaria dessa cena

Eu conheci a Viúva Negra através daquela história dos X-men que eu mencionei mais acima, então nunca tive tanto contato assim com a personagem. Durante muito tempo ela ficou na minha memória com aquele traço do Jim Lee e o uniforme cinza de gola alta, então entrei na onda dela como heroína depois de sua aparição no MCU (como muita gente, na verdade). Aos poucos, até mesmo os quadrinhos da Marvel começaram a dar à ela o devido destaque, aproveitando mais um surto de popularidade!

No fim, Scarlett Johansson se tornou a versão definitiva da personagem do cinema e agora tem um filme só para ela, mantendo o mesmo clima de espionagem sob o qual ela nasceu ainda nos anos 60. Se você é fã da personagem seja nos quadrinhos ou no MCU, vale a pena dar uma conferida no filme.

sdds Jim Lee

E você? Curte a Viúva Negra? Sabe se quando ela casou teve sol e chuva? Tem alguma outra história dela que você curte mais? Conta aí nos comentários.


Viúva Negra: Guerra Biológica vale quatro rebobinandos. 📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.