O meio-irmão que ninguém gosta. O deus da trapaça. O eterno inimigo. O mentiroso. O pobre coitado. A ovelha negra da família. Loki é tudo isso e muito mais. Mas o que acontece quando ele finalmente ocupa o trono de Asgard? Vamos rebobinar a minissérie Loki de 2004.

O “Loki feio” de Jack Kirby, John Buscema, Sal Buscema e Olivier Coipel

Loki é um personagem cativante. Ainda mais depois que o Universo Cinematográfico da Marvel, o MCU, resolveu capitanear em cima do charme de Tom Hiddleston para incorporar o eterno vilão/rival de Thor. O que é curioso, na verdade, para quem é fã das histórias do herói desde longa data, porque Loki nunca foi visto como um vilão belo e galante. Ele costumava ser desenhado sempre como um personagem mais magrelo em comparação com o deus do trovão, meio feioso, como um arquétipo típico de vilões daquelas histórias antigas, sabe? Os carinhas que enrolavam o bigode com uma risadinha maligna e colocavam as mocinhas amarradas em trilhos de trem.

O “Loki gostoso” de hoje em dia

Mas aí é  só isso? Estaria o Loki, como um personagem de quadrinhos, destinado a ser sempre o vilão, o punchline de todas as piadas de Asgard? Ou será que ele tinha em seu caminho algum propósito glorioso? Graças a nova popularidade que ele tem ganhado ultimamente (ainda mais com o seriado do DisneyPlus), parece significar que ele finalmente se libertou do ciclo de planos infalíveis e Complexo de Cebolinha. E talvez uma das mais marcantes tentativas de analisar esse comportamento autossabotante tenha sido a minissérie de 2004 escrita por Robert Rodi e desenhada por Esad Ribic.

Publicada nos EUA em quatro edições, a história saiu por aqui pelo Brasil em apenas duas edições, lançada pela editora Panini em 2005. Além disso, ela ainda saiu em três reedições encadernadas (que compilaram todas as edições americanas numa só) em 2007, 2012 e 2019, tamanho o seu sucesso entre os fãs.

As capas americanas de “Loki”

UM PROPÓSITO GLORIOSO

Eu vou procurar dar o mínimo de spoilers o possível e tentar analisar alguns pontos muito interessantes da história sem estragá-la. Tudo isso porque eu a acho tão interessante, que gostaria que você pudesse ler e se impressionar por conta própria, como eu. 

Ela já abre quase como uma obra de arte barroca pelas mãos de Esad Ribic, ilustrando um Thor acorrentado e de joelhos diante de um Loki triunfante. Não fica muito claro a princípio se a história faz parte ou não da cronologia oficial do herói, mas logo em seguida essa dúvida acaba sendo sanada (dica: não faz). Com a vitória, o deus da trapaça finalmente tem a chance de humilhar seu meio-irmão da mesma forma como ele mesmo foi humilhado milhares de vezes antes. Ou assim parece.

Os paralelos épicos não aparecem só na trama, como também na arte impecável de Esad Ribic

O grande lance da minissérie é colocar o leitor no lugar do próprio Loki, dando a ele a chance de ver as histórias de Thor sob um novo ponto de vista. Seria o irmão trapaceiro apenas um injustiçado pela família de Odin e por Asgard, ou será que ele fez mesmo por merecer ser tratado como um lixo? A história segue com ele precisando lidar com o dia-a-dia de um grande rei, atendendo a pedidos e solicitações e recebendo convidados inoportunos sempre que ele pretende descansar. O autor Robert Rodi coloca o vilão para se arrepender de ter vencido, se a vitória significa ter que, bom, agir como um rei de verdade.

O jogo de pontos de vista tem lances interessantes como o embate de ideias entre ele e seus próprios aliados, as pessoas que o ajudaram a ocupar o trono de Asgard, como Hela, Karnilla e Lorelei. Elas querem apenas fazer demandas por terem oferecido sua ajuda, e a cada hora Loki arranja um jeito de fugir da conversa. No entanto, as conversas entre ele e seus rivais derrotados contam com algumas das melhores sacadas. Ao confrontar Lady Sif, o vilão relembra seu passado com os amigos de Thor e em como ele sempre foi alvo de piadas cruéis de todos eles, em especial Sif, de quem ele tinha ciúmes. O autor ainda inclui uma passagem da própria mitologia nórdica, onde o deus da trapaça corta todo o cabelo dourado da jovem guerreira, na esperança de que ela não fosse mais tão bela aos olhos de Thor. Sua inveja o leva a sua própria derrocada, porque Sif recorre aos anões para criarem um novo cabelo para ela, negro como as asas de um corvo, que não só agrada bem mais ao deus do trovão, como dá início a uma série de eventos que levam a criação do Mjolnir.

Olha o easter egg aí, gente!

A conversa com Balder, no entanto, dá um nó na cabeça do pobre rei. O guerreiro relembra uma trapaça de Loki que o levou à sua própria morte, ainda que temporária. Ele acaba contando ao vilão que em sua breve estadia no reino dos mortos, ele teve um vislumbre de vários Lokis e vários Thors. Diversas versões dos mesmos personagens em um (adivinha?) multiverso infinito de possibilidades! Em todas elas, ele diz, Loki faz muitas coisas: mente, trapaceia, luta, ajuda, trai, etc. Mas algo que Balder nunca viu, em nenhuma das realidades, foi um Loki reinar!

Daí o trapaceiro entra em parafuso e começa a se questionar a cada passo. A cada plano. Sempre derrotado, nunca um rei. Nunca um vitorioso. Seria essa a sua sina? O seu destino? As duas edições seguintes propõem uma série de questionamentos, inclusive um confronto entre Loki e seu pai adotivo, Odin. Ele levanta a dúvida de que só foi adotado pela família real asgardiana como forma de criar Thor para ser um herói, pois se tudo na vida tem duas faces: a luz e a escuridão, o bem e o mal, a vida e a morte, Thor só poderia ser um herói de verdade se Loki estivesse por perto para ser o vilão, nem que fosse apenas por comparação! É uma dicotomia muito interessante de notar, ainda mais porque vários personagens de quadrinhos seguem essa mesma fórmula, mas são poucos que a percebem de maneira quase metalinguística, para além das suas próprias existências de personagens num papel (OI, CORINGA).

Loki, o eterno Charlie Brown de Asgard

O final da história é simplesmente brilhante. Trágico, talvez? Mas brilhante ainda assim. Eu posso até estragar sua experiência com minha singela opinião aqui, mas enfim, fica a dica. Se você curte o Loki do MCU e caiu aqui de paraquedas, ou se você já é um fã antigo do personagem e nunca leu essa mini, corre atrás porque ela é belíssima! Tanto na escrita quanto na arte.

Tô LendoPontos Fortes
  • História. A trama é muito boa e expande muito mais a personalidade de Loki para além do vilão costumeiro do Thor. Ela deveria entrar para o rol de histórias clássicas, porque A MARVEL TEM CLÁSSICOS, SIM, E ESSE É UM DELES!
  • Arte. Pontequemepartiu, a arte desse cara é maravilhosamente linda! Cada página é uma pintura! Compra duas edições e arranca as folhas de uma só para transformar tudo em quadro e espalhar pela casa.
  • Disponibilidade. Com três reedições, não deve ser difícil de encontrar por aí. O valor dos encadernados também não é nada tão abusivo então dá até para comprar para ler antes do seriado do Disney Plus terminar!
Tô LendoPontos Meh
  • Quantidade de Texto. Na boa, eu tô procurando pêlo em ovo na verdade, mas enfim, fica aqui um ponto chatinho da mini, para mim que é a linguagem rebuscada típica das histórias do Thor. Parece pura preguiça minha de ler (e até é, na vdd), mas eu acho muito enjoado esse vocabulário mais arcaico, até porque a mini é repleta de texto! Coisa nível Chris Claremont, sabe? Bom, a arte contribui para os balões ficarem um pouco mais espaçados e tem uns momentos de folga que ajudam, mas ainda assim é bastante texto cheio de rococó e isso pode dificultar um pouco a leitura.

Mais Lokis feios. Um rascunho e um Loki de Walt Simonson, outro de John Buscema e mais um do Kirby (provavelmente)

Eu ganhei essa mini de presente de um amigo que a leu antes de mim e falou que eu ia adorar. Como eu não era muito fã de Thor, até demorei para engrenar um pouco, mas depois que eu li tudo não me arrependi. Bom, me arrependi de não ter lido antes, né? E novamente, puxando pelo hype do momento que é o seriado Loki da Disney, é um mergulho interessante na psiquê do personagem e parece até ter servido de alguma inspiração na hora da produção do seriado. Então ainda assim, é uma ótima leitura, nem que seja para apreciar os filmes e seriados com um pouquinho mais de bagagem.

Eu desejo que as pessoas criem menos teorias com relação a seriados, seu Loki…


Loki vale definitivamente cinco rebobinandos! 📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.