Ao som de um solo de guitarra contagiante, as manhãs de sábado da molecada que tinha tv a cabo no Brasil em meados dos anos 90 davam início a uma série de aventuras incríveis, como a do nosso querido cabeça-de-teia. Hoje a Rebobinando é sobre Homem-Aranha: A Série Animada.

Dá o play, maca!

A tv por assinatura, ou tv a cabo, chegou no Brasil no finzinho dos anos 80. Mas sua popularidade só cresceu com a chegada de novas empresas e tecnologias em meados dos anos 90, ali por volta de 1994 ou 1995, não lembro bem. Porém, me lembro como se fosse hoje quando eu tive contato com as primeiras programações exclusivamente voltadas para o público infanto-juvenil. Depois da copa do mundo do tetra, meu pai assinou o nosso primeiro serviço de tv e eu tive contato com séries em inglês, com os desenhos animados surtados do Cartoon Network e com o popular bloco de desenhos do canal FOX, exibido aos sábados de manhã: o Fox Kids. Não ia demorar muito para o bloco virar um canal por conta própria logo depois, levando consigo alguns dos desenhos animados mais empolgantes da época, entre eles X-men e, claro, Homem-Aranha

O desenho dos mutantes já estava em crescente popularidade desde a sua exibição no Xou da Xuxa (ou já era TV Colosso?), mas os outros desenhos da Marvel não chegaram a ser exibidos, não que eu me lembre pelo menos. Por conta disso, todo sábado eu tava lá, ligadaço para ver o meu herói preferido em movimento pela primeira vez… Bom, não exatamente primeira, né? Eu lembrava vagamente do desenho Homem-Aranha & Seus Amigos que passava em outro canal, e só. A série animada nova, no entanto, era bem mais próxima aos gibis que eu já lia na época e assisti-la era quase um evento!

Cuidado! Aí vem o Homem-Aranha!

Recentemente, o desenho entrou no catálogo do Disney+, o que me fez assistir novamente alguns episódios para tirar a prova dos nove e ver se ela era mesmo tão boa quanto eu me lembrava. E não é que ela se sustenta bem? Quer dizer, ela ainda não está no mesmo patamar da MELHOR SÉRIE DO ARACNÍDEO (a espetacular, er, The Spectacular Spider-Man), mas continua bem boa. A animação da maioria dos episódios é ótima, os personagens continuam carismáticos, os roteiros estão bacanas, mas infelizmente a dublagem ainda é meio FUÉN. O que é de se espantar, porque ela foi feita pelos Estúdios Alámo, muito conhecido por dublagens ótimas.

Até hoje, aliás, o desenho é sempre zoado e lembrado por diversas gafes na dublagem, em especial na tradução de nomes dos personagens, ou mesmo do uso de português errado. Um vídeo que circula pelo youtube traz alguns desses erros incríveis em que o Rei do Crime diz que pode “aguentar um pouco de grossura” (quando deveria dizer “aturar um pouco de grosseria”), ou quando menciona que algum cientista conseguiu recriar o “soro super sólido” (que seria o “soro do super soldado”). Sem contar os já clássicos nomes equivocados traduzidos por alguém que nunca teve sequer o menor contato com quadrinhos. Então o Justiceiro virou primeiro o Vingador e depois o Carrasco (erraram o nome do cara DUAS VEZES, bicho). Nem os X-men passaram incólumes, com o Fera tendo o seu nome mudado para Animal, e o Wolverine virando o, heheh, Lobão! Mas nada se compara ao nosso querido brasinha, o vigilante chifrudo Demolidor, que foi chamado de O Atrevido, hahahahaha.

No entanto, esses erros agora são história porque o desenho foi redublado em algum momento depois dos anos 2000. Se bem que alguns erros de português e de tradução ainda permanecem. Mas pelo menos vamos guardar o Atrevido e o Lobão para sempre em nossos corações.

RADIOACTIVE SPIDER-MAN

O sucesso da série na época se deve muito aos roteiros dos episódios. Claro, a animação não deve em nada e, alguns momentos especiais contam com um detalhamento mais apurado, como por exemplo no primeiro episódio, A Noite do Lagarto. As histórias tiveram como base várias histórias clássicas do próprio gibi do Homem-Aranha, tanto os de antigamente quanto os mais modernos, então a gente acaba vendo coisas como o Rocket Racer, mas também o vilão Alistair Smythe e seus moderníssimos Esmaga-Aranhas. Os roteiros contaram com vários autores de quadrinhos como Marv Wolfman, Gerry Conway e Len Wein, e além deles a equipe de roteiristas também era composta por uma galera que já havia trabalhado em Batman: TAS. O roteirista-chefe era o produtor John Semper, que chegou até a ganhar um prêmio pelo episódio O Dia do Camaleão. O currículo do cara tem outros clássicos desenhos como o Ducktales original, Os Seis Biônicos, Extreme Ghostbusters e Super Choque.

Na rabeira do sucesso do desenho dos X-men, que estava sendo produzido pela Saban, a Marvel criou o seu próprio estúdio de animação para comandar a produção de Homem-Aranha, a Marvel Films Animation. Só que os anos 90 foram um período muito duro para a editora, que abriu um processo de falência logo depois, em 1996, o que fez HASA (Homem-Aranha, a Série Animada) ser a única coisa a ser produzida lá. Apesar disso, a Marvel ainda tinha uma parceria com um outro estúdio de animação no Japão. E se você é um leitor assíduo da Rebobinando, acho até que você já sabe de quem eu estou falando… Sim, é claro que é a TMS – Tokyo Movie Shinsha, o estúdio pau-para-toda-obra de uma porrada de desenhos, desde Batman e Ducktales até Akira!

Não! Pare! Eu não aguento essa dublagem! Por favor!

Com cinco temporadas, durando de 1994 a 1998, HASA foi a segunda série mais duradoura da Marvel na TV durante um bom tempo, com 65 episódios no total. Ela ficou atrás apenas de X-men, que também durou cinco temporadas, indo de 1992 a 1997, totalizando 76 episódios. No entanto ambas foram ultrapassadas por Ultimate Spider-Man, de 2012, que teve mais de cem episódios. Enfim, voltando ao desenho de 1994, entretanto, apesar do run de tamanho razoável, ele conseguiu adaptar um bocado de tramas conhecidas do herói, e ainda contou com a produção de Stan Lee nos 13 episódios da primeira temporada. E não sei se era o dedo mágico de Stan-The Man-Lee, mas essa primeira temporada tem um ar muito parecido com o período do Aranha ali pelos anos 70, quando ele ainda estava na faculdade e tinha que se dividir entre trabalho e estudo, e entre MJ e Felícia Hardy

As participações especiais são inclusive um grande atrativo da série, e foi talvez o primeiro vislumbre de “MCU” moderno que a gente teve, vendo tantos heróis diferentes interagindo com o cabeça-de-teia. Eu já cheguei a mencionar que os X-men, Justiceiro e Demolidor apareceram, mas outros personagens de destaque como o Quarteto Fantástico, os Vingadores, o Doutor Estranho e até mesmo o Doutor Destino também dão as caras. Arcos como o Sexteto Sinistro e Guerras Secretas, jogaram o patamar do desenho lá no alto, mostrando que era possível sim adaptar megassagas para a televisão! Sem contar a provável inspiração para um dos maiores sucessos do Homem-Aranha nos últimos tempos, o Aranhaverso, usando versões do aracnídeo que às vezes apareceram somente uma vez no gibi. Mas eram referências bacanas, pelo menos.

Os Beatles.

TÉUN-RE-RÉUN RÉUN-RÉUN

Um dos grandes fortes do Homem-Aranha são sua galeria de vilões e sua rede de coadjuvantes, e o bom deste desenho foi que ele tem isso tudo. A primeira temporada se encarrega de apresentar os primeiros vilões do herói, como Rei do Crime, Lagarto e Camaleão. Além desses, temos uma boa apresentação de Eddie Brock e seu alter ego, o vilão Venom, juntamente com o Sexteto Sinistro, ops, quero dizer Os Seis Traiçoeiros (ah, essa dublagem). Porém eu nem posso colocar muito a culpa na dublagem por causa disso, acontece que, diferentemente de Batman:TAS, a série animada do Aranha não era exibida em horário nobre, mas sim num horário mais acessível, voltada para um público declaradamente infantil. Então como a maioria dos desenhos animados dos EUA, houve uma interferência de associações de pais que obrigram a produção a amenizar certas coisas no programa. Como por exemplo, não utilizar “armas reais” (ou seja, só armas laser, que não existem), não mostrar o Aranha pulando por janelas e quebrando vidro, ou socando inimigos… interferiram até mesmo no nome do Sexteto Sinistro! Originalmente chamados de Sinister Six, muitos pais acharam que a palavra “sinister” era meio, er, sinistra para as crianças. Então trocaram por The Insidious Six, o que virou aqui (surpreendentemente de maneira correta) os “seis traiçoeiros”.

A segunda temporada aproveitou a apresentação dos vilões da primeira e já abriu com o Sexteto Sinistro (ah, gente, vou chamá-los pelo nome certo, pronto). Mas o restante da temporada só expandiu mais o universo televisionado da Marvel, com os X-men (rola até a musiquinha de abertura quando eles aparecem, é muito legal), Morbius, Blade, Justiceiro e Homem-Hídrico. A trama da terceira temporada tem a ver com o Duende Verde, e apresenta ainda mais gente, claro. Vemos a estreia de vilões como o Carnificina e o Mancha, além dos heróis Doutor Estranho e Demolidor.

Tal pai, tal filho.

A quarta temporada não tem muitas coisas marcantes, exceto talvez a aparição da Gata Negra e de seu pai, o famoso ladrão O Gato. Além disso, Harry Osborn se torna o Duende Verde e também somos apresentados ao anti-herói Gatuno. Mas a quinta temporada joga tudo no ventilador logo de uma vez e já abre com o Casamento do Homem-Aranha, além de lançar o herói numa viagem pelo tempo, encontrando os Invasores, o grupo de heróis da segunda guerra. O Aranha também viaja para outros planetas com a adaptação de Guerras Secretas e encerra o desenho de vez em uma busca através de dimensões alternativas, para derrotar o Carnificina-Aranha! Eita doideira!

Aranhaverso: Endgame Infinito

Tô LendoPontos Fortes
  • Histórias. Ok, eu vou dar o braço a torcer e dizer que, conforme as temporadas passam tudo vai ficando meio zoneado. Mas ainda assim é bem legal. O início, especialmente, com o ar de histórias da Teia do Aranha eu curto muito.
  • Peter Parker. Eu gosto um bocado desse Peter Parker e desse Homem-Aranha em especial também. Mas mais do Peter. Primeiro porque ele é um dos poucos Homens-Aranha de desenho animado que é um ADULTO NA FACULDADE. Hoje em dia todo desenho do Aranha começa com ele na escola, com 15 anos e, para mim, isso já encheu um pouco o saco. O desenho não tem um episódio de origem e dá a entender que Peter já é o Aranha há um bom tempo, e que está bem familiarizado com seus poderes. Sinto saudades desse Peter.
  • Disponibilidade. Tá no Disney Plus. Acessa lá.
Tô LendoPontos Meh
  • Dublagem. Eu raramente critico a dublagem, ainda mais aqui do Brasil. Em geral são sempre muito boas, mas meojesoiscristinho! Nossa, eu acho BEM difícil aturar a maior parte da dublagem desse desenho. O dublador do Aranha eu até acho bom, mas o restante do elenco tem alguns pontos que não me deixam saber se pela época, a maioria das pessoas nessa dublagem estava começando na carreira, ou se eram amadores, sabe?Quase todo mundo tem problema de pronúncia e chama o herói de “Homiaranha”!
  • Mary Jane. Em geral ela é minha personagem coadjuvante preferida do Aranha, mas eu me lembro de ter ficado um bocado chateado com o arco de histórias dela nesse desenho, o envolvimento com o Homem-Hídrico, superpoderes, clones, etc. 

As versões originais da, hehe, “Guerra das Aranhas” do desenho! Hahahah!

Bom, eu gostava bastante desse desenho e acho que muitos de vocês devem ter sido bem fãs também. Nunca cheguei a acompanhar o desenho por completo muito por conta do desrespeito com a programação que a maioria dos canais infanto-juvenis que passavam episódios aleatórios em horários diferentes. Apesar disso, a série animada em si tinha muita reverência pelo histórico do Homem-Aranha, muito por conta talvez da participação de roteiristas que trabalharam com o personagem no gibi. As referências eram tantas que até o visual do Peter Parker foi criado para ser parecido com o ator Nicholas Hammond que interpretou Peter no seriado de 1977!

Tal Parker, tal filho

A Marvel deixou a música-tema nas mãos da Saban Entertainment, que era a produtora responsável pelo desenho dos X-men. E se você lembra bem da música do desenho deles, era uma porrada épica! Então já era de se esperar que a abertura do Aranha tivesse um impacto grande, até porque não era possível usar a música original dos anos 60 por conta de direitos autorais. O tema então foi escrito pelo mago das aberturas de desenho, o co-criador dos Power Rangers, Shuki Levy. O currículo dele conta com temas de Inspetor Bugiganga, Dinosaucers, He-Man, She-Ra e, claro, Power Rangers. Chamaram Joe Perry, o guitarrista do Aerosmith, e o resto é história!

Tá enorme, mas achei o cartaz maneiro, mals aê.

E você? Era super fã do desenho do Aranha? Curtia algum outro desenho de heróis da época? Diz aí nos comentários!


Homem-Aranha, A Série Animada vale com certeza cinco rebobinandos. 📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.