Rebobinando #155: Batman & Juiz Dredd

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Um deles é a lei. O outro é a noite. Juntos eles formam a lei da noite! Aquela que diz que não pode mais fazer barulho depois das 22h. Brincadeira. Pega sua capa de morcego e seu capacete de polícia, que hoje vamos rebobinar Batman & Juiz Dredd: Julgamento em Gotham.

Lei & Noite: Special Gibis Unit

O Batman e o Juiz Dredd são dois personagens simples, mas complicados. Ainda mais se a gente pensar os dois num contexto próximo ao nosso, no Brasil. A gente sabe que os super-heróis são uma fantasia de justiçamento que nasceu numa época em que os EUA em particular sofria muito com isso. Então nada mais justo que viesse alguém de fora com super poderes que resolvesse essa parada. Com o tempo, a maioria dos super-heróis ficou relegada às memórias e fantasias de infância, bom, pelo menos até meados dos anos 80 quando decidiram dar um monte de gibi nas mãos de um bando de britânicos doidos da cabeça! 

Então o Batman começou a perder aquela fachada de herói bobinho de capa azul (ou bonachão dos anos 60) e começou a ficar ainda mais dark e mais violento, sendo o clássico Cavaleiro das Trevas o principal ponto de virada do personagem, levando até a Batmania dos anos 90. O Juiz Dredd, no entanto, já chegou revolucionando desde 1977, ano de sua criação. O personagem é claramente um anti-herói com um pezinho no fascismo (Dois pezinhos? O corpo inteiro? Mergulhado e lambuzado até a última gota?), e vive em um mundo terrível, onde talvez a única e real solução para a violência é ser ainda mais violento. Talvez por isso seja complicado traçarmos paralelos desses heróis com a nossa vida real, em especial num momento onde a gente se vê protegido por inúmeros “Dredds” por aí bancando juízes, júri e executores ao mesmo tempo.

Se o açúcar virar crime, eu pego perpétua!

Enquanto o Batman surgiu como uma resposta ao crime nos anos 30, agindo como um nobre vigilante bilionário, Dredd surgiu como um policial na virada dos anos 80, uma década violenta, cheia de incertezas e medo de uma guerra atômica. Ambos os personagens não poderiam ser mais diferentes entre si, e ainda assim, serem tão iguais. Talvez por isso que essa minissérie seja bacana. Ela é simples, claro, sem tentar abarcar metade da filosofia que eu gastei aqui, mas estabelece bem a relação entre os dois.

Separados por um trabuco.

“EU SOU A LEI!”

Lançada como uma graphic novel em 1991, Julgamento em Gotham chegou aqui no Brasil em 1992 pela Abril Jovem, como uma minissérie em duas partes. Escrita por John Wagner e Alan Grant duas figuras notáveis nos quadrinhos. Wagner é co-criador do próprio Juiz Dredd, junto com Carlos Ezquerra, e trabalhou por muito tempo na revista britânica 2.000 A.D., que lançou o personagem. Já Alan Grant foi roteirista das histórias do juiz na mesma revista, além de ter trabalhado com o Batman também no fim dos anos 80. Inclusive, ele é o criador de vilões clássicos do morcego, como Victor Zsasz e o Ventríloquo.

A arte é um negócio à parte. Pelas mãos do competentíssimo Simon Bisley, a mini tem uma cara de obra de arte o tempo inteiro! O que eu gosto nos desenhos do Bisley é essa pinta de “Heavy Metal” que ele tem no traço, onde todo mundo fica com cara de bárbaro em capas de disco de metaleiro. E bicho, nos anos 90 esse tipo de arte era EXATAMENTE o que a molecada de 13 anos querendo definir os seus gostos ia atrás. E funciona muito bem pruma história do Juiz Dredd e ainda dá pra encaixar o Batman de lambuja, ok que ele fica meio com uma cara de “Michael Keaton supermodelo dos anos 80”, mas a gente releva.

Os vilões da história são o Juiz Morte e o Espantalho, dois personagens por si só medonhos, não é? E no traço de Bisley eles ganham ares quase sobrenaturais e muito sinistros. Na segunda parte da mini, onde os dois começam a agir em conjunto, é onde a gente vê o desenhista se soltar com seu estilo heavy metal colocando os dois quase como paródias do Eddie the Head, o mascote do Iron Maiden. E putz, fica muito bom. 

METAAAAAAAAL!

“EU SOU O BÁTIMA!”

A história da mini é bem simples. Ela abre com um ataque do Juiz Morte a um casal em Gotham City. A polícia chega e percebe que está muito aquém de enfrentar o fantasmagórico vilão e acaba aceitando a ajuda do Homem-Morcego, que chega logo depois. Batman luta brevemente contra o Juiz Morte que, derrotado, se desincorpora do cadáver que ocupava e sai voando pela cidade. O detetive das trevas vai investigar os restos mortais do vilão e encontra um cinto com um botão e, ao apertá-lo, viaja para a Mega City-1!

Ao chegar na dimensão do Juiz Dredd, ele se depara com um de seus vilões, o feioso Máquina Malvada e, obviamente, os dois caem no pau! O monstrengo explica que ele e o Juiz Morte se uniram para roubar um “cinto interdimensional” para saírem de Mega City-1, mas que ele foi passado para trás. A briga acaba chamando a atenção de UM CERTO JUIZ que não deixa barato e pretende levar os dois em cana, mas para azar do Batman, o Máquina Malvada leva o “cinto interdimensional” e vai atrás do Juiz Morte em Gotham. 

Esse gibi tem muito queixo, sabia?

Como o morcego é adepto das leis, ele acaba baixando a guarda e é levado por Dredd pro xilindró para ser interrogado. Durante o processo, acontece o clássico embate de ideias entre os dois personagens, o Batman usa apelidos como “gestapo” para se referir a Dredd e manda ele enfiar a “lei dele” onde não bate sol. A Juíza Anderson, parceira telepata do Juiz Dredd, é chamada para investigar o homem-morcego e entra na mente dele para um passeio mucho loco. O importante é que ela percebe que Batman é um herói, e que pode ajudar a capturar o Juiz Morte.

Anderson e Batman escapam e partem para o laboratório que produziu o tal cinto interdimensional e conseguem voltar à Gotham bem a tempo de impedir que o Espantalho e um recém-incorporado Juiz Morte invadam um, heh, Festival de Heavy Metal e matar todo mundo. Bom, pelo menos “tentar” impedir que matem muito mais pessoas, né? Porque até eles chegarem no local, a banda, os roadies e os seguranças já bateram as botas. Um ponto curioso, aliás da parceria entre os dois vilões é que em determinado momento o Juiz Morte tenta atacar o Espantalho, que revida com o seu gás do medo, fazendo com que o macabro juiz encare os seus mais terríveis medos: unicórnios rosados, ursinhos fofinhos e coelhinhos felpudos!

Dredd tenta enquadrar o Batman, enquanto o Juiz Morte tem o pior pesadelo da sua… vida?

Dredd não é bobo, nem nada e vem logo atrás, com sangue nos zóio e doido para mandar um “teje preso” em todo mundo! O festival é evacuado e o pau come brabo, mas no fim tudo acaba se resolvendo. A Juíza Anderson usa seus poderes telepáticos para “prender” o espírito do Juiz Morte em sua mente e o Batman prende o Espantalho, salvando a vida de Dredd. Mesmo com tudo resolvido, o juiz mais implacável de Mega City-1 ainda quer levar o Batman preso! Anderson o convence do contrário, argumentando que está sendo bem difícil segurar o Juiz Morte na cabeça. Dredd acaba indo embora, mas não sem antes trocar mais algumas farpas com o morcego de Gotham.

Queixo vs. Queixo: A Origem dos Queixos

Tô LendoPontos Fortes
  • Arte. Simon Bisley é foda. Gosto da arte dele desde muito tempo e já cheguei a mencioná-lo na coluna sobre a Patrulha do Destino. Nessa mini os desenhos são o ponto alto.
  • Personagens. Batman e o Juiz Dredd são dois personagens ótimos. Partindo do princípio, é claro, que você os entenda como paródias ou mesmo críticas ao sistema e a sociedade (ou até mesmo só uma fantasia, como no caso do morcego). 
  • Disponibilidade. Uma pesquisa no Google entrega muitos resultados de sites de leilão e de compras com o gibi disponível.
Tô LendoPontos Meh
  • História. Nesse caso em específico a história é meio qualquer coisa. É o clássico dos crossovers entre editoras que põe os dois heróis para brigar e depois para agir em conjunto, mas aqui isso acontece muito pouco. A trama põe os dois para trocar uns dois socos no meio do gibi e depois só de novo no final, acabamos acompanhando mais o trabalho em conjunto entre os vilões do que os heróis. A mini bem podia se chamar Espantalho & Juiz Morte: Terror em Gotham e não faria diferença.

A revista britânica saiu no Brasil pela Ebal com o nome de “Ano 2000”. O Juiz Dredd estreou aqui na edição #2

É uma pena que não tenham saído muitas HQs do Juiz Dredd naquela época, nos idos dos anos 90. Eu sinto que era a época PERFEITA para ler umas histórias desse tipo. Uma curiosidade, no fim das contas, foi descobrir que a Editora Ebal chegou a publicar umas dez edições da revista britânica 2.000 A.D. aqui no Brasil, em 1979, com a primeira aparição do personagem! 

Depois disso, o que saiu por aqui foram basicamente os crossovers do Juiz Dredd contra Aliens, Predadores, e contra os dois ao mesmo tempo, um outro crossover contra o Lobo, e mais outros dois com o Batman de novo. A maioria dessas histórias saiu pela Editora Mythos, ou pela Pandora Books e também são razoavelmente fáceis de achar. Eu só fui ler a maioria bem depois de velho, confesso, então apesar de achar muitas delas maneiras por diversos motivos, acabei ficando com a impressão de que eu talvez fosse gostar muito mais se tivesse lido por volta dos 13 ou 14 anos.

ROCK’N’ROOOOOOOOOLLLLLLL!


E você? Tem algum crossover do Juiz Dredd que você curte mais? Curte o personagem? Dá soco em fascista? Comenta aí!

BATMAN & JUIZ DREDD: JULGAMENTO EM GOTHAM vale 4 rebobinandos! 📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2021-05-10T20:58:52+00:00 10 de maio de 2021|0 Comentários