Rebobinando #153: Invencível

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A Image Comics surgiu lá nos anos 90, mas foi lá pelos anos 2000 em que ela começou a diversificar os seus personagens. Hoje a Rebobinando volta logo ali em 2003 para lembrar de um herói que ainda tá meio fresco na memória de todo mundo. Vamos falar de Invincible.

Conversei com o Caruso antes de decidir escrever a coluna dessa semana, porque pouco antes da série de quadrinhos terminar em 2018 ele escreveu o CDC #26 sobre o gibi, indicando de um jeito só dele, então dá uma passadinha lá depois de ler a coluna aqui (ou vai lá antes, não sou teu pai). A indicação é super válida, claro.

Invencível é uma série de quadrinhos criada por Robert Kirkman e Cory Walker em 2003. Se você já é fã de quadrinhos, isso já é bem notório. Kirkman ainda é o criador de outra série-de-quadrinhos-que-virou-série-de-televisão-de-sucesso,  The Walking Dead (o seriado que não morre nunca, aliás). Mas no Brasil, o gibi nunca chegou a ser publicado de forma regular, apenas alguns de seus encadernados saíram aqui pela Editora HQM:

  • Invencível: Negócios de Família (2006);
  • Invencível: Oito é Demais (2006);
  • Invencível: Perfeitos Estranhos (2007);
  • Invencível: O Melhor da Classe (2012).

Cada edição encadernada tem cerca de 4 a 5 edições da publicação mensal original, terminando na edição #19. Se levarmos em consideração que o run completo do gibi conta com 144 edições, isso é praticamente nada. Porém, esse pouquinho já conta com algumas das principais reviravoltas do gibi, que fazem ele valer absolutamente a pena!

As capas das edições brasileiras.

I’M BULLETPROOF, NOTHING TO LOSE…

Segundo o próprio Kirkman, Invincible nasceu como “Bulletproof” (“À prova de balas” em português), mas como um serviço a todos os tradutores do mundo, a Image já estava publicando um gibi chamado “O monge à prova de balas”, o que forçou o autor a mudar o nome do seu personagem principal. E como uma super piada interna, após algumas edições, Kirkman apresenta um coadjuvante chamado Bulletproof na história, com o mesmo uniforme que ele pretendia usar no personagem, hehe. Com a mudança de nome e de visual, Mark Grayson (o alter-ego de Invencível) praticamente virou um garoto propaganda da própria Image Comics, estampando o logo da editora no peito.

Bulletproof pré-invencível, o Bulletproof que veio depois, e finalmente o cara com um i estampado no peito que a gente conhece.

Além dele, claro, o que te prende na história é o universo criado em volta dos personagens secundários. Isso te dá um fundamento bom na trama e faz parecer que aquela história, aqueles personagens, já estão aí desde os anos 70, sabe? Um amigo chegou a comentar que a série tinha um “quê” de Homem-Aranha + Dragon Ball Z. E eu fiquei “hum?” 🤔 Não é que faz sentido? Porque nós acompanhamos um adolescente descobrindo os seus poderes e dividindo o seu tempo com escola, trabalho e super-heroísmo, com um grande número de coadjuvantes cativantes e com um NÍVEL DE PORRADARIA DANTESCO! Não à toa o personagem principal precisa ser, ahem, invencível.

E o mais legal é a brincadeira com os personagens e os nomes que o Robert Kirkman usa na hora de criar seus super-heróis. Na maioria das vezes parece meio chacota, tipo a versão da Liga da Justiça dele, Os Guardiões Globais, mas ainda assim tem uma certa aproximação com o leitor (porque ninguém vai me convencer do contrário, de que eu e você, cada um de nós, não temos uma versão de personagens inventados que se parecem com a Liga da Justiça).

Os Guardiões Globais numa pose BEM CONHECIDA e o Teen Team, a equipe de heróis originais do Kirkman.

O lance é que o cenário em 2003 para o mercado de quadrinhos era muito diferente. Todo mundo andava influenciado pelo couro preto e pela seriedade de Matrix, desde os X-men de Grant Morrison até os Supremos de Mark Millar. O roteirista Brian Michael Bendis havia introduzido uma nova forma de contar essas mesmas histórias com seu Ultimate Spider-man e o mercado na época só tinha olhos para esse modelo tipo “seriado de TV” com diálogos rápidos, referências e uma pegada um pouco mais séria e adulta (diferente do lado adulto dos anos 90, claro, que consistia em muito músculo, braços mecânicos e metrancas de doze metros em cada mão). Invencível foi um revolucionário sopro de ar novo nesse ambiente do início dos anos 2000 porque ele é um gibi sem vergonha, mas no bom sentido.

Sem vergonha de ser um gibi de super-heróis. Sem vergonha de se levar a sério quando necessário e principalmente sem vergonha de ser galhofa quando pode (e ele pode muito). Então ao mesmo tempo em que você vai encontrar “versões alternativas” de personagens da Marvel e da DC comics, você vai encontrar personagens originais super criativos, tanto em matéria de estilo, design, nomes e superpoderes. Duvido você não adorar coisas como Battle Beast, Machine Head, Damien Darkblood ou Allen, o Alien. É ao mesmo tempo um universo multicolorido, que não tem o menor medo de se sujar de sangue, muito sangue.

Gato Guerreiro, Mike Wazowski, Daft Punk, Hellschach e o ser mais poderoso do universo com um biquíni rosa.

QUESTÕES FAMILIARES

Como eu comentei antes, os encadernados são uma coletânea das edições #1 a #19. E são muito recomendáveis. Eu procuro ao máximo evitar spoilers caso você ainda não tenha lido o material e, mesmo com a série animada prestes a terminar sua primeira temporada no Amazon Prime, vou me ater aqui aos temas gerais dos encadernados sem revelar muita coisa. Até mesmo porque algumas das principais reviravoltas da trama acontecem entre essas edições iniciais. E aí, se você se interessar, pode ir atrás do restante nas Comic Shops da sua região ou importando nas lojas online.

  • Encadernado #1: Questões Familiares. Com as edições de #1 a #4, somos apresentados a Mark Grayson, filho de Nolan Grayson, o maior super-herói do planeta, o Omini-Man. Ele é uma versão do Superman, desde a maioria dos seus poderes até a origem alienígena. Essas primeiras edições giram muito em torno de Mark descobrindo esse novo universo de heróis sob os olhos do leitor. Vamos encontrando os outros grupos de heróis, vendo a vida de adolescente dele em meio a esse mundo novo. Nada muito alardeante, mas persiste comigo que aí vem o segundo encadernado.
  • Encadernado #2: Oito é Demais. Englobando as edições de #5 a #8, vemos Mark visitando faculdades que ele pretende frequentar após o ensino médio, e enfrentando mais supervilões misteriosos no processo. Somos apresentados também aos Guardiões Globais e a edição termina com a maior reviravolta da série, que geralmente é a que faz o público ficar preso de vez, tentando descobrir o que vem depois disso. É nessa edição que sai o co-criador, o desenhista Cory Walker, e entra o agora famoso Ryan Ottley (que é bem melhor).

Aqui tá bem tranquilo, mas em geral a porrada come, mas come feia mermo!

  • Encadernado #3: Completos Estranhos. Composto pelas edições de #9 a #13. Após os acontecimentos do encadernado anterior, uma nova equipe de Guardiões Globais começa a se formar. Uma batalha feroz deixa Mark Grayson à beira da morte, mas ele e o mundo precisam se acostumar com um novo status quo. É uma edição brutal e, como eu disse antes, é a partir dessa parte da história que ou você está completamente vidrado no gibi, ou está morto por dentro.
  • Encadernado #4: O Melhor da Turma. Das edições #14 a #19, Invincible segue vivendo sua nova vida e fazendo team-ups com diversos outros heróis. Tem umas duas edições aí nesse meio que parecem ser edições filler, a popular encheção de linguiça, mas tem seus momentos divertidos. Uma pena que ela termina num tremendo cliffhanger que a gente nunca vai saber como termina porque o restante da série não foi publicada por aqui. Ainda assim, tem bastante ação, universos paralelos, invasões alienígenas, viagens à Marte, namoro e, bom, o básico de uma HQ de heróis

Adoro essas onomatopeias no estilo do Erik Larsen.

Tô LendoPontos Fortes
  • Cativante. É uma história que te cativa mais e mais. É divertido, empolgante, cheio de ação e dramas habituais. Como eu disse, é um gibi sem vergonha de ser feliz sendo o que é. 
  • Desenhos. Em particular o do Ryan Ottley, que traz um dinamismo ainda maior pras cenas de ação. Ele sabe ser bem sanguinolento quando quer também. Em contrapartida, o desenhista original Cory Walker é um pouco mais fraquinho, mas não compromete. As primeiras edições são por ele.
  • Longo. O gibi nos EUA durou de 2003 a 2018. Foram #144 edições incríveis recheadas de ótimas histórias. Se você conseguir pôr as mãos no material, é coisa para ler pra te ocupar até o fim da pandemia (espero).
Tô LendoPontos Meh
  • Poucas edições. É uma pena que o que saiu no Brasil foi tão pouco, chega até a ser meio broxante, na verdade. Aí, ou te desanima de ler o resto, ou te deixa com aquele gostinho de “quero mais”, mas sem ter como saciar.
  • Spoilers. Bom, uma das maiores graças do gibi são as reviravoltas. Tem as grandes, que chamam a atenção e tem as pequenas, que geram ótimas histórias curtas. Então existem muitas chances de você já ter recebido algum tipo de spoiler seja de algum amigo bocudo, ou da própria série de animação (o que não é um ponto negativo em si, porque a história é bem parecida). Mas eu lembro do choque que eu tive quando li o gibi da primeira vez, então sempre recomendo você ir às cegas na primeira vez.

Invencível pelas mãos do tio Todd e do saudoso Mike Wieringo.

Kirkman e Ottley são caras jovens que têm algumas das mesmas referências que a gente. Então além dos personagens marcantes e incrivelmente similares aos personagens que a gente conhece, grandes chances de você topar com algum outro tipo de referência à cultura pop que a gente também conhece. Como o shopping Twin Pines Mall de De Volta para o Futuro, a escola de Mark Grayson, a Reginald Veljohnson High Schooll (que nada mais é que o nome do ator que fez o Sargento Al Powel em Duro de Matar). Ou ainda as participações especiais de April O’neil, Charlie Brown e do Monstro-Lula de Watchmen.

Referências! Referências para todo lado!

E você? Curte Invencível? Já leu, pretende ler, ou só quer saber de ver a série animada mesmo? Tem algum outro gibi que você curte por ser sem vergonha? Conta aí nos comentários!


Invencível vale cinco rebobinandos! 📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2021-04-26T12:22:10+00:00 26 de abril de 2021|0 Comentários