Rebobinando #152: Verdade – Vermelho, Branco e Preto

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“É estranho sentir saudades de algo o que mal vivi…?” Pois é, Clarice Lispector, hoje a Rebobinando busca responder essa sua pergunta, tratando de um gibi levemente antigo, mas que nunca saiu no Brasil. Vamos rebobinar a minissérie Verdade: Vermelho, Branco e Preto.

Vamos, Capitão. Bora estudar história aí.

Antes de mais nada, quero apontar aqui que essa é uma Rebobinando “técnica”. Claro, pois o gibi em questão foi publicado em 2003, mas por algum motivo nunca chegou a ser publicado por aqui em Terras Tupiniquins. Por essa época, a editora aqui no Brasil já era a Panini e não a Abril Jovem, o que me surpreende, na verdade. Porque a Panini sempre foi um pouquinho mais… honesta com as publicações? Se bem que ao lembrar do histórico de “não publicações” de Aves de Rapina, isso não deveria estranhar tanto. Como o tema central da minissérie é racismo e eugenia (um conjunto de ideias de que a raça humana poderia ser melhorada geneticamente através da exclusão de grupos “indesejáveis” e impedindo sua reprodução), eu prefiro acreditar que esse não tenha sido o motivo principal da obra ter sido ignorada por aqui.

É uma pena, basicamente porque Verdade: Vermelho, Branco & Preto é uma AULA! Ainda mais se considerarmos que ela continua tão atual quase 20 anos depois de ter sido publicada pela primeira vez (o que também acaba sendo incrivelmente deprimente). Escrita pelo jornalista Robert Morales e desenhada pelo cartunista Kyle Baker, a minissérie age como uma forma de despertar os leitores para o habitual apagamento histórico da cultura negra, em particular dos EUA. Para isso, os dois autores utilizam eventos do mundo real como paralelos para a criação do soro do supersoldado, como o Verão Vermelho de 1919, os Experimentos de Turkegee, e até mesmo o crescimento da popularidade de Teorias Eugenistas nos EUA, que inclusive serviram de base para as teorias nazistas de supremacia ariana.

O verão vermelho foi um verão cruel.

POLÍTICA NOS QUADRINHOS

A gente sabe que tá cheio de gente por aí que adora reclamar que “não gosta de ver política nos quadrinhos”. Mas é difícil de acreditar, ou até mesmo aceitar isso, quando o personagem em questão é o próprio Capitão América. Porque, assim, a capa da primeira edição do personagem o mostra metendo um baita sopapo na cara de ninguém menos do que Adolf Hitler! E, convenhamos, para a origem de um personagem como ele isso basta. No entanto, como várias outras histórias dessa época, tudo era (com o perdão da expressão) “preto-no-branco”. Os nazistas são ruins. Os americanos são bons. Ponto final.

Só que não é bem assim, claro. Ainda mais nos U.S. of A. 

A ideia para a minissérie surgiu do editor Axel Alonso, que apresentou para os cabeças da Marvel um pitch que envolveria “o lado político inerente de se embrulhar um homem negro no uniforme vermelho, branco e azul do Capitão América” e em como isso se desenrolaria em “uma história maior, uma metáfora dos próprios Estados Unidos”. Para tanto, ele convidou o escritor e jornalista Robert Morales para escrever a história tendo como base os experimentos de Tuskegee. O caso em questão se refere a uma série de experimentos médicos realizados pelo sistema de saúde dos EUA, em que mais de 400 homens negros foram infectados com sífilis, uma doença já tratável na época. Eles não sabiam que estavam sendo contaminados e, durante 40 anos, foram sendo avaliados para acompanhar a evolução natural da doença. O experimento é utilizado até hoje como um exemplo de má conduta científica e foi responsável pela criação de diversos institutos de ética médica e humana. 

“Perraí, Captein! E o meu liberrdade de exprrezon?”

Com isso em mente, não é de se espantar o quanto a história tenha um lado depressivo. Inclusive, o próprio Morales disse em entrevista uma vez que apesar de ter gargalhado ao ser apresentado à ideia de um Capitão América negro, ele achou o pitch inicial incrivelmente triste. Tão triste, aliás, que ele tentou escrever uma “história tão absurdamente deprimente, só esperando que ela fosse recusada. Mas não foi”.

A arte ficou por conta de Kyle Baker, uma escolha no mínimo peculiar. Por conta do peso que a história tem, muita gente achou que a arte não batia muito, pois ela carregava um estilo quase europeu de caricatura. Alguns dos personagens parecem ter saído de uma história do Tintim, por exemplo. Mas isso de maneira nenhuma tira o mérito da mini. Acho até que dá para fazermos uma comparação com o clássico MAUS de Art Spiegelman (inclusive, eu gostaria muito de saber se a escolha da arte foi intencional a esse ponto). As caricaturas te apresentam a uma série de personagens novos e te dá uma falsa sensação de segurança conforme você vai lendo. Até os momentos chocantes começarem a acontecer e o sangue a rolar.

A arte vem meio esquisita até a p*rra ficar séria!

E aqui vale a pena um 

ALERTA DE SPOILER!

Acho prudente o aviso porque nesse momento eu vou falar da história da minissérie em si. Mesmo que eu procure não revelar demais, não vai ter muito jeito. Se você quiser, na internet tem formas de você encontrar o material para ler, desde scans a importados. Pick your poison. Ou aguardemos a benevolência de vossa senhoria Editora Pãozinho Italiano de trazer o encadernado para a gente depois da repercussão dos episódios de Falcão & Soldado Invernal no Disney+.

VERMELHO, BRANCO E PRETO

Dividida em sete capítulos, cada edição tem um tema e um título específico. 

  • Edição #1, O Futuro: A história começa, ironicamente, acompanhando Isaiah Bradley e sua esposa Faith durante a semana dos negros da Feira Mundial de Nova York, em 1940. A primeira edição não foge de discutir o racismo com o qual os dois são tratados, mesmo durante a semana de celebração da cultura negra. Além dos dois, somos apresentados aos outros personagens da história, entre eles Maurice Canfield, um ativista comunista e herdeiro de família rica; e Luke Evans, ou Sarja, um capitão do exército rebaixado a sargento; A seu modo, cada um deles retrata diversas formas de racismo sofridas nos EUA, pouco antes da guerra. A primeira edição termina com o ataque a Pearl Harbor e todos eles sendo convocados no esforço da Segunda Guerra Mundial.
  • Edição #2, Os Fundamentos: Aqui começa a pinta do experimento. E de maneira similar à guerra do Paraguai no Brasil, mostra o tratamento diferenciado entre os soldados negros e os brancos dentro do próprio exército americano. Além disso somos apresentados a um cientista chamado Josef Reinstein, que surge no acampamento de soldados solicitando dois batalhões para o seu experimento. Ao final da edição, vários soldados são selecionados de maneira aleatória, entre eles nossos personagens principais e seus amigos. Enquanto eles são levados a um local secreto, o acampamento é dizimado e todos os outros são soldados negros são eliminados.

Sarja, Isaiah, Maurice, Jack e Larsen. Os supersoldados desconhecidos.

  • Edição #3, A Passagem: Ficamos conhecendo o comandante responsável pelo projeto, além dos cientistas. Pouco depois acompanhamos o resultado dos experimentos com o soro do supersoldado. Aqui a coisa fica um pouco turva, porque na Marvel existem DOIS doutores Reinstein. O nome Josef Reinstein (às vezes grafado como Joseph Reinstein também) é um codinome usado tanto pelo criador do Capitão América, o dr. Abraham Erskine, quando pelo cientista dessa minissérie, o dr. Wilfred Nagel. O lance é que a história aqui indica que esse experimento deu origem ao Projeto Renascimento, mas parece que tem algum retcon em algum lugar que diz que isso ocorre após a morte de Abraham Erskine, e que é uma tentativa de replicar o soro. O restante da edição acompanha vários soldados sendo submetidos a uma versão experimental do supersoro e morrendo violentamente. Apenas os personagens principais que já conhecemos sobrevivem aos testes, mas completamente deformados por músculos.
  • Edição #4, O Corte: Faith, a esposa de Isaiah procura saber o que realmente aconteceu com seu marido. Enquanto isso, vemos os sobreviventes agindo na Europa e enfrentando nazistas nas florestas da Alemanha. A violência é grande e muitos deles não sobrevivem, apesar do supersoro em suas veias. Posteriormente, Isaiah aparece lendo um gibi do Capitão América e se perguntando se as coisas não são parecidas demais, sabe? Ele argumenta que a história de Steve Rogers é igual a deles, mas que o gibi foi publicado um ano antes do que estão vivendo. Após uma discussão com um oficial americano racista, os três útimos supersoldados negros do experimento acabam lutando entre si e apenas um deles sobrevive: Isaiah Bradley. E ele ainda tem uma missão suicida a cumprir. E sozinho.

O esquadrão suicida de um homem só.

  • Edição #5, A Matemática: Isaiah rouba um uniforme do Capitão América e vai cumprir sua missão: invadir um laboratório inimigo, destruir tudo e resgatar quaisquer sobreviventes no processo. O governo se desespera com o fato de um homem negro “que não deveria existir” estar agindo durante a guerra vestido literalmente de bandeira, mas não têm muito o que fazer. A edição é um soco na boca do estômago, porque Bradley invade o tal laboratório alemão que É PARECIDO DEMAIS com o laboratório no qual ele próprio passou por experimentos. Durante a luta com os soldados nazistas, ele acaba sendo preso em uma sala de gás junto com outras vítimas judias. Após o “banho”, ele é o único que fica vivo e acaba sendo capturado.
  • Edição #6, O Embranquecimento: Isaiah Bradley fica cara-a-cara com Adolf Hitler e seu ministro da propaganda, Joseph Goebbels. Os dois contam uma historinha tentando convencer o Capitão América negro a “mudar de lado”, mas ele tem uma resposta maravilhosa pra isso! “Não posso, senão minha mulher me mata!”. Heh. Ao mesmo tempo, vamos acompanhando Steve Rogers investigando a história de Bradley. Ele vai até a prisão entrevistar um dos oficiais racistas do exército responsável por cuidar dos soldados negros, e vai aos poucos descobrindo o desenrolar dos acontecimentos. É incrível como o autor coloca a história de Isaiah Bradley como sendo super conhecida pela comunidade negra, mas que Steve está completamente alheio a ela. Heh. “Steve está”.

Se você tiver um caderninho, Isaiah, esconde, viu?

  • Edição #7, O Blackvine: Há uma expressão em inglês chamada de “grapevine”, que literalmente significa “parreira”, mas que tem um sentido de “correr pela boca pequena”, ou seja, algo que se espalha no boca-a-boca entre as pessoas. O “blackvine” portanto seria uma “boca pequena” da comunidade negra dos EUA. Essa é a edição mais triste porque nos mostra o que houve com o Capitão América negro após a guerra. Ele obviamente consegue escapar dos nazistas e é resgatado por soldados aliados, mas quando finalmente retorna aos EUA e se apresenta ao exército, acaba preso por roubar o uniforme do Capitão América. Ele fica trinta anos numa solitária, sem auxílio médico, e quando é libertado nos anos 70, já está começando a sofrer com os efeitos colaterais do experimento. Um dos pontos mais chocantes fica para o embate de ideias entre Steve Rogers e o comandante responsável pelo experimento, que ainda está vivo e muito bem, trabalhando como CEO de uma empresa de remédios que estava envolvida com a produção do supersoro na Alemanha nos anos 40. É ele quem revela ao Capitão América o emaranhado de ideias que liga as teorias eugenistas dos EUA daquela época, com a criação do soro do supersoldado e o advento das teorias de supremacia da raça ariana na Alemanha nazista. É bem preocupante ver o quanto ainda existe de gente que ainda concorda com os ideais nazistas mesmo depois de uns 60 anos do fim da guerra.

O final da edição tem um tom mais ameno, apesar de tudo. Mostrando o quanto Isaiah Bradley viveu e influenciou outras pessoas através do blackvine americano. Em sua casa há uma parede de fotos suas com cada uma das personalidades negras dos EUA e do mundo, como Malcolm X, Nelson Mandela, Mohammed Ali, Richard Pryor, Pam Grier, James BrownMichael Jackson, entre muitos outros.

Tem até o Stan Lee.

Tô LendoPontos Fortes
  • Força. É uma HQ forte, sabe? Não só no sentido de violência, mas de temática. A gente vê muita gente branca se desculpando por racismo porque “precisa aprender” e, bom, essa é uma história muito boa para ensinar sobre racismo e apagamento histórico. Eu, por exemplo, não sabia de nenhuma dessas histórias reais que serviram de inspiração para o gibi e acho que é uma oportunidade boa para todo mundo ficar sabendo desses casos horríveis que aconteceram.
  • Arte. Comentei um pouco mais acima o quanto ela é diferente do que se espera de uma história desse tipo. Mas nesse caso aqui eu realmente acho que ela funciona muito bem! Além de ser um refresco do hiper realismo que imperava na maioria dos gibis da época.
Tô LendoPontos Meh
  • Publicação. Bom, o fato dela não ter sido publicada aqui no Brasil ainda é um choque para mim. Ainda mais com a publicação na mesma época das histórias dos Jovens Vingadores, onde ficamos conhecendo o jovem Elijah Bradley, neto de Isaiah, que vira o herói Patriota. Lembro de conhecer a história do Capitão América negro apenas através dos Jovens Vingadores e de ficar chateado por nunca ter ouvido falar dele. Foi uma baita furada de bola da Panini.
  • Retcon? Buscando mais informações sobre os personagens da trama, bati de frente com o problema do doutor Josef Reinstein que eu mencionei mais acima. Parece que a mini quis colocar Abraham Erskine como vilão eugenista, mas como isso pegava mal demais para o próprio Capitão América, inventaram um segundo doutor Reinstein que tentou replicar o soro.

Bom saber que até na Europa da segunda guerra ainda rola uns atrasos na publicação.

Graças ao seriado recente do Disney+, muita gente ficou conhecendo a história de Isaiah Bradley, mesmo que levemente diferente da história original. E se isso for um indicativo de um novo interesse no personagem e uma potencial publicação deste material por aqui, acho muito justo. Vamos ficar atentos.

E você? Chegou a ler a minissérie? Curte o Isaiah Bradley? Conhece algum outro Capitão América que ninguém nunca viu? Diz aí nos comentários.


Verdade: Vemelho, Branco & Preto vale cinco rebobinandos! 📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2021-04-19T11:19:10+00:00 19 de abril de 2021|0 Comentários