Ele é o ideal da verdade, justiça e do modo de vida americano… Não, espera. Esse é outro escoteiro vestido de azul! Ainda assim, o Capitão América representa uma série de ideais e valores muito semelhantes. Pelo menos até ele ser substituído por um outro cara um pouco mais instável. A Rebobinando de hoje é sobre a chegada de John Walker em Capitão América #151.

É, Capitão… Ninguém espera a Inquisição Espanhola…!

Hoje em dia todo mundo conhece Steve Rogers, muito graças ao Universo Cinematográfico da Marvel, e à interpretação corretíssima do nosso eterno Tocha Humana, Chris Evans (sorry, MCUvetes). O fato é que, a Marvel vem acertando bem desde que começou a investir nos seus heróis no cinema, porque em geral, os quadrinhos eram um mercado muito de nicho. Ainda mais aqui no Brasil. A competição era ferrenha, e posso dizer que quando eu tinha 11 anos, eu conhecia pouquíssimas pessoas que eram fãs do Thor, do Homem-de-Ferro ou do Capitão América. Grandes chances da garotada do fim dos anos 80 e início dos 90 ter um Wolverine ou um Homem-Aranha como personagem preferido. Lembro até de amigos que eram mega fãs do Justiceiro, algo que hoje eu penso ser extremamente problemático (será que eles estão fazendo terapia hoje em dia?).

Não que Steve Rogers não tivesse seus fãs, claro. Eu, certamente, não estava entre eles. Tanto que o meu primeiro contato com o herói em uma história foi a presença do novo Capitão América na revista Homem-Aranha #103, em que ele e o supervilão Tarântula se unem contra o aracnídeo. Nessa época, um amigo veio me dizer que esse Capitão América não era o mesmo Capitão de antes, mas um cara chamado John Walker, que era mais violento e sanguinário. Aparentemente, quando temos 11 anos os heróis violentos sempre parecem mais legais? 

A primeira aparição de John Walker, sua primeira missão e o gibi onde eu o vi pela primeira vez.

KEEP WALKING

Publicada por aqui no fim de 1991, a edição de Capitão América #151 trouxe em seu mix de histórias as edições de Captain America #332-334, que mostravam Steve Rogers desistindo de carregar o manto de Sentinela da Liberdade e “passando a bandeira” para Jonh Walker. A história principal ainda faz menção ao clássico do cabeça-de-teia “Homem-Aranha: Nunca Mais!” publicada aqui originalmente em 1971 pela Editora Ebal, e depois em inúmeras reedições e coletâneas pela Panini e Salvat

As histórias originais, no entanto, saíram nos EUA em 1987. E foram escritas por Mark Gruenwald e desenhadas por Tom Morgan. Gruenwald já é uma figurinha fácil da Marvel e é bastante conhecido pelos seu run em Capitão América, mas o desenhista Tom Morgan não tem lá muita coisa em seu currículo. Mas como o nome não me era estranho eu fui catar a bibliografia e vi que ele foi o artista mais recorrente nas histórias do Justiceiro 2099! E eu lembro de curtir demais os desenhos dele na revista. 

Superpatriota? Acho que o Erik Larsen precisa conversar com alguém da Marvel sobre isso, hein?

Apesar dessas edições mostrarem o novo Capitão América, essa não foi a primeira aparição do homem por trás da máscara, o uísque ambulante, John Walker. Essa honra foi da edição americana Captain America #323 nos EUA, e Capitão América #131 no Brasil. O personagem foi apresentado como o Superpatriota, um super soldado marqueteiro, que estava mais em busca de fama do que de representar algo. Ele andava com um agente de relações públicas a tiracolo e três outros brutamontes que se chamavam de Os Buckies. O cara espalhava cartazes pelo país pedindo para o povo “fazer dele o novo símbolo da América”, de uma maneira bem parecida com CERTOS POLÍTICOS COR-DE-LARANJA POR AÍ pedindo para “fazerem da América grande de novo”. Ele organizava comícios onde se colocava como um novo ideal de super herói patriótico e chamava os “Buckies” para invadir o evento como se fossem terroristas para serem derrotados.

Uma coisa curiosa sobre o personagem é seu visual. Como a fase original do gibi foi escrita ainda nos anos 80, ele tinha uma pinta muito diferente da pinta de galã dos anos 40 que os desenhistas usavam para Steve Rogers. Em vez disso, John Walker parecia uma caricatura do Arnold Schwarzenegger e aparentava ser bem mais alto que Steve, mais musculoso e com um corte de cabelo “escovinha”, bem similar ao do ator austríaco em Comando Para Matar

Separados por um escudo e um Freddie Mercury gordinho.

Mais tarde ficaríamos sabendo que tanto Walker, como seus amigos Buckies conseguiram seus poderes através de um “operador particular” chamado Mercador do Poder. Walker teria se inspirado em seu irmão que morreu como herói na guerra do Vietnã, e se alistado no exército americano. Mas como era o pós-guerra, não havia muito no que se destacar para se tornar um herói ele próprio. Ao pedir dispensa, ele foi atrás do Mercador do Poder e conseguiu sua superforça, pretendendo entrar para a luta livre ou algo do tipo, como forma de ganhar dinheiro e fama. Foi quando ele conheceu aquele que viria a se tornar seu agente de relações públicas, Ethan Thurm. Ele é quem confecciona o uniforme de Walker e que o batiza como Superpatriota! Os dois firmaram uma parceria que duraria até o governo americano se meter.

AMERICA! F*CK YEAH!

CAPITÃO AMÉRICA NUNCA MAIS!

Nós sabemos bem o que esse “nunca mais” significa nas histórias em quadrinhos, né? Pois bem, a história começa com um terrorista doméstico escalando o monumento de Washington, aquele obelisco gigante que aparece em Homem-Aranha: De Volta ao Lar. O cara acha que os EUA precisam se impor mais pelo mundo, já que a “nova geração” havia crescido sem uma guerra para “virarem homens de verdade”. Ele ameaça explodir uma bomba nuclear do alto do monumento, caso o presidente não declare guerra a algum país, a qualquer país. 

Enquanto isso, Steve Rogers é convocado pelo FBI a comparecer a uma audiência especial com a Comissão, uma força-tarefa composta pelos cabeças da CIA e do FBI, alguns generais, consultores privados e duas figurinhas clássicas do governo americano na Marvel, Henry Peter Gyrich e Valerie Cooper. A tal Comissão é responsável por avaliar e regulamentar as ações de super seres nos EUA, agindo sob ordens diretas do presidente. Foram eles que implementaram a Força Federal, aquela equipe composta por vilões de segunda dos X-men e por revogar a permissão dos Vingadores de agir em solo americano.

“Você não é Capitão Vingador, Capitão Escudo ou Capitão Solo… é o CAPETÃO AMÉRICA!”

Os caras jogam um bocado de “papo de advogado” em cima de Steve Rogers para convencê-lo, através de medidas legais, a abandonar os Vingadores e se realistar como “mascote” e operativo exclusivo do exército americano. Coisas do tipo, que foi o exército que criou o soro do super soldado, ou que ele nunca foi desligado da corporação porque desapareceu, mas nunca foi dado como morto, etc. etc. O lance é que o governo manda um “a gente criou você, o seu escudo, o seu nome, então somos os seus donos” e lançam um ultimato: Ou Steve Rogers volta a ser um soldado servindo ao exército, ou tchau e benção! 

Rogers então volta para sua casa e começa a ponderar as implicações de abrir mão de sua liberdade como um agente independente, ou de continuar servindo ao seu país, mas agora de acordo com ordens de terceiros, e não sua moral. Enquanto isso, o Superpatriota age contra o tal terrorista no monumento de Washington, derrota o cara e resgata a bomba nuclear. No dia seguinte ele está em todos os jornais e Steve volta ao Pentágono para comunicar à Comissão sua decisão de deixar de ser o Capitão América.

Amigo, eu vou fingir que eu nem li isso, viu?

Prontamente, os membros da Comissão discutem qual seria o substituto ideal. São listados soldados como Bazuca e G.I. Max, o coronel Nick Fury, bem como os parceiros de Steve Rogers, Jack Monroe (o Nômade) e Sam Wilson (o Falcão). Tem até um momento curioso (pra não dizer racista) onde um general da Comissão fala sobre Sam Wilson e comenta logo em seguida “não acho que o país esteja preparado para um Capitão América negro”… E dada a controvérsia gerada pela fase do herói como o Sentinela da Liberdade em 2014, parece que até hoje é assim, infelizmente. Depois de analisados cada um deles, o cargo é oferecido ao Superpatriota, que aceita sem pestanejar.

As duas histórias seguintes que compõem o mix, são das edições #333 e #334 de Captain America, e são basicamente duas edições mostrando o treinamento de Walker para “não fazer feio” em suas missões. Elas mostram que apesar da super força, ele não tem a mesma habilidade, nem a mesma estratégia de combate que seu antecessor. Mostra também que dentre os seus parceiros, os Buckies, apenas um foi selecionado pelo governo para trabalhar ao seu lado: Lemar Hoskins, que viria a se tornar depois o herói Estrela Negra

O nome do cara em inglês é “Battlestar”, mas em português ele vira o Estrela… Negra?

Inicialmente, Walker tem dificuldades para enfrentar a Força Federal e, apesar de derrotar Avalanche e Pyro, ele quase é sufocado pelo Blob. Depois disso ele e seu parceiro tomam um cacete de quatros soldados usando armaduras dos Guardiões da Gruta. Além disso, em diversos treinos ele falha miseravelmente em utilizar o escudo da mesma forma que Steve Rogers, lançando-o ou forte demais (e arrancando os braços dos seus alvos robôs) ou não sabendo fazê-lo ricochetear de volta para suas mãos. Ao fim da história, o governo utiliza os serviços do mercenário Treinador, para ensinar o novo Capitão a segurar seu escudo.

Tudo isso em preparação de sua primeira missão, que viria apenas na edição seguinte.

As capas americanas do início da nova fase.

Tô LendoPontos Fortes
  • Desenhos. Ainda é anos 80, tecnicamente, né? Então o traço do Tom Morgan ainda era muito preso ao “Marvel Way” e tinha muito menos personalidade do que na época do Justiceiro 2099. Mas não compromete. É bem bacana.
  • Política. É um jeito maneiro de distanciar o Capitão América de algumas das ações mais, digamos, “questionáveis” do governo americano. E fazer dele um herói mais amplo, de certa forma. Em determinado momento, ele diz que “não deve representar o governo americano, pois essa é a função do presidente”, mas que “deve representar o povo americano”. E isso meio que estabelece que apesar de estampar uma bandeira no peito, ele possui uma moral e conduta além das ordens do governo…
Tô LendoPontos Meh
  • Anos 90. É o básico das reformulações dessa época, né? Como essa história é de 1988, podemos dizer que o Capitão América foi um dos primeiros heróis a entrar nessa onda de desconstrução. Obviamente, seu substituto teria que ser um cara bem-intencionado, mas inexperiente e que acaba se tornando mais violento que a versão original. A gente veria reformulações nos anos seguintes, com Batman, o Super-Homem e a Mulher-Maravilha, por exemplo, que seguiram caminhos bem semelhantes.
  • História. Apesar de fazer tudo ao seu tempo, as histórias são meio demoradas. A fase deslancha mesmo a partir da primeira missão, que fica de fora dessa edição infelizmente.

Roupa velha e roupa nova!

No fim, Steve Rogers assumiu um uniforme parecido com o seu antigo, mas preto, e um escudo criado por Tony Stark para se tornar apenas o Capitão. Foi nessa época, inclusive, que ele levantou o martelo do Thor pela primeira vez! Mas como nada nos quadrinhos é para sempre, ele logo depois recuperou sua roupa de bandeira e John Walker se tratou e acabou se tornando o herói Agente Americano, fez parte dos Vingadores da Costa Oeste e lançou uma marca de uísque.

E você? Lembra dessa fase? Tem alguma outra fase preferida do Capitão América? É um dos três fãs do Agente Americano? Diz aí nos comentários.


Capitão América #151 vale três rebobinandos. 📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.