Rebobinando #148: Dinastia M

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Encerrando o especial da Rebobinando sobre a Feiticeira Escarlate e o Visão, a Rebobinando de hoje relembra uma das histórias que mostra a real extensão dos poderes de alterar a realidade de Wanda Maximoff. Vamos rebobinar Dinastia M.

Na boa, quem deixou esse cara tomar conta duma ESCOLA?

Em 2005, um ano após os eventos de Vingadores: A Queda, o escritor Brian Michael Bendis deu continuidade à história envolvendo o surto da Feiticeira Escarlate depois de descobrir que seus filhos foram apagados da realidade. Nos EUA o enredo foi publicado em uma minissérie em oito partes lançadas por lá entre junho e novembro daquele ano. Aqui no Brasil, ela saiu em quatro edições pela Panini Comics em 2006, além de duas reedições encadernadas, uma em 2009 e outra, de luxo, em 2015.

Bendis já havia introduzido os seus Novos Vingadores logo após “desmontar” a equipe original, e trouxe membros que já haviam até participado do grupo em momentos anteriores, mas nunca num status de “membro permanente”, com carteirinhas e tal (eu sempre acho incrível que os Vingadores funcionem tipo uma empresa, com todo mundo carregando uma carteirinha ou um crachá com foto na carteira, metida em algum bolso do uniforme). Dessa forma, junto com os clássicos Capitão América e Homem-de-Ferro, nós tínhamos os “heróis do povo” Luke Cage e Homem-Aranha; a espiã do coração de Bendis, Jessica Drew, a Mulher-Aranha; e o pau-para-toda-obra, o baixinho canadense mais amado do mundo, Wolverine

Os novos velhos novos Vingadores.

UNIVERSO ALTERADO

Dinastia M mudou não só o universo Marvel, mas a editora Marvel como um todo. Vamos lembrar que tínhamos saído há pouco tempo dos famigerados anos 90, uma época que muitos fãs de quadrinhos buscam esquecer. Bill Jemas e Joe Quesada passaram boa parte do início dos anos 2000 tentando reformular a Casa das Ideias e seus heróis individualmente, deixando de lado os mega eventos de verão, tão frequentes na década anterior. Dessa forma, vários heróis estavam com equipes criativas novas e intrigantes no início da década, como J. Michael Straczynski em Homem-Aranha, Grant Morrison em X-men e Warren Ellis em Justiceiro, entre outros. Bendis já estava galgando degraus como uma das maiores estrelas da editora depois de lançar a detetive Jessica Jones em ALIAS pelo selo Marvel Max, e de ser o responsável pelo ultiverso com o Homem-Aranha Ultimate

Para todos os efeitos, Dinastia M era o grande evento da Marvel em muitos anos. E como nessa época a internet ainda engatinhava no aspecto de redes sociais, esse evento foi um dos primeiros com uma publicidade quase exclusiva da rede mundial de computadores. Bendis, em entrevista, GARANTIU que a mini iria “quebrar a internet” bem no meio com suas revelações. E gerou muita, mas muita especulação mesmo, coisa que hoje em dia a gente faz com os filmes e séries do MCU, sabe? Naquela época a gente fazia com QUADRINHOS DE VERDADE, viu?! Além disso, sabe como a gente diz que todo o grande evento anuncia que “NADA MAIS SERÁ COMO ANTES” só para tudo voltar ao normal na semana seguinte? Pois é. A mini fugiu um pouco dessa regra porque muitas das coisas que foram apresentadas nela tiveram um impacto gigante nas histórias da editora por anos a fio. 

As flechas dão a dica, até o Gavião quebrar a internet no fim da edição!

E não só isso, ela abriu as portas para uma fórmula de grandes eventos que foi aproveitada por muito tempo. Acontece que no início da história, antes da Feiticeira Escarlate alterar o mundo inteiro, nós vemos Vingadores e X-men debatendo o que fazer com ela. Nós vemos a tensão entre os heróis crescer em meio a questões do tipo “devemos matar a Wanda?”, ou “devemos apenas contê-la?”. E se ela for contida, quem vai tomar conta da heroína? Os mutantes, sua raça? Ou os Vingadores, sua família? Quem ajuda? Quem atrapalha? E nessa divisão a fórmula de eventos da Marvel se fez, introduzindo alguma questão ética que escancarava diferenças fundamentais entre dois grupos de heróis, e às quais eles iriam precisar resolver, geralmente depois de muita porrada. Daí tivemos sucessos como Guerra Civil, Hulk Contra o Mundo e, claro, Vingadores vs. X-men

Além disso, também tivemos os famosos (ou famigerados) tie-ins. Assim como um clássico dos anos 90, A Era do Apocalipse, Dinastia M afetou todas as revistas da editora, pelo menos as dos heróis diretamente envolvidos com a trama. Novas revistas foram lançadas durante os cinco meses de publicação da minissérie e, enquanto elas não avançavam o plot da história principal, elas faziam uma espécie de world-building, expandindo o universo. Isso ficava a cargo dos fãs que quisessem ter uma ideia melhor daquela nova ambientação, mas não era estritamente necessário acompanhar. Aqui no Brasil essas histórias saíram no mix das revistas da época:

  • Poderosos Vingadores #32 a #34
  • Universo Marvel #15 a #18
  • X-men Extra #57 a #60
  • Homem-Aranha #58 e #59
  • Wolverine #23 e #24
  • X-Men #58 e #59
  • Demolidor #34
  • Marvel Apresenta #27

É nesse contexto de mudar o mundo de verdade que a gente agora entra na história da mini.

Será que a Caras do Magneto vem com prataria de brinde?

A DINASTIA DE MAGNUS

A história começa com Charles Xavier fazendo um tipo de terapia psíquica com Wanda Maximoff, a Feiticeira Escarlate. Como o Xavier é telepata e não psicólogo, eu acho o método dele meio agressivo para lidar com alguém que perdeu a noção da realidade. Enfim, ele passa por maus bocados ao tentar convencer Wanda de que ela nunca teve filhos “de verdade” e depois vai conversar com Magneto sobre a situação de sua filha. Charles confessa a seu antigo “aminimigo” (ou frenemy) que está perdido e não sabe o que fazer.

Ele leva a questão aos Vingadores e chama os X-Men para a conversa porque, apesar do fato da Feiticeira Escarlate ser uma heroína conhecida por atuar ao lado dos maiores heróis da Terra, ela também é uma mutante. Assim, se o público geral descobrir que uma mutante foi responsável pelo fim dos Vingadores, isso causaria uma reação muito indesejada à toda população detentora do gene X. Na torre dos Vingadores, a tensão escala quando Emma Frost e Wolverine propõe, de cara, que eles devem matar Wanda logo de uma vez.

Vingadores vs X-men, o debate.

Magnum, Carol Danvers e Capitão América são estritamente contra e ponderam sobre todas as possibilidades, antes de precisarem recorrer a uma execução sumária. Na verdade, eles sequer consideram a execução de Wanda como uma opção viável, e buscam no próprio Xavier e no Dr. Estranho outros métodos para resolver a questão. No fim, eles concordam que nenhuma decisão deve ser tomada sem que eles conversem e vejam como a Feiticeira está, com seus próprios olhos. 

Vingadores e X-men se dirigem à Genosha, uma nação mutante outrora promissora, mas que havia sido totalmente destruída em uma invasão de Sentinelas. Quando os heróis chegam no local, eles percebem que a Feiticeira Escarlate foi retirada do local e, ao saírem em busca dela, eles são levados à uma igreja no meio da cidade. Acompanhamos então o Homem-Aranha entrando no local com todo o cuidado do mundo, por conta do seu sentido de aranha, quando de repente a página do gibi dá uma de “zero hora” e parece queimar por dentro, ficando toda branca. A página final da primeira edição mostra Peter Parker acordando na cama, em casa, ao lado da esposa. Ele se levanta da cama e nós vemos uma foto do seu casamento na cabeceira, só que ao invés de Mary Jane (na época ele ainda estava casado), sua esposa é Gwen Stacy.

Vai um trauma aí, seu Parker?

A edição seguinte abre com vários heróis acordando em novas vidas: Scott Summers e Emma Frost, Stephen Strange, o Sentinela, Steve Rogers, etc. vemos também Wolverine acordando e tendo flashes de memória da sua vida inteira. Não só isso, ele acorda como um comandante da SHIELD e ao lado de Jean Grey! Logo descobrimos que não era Jean, mas a mutante Mística, e que Wolverine parece se lembrar de todos os eventos antes dele acordar nesse novo mundo, cheio de mutantes, sentinelas que se parecem com o Magneto e aeroportaviões com um “M” estilizado na lataria.

O fato de Logan se lembrar de tudo é um ponto do plot que vai se mostrar necessário para o desenvolvimento da trama. De maneira resumida, porque há muitas reviravoltas na história, Wolverine foge da SHIELD por saber que tem algo estranho envolvendo a Feiticeira Escarlate, Magneto e esse novo mundo e vai atrás de pessoas que ele conhece: Xavier, Peter Parker e Tony Stark. Sem sucesso, ele acaba sendo cooptado por um grupo de “rebeldes” que lutam contra a descriminação que humanos (chamados de sapiens nessa nova realidade) sofrem na mão da maioria mutante. Heróis como Manto, Luke Cage, Misty Knight, Punho-de-Ferro e Gata Negra fazem parte desse grupo e apresentam a Wolverine uma misteriosa menina chamada Layla Miller, que possui a mesma versão dos fatos que ele. Logan logo descobre também que além desses heróis, um outro vingador, queridinho do público, está vivo e bem: Gavião Arqueiro.

Laaaaayla / Got me on my knees, Layla / Begging darlin’ please, Layla…

A menina Layla revela que também possui poderes e, segundo a wikipedia ela possui poderes de precognição e de “saber coisas”. Mas graças a essa indefinição de poderes, ela é capaz de “acordar” os heróis que não fazem ideia de que estão vivendo em uma realidade alterada. Pelas edições seguintes eles vão recrutando e acordando outros heróis envolvidos no caso, entre eles o próprio Homem-Aranha. Enfim, o caso é que muitos perceberam que nessa realidade da Dinastia M, todos eles estavam vivendo vidas felizes, coisas que nunca tiveram, ou ainda vivendo de acordo com seus sonhos mais profundos. A maioria soube lidar muito bem com a descoberta de que estão vivendo um mundo irreal, porém no caso do Aranha, isso tem um peso muito maior.

Aparentemente, a “vida ideal” de Peter girava em torno de não perder seus entes queridos, obviamente. Então no melhor estilo “Para o Homem Que Tem Tudo” (uma história do Alan Moore para o Superman), Peter nunca perdeu o tio Ben, e ainda se casou com Gwen Stacy e teve um filho com ela, o pequeno Richard. Como os poderes de Layla “despertam” os heróis para essa realidade falsa, mas não apaga suas memórias novas, Peter sofre com a sobreposição de memórias de sua vida antiga e nova. Dentre todos os heróis, ele parece ser o mais abalado de todos pelo evento. Ao ponto dele desejar matar, por conta própria, Wanda e Magneto.

Taí o que o povo quer ver: PORRADA!

Liderados por Ciclope, os heróis planejam uma invasão à Fortaleza de Magnus para encontrar Wanda e Xavier, para tentar fazer com que tudo volte ao normal! Em meio à luta com figuras como Namor, Tempestade, Pantera Negra e Victor Von Doom, além do próprio Magneto e seus filhos, Mercúrio e Polaris, os heróis descobrem que Xavier está morto (ou desaparecido, pelo menos) e que Wanda está a par de todos os acontecimentos. O Doutor Estranho tenta conversar com ela e fazê-la mudar de ideia, mas descobre que na verdade, há OUTRA PESSOA por trás da “Dinastia M”.

Veja só, como todos os heróis conseguiram os seus desejos mais profundos, eles imaginaram que o próprio Magneto havia convencido sua filha a mudar o mundo e torná-lo rei dessa nova realidade. Só que na verdade, não foi Magnus quem a convenceu e sim seu irmão Pietro Maximoff, o Mercúrio! Com medo de que sua irmã fosse assassinada pelos próprios amigos, ele sugeriu que ela utilizasse o poder combinado dela e do Professor Xavier para descobrir o que cada um deles mais queria na vida e montasse uma realidade onde todos estivessem felizes, quase como a “Matrix”, para que ninguém pudesse querer voltar as coisas como eram antes.

O clã de Magnus.

Quando a verdade é revelada, Layla usa o seu poder e acorda todos os envolvidos, inclusive Magneto, que fica verdadeiramente emputecido com o filho pelo que ele fez. O mestre do magnetismo dá uma surra de sentinelas em Mercúrio deixando-o à beira da morte. Wanda se compadece do irmão e diz que criou essa nova realidade para que todos juntos pudessem formar uma família, mas que Magneto sempre preferiu sua própria luta, sua cruzada em nome dos mutantes em vez de sua própria família. Então por isso, em vez de dar a ele o que ele mais quis, um mundo onde os mutantes governam, ela iria tirar dele o que ele sempre quis. E com isso ela diz as palavras mais temidas por toda uma raça: “sem mutantes”.

Terapia, Wanda. Era só fazer terapia.

Tô LendoPontos Fortes
  • História. Acho Dinastia M uma história incrível, na verdade. Os riscos são altos, os ganchos no fim de cada edição são empolgantes e, como eu disse em outra rebobinando, o Bendis trouxe uma estrutura de série de tv para os quadrinhos que deixou tudo mais interessante. É um gibi difícil de parar de ler quando você começa.
  • Desenhos. A arte do Olivier Coipel é linda! Todo mundo bem proporcional e eu acho que ele trabalha diretamente com referência por foto em várias cenas, porque todo mundo tá sempre tão proporcionalzinho, sei lá. Acho difícil encontrar uma arte tipo a dele por aí, gosto muito.
  • Consequências. Foram longas enquanto duraram. O “no more mutants” ficou conhecido na editora depois como o Dia M, onde a maioria dos mutantes perdeu seus poderes, deixando apenas uns 200 no total, uma verdadeira minoria. Isso gerou todo um novo status quo para os X-men, que perdurou até 2012, com a saga Vingadores vs. X-men.
Tô LendoPontos Meh
  • Mutantes. Apesar do novo status quo interessante, isso significou que muitos mutantes conhecidos perderam seus poderes após a Dia M. Entre eles alguns favoritos dos fãs como Homem de Gelo, Jubileu, Magneto e Professor X, assim como outros que ninguém liga, tipo o Câmara, Blob, Solaris e Dani Moonstar. O fato é que tirando Magneto e Xavier nenhum mutante realmente “popular” ou “de grande porte” foi afetado pelo evento.
  • Tie-ins. É uma jogada de marketing da qual eu não sou muito fã, e já caí muito nessa lorota. Em geral as grandes sagas se espalhavam apenas pelas revistas de linha e, quando muito, tinham um impacto numa ou outra história de outra linha. Com Dinastia M vários gibis entraram na onda do tie-in e nem sempre a história era necessária para se compreender a trama principal. Pode até ser interessante por um lado, mas por outro, você fica com toneladas de gibis inúteis (ou às vezes só ruins) que poderia passar sem.

As capas brasileiras da mini e das edições encadernadas.

Uma adição interessante ao universo Marvel, porém, foi a personagem da Layla Miller que tem uma história no mínimo curiosa, bem típica das confusões de quadrinhos às quais estamos acostumados. A personagem foi criada por Bendis e Coipel, mas só foi desenvolvida mesmo por Peter David nas histórias do X-Factor. Ela se une ao grupo de Jamie Maddrox, o Homem-Múltiplo na agência X-Factor Investigations e seus poderes acabam sendo mais definidos apenas do que “saber coisas” e precognição.

Ela é basicamente uma mistura do Cable com o Bishop… Cashop? Bible?

Durante a saga dos Complexo de Messias, o Homem-Múltiplo manda cópias de si mesmo para diferentes futuros e realidades, para coletar informações. Layla vai junto com uma das cópias, escondida, e fica presa num desses futuros (para azar dela foi um dos futuros apocalípticos). Ela passa a ajudar mutantes a escapar de campos de concentração e descobre que tem o poder de ressuscitar pessoas, muito embora isso custe “a alma” da pessoa, fazendo com que ela perca empatia e vire basicamente um sociopata (poder “sensa” esse, hein?). Já adulta, ela acaba fazendo amizade com um velho Doutor Destino, que consegue enviá-la de volta no tempo, antes dos eventos de Dinastia M. Daí ela encontra a si mesma ainda criança e faz um upload de suas próprias memórias no cérebro de seu “eu” criança, justificando todo o lenga-lenga do poder dela de “saber coisas” e garantindo sua sobrevivência na minissérie.

Ela se aposentou depois de um tempo trabalhando com o Doutor Destino do presente e de algumas aventuras com o X-Factor Investigations. De vez em quando ajuda os X-men quando eles precisam de alguma coisa. Mas no geral ela virou só mais um personagem na gaveta da editora, junto com tantos outros.

As incríveis artes de Esad Ribic para as capas americanas da mini.

No fim, acho que o único ponto que realmente mudou tudo o que nós conhecíamos na época foi a revelação do passado de Wolverine. Algo que, francamente, depois dos anos 90 ninguém aguentava mais. Pelo menos permitiu a criação de novas histórias do passado do mutante, sem a gente se preocupar se aquilo era uma memória implantada, ou não.

E você? Já leu Dinastia M? Tem alguma outra saga da Marvel nos anos 2000 que você acha mais irada que essa? Conta aí nos comentários.


Dinastia M vale cinco rebobinandos.📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2021-02-10T17:52:41+00:00 8 de fevereiro de 2021|0 Comentários