Rebobinando #147: Vingadores – A Queda

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Quem nunca acordou um dia de ovo virado e teve vontade de mandar tudo pelos ares? Pois é, mas se você é uma poderosa bruxa que controla a magia do caos, isso pode causar grandes problemas para todo o mundo. A Rebobinando de hoje é sobre Vingadores: A Queda.

Lindo casal, mas problemas caóticos.

Continuamos com a saga da Feiticeira Escarlate e do Visão. Dessa vez, porém, o foco é bem maior em Wanda Maximoff e em como ela, sozinha, fez algo que muitos vilões tentaram ao longo dos anos, sem sucesso: Destruir os Vingadores! 

Isso ocorreu como um mega evento em 2004, celebrando a edição de número #500 de Avengers, nos EUA. Precisamos lembrar que no início dos anos 2000 Brian Michael Bendis era o nome mais quente da indústria de quadrinhos americana, escrevendo toneladas de gibis mensais por mês e, de certa forma, revolucionando até mesmo a forma de contar histórias nesse formato. Alçado ao estrelato pelo seu excelente trabalho na linha Ultimate com o carro-chefe Ultimate Spider-Man (2001), era apenas uma questão de tempo até que a Marvel desse a ele um dos maiores grupos de heróis dos quadrinhos para escrever.

As capas americanas do arco de histórias.

Dessa forma, antes de assumir por completo o título com carta livre para selecionar o elenco, Bendis raciocinou que seria preciso “desarrumar” a casa antes de colocá-la em ordem. Para tanto, com a história, ele eliminou alguns Vingadores clássicos (o que causou muita controvérsia na época) e simplesmente debandou o grupo no final, abrindo caminho para uma nova formação (o que causou AINDA MAIS controvérsia na época). Não à toa a história ficou conhecida como “Avengers Disassembled”, fazendo alusão ao conhecido grito de guerra do grupo “Avengers, Assemble”, que significa em tradução literal “Vingadores Unam-se” (ou “unamo-nos”?) (ai, o português). Aqui no Brasil, ao invés de ficar como “Vingadores Desunidos”, ou “desmontados”, a tradução optou por usar o sentido contrário de “avante” e apelidou a saga de “Vingadores: A Queda”. Também por aqui, a história saiu no mix de Os Poderosos Vingadores, a partir do número #21, em 2005. Além disso, ela já saiu inteiramente compilada em edições encadernadas da Salvat (2013) e da Panini (2008 e 2018).

Tudo culpa da Janet e do “papo de mulher”.

GATILHO CAÓTICO

Não que seja extremamente necessário, mas eu sou chato e detalhista então eu vou seguir por esse caminho… Para entender bem o que acontece aqui em Disassembled, eu acho importante entender primeiro o que levou à Feiticeira Escarlate a surtar e atacar seus próprios amigos. Bendis faz um bom trabalho de resumo na própria saga, mas ele simplifica alguns pontos só o suficiente para não ter que perder tempo demais com flashbacks extensos (VIU SÓ, STEVE ENGLEHART?).

Nas últimas duas colunas da Rebobinando nós vimos o passado de Wanda e Visão, desde o seu casamento até a vida no subúrbio. Porém, graças ao trabalho da tesoura da Abril Jovem, muitas das histórias relativas ao nascimento dos filhos da Feiticeira Escarlate não foram publicadas. Como por exemplo a história onde eles são efetivamente concebidos e o seu nascimento. Lançada em 1985 nos EUA em uma minissérie mensal em 12 partes intitulada (adivinha?) The Vision and The Scarlet Witch, nós acompanhamos as aventuras do casal durante um ano inteiro, desde que eles se demitem dos Vingadores (mais uma vez) e vão morar no subúrbio (mais uma vez), numa cidadezinha chamada Leonia em Nova Jersey. A mini não é lá essas coisas, mas tem seus momentos.

Concepção artificial, quase que literalmente.

O destaque fica mesmo por uma aventura que os dois têm em uma cidade chamada Nova Salem onde vivem os descendentes da bruxa Agatha Harkness. Lá, todos os habitantes possuem super-poderes e pretendem usar Visão e os poderes de Wanda em um ritual satânico para o demônio Mefisto. Obviamente tudo dá errado porque os heróis impedem o ritual de acontecer e Agatha, mesmo tendo morrido no início da história, ajuda Wanda a redirecionar um surto de energia mágica para destruir a cidade e o templo. Ao final, essa energia redirecionada é o que faz com que Wanda fique grávida. 

O interessante é como essa revelação aparece como algo perfeitamente normal para todo mundo! Mesmo que o Visão seja um “sintozóide” e não um mero “robô” (tipo, ele tem uma consciência humana real em um corpo sintético que é idêntico a um corpo orgânico, exceto pelo, er, material usado). Ninguém nem pisca duas vezes quando Wanda revela estar grávida num passe de mágica, literalmente! A mini termina com os bebês nascendo e surpreendendo todo mundo, incluindo o médico obstetra, que é ninguém menos do que o Doutor Estranho.

Taí um parto ESTRANHO, DOUTOR! Hein? Hein?

Infelizmente, não encontrei nenhuma referência à publicação dessas histórias no Brasil, mas você pode procurar por edições americanas para conferir. O que saiu por aqui, no entanto, foram duas histórias relacionadas à natureza dos filhos de Wanda! Em Superalmanaque Marvel #1 há uma história do Quarteto Fantástico enfrentando o demônio Mefisto que, ao ser derrotado pelo pequeno Franklin Richards, tem sua alma feita em pedaços que são espalhados pelo mundo.

Após isso, em Capitão América #170-171 os Vingadores da Costa Oeste enfrentam um vilão chamado Mestre Pandemônio, um super executivo que vendeu a alma à Mefisto para poder recuperar partes do seu corpo depois de um acidente. O vilão rapta os filhos de Wanda para usar o poder mágico de ambos (já que eles foram gerados através de magia) para se fortalecer. Como Wanda não era capaz de criar vida do nada, a história dá a entender que ela canalizou a alma fragmentada do Mestre do Pandemônio para criar as duas crianças. Mas como nós sabemos que a gravidez surgiu ao derrotar uma cidade que prosperava através de sacrifícios a Mefisto, não é difícil somar dois mais dois e saber de quem eram os fragmentos de alma que ela usou, né?

No fim das contas os filhos da Wanda são filhos do sete pele, do coisa ruim, do rabo de seta, do cabrunco…

Pois é. As duas crianças só existem quando Wanda está conscientemente pensando nelas e suas almas são partes da alma do demo, que família! Agatha Harkness então salva os Vingadores das mãos de Mefisto usando a própria Feiticeira Escarlate para canalizar seus poderes mágicos. O demônio desaparece, Wanda desmaia e todo mundo volta ao QG como se nada tivesse acontecido. O lance é que Agatha conseguiu derrotar Mefisto por “sorte” e com isso, as crianças desapareceram para sempre… para poupar sua discípula, a velha bruxa apaga todas as memórias relativas aos seus filhos da mente da Feiticeira. No entanto, os outros Vingadores lembram muito bem o que aconteceu….

Agatha Harkness explica tudo tintin por tintin, no melhor estilo Claremont.

A QUEDA

A história começa de uma maneira bem Bendisnesca, com os heróis lanchando e batendo papo sobre discussões típicas de um grupo de nerds (no caso, qual supervilã você pegaria?). Contudo, essa discussão super importante é interrompida pelo cadáver do herói Valete de Copas batendo na porta da mansão dos Vingadores. Todos se assustam e o atual Homem-Formiga, Scott Lang, vai até a porta conversar com o falecido zumbificado amigo. O que ninguém esperava era que o Valete de Copas explodisse levando tudo ao seu redor pelos ares, inclusive o Homem-Formiga, que morre na hora

Devastados, os heróis restantes ativam o que chamam de código branco e vão buscar saber o que aconteceu. Ao mesmo tempo, na sede da ONU, Tony Stark, o Homem de Ferro, está para dar início a um discurso como secretário de segurança dos EUA. Antes de começar, ele para por um instante e passa a ameaçar o embaixador da Latvéria e quase mata o infeliz no meio da reunião. Ele diz que se sente bêbado, mas que não havia tomado nenhuma bebida alcoólica há anos, mas ninguém acredita. 

BUM! Lá vai o Homem-Formiga ser enterrado no açucareiro…

Em seguida, todos os Vingadores ativos no momento se reúnem na mansão para averiguar os danos, entre os heróis vemos o Capitão América, Vespa, Gavião Arqueiro e Carol Danvers (que na época usava o codinome Warbird). Enquanto conversavam sobre o que tinha acontecido e o que pode estar por trás disso, um quinjet vem voando baixo e em alta velocidade trazendo o herói Visão. Todos percebem tarde demais que ele não pretendia pousar e sim fazer um ataque kamikaze na mansão, explodindo a nave e parte do prédio. Vespa é atingida e fica em coma, enquanto Visão surge dos escombros alegando que sente muito pelo que ele está prestes a fazer, já que ele infelizmente consegue manter sua mente intacta, mas não é capaz de controlar o próprio corpo.

Atônitos e sem reação os Vingadores só podem observar quando Visão cospe cinco esferas metálicas que se transformam em versões do vilão Ultron. Uma nova batalha tem início e, com muita dificuldade, os heróis conseguem derrotar os robôs, porém a  Mulher-Hulk parece perder a calma com os constantes ataques e as mortes sem sentido… ela começa a aumentar de tamanho e num surto de raiva rasga o sintozóide ao meio! Devastados, só resta aos maiores heróis da Terra se reagrupar em um hospital próximo e tentar entender o que está acontecendo.

E o Visão tava meio dividido entre atacar e alertar os Vingadores.

Em meio a diversas teorias, os heróis discutem (em geral sobre o fato de Tony estar sóbrio ou não) e o Gavião Arqueiro aponta que esse é um dia excepcionalmente ruim para eles e que era algo que ia acontecer uma hora ou outra, já que eles são pessoas excepcionais que lidam com situações excepcionais. A teoria de que tudo não passa de “um dia ruim” na vida deles não tem muito espaço já que logo em seguida eles voltam à mansão para encontrar todos os heróis que já fizeram parte dos Vingadores (oficial ou honorariamente) prontos para ajudar. Até mesmo a SHIELD e Nick Fury apareceram, o que foi uma coisa boa já que logo em seguida todos precisam enfrentar uma frota espacial Kree atacando a mansão. E toma-lhe dia ruim, viu? A próxima baixa da equipe é um dos queridinhos dos fãs, o Gavião Arqueiro se sacrifica levando um punhado de soldados kree para dentro de uma das naves e explodindo.

‘Cause you had a bad day / You’re taking one down / You sing a sad song just to turn it around…

Em meio à sensação de derrota sem fim, o próximo herói que vem para uma, er, visita de médico é o próprio Doutor Estranho, através de uma projeção astral. Ele joga umas verdades para todo mundo ali com relação à própria natureza dos poderes da Feiticeira Escarlate e em como tudo o que aconteceu até o momento foi fruto de magia sendo usada sem controle. O Mago Supremo consegue rastrear a magia de Wanda e a encontra em casa, com seu “marido”, seu “irmão” e seus “filhos” sentados em volta de uma mesa. Claramente perturbada, ela avança mais uma vez contra os Vingadores mas é impedida pelo Doutor Estranho que ataca sua mente. 

Wanda então sofre um colapso e cai, catatônica, ao chão. Stephen Strange lamenta dizendo que não havia outra opção e, enquanto todos se perguntam o que vão fazer com ela agora, Magneto surge e a leva embora para um local desconhecido. Finalmente o pai pródigo retorna para tomar conta de sua filha.

Magneto chega pra passar pano pra filha.

Tô LendoPontos Fortes
  • Drama. Essa é uma das forças do Bendis, né? O cara basicamente trouxe a estrutura de roteiro de seriados para os quadrinhos e trouxe uma carga de drama para uma história que literalmente virou os Vingadores ao contrário.
  • Futuro. Depois de Disassembled, os vingadores entraram em uma nova fase, Os Novos Vingadores com uma equipe um pouco mais diversa e com grandes protagonistas do universo 616. Houve muito choro e ranger de dentes, eu me lembro, com a escalação do Aranha e do Wolverine, mas tudo funcionou muito bem. Depois tivemos novas sagas que seguraram essa nova Marvel durante os anos 2000, trazendo um pouco de “consequências reais” para a editora, como Dinastia M e Guerra Civil.
  • Roteiro. Há quem não goste, mas eu adoro o Bendis. Ultimate Spider-Man foi um dos gibis que eu mais acompanhei na vida, se não me engano e adoro o estilo de bate papo dele.
Tô LendoPontos Meh
  • Desenhos. É pura birra minha, mas eu não curto os desenhos do David Finch. Chocante, eu sei, mas acho tudo meio detalhado demais, todo mundo fala fazendo biquinho, com olhinhos apertados. Se não fossem os uniformes, seria até difícil distinguir quem é quem. Não à toa ele desenhou outra história que devastou um universo alternativo inteiro, mas com o roteiro de alguém bem menos competente que o Bendis.
  • Choque pelo Choque. Apesar de curtir o Bendis, me irrita um pouco esse lance de matar personagens só para mostrar que a história é “séria”. É diferente ler algo do tipo em um Game of Thrones da vida, mas nos quadrinhos a gente sabe que nada é permanente, ainda mais a morte. Então sair eliminando gente como o Visão ou o Gavião Arqueiro acaba sendo meio vazio quando a gente sabe que os personagens voltam menos de um ano depois.

As mil faces de Wanda.

No fim das contas, um dos grandes méritos de Vingadores: A Queda é amarrar as pontas de uma história super doida que vem sendo contada desde os idos dos anos 70, mas que faz super sentido se você parar para pensar que o autor de maior parte dela, Steve Englehart, tava usando LSD direto na época. 😜 Além disso, um outro mérito para mim, é amarrar com Dinastia M e resolver de uma vez um dos maiores mistérios da editora: o passado de Wolverine.

A cronologia da concepção dos filhos de Wanda Maximoff, que é menos bem pornográfico do que parece.

Se você nunca leu essa história, no entanto, eu acho bacana dar uma olhada, nem que seja como uma forma de preparação para o seriado Wandavision, porque apresenta muito bem o alto nível de poder da Feiticeira Escarlate e o quanto ela pode ser perigosa depois de um surto. Se você é fã da personagem no MCU, vale a pena correr atrás de algumas das histórias mencionadas aqui.


Vingadores: A Queda vale três rebobinandos. 📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2021-02-02T02:13:03+00:00 2 de fevereiro de 2021|0 Comentários