Nerd adora reclamar. Quando resolvem trocar os heróis deles, então? Sai de baixo! Novo Batman, novo Homem-Aranha, nova Mulher-Maravilha? Essas trocas nunca duram muito e, como prova, os anos 90 foram cheios delas. Vamos rebobinar a Nova Mulher-Maravilha dos anos 90: Ártemis!

Irmãs & Rivais, a nova novela da Record.

Não é segredo aqui que os anos 90 foram algo muito complicado para os quadrinhos. Entre mortes, crepúsculos e clones, teve de tudo na tentativa de renovar o interesse em personagens de longa data, em geral substituindo-os com versões mais jovens, radicais e agressivas.Isso foi particularmente verdade para a Mulher-Maravilha, que viu o seu título de amazona ser destituído por sua própria mãe e entregue a uma rival, chamada Ártemis.

A troca gerou muita controvérsia em 1994, claro, pelo fato de ser mais uma mudança buscando uma alavancada nas vendas. Mas aqui no Brasil ela foi um pouco mais celebrada por conta da chegada de um artista que redefiniu as amazonas para uma geração de jovens punhet… ops, ansiosos para ver o novo design das guerreiras de Themyscira: o brasileiro Mike Deodato Jr. Ele era um desenhista recente no mercado, que chamou a atenção das editoras ao apresentar um trabalho fotorrealista no gibi que adaptava o seriado televisivo da Bela e a Fera.

Um dos primeiros trabalhos do Deodato também vale uma Rebobinando.

O estilo de Deodato no gibi da Mulher-Maravilha emulava um pouco o estilo que havia ganhado os gibis da época (o do Jim Lee), mas sua quadrinização era bem diferente do habitual. Os veículos jornalísticos do Brasil creditavam o sucesso do desenhista à impressão das “curvas das brasileiras” nas personagens, algo que hoje em dia soa meio… piegas. Mas o fato é que ele deu às amazonas um corpo mais curvilíneo e longiníneo, com cinturas afinadíssimas e pernas do tamanho de palmeiras, sem contar os seios fartos sempre apontando para o alto.

É um estilo que tem a cara dos anos 90 e que hoje em dia é meio mal visto, na verdade, em especial por conta desse tratamento dado às mulheres. Lembro de uma entrevista em que o próprio Deodato chegou a admitir que não gostava muito de desenhar mulheres, mas sim monstros horrorosos e gigantes. O bom é ver a evolução do traço do cara ao longo dos tempos, até retornar ao estilo mais fotorrealista que ele usou nos gibis Invincible Iron Man e Dark Avengers. E as mulheres não ficaram menos bonitas por isso, mas ficaram mais proporcionais.

Deodato apresenta Juliana Paes e Vincent Cassel em: The Invincible Iron Man

A HISTÓRIA ATÉ AQUI

Um pouquinho de contexto antes da história em si. Até a chegada dessa nova Mulher-Maravilha, a ilha de Themyscira havia desaparecido do planeta Terra. Acontece que para atacar a Diana, a vilã Circe havia criado um escudo de invisibilidade ao redor da ilha paraíso que impedia a heroína de encontrá-la novamente. Então, enquanto a Mulher-Maravilha ficava perdida, à procura de seu lar por meses, a vilã pôde usar o seu poder para tentar dominar o local, influenciando uma outra tribo de amazonas que viviam lá, para atacar o reino da rainha Hipólita.

Essa outra tribo havia sido formada pela irmã de Hipólita, Antíope, que havia sido exilada séculos antes. O maior problema era que por conta disso, a tribo rival foi extirpada de sua imortalidade, o que acabou gerando mais rancor contra as outras amazonas. Àrtemis fazia parte desta tribo que era bem mais violenta e agressiva que a tribo comandada por Hipólita. As rivais então lançaram um ataque que acabou gerando uma espécie de guerra civil em Themyscira, resultando na morte de várias amazonas. Ao saber que Circe estava por trás disso, Hiipólita orquestrou um contra ataque que poderia dar fim à guerra. Mas como a vilã não sabia perder, lançou um feitiço que arrancou a ilha paraíso da Terra e a lançou em uma espécie de limbo repleta de demônios e monstros. 

Forçadas a se unirem para sobreviver e percebendo que foram enganadas por Circe, a tribo rival “fez as pazes” com o restante de Themyscira e todas trabalharam juntas para se defender… por dez anos! Quando a Mulher-Maravilha conseguiu trazer a ilha de volta, para ela havia se passado apenas alguns meses e ela ficou chocada com o quanto se passou em sua ausência.

Passaram-se dez anos, mas minha pele continua um brinco!

O DESAFIO DE ÁRTEMIS

Publicada nos EUA em Wonder Woman #90, em setembro de 1994, a história começa a partir deste ponto. Com Diana, a Mulher-Maravilha, chegando em Themyscira depois de tanto tempo à sua procura. Aqui no Brasil, as histórias chegaram em outubro de 1996, logo após a minissérie Zero Hora, e foram publicadas no mix da nova revista do Shazam (que contava com histórias do então Capitão Marvel, do Arqueiro Verde, entre outros).

Durando apenas 10 edições no EUA, toda a saga de Ártemis como Mulher-Maravilha termina na edição comemorativa do número #100. Aqui no Brasil, ela durou apenas as 12 edições da revista do Shazam, que foi cancelada logo após um ano de publicação. As quatro primeiras histórias da fase seguinte da heroína, pelas mãos de Jonh Byrne, foram então para o mix do gibi Melhores do Mundo e depois ela foi completamente esquecida pela Abril Jovem. Não é uma grande surpresa, no fim das contas. Já que o arco de Ártemis só deve ter saído com algum destaque por aqui por causa do Deodato mesmo.

A resvista Shazam e uma das poucas capas com a Mulher-Maravilha. À direita, a capa original da primeira edição do arco de histórias.

Voltando à história, Diana reencontra a ilha paraíso e as amazonas. Assim que ela chega, é atacada por alguém nas sombras, algo que a deixa muito preocupada. Ao conversar com a rainha Hipólita, Diana sente que sua mãe parece muito mais fria e distante do que o normal. Além disso, ela fica sabendo de toda a história sobre a ilha ter parado em um limbo e a revolta da tribo rival de amazonas. Hipólita então pergunta à Diana se ela conseguiu cumprir sua missão de trazer paz ao mundo dos homens e fica decepcionada ao saber que sua filha “falhou”, ao resolver “brincar de super-herói por aí” ao invés de liderar pela paz.

A Mulher-Maravilha então sai para espairecer e encontra Ártemis e as outras amazonas, logo após se atacada novamente por alguém nas sombras. Ela reconhece a flecha que a atacou como sendo de uma das amazonas da tribo rival e os ânimos esquentam. Antes que qualquer coisa possa acontecer, uma das amigas de Diana chega avisando que a rainha Hipólita e o conselho das amazonas decidiram realizar uma nova competição para decidir quem será a nova Mulher-Maravilha, para sempre!

Haja perna!

Revoltada com a notícia e depois de descobrir que a história que sua mãe contou sobre a tribo rival não era tão cheia de flores, amizade e beijinhos no ombro, Diana tenta recuperar a confiança das rivais pedindo que elas também possam participar do novo torneio. Relutante, Hipólita aceita e tudo tem início. Este processo todo leva umas quatro edições, com muitas pernas e “planos de bunda” abundantes, até que Ártemis vence o torneio e se torna a nova Mulher-Maravilha, linda, loira e infinitamente mais letal. A rainha até diz que ela se tornou mais do que uma “irmã”, e sim sua mais nova “filha”. Ela então recebe o uniforme da Mulher-Maravilha, o laço da verdade, além de um par de pulseiras de Atlas (que aumentam até 10x a força do usuário) e as sandálias de Hermes (que permitem que ela voe).

Chateada com o resultado, Diana resolve sair da ilha paraíso e continuar o seu trabalho de super-heroína, mas agora com o seu nome de batismo, Diana Prince e, bom, uma escolha no mínimo discutível com relação ao uniforme: essencialmente shorts e um bustiê de ginástica e uma jaqueta de couro por cima. O que ninguém sabia, no fim das contas, era que o torneio havia sido manipulado!

Diana e os famigerados “bike shorts”.

Hipólita havia tido visões do futuro mostrando a ela a morte da Mulher-Maravilha. Então para salvar sua filha, ela criou um novo torneio a fim de substituí-la. E chegou até mesmo a enfraquecer Diana para que ela perdesse a disputa, quando viu que sua vitória seria quase possível. Colocando Ártemis como um “boi de piranha” no lugar, ela conseguiria garantir que sua filha sobrevivesse para voltar a se tornar a heroína que todos conhecemos. 

Por isso o período “maravilhoso” de Ártemis é meio curto. Ela foi essencialmente a Mulher-Maravilha por sete edições apenas, enfrentando apenas algumas gangues cibernéticas e uma chefona do crime em Boston e NY. Além disso, novo vilão Mago Branco estava por trás de algumas das tramas envolvendo Ártemis, Circe e Diana… Ele lança um ataque ao final do arco que coloca em perigo todas as três e, na última batalha, ele se transforma em um demônio enorme que acaba (claro) matando Ártemis! Diana estava quase à beira da morte também, quando Ártemis em seu último suspiro pede que ela use as pulseiras de Atlas para derrotar o vilão. Como ela aumenta a força do usuário em 10x, imagina o estrago que ela faria aumentando por dez a força da Mulher-Maravilha original?

A morte de Artemis.

O Mago Branco é então derrotado e Diana volta a ser a heroína maravilhosa que todos nós amamos.

E Ártemis é ressuscitada alguns anos depois. ¯\_(ツ)_/¯

Ela morre, mas volta.

Tô LendoPontos Fortes
  • Desenhos. É, eu sei. Mas eu adoro do traço do Deodato. As poses nessa época não são das melhores, e algumas dão até uma vergoinha de se ver, mas ele tem seu bons momentos. Gosto bastante do estilo de quadrinização dele também.
  • História. Ela é mais marcante pela troca da heroína, no fim das contas. Mas acho super válido que foi um “golpe de marketing” que durou o tempo exato que deveria durar, cerca de um ano. Diferentemente de outras sagas aí como as do Super, do Batman e pior ainda, do Aranha.
  • Fácil de achar. Pelo menos lá fora. Aqui no Brasil nenhum encadernado com essa fase saiu ainda, mas vai que, né? Além disso, ainda dá para achar as edições de “Shazam” de 1996 nos mercados livres da vida.
Tô LendoPontos Meh
  • Desenhos. É, eu sei. Apesar de curtir o Deodato, dá um pouquinho de vergonha ver certas cenas que a gente sabe que foram postas ali claramente para agradar os hormônios dos meninos de 13 anos. É o tipo de coisa que passa batido no passado, mas que em retrospecto fica meio feio mesmo. Pelo menos gerou coisas engraçadas como a Iniciativa Hawkeye.
  • Ártemis. Apesar de gerar uma história bacana, a personagem dela nunca é melhor desenvolvida além de “ela é a nova Mulher-Maravilha, E ELA MATA”! Isso só acontece anos depois, quando ela ressuscita e vira a nova treinadora de amazonas em Themyscira. É uma pena ela não ter mais espaço para ser uma personagem por inteiro.

HAJA PERNA, AMIGO!

Esse tipo de mudança nos quadrinhos acontece toda hora, por isso não entendo por que tanta gente reclama. A gente já sabe que elas nunca são muito definitivas e que a maioria às vezes nem acontece na cronologia oficial, mas sim num universo paralelo ou num futuro muito distante. Eu particularmente gosto quando a mudança vem para acrescentar e é feita em prol de uma história. Essa da Mulher-Maravilha foi uma das poucas que vieram e foram embora de uma maneira bacana e sem causar controvérsias demais. Bom, teve um lance de que colocaram em xeque a origem de Diana (levantou-se uma dúvida na história de que talvez ela fosse filha de Hércules e Antíope), mas isso acabou sendo desmentido pela própria história.

Mudanças geralmente surgem para chamar atenção mesmo, então se a trama for boa, eu até estou disposto a dar o benefício da dúvida. Na melhor das hipóteses, o elenco de personagens ganha um acréscimo bacana no rol de heróis, como o Superboy, o Aço, o Aranha Escarlate e até mesmo a Ártemis. Na pior das hipóteses, bom, temos sempre a Saga do Clone para reclamar, não é?

É dois quilômetros de perna pra cada lado!

E você? Quais mudanças nos quadrinhos você mais curtiu? Quais as você mais detestou? Conta aí pra mim nos comentários!


Mulher-Maravilha: O Desafio de Ártemis vale três rebobinandos! 📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.