Vivemos a Era de Ouro dos nerds no cinema! Para onde você olhar, tem algum filme de HQ saindo com algum herói diferente, para todos os gostos. Quase não dá para imaginar que só em 1978 surgiu o primeiro filme de herói, que abriu caminho para todos os outros. Mas na Rebobinando dessa semana vamos relembrar a sua sequência, de 1980. A coluna de hoje é sobre Superman II.

Hoje em dia, pode haver uma certa disputa sobre qual é o melhor filme baseado numa história em quadrinhos. Há quem diga que seja Vingadores Ultimato (2019), ou Homem-Aranha 2 (2004), ou ainda Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008), mas durante muito tempo, antes desses filmes sequer sonharem em existir, esse cargo ficava com os dois primeiros filmes do Superman. Em especial o segundo.

E apesar de eu ter crescido nos anos 80 com esses filmes praticamente debaixo do braço, depois de velho eu nunca entendi muito bem porque as pessoas consideravam Superman II um filme tão bom. O primeiro, sim. Era um filme de origem, que contava com atores bons, consagrados e um ilustre desconhecido que incorporava completamente o imaginário do maior herói de todos os tempos. Tirando aquele detalhe de “voltar no tempo” para resolver um problema da trama principal, o filme é redondo e mesmo em se tratando de um personagem fantástico, ele se leva a sério o suficiente para ser considerado um filme bom. O filme dois não tem nada disso.

General Zod, o grandão Nun e a mortífera Ursa.

Quando eu o revi, já depois da adolescência e com um pouco mais de bagagem de produções culturais, eu me perguntava como é que consideravam Superman II um dos maiores filmes de HQ de todos os tempos? Claro, a presença de um vilão como o General Zod, interpretado por um ator marcante como Terence Stamp dá um ar de risco maior ao filme, mas no geral era um filme muito mais bobo do que eu me lembrava. Nem parecia que o mesmo cara que tinha dirigido o excelente primeiro filme tinha feito o segundo, aliás, parecia que essa sequência tinha sido feita por duas pessoas completamente diferentes, ou no mínimo alguém com um sério problema de dupla personalidade. Acontece que eu nem fazia ideia dos problemas que cercaram a produção do filme, e que foi exatamente isso o que aconteceu!

Bom, o lance dele ser dirigido por duas pessoas, não o da dupla personalidade.

Clark, eu prefiro me jogar daqui a ter que ver a versão do Lester de novo!

A PRODUÇÃO SUPER PROBLEMÁTICA

Superman e Superman II foram ambos filmados ao mesmo tempo, por volta de 1977. O plano de Richard Donner, o diretor original, era gravar logo os dois filmes de uma vez para ter um lançamento rápido, de um ano para o outro. Mas o problema surgiu logo no início das gravações. 

Os produtores do filme Alexander Salkind, Ilya Salkind e Pierre Spengler começaram a criar caso com Donner por conta de atrasos nas filmagens e por um suposto estouro no orçamento. Donner, no entanto, sempre alegou que ele nunca sequer viu qualquer orçamento apresentado pela equipe de produção. Com os ânimos escalados, eles resolveram convidar um outro diretor, mais amigo, que pudesse servir de ponte entre eles e Richard Donner, já que ninguém mais estava se falando. Richard Lester (guarde este nome) acabou entrando na equipe para ser o diretor de segunda unidade e passar os recadinhos de um lado para o outro. Os Salkinds, por outro lado, não eram lá exatamente flores que se cheirassem. Lester aceitou entrar no projeto Superman porque os dois já estavam devendo uma grana para eles. Além disso, depois do lançamento do primeiro filme em 1978, o ator Marlon Brando precisou entrar na justiça para receber o dinheiro que ele tinha direito à bilheteria por contrato.

Meu filho, chega de analogias com Jesus. Eu quero é 10% da bilheteria!

Com esses problemas de orçamento e cronograma, os produtores resolveram parar as filmagens por tempo indeterminado para focar única e exclusivamente no lançamento do primeiro Superman. Donner já havia filmado cerca de 75% de Superman II e todos os outros atores acabaram sendo liberados para trabalhar em outros projetos. Com isso, o filme estreia em 1978 e acaba fazendo um enorme sucesso, permitindo que todos acreditem que um homem pode voar.

– Mas tio Kadu! Se Superman 1 foi lançado em 1978, porque Superman 2 não saiu logo no ano seguinte?

Ah, meu amigo, minha amiga… Isso porque a treta não tava nem longe de acabar! Com esse problema todo, os Salkinds passaram a ignorar a existência de Richard Donner e empurrar o projeto para frente sem ele. Porém, como ele já havia filmado quase todo segundo filme, ainda era preciso que ele pelo menos viesse terminar a história original que tinha pensado. O diretor, já p*to da vida com isso tudo, determinou que o filme seguisse dentro dos termos dele, ou ele não voltaria. Não era apenas uma treta financeira, mas criativa também. Suas exigências não foram atendidas e ele acabou não voltando.

Parece capa de album de banda indie: “The Kriptonians”.

Além dele, Gene Hackman e Marlon Brando também se recusaram a filmar cenas extras causando um imenso problema. Brando não só se recusou a voltar como entrou na justiça pedindo a mesma porcentagem de bilheteria que ele havia pedido antes, para a sequência. O que fez os produtores mão-de-vaca decidirem excluir completamente todas as cenas que ele já tinha gravado.

Com toda essa enrolação, só lhes restou pedir ao “amigo” Richard Lester que dirigisse o que restava do filme, em cima de um novo roteiro, mal ajambrando o filme que já existia e criando um monstro de frankenstein cinematográfico sem foco. Além disso, Lester teve que lidar com outros inúmeros problemas na gravação como o atraso no retorno de Christopher Reeve para as gravações por conta de Em Algum Lugar no Passado. Como se não bastasse, Lester ainda tinha uma visão muito diferente da de Donner sobre o personagem e o tipo de filme que deveria ser feito. Para ele, o Super era um personagem de quadrinhos, então todo o setting épico estabelecido no primeiro filme foi jogado pela janela. Todas as cores que eram mais sóbrias, de repente estavam todas estouradas, enfim…

Pensa na diferença de estilo entre um Tim Burton e um Joel Schumacher, MAS NO MESMO FILME. Ou melhor, nem vi tão longe. É só a gente esperar o SnyderCut e comparar. Hehehe.

Boa sorte com o Snyder Cut…!

RELEASE THE DONNER CUT!

Em 2006 a WB resolveu que era hora de trazer de volta o escoteiro azulão. A essa altura o seriado Smallville já fazia um baita sucesso. Christopher Reeve, no entanto, já havia falecido, infelizmente. Contrataram o diretor Bryan Singer para fazer um novo filme com o Super, que teve lá seus pontos altos e baixo. Porém, como ele era muito fã dos filmes de Richard Donner, ele acho que seria legal se Superman Returns fosse basicamente uma nova versão de Superman 1. Sua ideia era manter uma continuidade com os filmes antigos e incluir a nova mitologia do seriado ao mesmo tempo. 

Com isso, houve um novo interesse na obra de Richard Donner e as pessoas começaram a notar que Superman 2 ERA MUITO RUIM. Imagino que devem ter se perguntado o que houve e descobriram a explosão de Kripton de tretas envolvendo a produção dos filmes originais. A Warner então decidiu que já era tempo de deixar que o diretor terminasse sua obra do jeito que ele queria. Para tanto, desencavaram um punhado de cenas de teste, coisas gravadas que nunca foram usadas e efeitos especiais não terminados para re-editar o filme de acordo com o roteiro original.

Não é de hoje que a DC curte lançar múltiplas versões do mesmo filme, né? Haja reboot.

E vou te dizer O FILME É MUUUUUUITO MELHOR!

*Pequenos spoilers daqui por diante, se você ainda não viu a versão do Donner.*

Nossa, é outra coisa! Completamente diferente! E eu acho incrível que com basicamente as mesmas cenas, o filme ganha todo um novo peso, uma sensação de risco para os personagens, que é praticamente inexistente na versão do Richard Lester. O tom de piada desaparece quase que por completo e a ligação com o primeiro filme é mais explícita ainda. Vão-se embora os terroristas franceses no início da trama e o que liberta os prisioneiros kriptonianos é o míssil do final do filme 1, que o Superman joga para o espaço.

Entre outras diferenças, a cena onde Clark abre mão dos seus poderes por Lois tem mais impacto, assim como a cena onde ele descobre que precisa recuperá-los para salvar a humanidade das mãos de Zod. Para ser o Superman de novo, ele precisa praticamente abrir mão de toda sua herança kriptoniana, da Fortaleza da Solidão e de conversar com Jor-El de novo. A luta em Metrópolis é mais séria, as pessoas fogem de medo e Zod as ataca sem piedade. Não tem mais ceguinhos caindo em buracos, carinhas de patins escorregando em cascas de banana, ou vilões cometendo o terrível crime de remodelar o Monte Rushmore!

Vocês não fazem ideia de como eu ODEIO esse maluco nos patins!

Claro, ainda tem um final que resolve tudo da maneira fácil, assim como em Superman 1, mas não se pode vencer todas, infelizmente. Pelo menos é uma opção muito melhor do que ver o Superman II original.

Tô LendoPontos Fortes
  • Donner Cut. A existência dessa versão mudou bastante a minha concepção sobre a série de filmes do Super dos anos 70-80. Apesar de achar execráveis o terceiro e o quarto filmes, pelo menos agora eu acredito que 50% da série vale a pena.
  • Elenco. Um personagem como o Superman precisa ter um ator que seja capaz de transmitir a doçura e seriedade que o personagem precisa. Além disso, não é qualquer filme que tem Marlon Brando, Gene Hackman e Terence Stamp como coadjuvantes. 
  • Música. John Williams, né? Grande clássico que mesmo que não seja utilizado por completo nas produções mais atuais do personagem (ou mesmo nessa antiga, porque ele foi outro que pulou fora da produção), é sempre revisitado e reconhecido pelos fãs.
Tô LendoPontos Meh
  • Lester Cut. Bem ou mal, foi a única versão disponível do filme por 26 anos. Isso sem contar que foi o filme que abriu as portas para o diretor continuar na franquia e produzir o que eu acredito seguramente que seja o pior filme que eu já vi na minha vida, que foi Superman III
  • Efeitos Especiais. A nova versão do filme precisou de novos efeitos especiais e digitais para compensar algumas cenas que não foram gravadas no passado. Richard Donner preferiu não atualizá-los, como fez George Lucas nas edições especiais de Star wars. Então alguns estão especialmente piores do que já eram na época, infelizmente.

Lois & Clark as velhas novas velhas aventuras do Superman.

Fico feliz por ter assistido a nova versão de Superman II recentemente, na TV. É até engraçado a gente rever algo antigo pela primeira vez e redescobrir um filme completamente novo. Ele foi lançado em 1980, um ano antes de eu nascer, então é muito curioso ver uma coisa nova mas ao mesmo tempo mais velha do que eu. 

Se você é DCnauta ou fã do Super-Homem de longa data e nunca teve a oportunidade de ver o Donner Cut, não há como eu recomendar com mais veemência que você assista esse filme! Arrisco dizer que essa re-edição da história acaba sendo muito melhor do que têm feito com o Super por aí (*cofcofcofBvScofcofcof*). É uma história que leva a sério o histórico do personagem, sem esquecer que ele é de verdade, um símbolo para todas as pessoas. Acho incrível como a luta com o Zod em Man of Steel tem seus reflexos na luta de Superman II (a cena com o caminhão-tanque, ou a luta no prédio em construção), mas que ela não reflete a mesma preocupação com as pessoas que o herói deve ter.

“Agora sorri!”


Superman II – The Richard Donner Cut vale quatro rebobinandos. 📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.