Rebobinando #134: Scott Pilgrim

Início/Destaques, Leia!, Rebobinando/Rebobinando #134: Scott Pilgrim

A Rebobinando de hoje vai até o distante ano de 2004, para falar de um sucesso indie dos quadrinhos desse novo século! Pega seu casaco, seu melhor videogame e vamos para Toronto falar de Scott Pilgrim.

Durante a minha vida de nerd, poucas coisas me deixaram completamente obsessivo ao ponto de ir atrás de todas as informações possíveis e produtos sobre elas. Assim foi com as Tartarugas Ninja nos anos 90 por exemplo. E com o universo de Matrix na virada do século. E por volta de 2006, mais ou menos, foi com Scott Pilgrim. 

Minha vida na época era um poço de oportunidades e possibilidades, estava enrolando com o fim da faculdade, havia voltado recentemente de um intercâmbio e saía com meus amigos pela náite do Rio de Janeiro curtindo uns lugares que tocavam música indie. Na Internet, além de vasculhar bandas semi-conhecidas, eu ainda acompanhava alguns blogs de quadrinhos brasileiros e internacionais, entre eles um que era muito legal chamado Topless Robot. Foi nesse blog que eu descobri uma outra obsessão minha, Doctor Who. Além, claro, de um certo mangá canadense indie que estava começando a chamar atenção na época. 

Antes de ser cabeça oca, ele era meio cool…

Foi paixão à primeira vista! O tema de “jovens adultos vivendo a vida noturna, entre bandas, amigos, dramas, inimigos e três milhões de referências” bateu forte na época! Em 2006 eu tinha 24 anos, uma idade próxima a do protagonista e eu conseguia sacar todas as referências a filmes e jogos que eu tinha visto durante minha infância e adolescência (mas não as bandas porque eram experiências mais locais do criador da obra, ok). 

Hoje em dia, não me orgulho muito de comentar isso em voz alta, mas eu fiz o que era necessário para ler o gibi que nem sonhava em ser publicado no Brasil! Eu cheguei até a traduzir a primeira edição e compartilhei com meus amigos porque eu não queria ser o único a ter o prazer de ler essa obra. No fim, aproveitei uma viagem aos isteites que minha mãe fez alguns anos depois e encomendei todas as seis edições em uma comic shop para ela trazer pra mim. São seis pérolas na minha coleção, na minha estante hoje em dia. 

Quando deus fecha uma porta, a gente abre outra numa rodovia subespacial…

VIDINHA PRECIOSA

O autor, Bryan Lee O’Malley, é gente como a gente. Um adolescente normal que acabou crescendo lendo quadrinhos, curtindo mais ou menos as mesmas coisas que nós curtiamos e que teve a sorte de trabalhar com quadrinhos. Sua primeira obra Lost at Sea (2003) é um pouco mais introspectiva e bem diferente de Scott Pilgrim. Segundo o próprio O’Malley, enquanto a protagonista do primeiro gibi é uma personagem complexa demais, o outro protagonista é complexo de menos.

A ideia era fazer da série em quadrinhos um típico mangá shonen, aqueles voltados primariamente para o público adolescente masculino, cheio de lutas, torneios e vilões épicos! Mas ao mesmo tempo, o autor queria dar um ar de realidade e familiaridade ao cenário da história. Daí a escolha pro Toronto, que era o lugar onde ele morava, e por situações que espelhava sua própria situação na época: o colega de quarto gay, a irmã pentelha, a ex-namorada cruel e o gigantesco casting de amigos e conhecidos para ocupar o lugar dos coadjuvantes. 

“Quadrilha” do Carlos Drummond de Andrade do século XXI.

De certa forma, Scott Pilgrim é quase uma autobiografia fantástica de Bryan Lee O’Malley. E nesse setting, o de quase todos nós. Talvez esse tenha sido o segredo de seu sucesso. Um sucesso cult, mas sucesso ainda assim.

As edições da série foram lançadas anualmente desde 2004. A última edição saiu em 2010, quase que em conjunto com o filme dirigido por Edgar Wright (de Todo Mundo Quase Morto e Ritmo de Fuga). Filme esse que eu fiz questão de assistir na única exibição que teve no Brasil, na meia noite de uma sexta-feira de outubro daquele ano. Em meio a cosplayers e outros fãs, foi uma das experiências mais divertidas que eu tive num cinema, equiparável apenas à exibição de um outro filme cult nerd no mesmo festival alguns anos antes: Jay and Silent Bob Strike Back

Videogames, mangá e um filme com um elenco impecável!

Neste mês a Internet (e o Facebook) me relembraram incansavelmente que é o aniversário de 10 anos do filme e bem por causa disso que estou falando dele aqui. Hoje tido como um clássico moderno Scott Pilgrim Contra o Mundo amargou uma bilheteria pífia na época em que foi lançado (mas mais por culpa da distribuidora Universal do que pela falta de fãs). 

No Brasil, o gibi foi lançado pela Cia das Letras também em 2010 para aproveitar o lançamento do filme. Eu até tentei conseguir um emprego mandando a minha versão da tradução pra eles, só pra receber um e-mail de rejeição muito bravo me ameaçando de processo se eu continuasse com aquilo. Como eu já tinha as minhas edições americanas mesmo, me recolhi à minha insignificância. 

A Ramona das HQs é bem mais irada que a do filme!

A TRISTEZA INFINITA 

Se você já viu o filme, a trama não tem muito mistério. Scott Pilgrim é um zé-mané, um encostado, que não faz nada da vida a não ser tocar numa banda de rock com seus amigos Stephen Stills e Kim Pine. Ele começa a história namorando uma estudante do ensino médio chamada Knives Chau e, ao longo do primeiro volume, ele conhece e se apaixona pela garota de entregas e Ninja americana Ramona Flowers

Só que nada nessa vida é fácil e, além de ter que partir o coração da pobre Knives, ele descobre que precisa enfrentar os relacionamentos anteriores de Ramona de uma forma bem mais literal. Ele tem que lutar e derrotar os sete exes do mal, que formaram uma espécie de “liga da justiça dos relacionamentos”. Ou seria uma “legião do mal dos relacionamentos”? 

Matthew, Lucas, Todd, Roxy, Gêmeos Katayanagi e Gideon. Só gente boa.

A história se desenrola por seis edições, colocando um ex para ser enfrentado a cada edição. A edição #5 conta com dois exes de uma vez então a conta fecha certinho. Ainda assim, você pode estar se perguntando:

– Mas tio Kadu, uma história só do cara lutando contra os ex-namorados da garota não fica meio chata? 

Aí é que tá. Não fica. Até porque o foco não é única e exclusivamente as lutas. Nesse ponto, ele deixa de ser um mangá shonen para ser um gibi indie sobre a vida e relacionamentos. Tudo isso recheado com bastante bom humor, as óbvias referências a videogames e personagens secundários bastante carismáticos. Não a toa o gibi fez um enorme sucesso não só entre o público masculino como também o feminino. A chances de você conversar com alguém que é fã e descobrir que cada pessoa tem um personagem favorito diferente é a prova do quanto a história é plural pra muita gente (muito embora, é claro, não tenha nenhum personagem negro de destaque – algo que o autor já reconheceu e comentou).

É muito legal acompanhar o início da história até o fim e ver a evolução do traço de O’Malley que vai de um rabisco apressado no primeiro volume prum estilo muito legal que eu apelidei de “ziraldo goes mangá” lá pelo quarto volume até o final. Além de ver a evolução dele como storyteller, jogando as pistas e arranjando a melhor maneira de encaixar suas metáforas (e piadas) no texto. Scott Pilgrim não é só uma história de coming of age para quem lê, mas também para o seu próprio criador. 

O level up da vida real é bem literal na história.

CHEGANDO JUNTO

Só para constar, aqui vai um resumo dos personagens principais da história pra ver se você se anima. 

  • Scott Pilgrim. 23 anos. Protagonista. Começa a história com uma pinta de cool guy e mais confiante, mas conforme a história avança ele vai ficando mais cabeça oca o que, convenhamos, combina mais com ele. Baixista da banda Sex Bob-Omb.
  • Ramona Flowers. Namorada de Scott. Idade desconhecida. Trabalhava em NY antes de vir para Toronto ser entregadora da Amazon (parecia ser um trabalho maneiro em 2004). Ninja americana, pode viajar por rodovias subespaciais espalhadas pela cidade atrás de portinhas estampadas com uma estrela.
  • Knives Chau. 17 anos de idade. Estudante do ensino médio obcecada por Scott. Fã número um da banda Sex Bob-omb.
  • Matthew Patel. Ex número 1 da Ramona. Tem poderes místicos e se veste como um pirata (pois eles estão na moda este ano).
  • Lucas Lee. Ex número 2. Skatista que virou um ator de Hollywood famoso. Meio vendido. Muito metido.
  • Todd Ingram. Ex número 3. Por pura coincidência do destino, cresceu junto com Envy Adams. Os dois namoraram na infância, pouco antes dele se mudar. Namorou Ramona no ensino médio, enquanto Envy namorou Scott na faculdade. Atualmente os dois estão juntos e focados em destruir a vida amorosa dos dois protagonistas.
  • Roxanne Richter. Ex número 4. É Metade Ninja e namorou Ramona durante a faculdade. Parece odiar Scott com mais força do que todos os outros exes.
  • Gêmeos Takayanagi. Ninguém nunca explica como foi o relacionamento dos irmãos Kyle e Ken Katayanagi com Ramona (ela namorou os dois? Ao mesmo tempo?). São especialistas em robótica e tem uma vibe meio “double dragon”. 
  • Gideon Graves. O chefão. O organizador da Liga de Exes do Mal, dono de uma mega boate em Toronto e que guarda um grande e terrível segredo com relação à Ramona e seus poderes.

Ah, meus 20 anos…

Tô LendoPontos Fortes
  • História. A história é muito envolvente. Como eu falei antes, ela é carregada pelo número quase obsceno de personagens secundários que dão um ar de realidade muito legal a essa história fantástica. Você acaba acompanhando não só o desenrolar da trama de Scott e Ramona, como de todos os outros também. É um coming of age bem honesto.
  • Arte. Apesar da arte meio inconsistente nos primeiros volumes (é quase impossível distinguir o Scott do seu amigo Young Neil tem horas) ela evolui muito e evolui bastante. A versão colorida da série, que ilustra a coluna de hoje, foi lançada alguns anos depois realça a arte de um jeito maravilhoso.
  • Referências. Se você jogou muito videogame nos anos 90, é impossível não se divertir com as piadas e as referências.
  • Acessível. A versão em português foi lançada pela Cia das Letras e vale bem a pena, se você não quiser importar as versões originais. A versão em cores, infelizmente, só em inglês.
  • Filme. É lindo, maravilhoso, moderno e muito engraçado. Com um elenco estelar de ilustres desconhecidos que viraram mega estrelas de Hollywood anos depois, vale muito a pena ser assistido.
Tô LendoPontos Meh
  • Final. Não que comprometa a história como um todo, o que importa é a viagem, né? Não o destino. Mas eu lembro de ter achado o final um pouco confuso. Nunca descobri se foi um final planejado desde o início, ou se o autor foi obrigado a correr com a história para lançar antes do filme. 
  • Diversidade. Na época que eu li também não achei um problema, mas pela internet já vi algumas pessoas reclamando. Apesar do Wallace Wells, o colega de quarto gay de Scott, a maioria dos personagens LGBT é bem estereotipada. O criador já se pronunciou sobre o assunto dizendo que, como a história é largamente inspirada na vida dele e ele mesmo como um adolescente canadense de classe média teve muito pouco contato com pessoas que não fossem brancas ou hétero e que isso se refletiu na história. E como contador de histórias ele prometeu tomar mais cuidado com isso no futuro.

Adoro os stats das armas!

No fim, tanto o gibi quanto o filme são obras muito geracionais, ligada àquele período esquisito no início do século, quando o mundo ainda vivia sob a influência dos anos 90 e ainda não tinha se decidido sobre que tipo de mundo seria após os anos 10. Algumas críticas a ambas as obras refletiam sobre o “efeito youtube” no cinema e o “humor de referências” que começava a ficar batido, criando um certo preconceito entre a galera mais velha. Entre os mais novos, no entanto, muito da história acaba se perdendo também porque o humor se perde na “tradução” já que o ambiente de novas bandas se dá cada vez mais através de canais no youtube ou playlists no spotify e não em inferninhos apertados ou garagens sujas.

Ainda assim, eu acredito que SP possa falar com bastante gente. As metáforas sobre relacionamentos, os acertos que Scott começa a dar na sua vida, o enfrentamento com o seu lado negativo, todos são batalhas importantes no nosso crescimento como pessoas adultas. Dependendo da sua origem, esse período de início da vida adulta pós-faculdade pode ser bastante confuso e sem rumo, então ter alguém para fazer companhia é sempre legal.

O gibi é um melhor que o filme, mas ambos ainda são muito bons!


Scott Pilgrim vale cinco rebobinandos. 📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2020-08-18T01:36:07+00:00 17 de agosto de 2020|0 Comentários