DUZENTOS E SESSENTA PÁGINAS DE AÇÃO E MORTE! No auge da popularidade dos X-men, surgiu uma saga para colocar os mutantes contra quase toda sua galeria de vilões da época! Hoje vamos rebobinar X-Men Gigante #1, A Canção do Carrasco.

Quantas vezes o Xavier já morreu aos pés dos seus pupilos?

Como já falei aqui algumas vezes, os anos 90 foram a década dos X-men! Os mutantes tiveram um surto de popularidade, em parte impulsionados pelo ótimo desenho animado (um dia eu escrevo uma Rebobinando sobre ele), em parte pelo sucesso dos novos artistas do mercado que trabalhavam para a Marvel nesta época. Entre eles, três grandes faziam parte da editoria mutante: Jim Lee, Whilce Portacio e Rob Liefeld. Os três trabalhavam respectivamente em X-men, X-Factor e X-Force e eram uma força a ser reconhecida no mundo dos quadrinhos. Tanto que em 1991 um dos gibis que configura o mais vendido no mundo até hoje foi pelas mãos de um desses caras: X-men #1, com mais de 8 milhões de cópias vendidas.

Com um passe nesse valor, a vontade de voar sozinho falou mais alto e, em 1992 essa galera se juntou e saiu da Marvel para criar sua própria editora, a Image Comics. Os grandes artistas foram embora e a Casa das Ideias ficou a ver navios com seus próprios personagens. Para não deixar a peteca da popularidade cair, eles foram atrás de novas ideias e novos artistas para as histórias dos X-men. Entra em cena os roteiristas Fabian Nicieza, Peter David e Scott Lobdell, e dos desenhistas Greg Capullo, Jae Lee e Andy Kubert. Então durante um retiro de roteiristas (heh) essa galera começou a projetar a nova grande saga mutante.

O tempo não poupou a IMAGEM de ninguém!

Com o objetivo de ser “maior e melhor”, a saga tinha como ponto inicial “colocar os X-men contra todos os seus principais vilões de uma vez só”. Assim sendo, os X-men trariam o retorno do Sr. Sinistro, o X-Factor puxaria de volta o Apocalipse, e a X-Force entraria com Conflyto. Além disso, eles pretendiam explicar um grande mistério que já estava perturbando a cabeça de muitos fãs, após muitas pistas e pontas soltas: a origem de Cable! E, olhando em retrospecto, faz até sentido que ele fosse o ponto principal da história, já que sua vida tem ligação com cada um desses vilões, de uma maneira ou de outra. 

Com isso em mente, eles começaram a planejar o mega crossover que ocorreria em 12 partes, espalhados pelos três principais gibis-X da época. Aliás, reza a lenda que em algum ponto da conversa, Peter David joga, como quem não quer nada, a ideia de trazer de volta também o vilão Magneto e que assim que esse retorno acontecesse, ele arrancaria o adamantium do corpo do Wolverine! Todo mundo riu e a ideia não foi aproveitada porque era coisa demais para colocar numa história já inchada de personagens e acontecimentos bombásticos. A ideia, porém, seria reaproveitada na saga seguinte, aquela com nome de novela, Atrações Fatais (1993).

A ginástica editorial que a Abril Jovem fazia era sem precedentes, né?

Com o nome original de The X-cutioner’s Song, a saga A Canção do Carrasco foi publicada originalmente nas edições de Uncanny X-men #294-297, X-Factor #84-86, X-men #14-16 e X-Force #16-18, entre novembro de 1992 e fevereiro de 1993. No entanto, ela só chegou aqui no Brasil em 1996, no mega-encadernado (ou o mais próximo disso que poderíamos ter) X-men Gigante #1. A única coisa boa do atraso nessa publicação, pelo menos na época, era de ter a possibilidade de ler tudo de uma vez numa edição completa. A Abril Jovem, como sempre, fazia lá seus arranjos nas páginas para caber tudo da melhor maneira possível, mas sempre ficava de fora algum plotline menor, ou alguma história que não acrescentava muito na saga total. É muito engraçado eu procurar por referências online das revistas e encontrar páginas que nunca foram publicadas, ou mesmo a capa da edição que era uma montagem de outras duas capas, e uma delas NEM ERA SOBRE A SAGA!

Uma curiosidade. O nome da saga sempre foi algo tão específico que eu me perguntava de onde teria saído. Em geral, os autores de gibis lêem muito e gostam de colocar referências literárias em seus trabalhos, sempre na boca de personagens cultos como o Fera. Foi assim que eu conheci o poeta Goethe (de nome, pelo menos) e aprendi a usar “não obstante” numa frase. Pois o nome da saga veio inspirado em um livro de não-ficção do jornalista Norman Mailer, chamado The Executioner’s Song (ou de acordo com a tradução correta, “a canção do carrasco” em português)! O livro lançado em 1979 rendeu a Mailer um prêmio pulitzer e conta a história do primeiro condenado à pena de morte nos EUA depois que eles trouxeram de volta a lei em 1976. Ainda há um filme de 1982 de mesmo nome, com Tommy Lee Jones no papel principal. Quem diria que quadrinhos também são cultura?

Um trocadilho impagável que se perde totalmente na tradução!

A CANÇÃO DO CARRA-X-CO

Acontece coisa demais nessa história, então vou resumir da melhor maneira possível, ok? 

Cable é o filho do Ciclope.

Fim.


Caraca, bicho. Os anos 90 eram SENSACIONAIS, né não?

Heh, desculpa. Não resisti.

Acontece que nos anos 90, tinha uma história de que, se você quiser entender BEM uma história dos X-men, você deveria ler só a primeira e a última páginas da revista, porque no meio você ficaria super confuso e não entenderia nada. A Canção do Carrasco até tem um ritmo bacana, mas é muito convoluta no meio, com idas e vindas, traições e parcerias, e outras coisas que passam batidas numa primeira leitura.

Mas enfim. Tudo começa ANTES da edição em questão, obviamente. Aqui no Brasil, em X-men #75, Ciclope, Jean e o X-Factor enfrentam Apocalipse em sua base na lua. Ele raptou o filho de Scott e Madelyne Prior, o pequeno Nathan Christopher Summers, e o infectou com um vírus tecnorgânico. Como o vírus era muito avançado para ser curado no presente, e como Nathan viria a ser um grande guerreiro no futuro, foi enviado uma ajuda através do tempo para salvá-lo. Essa ajuda veio na forma de uma mulher chamada Askani. Ela promete a Scott que vai cuidar bem do bebê, mas que precisa levá-lo ao futuro para curá-lo. Sabendo que jamais veria o filho de novo, mas pensando no seu próprio bem, Ciclope o entrega para a mulher misteriosa que some em um portal do tempo.

A gente não cria o filho pra gente, né? Cria PRO FUTURO!

Corta para hoje em dia. Os X-men estão empolgados com um show da artista mutante Lila Cheney. Todos estão assistindo tranquilamente, quando a cantora abre espaço para uma mensagem de paz de Charles Xavier, pregando o entendimento entre humanos e mutantes. Em meio a vaias e reclamações, o Professor X toma um baita tiro no peito. Ao procurar o responsável todos vêem Cable empunhando a arma fumegante, dizendo que salvou o futuro. Ele desaparece antes dos X-men reagirem e todos se desesperam com a possível morte do seu mentor.

Em outro canto da cidade, Ciclope e Jean Grey passeiam. Eles são atacados pelos Cavaleiros do Apocalipse, Fome, Peste e Guerra. Quem chega para ajudar são Colossus e o Homem-de-Gelo, porém eles nada podem contra os vilões. Os dois x-men fundadores são raptados e levados para um lugar desconhecido. Chegando no local, vemos a figura de Apocalipse agradecendo e dispensando os seus cavaleiros. Sem entendermos muito bem, descobrimos que não era o vilão milenar por trás desse rapto, mas o Sr. Sinistro, se fazendo passar por Apocalipse. 

Sinixxxxxxxxtro, bróder.

“Por quê?”, você me pergunta.

“Não faço ideia!”, eu te respondo.

Do lado dos X-men, vemos todos preocupados com a saúde do professor, e percebendo que o tiro em si não foi grave… o problema é que, de alguma maneira, Xavier foi infectado com uma variação do vírus tecnorgânico de Apocalipse. O mesmo que havia infectado o filho de Ciclope meses antes. Desesperados e sem notícias de Scott e Jean, Tempestade e Fera organizam uma equipe para ir atrás da equipe de Cable, a X-Force, na esperança de que eles pelo menos saibam o paradeiro do seu mentor. Óbvio que tudo acaba em porrada e os jovens mutantes acabam indo presos na Mansão X, sem poder ajudar ou dizer onde ele está.

Enquanto isso, vemos o Sr. Sinistro entrando em contato com a Frente de Liberação Mutante, a facção terrorista mutante liderada por Conflyto. Acontece que Sinistro havia feito um trato com Conflyto, onde ele receberia um recipiente com todo o material genético de dois mil anos da família Summers, em troca de entregar Scott e Jean aos seus cuidados. Trato feito, cada um vai para o seu lado feliz. Mas Sinistro é… bom… er… sinixxtro e vai até os X-men para contar quem é que está por trás de tudo isso.

Os grandes vilões dos X-men, sendo feitos de otários a história inteira.

“Por quê?”, você me pergunta.

“Não faço ideia!”, eu te respondo.

Sabendo que Conflyto é potencialmente o vilão por trás de tudo e que isso tem, de alguma forma relação com Apocalipse, Bishop e Wolverine se separam das equipes e vão investigar separadamente a nave de Cable que fica em órbita da Terra, Graymalkin. Enquanto, enquanto isso, Conflyto decide resolver seu… é… bom… err… conflito com Apocalipse. Até então, o vilão estava fazendo a egípcia e fora de toda a história, se recuperando do seu último embate com os X-men. Ele é acordado antes do tempo e enfraquecido não é páreo para o seu oponente. Ele consegue fugir antes do pior e escapa para… a mansão X.

Chegando lá, ele pede por asilo aos seus inimigos mortais, que ficam tentados a não fazer nada. Porém Apocalipse reconhece seu próprio trabalho no vírus que está infectando o professor e promete curá-lo em troca de um lugar para ficar, pelo menos temporariamente. Com a vida de Xavier a salvo, às equipes podem finalmente se concentrar em ir atrás de Scott e Jean.

Esses X-men vivem no mundo da lua…

É a partir daí que as coisas vão ficando mais claras. Em meio a muitas batalhas entre os diversos grupos de X-men e os diversos grupos de capangas (e de alguma enrolação), nós entendemos que Conflyto busca vingança! Contra quem, contra o quê? Fica tudo meio em segredo até chegarmos no final, onde todas as pistas são postas à clara. O final da saga é um pouco frustrante porque depois de tudo isso AINDA ASSIM a Marvel não disse com todas as letras que “Cable é o filho do Ciclope”. Eles ainda deixariam em aberto essa questão por algum tempo, porque o escritor Fabian Nicieza gostava da ideia de que Cable fosse um clone, e Conflyto o verdadeiro filho de Scott Summers.

No fim, o resumão geral é que Conflyto armou tudo para se vingar daqueles que ele julgava serem os responsáveis por todo o seu sofrimento. Apocalipse por infectá-lo, e Scott e Jean por abandonarem-no. Mas na verdade, Conflyto era um clone de Cable. Ao ser enviado para o futuro, fizeram um clone do pequeno Nathan, na esperança de transferirem a sua mente para um corpo saudável. Infelizmente isso não foi possível e, durante o seu crescimento, Cable aprendeu a usar seus dons telepáticos e telecinéticos e passou a controlar o avanço do vírus pelo seu corpo mentalmente. Ainda no futuro, Apocalipse resolve novamente raptar o bebê Nathan, na esperança de usar o seu corpo para continuar vivendo para sempre, mas ele pega o bebê errado e leva Conflyto no lugar. Com a criança já adulta, Apocalipse finalmente descobre que ele é um clone e morre, deixando Conflyto sozinho e sem terapia desejando vingança contra todo mundo.

É ruim, mas eu adoraaaaava esse dramalhão mexicano todo.

UFA!

Haja gibi para contar isso tudo!

Teria que ser uma edição…

GIGANTE!

Hein? Hein?

Tô LendoPontos Fortes
  • Desenhos. Mesmo com os grandes astros fora, a Marvel soube substituir bem a falta que eles fariam. Jae Lee já tinha um estilo super bacana em X-Force, e Greg Capullo carregava seus detalhes e planos abertos com uma certa maestria. Sem mencionar, claro, Andy Kubert fazendo o que ele sabia fazer de melhor.
  • Coletânea. Comentei que o atraso nos gibis garantia que pudéssemos ler tudo de uma vez e isso até que era um ponto bom. Não imagino ter que esperar seis meses pra ler isso tudo completo hoje em dia.
  • Popularidade. Era o auge dos X-men. Onde quer que você olhasse tinha um jogo, um gibi, um desenho, etc. E mesmo com um plot confuso, era muito legal acompanhar as histórias dessa época, com bastante emoção e desenhos maneiros. Essa edição eu ainda guardo com bastante carinho.
Tô LendoPontos Meh
  • Artista. Só tinha um que eu não curtia muito o traço, um tal de Brandon Peterson. Na época eu ficava indignado porque parecia que ele tentava copiar o Jim Lee para não “notarem a diferença” nos gibis, mas sem sucesso. Mas fui procurar os desenhos atuais dele e, claro, melhoraram muito. Ele tem um estilo próprio bem bacana e deixou as cópias do nosso coreano favorito de lado.
  • História. Ok, eram empolgantes. MAS P*TAQUOPARIU como eram confusas, viu?
  • Spoilers. Na época eu não conhecia o conceito de spoilers, mas enfim. Ao mesmo tempo em que era legal ler tudo de uma vez, a gente recebia também uma porrada de spoilers nas “revistas sobre gibi” que existiam antigamente. Com 4 anos de diferença entre as publicações americanas e brasileiras, as revelações já chegavam aqui reveladas.

Depois disso tudo, a saga deixou alguns reflexos nos gibis mutantes como o desaparecimento do Cable e a própria relação dele com o Apocalipse, além, claro, do Vírus Legado, que tanto atormentou a raça mutante até meados dos anos 2000.

“A humanidade é o vírus”, 2020.

Enfim, eu curtia muito os X-men dessa época. Mesmo ficando com dor de cabeça ao fim de cada edição, heheh. Lembro que nesse meado dos anos 90 saíram muitas revistas coletâneas de histórias longas, como as anuais do X-men e do Homem-Aranha, além das versões tupiniquins das “giant-sizes” americanas. E era muito bom acompanhar esse novelão cheio de ação e aventura, mesmo sendo em formatinho. Além disso, era uma época onde o real tava bem mais em conta, né? IMAGINA pagar só R$ 4,50 por um gibi desses com esse tanto de reviravolta? Hoje em dia iriam cobrar no mínimo uns 40 paus!

Mesmo assim, será que não rola dar uma publicada nesse material, não, hein Dona Panini? Por favor? Nunca te pedi nada!


X-men Gigante #1, A Canção do Carrasco vale quatro rebobinandos! 📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.