SUPER GIRO #72

Heróis em Campo

Esta semana teve Santos Criativa – Festival Geek! E a coluna esteve presente para documentar tudo que rolou! Errrr… mentira. Não existe realmente uma equipe pra ser chamada de “coluna”, como vocês já devem ter percebido em outros textos. Mas eu estive lá, sim. Só que não para registrar os melhores momentos do evento. Isso você pode fazer pela conta no Instagram do evento, clicando aqui.

Participei do evento como membro do Três Elementos, trio formado ainda por Rafael Studart e o site (se eu sou a coluna, o Fernando Caruso é o site, logicamente). Nunca fiz um texto sobre uma apresentação dos Três Elementos, mas desta vez, no showzinho que fizemos no sábado, dia 16, tudo foi muito inusitado e merece um registro.

Como quem nos acompanha sabe, o trio nunca repete uma apresentação. Cada evento ganha um show específico, que tenha a ver com o tema. Desta vez, numa cidade conhecida por nomes como Pelé, Neymar, Robinho e Serginho Chulapa, resolvemos que seria legal brincar com futebol de alguma forma. Eu achei que era um grande erro, pois Caruso e Studart não sacam nada sobre o esporte. E normalmente, nem os nerds tradicionais curtem futebol. Mas levamos em consideração que era um evento aberto ao público, gratuitamente, daqueles que levam muitos não-nerds pra ver a agitação local. Então seria legal usar o futebol como elo com um tema nerd. A gente até ia fazer uma surpresa, mas o Caruso decidiu contar ao vivo no telejornal da Tribuna, afiliada da Globo em Santos. Vejam que eu tentei impedir:

O que combinamos, antes de subir ao palco, era que Caruso seria uma espécie de juiz, que avaliaria as escalações dos times que eu e Studart montaríamos diante da plateia. E que todos esses “jogadores” seriam super-heróis. Para agilizar a coisa, partimos para uma formação de futebol de salão, com cinco jogadores de cada lado. Eu e o jovem Stu não sabíamos de antemão que heróis cada um escalaria. Caruso falou que se desse tempo, a gente narraria um lance também, mostrando como seria esse jogo. Beleza.

Alternadamente, eu e Stu montamos nossos times em público, com Caruso questionando cada escalação e interagindo com a plateia para decidir se eram válidas ou não. Então começamos com os goleiros. Eu vim com Homem-Aranha, que poderia até ficar de costa para o jogo, sendo alertado pelo sentido aranha. Expliquei ainda que ele poderia pular para fazer defesas, além de jogar teia para alcançar as bolas mais difíceis. Caruso perguntou se ele poderia fazer uma rede de teia na frente do gol, mas eu pressenti perigo nessa pergunta. Disse que ele não faria isso. Caruso concordou, porque sempre que a bola bate numa rede, é gol. Vi aí que Caruso estava planejando algo perverso. Studart veio de Madrox, o homem múltiplo da Marvel. Ele argumentou que o herói poderia se multiplicar para fechar o gol. Falei que se a bola fosse pelo alto, não adiantaria. Mas Stu cismou que Madrox pode se multiplicar pra cima. Caruso aceitou.

Na defesa, escalei a Mulher Invisível, capaz de criar campos de forças para barrar o ataque. Caruso argumentou que desperdicei uma boa escalação no gol, mas expliquei que ela é mais útil na linha, podendo ficar invisível e roubar bolas do adversário. Studart escalou o Homem-Formiga, dizendo que ele ficaria escondido em formato diminuto e crescer rapidamente para ficar maior que todos e caminhar por cima. Falei logo que se ele pisasse nos colegas seria pênalti. Achei que Caruso barraria essa escalação, mas ele mais uma vez consentiu.

No meio de campo tínhamos que pensar em heróis estrategistas, que distribuíssem bem as jogadas para os atacantes. Eu escalei Capitão América, um cara que pensa formações de ataque desde a segunda guerra (ok, vamos ignorar o período em que ficou no banco, congelado). Caruso achou pouco, mas apelei e disse que Steve Rogers também poderia jogar o escudo para o alto, chutar a bola no objeto e fazer várias tabelinhas aéreas. Studart então anunciou seu meio-de-campo, causando gargalhadas na plateia: Professor Xavier. Caruso discretamente apontou que se tratava de um cadeirante. Eu perguntei se Stu achava que estávamos em uma paraolimpíada. Stu calmamente disse que seu jogador usaria poderes telepáticos para armar jogadas e até manipular os adversários. Pressenti problemas aí.

Na hora de falar dos atacantes, vim com uma excelente dupla, modéstia à parte. Tive a aprovação da plateia ao explicar que Wolverine era o nome ideal, por ser um atacante com garra. E também argumentei que o cara passou a vida toda atacando, oras. Pela direita, escalei o Homem de Ferro, que poderia calcular trajetórias da bola com seu Jarvis, além de voar para jogadas aéreas. Não tinha como perder com essa dupla. Studart veio com uma escalação mais uma vez inusitada: Super Mario. A plateia não acreditou no que estava ouvindo. Caruso perguntou se ele tinha certeza. Stu falou “ele é super”. Caruso alertou que se ele comesse cogumelo para ter poderes, seria pego no doping. E se pulasse para cabecear, poderia ser mão. O outro atacante de Studart, infelizmente, não consigo lembrar quem foi. De qualquer maneira, foi totalmente ofuscado pelo Super Mario.

Achei que pararíamos por aí. Mas para minha surpresa e para a de Studart, Caruso anunciou que faríamos uma partida lance a lance, com ele dando uma de mestre de RPG. Achei que seria um desastre. Só que, por um milagre, deu certo. Eventos nerds são mesmo uma caixinha de surpresa. Será impossível narrar a partida inteira aqui. Mas só para vocês terem uma ideia, se eu fosse na bola com determinado herói, Caruso perguntava para Stu quem era o jogador dele mais perto, de acordo com a parte do campo em que estávamos, e o que ele faria. Rolaram muitas disputas estranhas, com Caruso consultando a plateia sobre a validade do lance. Por exemplo, se o Homem-Formiga diminui para entrar na bola e mexer nela por dentro, o juiz deve apitar que foi mão? Ou seja, mão na bola por dentro é mão? A plateia disse que era, então eu devia cobrar a falta.

Outro lance bizarro foi quando Studart parou uma jogada minha usando o Professor Xavier para controlar a mente dos meus jogadores. Caruso permitiu esse jogo sujo. Eu precisei fazer algo. Então no meu movimento seguinte, fiz com que Wolverine enfiasse três garras de adamantium na cabeça de Charles. A torcida decidiu que Logan foi expulso. Tudo bem. Sacrifiquei um peão para tirar um rei de campo. Xavier saiu “contundido”. Caruso e Studart não entendem tanto de futebol a ponto de pensarem numa substituição. Resolvi ficar quieto e deixar o jogo equilibrado com quatro jogadores de cada lado.

Vários lances rolaram, com faltas do Homem Formiga, roubadas de bola de Sue Storm, tabelas sensacionais de Steve Rogers, defesas incríveis de Peter Parker, dribles do Super Mario e tiros certeiros de Stark. Tivemos um gol pra cada lado. Caruso determinou o empate. Mas com cobrança de pênaltis. Aí ficou ainda mais maluco. Nosso mestre determinou que cada um de nós tinha que falar ao mesmo tempo quem ia chutar e quem ia defender. No primeiro lance, eu chamei Tocha Humana para chutar, com Stu conclamando Hulk pra defender. Eu descrevi um chute com a bola em chamas, bem veloz. Stu disse que a bola queimaria antes de chegar em seu goleiro, mas Caruso entendeu que botei a quantidade correta de calor na pelota. Hulk deu mole e levou gol.

Em outro lance, gritei Homem Borracha para a defesa ao mesmo tempo em que Stu gritou um porradeiro qualquer para chutar (desculpem-me por lembrar mais dos meus jogadores do que dos dele). Eu estiquei meu herói por todo o gol, mas Caruso considerou que o chute de Studart faria com que a bola jogasse a barriga do Homem Borracha para dentro, cruzando a linha. A plateia concordou e fui garfado, levando esse gol.

Um outro lance lamentável da plateia foi permitir um jogo sujo de Studart quando escalei Jean Grey para cobrar um pênalti contra Mercúrio no gol de Studart. Chutei a bola dizendo que Jean manipularia mentalmente o goleiro para diminuir sua velocidade, ao mesmo tempo em que usaria sua telecinese para fazer a bola ir de um lado para o outro até entrar. O cara de pau do Studart disse que Mercúrio correu até a casa de Jean e colocou algo em sua bebida, para deixá-la sem pleno uso de seus poderes. Comentei que, primeiramente, não havia nada de legal em um homem colocar algo na bebida de uma mulher, temos exemplos mais do que condenáveis de golpes assim nas baladas. E, segundo, Mercúrio não poderia fazer isso, a menos que viajasse no tempo, pois Jean Grey já estava em campo sem beber nada. Caruso ia me dar razão, mas Stu falou que ele fez isso de manhã, colocando substâncias nas bebidas de todos os jogadores do meu time. Inacreditavelmente, a plateia validou esse ato de vilania. Minha bola não entrou.

No último lance, com a partida ainda mais empatada. Era minha vez de defender uma cobrança de Studart. Gritei Superman, enquanto ele gritou Thanos. Caruso pediu para Stu descrever seu chute com Thanos. Meu colega de trio simplesmente declarou que Thanos usou as Joias do Infinito para apagar metade dos gols feitos por meu time. Como assim? Eu estava perdido? Não podia ser! Caruso se levantou e perguntou o que eu ia fazer, já pronto para declarar uma vitória suja de Studart. Mas eis que eu me levanto e exclamo que Superman voou com supervelocidade em sentido contrário ao giro da Terra, como em seu filme de 1978, fazendo o tempo voltar e impedindo Thanos de executar seu ato. E não é que parte da torcida comemorou com palmas e gritos? Caruso então declarou que não foi gol e o jogo havia terminado. Perguntei “quem ganhou, então?”. Caruso falou “a plateia!” e saímos do palco nas palmas. Que jogo, senhoras e senhores, que jogo. Haja coração!

Ulisses Mattos

Por: Ulisses Mattos

Ulisses Mattos é roteirista de humor na TV, um dos criadores do Alta Cúpula, do @na_Kombi e da websérie Épica das Galáxias. É membro do trio nerd Três Elementos e faz stand-up comedy. Escreveu sobre cinema no Jornal do Brasil e nos sites da Veja e Abacaxi Voador

2019-11-22T21:11:36+00:00 22 de novembro de 2019|0 Comentários