SUPER GIRO #70

Carta na manga da DC

Esta foi a semana de estreia nos cinemas de filme baseado em quadrinhos! Coringa chegou às salas de exibição cheio de elogios, mas também com algumas acusações. Por esses dois motivos, não fui tão empolgado conferir a sessão. Vamos a cada um deles, sem dar spoiler sobre o filme.

Começo com as tais acusações. Assim que o trailer de Coringa foi para a internet, algumas pessoas começaram a comparar o personagem aos incels. Incel significa “involuntary celibate” (celibatário involuntário). São aqueles homens com algum problema social ou psicológico que os impede de conseguirem se relacionar com mulheres, muitas vezes chegando à misoginia. Em último caso, alguns chegam a cometer atentados contra inocentes, com armas de fogo. As comparações vieram porque o Coringa deste filme parecia também ser um cara que foi despropositadamente oprimido pela sociedade e desprezado por mulheres, que resolveu se vingar pelo caminho do terrorismo. O assunto foi até discutido nos próprios fóruns de incels. O temor foi tão grande que até o cinema onde rolou um atentado em 2012 decidiu não exibir Coringa. Tá tudo muito bem explicado nesse link da reportagem da Vice.

Já fui pro cinema com essa preocupação, pensando “Ai, caramba. Algum imbecil vai usar esse filme como inspiração pra fazer alguma besteira e dar motivo para outros imbecis começarem a censurar obras cinematográficas e até dos quadrinhos”. Mas foi com alívio que vi que a trama não tem nada disso. Este pobre Arthur não é um incel, sua motivação para se tornar o Coringa é bem outra. Aliás, podemos até pressupor mais de uma motivação. Então, se algum incel perder a cabeça e culpar Coringa, podemos tratá-lo como um Charles Manson, doente mental que viu o que só ele quis ver na letra de Helter Skelter, dos Beatles, que saíram ilesos do assassinato de Sharon Tate e seus amigos.

Minha segunda razão para não ir superempolgado ao cinema foram os tais elogios. A rasgação de seda em cima do diretor Todd Phillips (que também escreveu o roteiro, com Scott Silver) não vinha de um público comum, mas do júri do Festival de Veneza, onde Coringa conquistou o Leão de Ouro, prêmio principal do evento. Trata-se de um festival de filmes mais artísticos, que não dá muita bola para o cinema de entretenimento. Então eu não estava exatamente animadão, como fico com filmes de super-heróis, que costumam ser feitos na medida para mexer com minha memória afetiva e me fazer vibrar com arquétipos mitológicos e narrativas na fórmula “jornada do herói”. Sabia que veria um filme sem muita ação, focado nos sentimentos dos personagens e com ritmo mais lento. Isso pode ser muito bom, e alguns dos meus filmes favoritos são assim. Mas também pode dar muito errado.

E mais uma vez para meu alívio, Coringa é excelente. A ausência de ritmo frenético, de ação e de uma fácil fórmula narrativa não impede o filme de ser admirável. Não é um filme-cabeça, daqueles que só os fãs do cinema artístico vão gostar. É sim um profundo estudo de personagem, mas bem atraente para o público médio. A performance de Joaquin Phoenix é memorável, mas de um jeito que não precisa ser comparado com a interpretação de Heath Ledger em O Cavaleiro das Trevas, já que são leituras diferentes de um mesmo personagem.

Minha única pulga atrás da orelha depois da exibição quase me impediu de escrever a primeira frase desta resenha, quando falo em filme baseado em quadrinho. Sim, Coringa é baseado no arqui-inimigo de Batman, um dos personagens mais famosos dos gibis. Mas, na real, esse filme nem precisaria ser sobre o palhaço dos quadrinhos. Podia ser a história de um cara problemático qualquer que termina por se tornar uma inspiração para algumas pessoas desajustadas. Na verdade, não exatamente desajustadas, mas revoltadas. Aliás, é nisso que esse Coringa parece ser mais diferente do dos quadrinhos. E é o que reforça minha dúvida. Esse é mesmo um filme do Coringa? É verdade que há ligações com a vida de Batman. Mas… nem precisava. É como se houvesse um roteiro já pronto sobre um personagem diferente e alguém falasse para o autor “Quer saber como bombar essa história? Injeta umas paradas de Batman aí e diz que é o Coringa”.

De qualquer forma, Coringa é um filme imperdível, daqueles que pegam inspiração nos quadrinhos e mostram que há muita profundidade nos personagens que habitam os gibis, como fez Logan. Será que se aponta aí um caminho para a DC ser vitoriosa no cinema? Histórias soltas, sem a necessidade de um universo compartilhado? Os executivos da Warner não são loucos de ignorar esse cenário.

Ulisses Mattos

Por: Ulisses Mattos

Ulisses Mattos é roteirista de humor na TV, um dos criadores do Alta Cúpula, do @na_Kombi e da websérie Épica das Galáxias. É membro do trio nerd Três Elementos e faz stand-up comedy. Escreveu sobre cinema no Jornal do Brasil e nos sites da Veja e Abacaxi Voador

2019-10-04T18:58:12+00:00 4 de outubro de 2019|0 Comentários