SUPER GIRO #69

Vilão no Poder

A gente cria uma coluninha pra falar das coisas legais que rolaram no universo nerd durante a semana, com uma pegada engraçadinha, com o objetivo de informar o público e ainda despertar uns risinhos. E aí, o que acontece? O prefeito de uma das maiores cidades do mundo comete um ato imbecil e preconceituoso, praticamente obrigando a coluna a falar um pouco mais sério. Pois é, a notícia mais bombástica da semana transbordou do mundo da cultura pop e atingiu o cotidiano dos cidadãos e até o noticiário político. Tudo por causa de “A Cruzada das Crianças”.

Um desavisado qualquer que ouve falar que um livro de quadrinhos com esse título foi acusado por uma autoridade de ter “conteúdo sexual para menores” pode pensar o pior. “Meu, Deus! Quadrinhos com crianças cruzando! Tá certo o Poder Público!”

Mas quando você descobre que a tal autoridade é o prefeito não-praticante do Rio, Marcelo Crivella, ex-pastor da Igreja Universal, já dá para se ligar que não deve ser bem isso. E não é mesmo. Não há conteúdo sexual para menores nesse livro dos Vingadores. O que há é relacionamento entre dois personagens do mesmo sexo. Não há desenhos de órgãos sexuais, não há penetração, não há felação. NÃO HÁ PORNOGRAFIA. Não há, portanto, conteúdo sexual. E não há nem “safadeza”, já que os personagens não estão apenas se pegando lasciva e inconsequentemente. Hulkiling e Wiccano são namorados, estão vivendo uma relação de afeto, que, como normalmente acontece, se estende para o sexo (não mostrado no livro).

Vamos ser sinceros? A decisão de Crivella determinando que os organizadores de Bienal do Rio encapem os livros e alertem para conteúdo sexual não é uma preocupação com menores sendo expostos a material impróprio, já que NÃO HÁ CONTEÚDO SEXUAL. A preocupação é que jovens não vejam uma cena de amor entre pessoas do mesmo gênero. Pois beijos entre jovens de sexos diferentes não despertam nenhuma atitude, como podemos ver nessa capa de Cebolinha e Mônica jovens:

Eu acho essa capa muito errada, porque sempre achei que Mônica deveria namorar o Titi, não o Cebolinha. Mas OK, vamos voltar ao assunto principal da coluna. Entendo que, pela religião de Crivella, o prefeito não goste do que viu no livro. Isso porque em algum lugar da Bíblia, alguém fala que homossexualismo deve ser condenado, assim como comer crustáceos, trabalhar sábado e cortar cabelo das mulheres em determinado comprimento. Quer seguir o livro sagrado literalmente, beleza. Quem sou eu pra dizer no que você pode ou não acreditar? Mas como governante, é preciso seguir apenas a lei, não uma religião específica.

Semana passada, subindo as escadas rolantes do metrô da estação Cardeal Arcoverde, ao lado de minha esposa, vi um casal de garotos, imediatamente atrás da gente, de mãos dadas e dando um beijo um pouco além do selinho. É uma cena corriqueira já. Os quadrinhos não estão fazendo apologia ou promoção de um estilo de vida, mas sim retratando algo do mundo real, buscando permear uma história fantasiosa (com alienígenas e seres mágicos) com elementos do cotidiano, como fazem as melhores obras de ficção.

Algumas pessoas se manifestaram na internet contra o quadrinho por trazer o beijo gay. Entre os desabafos está o de um homem dizendo que antigamente os quadrinhos “incentivavam jovens a se superarem quanto a seus medos e se fazerem fortes para ingressar no exército e ir para a guerra”. Sou pacifista, mas não vou dizer aqui que está errado preparar a mente de um jovem para ir para a guerra. Até porque sei que às vezes o diálogo se esgota e só resta mesmo o caminho para conflitos armados entre nações. E em tempos de guerra, tá mais que certo os quadrinhos virem com um Capitão América socando nazistas. “Preparar a mente”, como diz ali o cidadão chocado, é importante, sim. Então uso o mesmo argumento para falar que tá OK mostrar dois jovens do mesmo sexo se beijando. Porque é preciso preparar a mente também para o amor.

É preciso preparar seu filho para ver que existem relacionamentos diferentes daquele de que a sua família ou sua igreja gostam. O ser humano é complexo demais. Existem diferentes formas de pensar, de sentir e de se expressar. E chegamos a um grau de liberdade na nossa sociedade que não vai ser uma prefeitura ou um governo federal que farão as coisas voltarem para trás. Não dá para levar gays de volta para o armário ou guetos obscuros da mesma forma que não é possível levar membros de uma etnia de volta à escravidão. Então, o racista tem que estar preparado para ver negros médicos atendendo sua esposa. E o homofóbico tem que estar preparado para ver duas meninas de mãos dadas tocando os lábios carinhosamente na esquina. Eles podem odiar isso, mas terão que conviver com essa realidade. E os quadrinhos, a meu ver, são uma excelente forma de preparar os jovens ou até mesmo os adultos para essa aceitação. Não serão capinhas de plástico mentindo sobre conteúdo sexual, nem prefeitos incompetentes e não-laicos que conseguirão frear a liberdade. Pelo contrário. Atos bizarros como esse só farão o progresso engatar em marcha mais potente. De acordo com a assessoria de imprensa da Bienal do Rio, os livros se esgotaram na manhã desta sexta, em apenas 35 minutos.

Não adianta o prefeito, os beatos ou os conservadores tentarem censurar o mundo. A sociedade continuará indo para o alto e avante.

Ulisses Mattos

Por: Ulisses Mattos

Ulisses Mattos é roteirista de humor na TV, um dos criadores do Alta Cúpula, do @na_Kombi e da websérie Épica das Galáxias. É membro do trio nerd Três Elementos e faz stand-up comedy. Escreveu sobre cinema no Jornal do Brasil e nos sites da Veja e Abacaxi Voador

2019-09-06T12:55:58+00:00 6 de setembro de 2019|0 Comentários