SUPER GIRO #36

Supersaturação?

Figurões do cinema já se pronunciaram de alguma forma contra os filmes de super-heróis, seja falando que o tema se esgotaria logo, como Steven Spielberg, ou até torcendo para que o público se cansasse em breve desse estilo, como fez James Cameron. Eu li essas manifestações e menosprezei, pensando no exemplo que a Marvel nos dá, ora lançando um filme de ação, outro de comédia, um de aventura espacial, outro de espionagem e até um drama shakespeariano. E ainda teve a Fox com uma paródia em Deadpool e algo até difícil de classificar, como o Logan de James Mangold, que é maduro, adulto, triste… enfim, um belo exemplar de filme de diretor.

Mas fiquei olhando algumas das notícias desta semana e foi me batendo uma preocupação. Infelizmente, nem tudo é MCU. Temos uma penca de filmes e séries de super-heróis sendo planejados e produzidos quase a toque de caixa, sendo que alguns protagonizados por personagens que não seguram nem títulos próprios nas revistas em quadrinhos. E aí que mora o risco de esgotamento que faz as plateias começarem a se decepcionar, baixarem os números nas bilheterias e desmotivarem mais produções inspiradas em bons quadrinhos.


Até o início da semana, ainda se falava com alguma empolgação sobre um filme juntando Sabre de Prata e Gata Negra, personagens secundárias das aventuras do Homem-Aranha. Tirando o bom título, Silver and Black, não vejo nada promissor num longa assim. Não estranhamente, a Sony acaba de adiar o lançamento, que era previsto para fevereiro de 2019.

Outro personagem aleatório do universo aracnídeo que pode vir a ganhar um filme solo é o vilão Morbius. Sempre gostei do cientista vampiro nos quadrinhos, mas… um longa protagonizado por ele? Possivelmente será sem o Homem-Aranha, da mesma forma que o filme de Venon deve dispensar o amigão da vizinhança em sua trama. Não é arriscado demais?

Também esta semana rolou a notícia sobre o adiantamento do lançamento de Aquaman no Brasil: brasileiros verão o filme em 13 de dezembro, na semana anterior à da estreia nos EUA. Eu me pergunto quantas pessoas estão ansiosas por um filme solo de um personagem que sempre foi motivo de piada pela grande massa não consumidora de quadrinhos. Mesmo com a reformulação para o cinema, Aquaman não foi um dos pontos altos em Liga da Justiça, que por sua vez também não foi um estouro nas bilheterias. Será que faz sentido a DC lançar filmes como o do Adão Negro sem o Shazam? Ou mesmo um filme de Shazam?

Esta semana também tivemos a confirmação do ótimo Jamie Foxx para protagonizar um novo filme de Spawn, dirigido pelo criador do personagem, Todd McFarlane. O primeiro filme, de 1997, foi bem caído. O novo pode surpreender, não só por ter um grande ator à frente, mas também por se esforçar em ser mais um terror sobrenatural do que um filme de super-herói. Mas ainda assim, temo que seja um pequeno fracasso, daqueles que vão minando a vontade de os estúdios continuarem a investir em personagens da arte sequencial.

Aí, esta semana, entrevistam o Orlando Bloom e ele resolve dizer que tinha vontade de viver o Capitão Britânia no cinema, “apesar da roupa ridícula” do personagem. Até o venerável Simon Pegg andou falando que gostaria de viver o herói inglês, apesar de reconhecer que já passou da idade para isso. Gente, será mesmo que Capitão Britânia merece um longa? Se fizer uma ponta num filme do MCU já estaria de bom tamanho.

Talvez a melhor forma de aproveitar tantos personagens sem arriscar tanto seja mantê-los na TV. Todo ano dezenas de séries são cancelas na TV, faz parte do jogo. Mas quando um filme fracassa nos cinemas é um estrondo. Vejam o caso de Inumanos. Estreou, não agradou e foi cancelado sem comprometer o bom nome da Marvel. Este mês será lançada a série de Manto e Adaga. Apesar de ter lido os quadrinhos, não estou empolgado com a adaptação, com cara de Malhação. Mas tudo bem. É uma série de TV, não um megainvestimento nos cinemas. Teremos em breve as segundas temporadas de Luke Cage e de Punho de Ferro, que eu sinceramente não levo a menor fé depois que vi as primeiras. Haverá até uma terceira de Jessica Jones, que pra mim só teve a primeira de boa. Mas beleza. Se é TV, tem jogo.

Essa semana, também teve notícia sobre Resident Alien, da Dark Horse, virando série pelo canal Syfy. Ótimo! É o veículo para esse tipo de personagem. Vai fundo!

Eu só torço mesmo por mais moderação nos cinemas. Se forem investir em personagens que não tenham um apelo junto ao grande público, que pelo menos tenham o capricho que a Marvel Studios teve ao jogar os Guardiões da Galáxia ou o Pantera Negra aos leões. Não sacrifiquem os personagens dos quadrinhos.

Querem ver outra prova de que nem tudo tem que ir para o cinema e às vezes nem para a TV? A nova aposta da Netflix em uma parceria com o genial autor de quadrinhos Mark Millar não é um longa ou uma série. É uma revista em quadrinhos! O trailer de Magic Order saiu esta semana:

Ou seja, adaptar um personagem ou história dos quadrinhos para o cinema não pode ser como um truque barato de tirar um coelho de uma cartola. A mágica tem que ser bem mais rica, mais complexa. Dormammu que o diga.

Ulisses Mattos

Por: Ulisses Mattos

Ulisses Mattos é roteirista de humor na TV, um dos criadores do Alta Cúpula, do @na_Kombi e da websérie Épica das Galáxias. É membro do trio nerd Três Elementos e faz stand-up comedy. Escreveu sobre cinema no Jornal do Brasil e nos sites da Veja e Abacaxi Voador

2018-06-01T17:30:59+00:00 1 de junho de 2018|18 Comentários