Savage Dragon #01

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“Louis C. K. está para comédia assim como Savage Dragon está para os quadrinhos de Super Heróis”

Essa é provavelmente a afirmação mais absurda e o cruzamento de referências mais distante que alguém possa ter feito entre comédia stand up e quadrinhos de super heróis (se é que alguém alguma vez na vida já fez qualquer cruzamento de referências entre comédia stand up e quadrinhos de super heróis). Mas eu me explico.

Louis C. K. não é um comediante mundialmente conhecido. Ele é, sim, muito conhecido, mas não é tão famoso quanto um Seinfeld, Eddie Murphy ou até mesmo Ellen DeGeneres, ainda mais agora com seu novo programa no formato “Oprah”. No entanto, ele ficou muito conceituado entre os comediantes, a ponto de ganhar o título de “o comediante dos comediantes”, posto que ele era frequentemente citado nas ‘listas de preferidos’ dos comediantes mais famosos. O Louis C. K. apresenta um tipo de stand up que o gosto de chamar de “sem palhaçada”. Não tem macaquice, não tem exageros, música hip-hop na entrada, show de luzes, nada. É só ele e piadas. O estado mais puro, mais sincero da comédia, sem subterfúgio, sem enganação. Talvez por isso ele seja especialmente apreciado por aqueles que amam o gênero verdadeiramente, em detrimento do “auê” em volta dele.

Savage Dragon

O Savage Dragon não é um super herói mundialmente conhecido. Ele é, sim, razoavelmente conhecido, posto que ele figura entre os principais heróis da Image, uma editora de quadrinhos que pode ser considerada bastante “main stream”, ainda mais se comparada à Dark Horse, Oni Press, Red 5 e outras menores, mas ele não é nem de longe tão conhecido como um Super Homem, um Homem Aranha ou até mesmo um Rocket Racoon, dada a sua ascensão mais recente ao – literalmente – estrelato. No entanto, Savage Dragon é um dos poucos personagens escrito e desenhado pelo mesmo autor desde 1992, o que faz com que ele quebre recordes a cada mês de publicação.

Comecemos do começo: o Savage Dragon foi criado por Erik Larsen ao mesmo tempo que a Image Comics. Com ele estavam Spawn, do Todd McFarlane; os WildC.A.T.S. do Jim Lee; os Young Blood do Liefeld; e vários outros personagens célebres publicados com sucesso até hoje, só que não. Agora, aonde mora a tal semelhança do Savage Dragon com o Louis C. K.? Muito simples (ok, talvez não tão simples assim, mas por favor, paciência): o Erik Larsen quando criou seu personagem, não criou apenas um personagem com um storyline a ser seguido à risca. Ele criou todo um universo, criando personagens que o permitissem brincar com os arquétipos de tudo que ele mais ama – e eu imagino que nós também – nos quadrinhos de super heróis, mas que não seria possível caso ele estivesse trabalhando nas editoras mariores. Dessa forma, você pode ver uma versão do Captão Marvel (Shazam), no universo dele chamado de Mighty Man, que responde à pergunta “o que aconteceria se o Billy Batson fosse menina?” (o resultado é uma dócil enfermeira presa no corpo de um dos heróis mais poderosos da terra). Você pode ver uma versão de Capitão América, no caso dele, o Super Patriota, velho e todo remendado, como as histórias do Capitão vieram sendo ao longo dos anos. Um Doutor Octopus com braços de polvo, literalmente. Enfim, uma infinidade de personagens secundários e principais, que fazem referência a outros que nós, amantes de quadrinhos conhecemos (e amamos) muito bem. Uma espécie de “Easter Egg Comics”, se você me permite. (SPOILER: Um dos meus preferidos é uma versão do Homem Aranha, que é jornalista como o Peter Parker, é casado com uma ruiva igual a Mary Jane, trabalha num jornal igual o Clarim Diário, mas que na verdade não é o Homem Aranha e sim um babaca que paga um cara pra ser o Homem Aranha no lugar dele, para que as pessoas possam desconfiar de que ele é “herói secretamente”.)

Edição encadernada da Mythos

Para um verdadeiro apreciador de histórias de super-heróis, o Savage Dragon é um prato cheio dessas histórias, sem as limitações e o “auê” imposto pelas grandes editoras, como mega sagas, crossovers forçados, grandes mudanças que não mudam nada e toda aquela baboseira que a gente até compra, mas que não é o motivo pelo qual somos atraídos aqueles personagens pra início de conversa. Savage Dragon não tem isso, são só histórias boas de super heróis em sua essência, assim como o Louis C. K. é a apresentação mais pura da comédia. Por isso, talvez, que o Savage Dragon esteja na lista de quadrinhos preferidos dos criadores mais famosos.

Arte original do Erik Larsen x fan art do Rodrigo Okuyama (sou eu de Savage Dragon!!!)

Além disso, o fato do mesmo autor estar escrevendo e desenhando a mesma revista há mais de 20 anos, gera algumas vantagens que perdemos de vista nas revistas de linha passadas de mão em mão criativa. Por exemplo:

– O autor tem absoluto controle de suas tramas. Ou seja, não existem retcons forçados, para fazer revelações chocantes, ressuscitar alguém, ou engravidar sua ex-namorada morta com os filhos gêmeos do seu pior inimigo (ISSO ME DÓI ATÉ HOJE!). Quando alguma revelação é feita na trama, você, leitor, sabe que ela foi plantada desde o início, porque você estava lá pra conferir os indícios deixados pelo autor (e se você pegar a sua revista procurando esses indícios, pode ter certeza de que irá encontrá-los).

– As histórias do Savage Dragon são as únicas do universo de super heróis em que o tempo passa de maneira real. Um ano de publicação, equivale a um ano na vida dos personagens. Os filhos crescem, os adultos envelhecem, se aposentam e todos, mulheres e homens, mudam a sua fisionomia com o passar do tempo.

– Como o autor precisa se manter interessado nas suas próprias histórias, elas nunca caem num status quo perpétuo, sempre mudando o rumo e mantendo o dinamismo eternamente. Ele começa como policial, depois assume uma força tarefa à lá Vingadores, depois um ambiente familiar estilo Quarteto Fantástico, sempre mostrando uma nova ótica em cima dos clichês mais batidos dos quadrinhos, que já estamos carecas de conhecer.

– Os crossovers são feitos única e exclusivamente com personagens que o autor gosta, então eles acontecem dentro da trama da revista, organicamente, sem a necessidade de uma edição especial que não fará parte da cronologia. Isso pode servir também como uma excelente forma de conhecer novos personagens menores, que você talvez não conhecesse se não fosse por isso. Pode esperar alguns nomes como Hellboy, Madman, Invincible, The Maxx, Jack Staff e vários outros muito interessantes.

– O desenhista é sempre o mesmo, nada de surpresas como um Sal Buscema, do nada, desenhando a sua revista preferida por um período indeterminado de tempo!

Essa é uma leitura que eu aconselho fervorosamente e é a parte mais querida da minha vasta coleção de quadrinhos. Eu faço, porém, algumas advertências:

– As histórias surgiram nos anos 90, que é uma época simplesmente horrorosa. Então é preciso relevar algumas coisas das primeiras revistas, tipo uma separação de cores estranhas, armas desnecessariamente grandes, etc.

– O personagem surgiu em conjunto com o universo Image, o que, num primeiro momento, veio com a necessidade de estabelecer uma coesão nos primeiros números, trazendo umas aparições um pouco forçadas de alguns personagens que hoje não fazem quase nenhum sentido.

– Essa é uma leitura para iniciados. Não sei se ‘novatos não amantes de quadrinhos de super-heróis’ apreciarão as suas particularidades.

– A história pega mesmo, mesmo, mesmo, após a edição 15. Então, não desista antes da 16.

– O desenhista é sempre o mesmo. Então se você não gostar do traço do Erik Larsen, o Sal Buscema não vai aparecer pra te salvar.

– As revistas são muito difíceis de encontrar em comic shops e completar a sua coleção. No Brasil só saiu até o 15, um crossover com o Hellboy que acontece lá pelo número trinta (aqui saiu como se fosse uma edição especial – mas é MENTIRA!!!) e um outro encadernado solto, pela Mythos, publicando um arco da revista onde o Erik Larsen reaproveitou vários personagens da década de 50 que entraram em domínio público.

Espero ter despertado o interesse de alguém e gostaria muito de ouvir a opinião de vocês, sempre, é claro, com muito respeito!

Forte abraço e boas leituras!

Tô LendoAlgumas imagens!
2017-11-14T14:42:17+00:00 4 de outubro de 2017|91 Comentários