Rebobinando #89 | O Rei Leão

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O ano era 1994. E em meio a filmes como Velocidade Máxima, Pulp Fiction e Acertando as Contas com o Papai (uau) um filme em especial levou todo mundo ao cinema, traumatizando milhões de crianças ao redor do planeta! Vamos rebobinar O Rei Leão!

Nos anos 90 não havia muita preocupação com a cultura do spoiler que temos hoje em dia. Além disso, as coisas meio que demoravam para chegar até aqui. Lembrem que a diferença “normal” de publicação dos quadrinhos americanos no Brasil era de uns quatro anos. Os filmes, em geral, não demoravam tanto assim, mas chegavam por aqui mais ou menos um mês depois, às vezes mais! Algo impensável hoje em dia! Portanto, em 8 de Julho de 1994, estreava nos cinemas brasileiros o mais novo filme da Disney, O Rei Leão.

Em 94, eu ainda tinha uns 12 anos e já estava naquela idade de achar I N S U P O R T Á V E L filmes musicais. Que dirá desenhos animados musicais. Mas também naquela época a gente não tinha muita escolha, se os nossos pais disessem “vamos ao cinema ver o Rei Leão” a gente ia ao cinema ver o Rei Leão. Dificilmente eu conseguiria convencer a minha mãe a me deixar ver Velocidade Máxima, ou Maverick (mas esses dois eu acabei indo ver sozinho, já que eu morava perto do shopping que tinha um cinema). No fim das contas eu até que gostei do filme, achei as músicas um saco, e meh, foi isso.

“Hakuna Matata” deveria significar “Procure um bom psicólogo” em Suaíle.

MAS

Esse desenho não é um clássico à toa e é o tipo de história que só melhora depois que você cresce e começa a entender as nuances. Quer dizer, nuances pertinentes a um desenho animado voltado para o público infantil, com um lado bom e um lado mau tão claros. Muitas crianças da minha época ficaram traumatizadíssimas com a morte de Mufasa e arrisco dizer que este é um dos grandes momentos cinematográficos da história juntinho ali com o “Não, eu sou seu pai” de Darth Vader. A carga dramática shakespeareana do enredo se faz notar, claro, depois que você conhece alguma coisa de Shakespeare (o que eu duvido que uma criança brasileira típica de 12 anos tenha). O que só aumenta o valor de clássico do filme depois que você, no mínimo, entra na faculdade. De qualquer maneira, o filme é bom e a criançada adora. 

Aula de Psicologia Infantil com o tio Scar.

A Produção

Aparentemente, ninguém levava muita fé no projeto, que começou sua produção junto com Pocahontas (que saiu no ano seguinte). Muita gente acabou indo para o projeto da índia americana, deixando os leões da savana para os novatos mais inexperientes. E como parece que, quando você pega uma responsabilidade maior pela primeira vez, todo mundo quis mostrar serviço fazendo deste filme um dos mais lucrativos para a Casa do Rato. Como os personagens não eram humanizados, todos os animadores precisaram estudar os movimentos dos grandes felinos e até fizeram uma viagem ao Parque Nacional de Hell’s Gate no Quênia para ver os bichos no seu habitat natural. Tudo para dar um ar mais realista ao filme, mesmo tendo animais com expressões bem demarcadas em seus rostos.

O mais interessante, foi a participação da Pixar através do seu programa CAPS na produção da sequência do estouro da manada de gnus, que levou cerca de dois anos para ser concluída. Com a duração de dois minutos e meio, a cena mais dramática do filme foi feita com um animal criado digitalmente e copiado centenas de vezes, mas seguindo um programa de movimento que permitia que ele seguisse rotas diferentes a partir do que estivesse no seu caminho, dando um tom ainda mais realista para o filme. E um peso maior na morte de Mufasa.

“Vida Longa ao Rei!”

As Vozes

O filme original conta com vozes de peso como James Earl Jones (não por acaso, o Darth Vader) como Mufasa e Jeremy Irons como Scar. Além disso, outras vozes famosas como Matthew Broderick fazendo o Simba adulto, Whoopie Goldberd como a hiena Shenzi, Nathan Lane como Timão e o próprio Mr. Bean, Rowan Atkinson, como o mordomo Zazu. Todos esses nomes foram uma surpresa incrível para mim, que acabei assistindo o filme no idioma original somente anos depois. 

Mas esses dias eu dei o meu jeito e resolvi assistir o filme junto com o meu filho de 2 anos e meio e, acho super importante ressaltar como o trabalho da dublagem brasileira é bom. Em geral, já é bom e a gente puxa o saco mesmo, mas eu achei particularmente melhor em O Rei Leão. As músicas estão super bem adaptadas, os dubladores estão cantando bem, com piadas que funcionam no nosso idioma e também com dubladores clássicos da nossa infância, como:

  • Paulo Flores no papel de Mufasa. O cara dublou entre outros desenhos antigos o Simiano em Thundercats e fez a voz de Michael Clarke Duncan e Ving Rhames em vários filmes.
  • Jorgeh Ramos como Scar. O grande, o clássico. Especialista em vilões da Disney com as vozes de Jafar em Aladdin e do tigre Shere Khan em Mogli, o Menino Lobo.
  • Maria Helena Pader como Sarabi. Um dos seus trabalhos mais conhecidos foi a Fran de Família Dinossauros e mais recentemente a Dona Tromba em Hora de Aventura.
  • Patrick Oliveira como Simba jovem. O talento infantil da época e a voz de garoto de boa parte dos desenhos, como o Linguado em A Pequena Sereia.
  • Garcia Júnior como Simba adulto. Só a voz do He-Man e do Príncipe Adam. E de mais outras toneladas de galãs do cinema! 
  • Pádua Moreira como Zazu. É quase difícil de acreditar, mas ele foi a voz brasileira de Darth Vader, além de Jor-El, James Potter e o vilão de Toy Story 3, o ursinho Lotso.
  • Mauro Ramos como Pumba. O grande, o incrível, a voz de todos os porquinhos dos desenhos animados (muito provavelmente), mas destaque para o monstro James P. Sullivan em Monstros S/A e a Joninha Francis em Vida de Inseto.
  • Carmen Sheila no papel da hiena Shenzi. Ela foi a Cheetara de Thundercats e a Madame Foster de Mansão Foster para Amigos Imaginários.
  • Pietro Mário como Rafiki. O cara foi o narrador do anime yu-yu Hakushô, e o Mestre Ancião em Cavaleiros do Zodíaco.

“Se tudo que a luz toca é o nosso reino, o que é aquela parte escura?” “É a área de comentários do Melhores do Mundo, Simba, não vá lá nunca!”

Tô LendoPontos Fortes
  • Drama. O filme é para crianças mas não mede esforços para tratar de alguns temas meio sinistros. A morte de Mufasa sendo o ponto alto. Para uma galerinha um pouco mais velha, pode ser um bom ponto de conversas sobre essa parte triste da vida.
  • Humor. Divertido, engraçado, e acho que só com uma piada de pum no filme inteiro (é que eu não curto piadas de pum). Bem balanceado com os momentos sinistros e o drama.
  • Músicas. Coisa que só fui apreciar depois de velho, confesso. Mas escrita pelas mãos de Tim Rice (letrista responsável pela trilha de Aladdin) e composta por ninguém menos do que Elton John e Hans Zimmer, não é de se admirar que tenha ganhado um oscar e um globo de ouro por melhor música.
Tô LendoPontos Meh
  • Sinistro. Um pouco sinistro demais, talvez? Meu filho pequeno ficou visivelmente tenso na cena do estouro da manada. Mas filmes estão aí para isso, né? Algumas partes como a Be Prepared, a música do Scar, contém alguns elementos que lembram os desfiles nazistas e o tom da música é bem tenso também. Dependendo da idade das crianças pode valer a pena dar uma pulada? Ou sentar pra conversar, o que você achar melhor.
  • Chato de achar. Você não precisa ser hacker para assistir, se quiser muito. Eu quis e dei meu jeito, mas não existe na Netflix e, enquanto o serviço de streaming da Disney não sair, acho difícil encontrar online em algum lugar. Pode-se alugar pelo youtube, ou recorrer ao velho DVD das Lojas Americanas, se é que você ainda tem um DVD Player em casa. Ou o VHS verde, mas aí já é demais.

O Rei Leão pode até ser usado para mostrar como existem famílias de todos os tipos!

Hoje em dia, Rei Leão e Aladdin são fácil os meus dois filmes preferidos do Estúdio. Ainda guardo um certo carinho por Mulan e pelos outros novos clássicos do período de Renascença da Disney. Mas, de novo, foi um gosto adquirido depois de velho. Sentar com um pouco mais de bagagem cultural para assistir esses filmes é um deleite, na verdade. Encontrar as referências artísticas, ou perceber alguns detalhes do trabalho de cão que deve ter sido produzir tal cena faz tudo ficar mais divertido.

Ou mesmo só notar as nuances e os detalhes das tramas que só melhoram os filmes. Se bem que também pode acontecer de piorar um filme ainda mais (EU TÔ OLHANDO PARA VOCÊ PEQUENA SEREIA). Mas de qualquer maneira, é diversão garantida para toda a família. Sempre.

Verei o novo filme em CGI Fotorrealista QUE NÃO É LIVE ACTION? Talvez. Eu queria ter visto o novo Aladdin, mas ainda não tive a oportunidade. Então não vou prometer nada. Fica fica aqui registrado que eu já acho o desenho melhor porque ele tem muito mais expressividade do que os leões fotorrealistas e que só por isso eu já vou entrar no cinema com um pé atrás. Vai ser difícil chegar ao meu assento, mas eu dou um jeito.

O Rei Leão vale cinco rebobinandos! 📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2019-07-15T23:25:24+00:00 15 de julho de 2019|0 Comentários