Rebobinando #99 | Longshot

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Trevo de quatro folhas. Pé de coelho. Ferradura de cavalo. Patuá. Imagina você nascer com tudo isso embutido nos seus genes? Que sorte danada, né? Quer dizer, isso se você não for um clone do seu próprio filho criado para ser escravizado e liderar uma revolução em outra dimensão e voltar para o passado para conhecer a sua esposa que, de certa forma, também é sua mãe. O quê? Bom, não vamos entrar nesse mérito, mas vamos rebobinar a primeira aparição do mutante mais sortudo de todos, Longshot!

Algumas das capas brasileiras com a mini, além da edição #1 americana.

Sempre gostei do Longshot, na verdade. Ele nunca foi um dos meus mutantes favoritos, no entanto (Fera, Noturno e Gambit têm esse mérito), mas os poderes dele sempre me chamaram a atenção. Afinal de contas, ter “sorte” como um superpoder? Quem é que não queria, né? Ele fez parte de uma das minhas formações favoritas dos X-men, mas sempre em segundo plano, quase não sendo aproveitado em todo o seu potencial. Em geral, só davam foco aos seus mullets dourados e sua pinta de Jon Bon Jovi galanteador, mas foi só em 1985, nos EUA, e em 1988 no Brasil, que ficamos sabendo de pelo menos parte de sua origem.

A minissérie Longshot teve duas publicações aqui no Brasil, pela editora Abril Jovem. Uma saiu espalhada por algumas edições da extinta Superaventuras Marvel (#77, #78, #80-84) em 1988. E logo depois, em uma minissérie de mesmo nome, em 1991. Desta vez aproveitando o embalo do personagem como novo membro dos X-men (ele tinha acabado de estrear na equipe, uns dois meses antes, em Superalmanaque Marvel #10). Nos EUA, a mini saiu em 1985 pelas mãos de dois estreantes no mercado de quadrinhos, Ann Nocenti e Arthur “Art” Adams. Os dois viriam a se tornar grandes figuras na Marvel nos anos seguintes, mas tiveram como primeira oportunidade lançar um novo herói para a Casa das Ideias!

A primeira arte conceitual de Longshot, e a interpretação de Art Adams. Rita Ricochete, no entanto, foi baseada na própria Ann Nocenti.

Era um projeto que foi recusado por todo mundo na Marvel na época, então fazia sentido entregar nas mãos de dois iniciantes. Ann Nocenti era apenas uma assistente de editor e Art Adams um desenhista aspirante. No fim, os dois tiveram grandes ideias que foram muito bem aproveitadas nos anos seguintes, incluindo a criação de vilões como o Mojo e a Espiral, além do Mojoverso, claro, e de outras figurinhas tarimbadas dos X-books como a Rita Ricochete. Nocenti quis trabalhar com o conceito de sorte e em como isso poderia ser aplicado a um super-herói, daí os poderes de sorte. Além disso, Longshot ainda possuía poderes psíquicos leves, como a capacidade de “ler” a história dos objetos e os resquícios psíquicos de pessoas que os utilizaram antes. Inclusive, segundo a própria, trabalhar com “super-heróis” no sentido estrito da palavra não era algo que a interessava, então ela bolou todo o esquema de escravização do Mojoverso e em como Longshot estava destinado a liderar uma rebelião! Ela explica muito por alto como foi trabalhar nessa época no vídeo abaixo (em inglês).

Art Adams ficou responsável pelo visual dos personagens e trouxe coisas interessantes. A começar pelo próprio look do herói. Inicialmente entregaram alguns designs para os dois para inspirá-los de alguma forma e o Longshot aparecia com um uniforme todo branco e cabelos curtos, bem diferente. Adams não curtiu a ideia e, remodelou o look para algo mais “roquenrrou”, com um uniforme de couro e aquela pinta de Bon Jovi. Quer dizer, que você ACHAVA que era do Bon Jovi, mas na verdade era de um outro cantor da época, um tal de Limahl. O quê? Você não sabe quem é? Ele é SIMPLESMENTE o cara que cantou o tema de História Sem Fim! Hoje imortalizado pela terceira temporada de Stranger Things! Vou confessar que rolou uma deprê ao saber disso porque eu preferiria muito mais ter o Bon Jovi como inspiração.

Além disso ele introduziu um aspecto que iria A S S O M B R A R os quadrinhos nos anos seguintes!

OS BOLSOS!

Veja bem, Adams odiava aquela ideia absurda de que os heróis pudessem tirar armas do c* sem a menor explicação possível. E como as principais armas de Longshot eram aquelas faquinhas em forma de cutelo, ele achou por bem colocar um cinto de bolsos atravessando o peito do personagem, de onde ele poderia tirar essas lâminas facilmente. Quer dizer… a gente passou anos culpando Rob Liefeld e Jim Lee, quando na verdade deveríamos estar culpando Arthur Adams desde sempre! 

O maior vilão do Longshot com certeza é o cabeleireiro que inventou esse corte!

Um Golpe de Sorte

Na minissérie, acompanhamos a trajetória de Longshot como uma pessoa desmemoriada em fuga. Depois descobriríamos que esta não havia sido nem a primeira, nem a última vez que o herói sofreria uma lavagem cerebral. Com monstros em seu encalço, ele consegue escapar por um portal dimensional para o Universo 616, onde se depara com uma velhinha em apuros e consegue salvá-la, ganhando rapidamente o título de herói. Enquanto tenta se adaptar a este novo mundo, Longshot adota o nome de… bem…. er… Longshot depois que as pessoas comentam o quanto as coisas que ele faz são um “golpe de sorte” (literalmente “longshot” em inglês). Depois disso ele se encontra com os seus perseguidores, que querem abrir um portal de volta para a dimensão de Mojo e largá-lo para trás. Longshot frustra seus planos e, com a fuga dos vilões, fica determinado a descobrir quem ele é e de onde veio.

A mini é composta por seis edições e, nas histórias seguintes, o herói passeia pelo universo Marvel e dá de cara com outros heróis como o Homem-Aranha (claro) e a Mulher-Hulk, além do Doutor Estranho. E conforme a trama avança, vamos sendo apresentados ao mundo televisivo de Mojo e toda a sua grosseria e brutalidade audiovisual. Em meio a isso tudo ele passa por um rapto de um bebê, roubo de diamantes, trabalho como dublê, etc. etc. Dá pra sentir na minissérie que a Marvel estava meio que atirando para todos os lados, na esperança de que alguma coisa fosse marcante. Infelizmente, ao final da trama, o gibi não foi muito para frente, apesar do herói ter um certo carisma. A série mensal de Longshot já nasceu meio fadada ao fracasso, mas quem sabe isso não foi um sinal de sorte?

“Mas que golpe de sorte, né?” “Hmmm. Golpe de Sorte? Acho que tem um nome bacana aí!”

Tô LendoPontos Fortes
  • Novo herói. Na época era tudo novo, né? Visual, jeitão, carisma, poderes… Ainda mais os poderes de sorte dele que, até então, eu só havia visto no Gastão, o primo do Pato Donald. Anos depois o poder seria explicado e re-explicado, além de reutilizado em outros personagens tipo a Dominó.
  • Vilões Marcantes. Eu curto o Mojo como vilão. Acho que é um ponto bem fora da curva dos inimigos dos X-men que, até então só enfrentavam outros mutantes e seres espaciais. Dimensões paralelas com humanos escravizados por uma rede de tevê maligna que só passava programas idiotizantes? Com um chefão amoral que fazia absolutamente de tudo para garantir uma audiência cativa? Aqui no Brasil, chamaríamos de terça-feira.
Tô LendoPontos Meh
  • Roteiro. Apesar de ter uma trama interessante no geral, Longshot não é lá muito empolgante. Em especial as primeiras edições são particularmente mais chatinhas e dá para sentir bem a pegada de “iniciante” da Ann Nocenti nelas. Ela já havia escrito histórias pequenas, one-shots, e tapado alguns buracos antes, mas mesmo assim ela estava um pouco longe de ser a mesma pessoa que escreveu Demolidor logo depois e criou personagens como Mary Tifóide e Coração Negro.
  • Arte. O mesmo vale para Art Adams. Ainda meio preso ao “Desenhe No Estilo Marvel”, ele ainda não tinha desenvolvido sua pegada pessoal no lápis para ser o Art Adams que amamos hoje em dia.

A “sorte do Parker” vs a sorte do Longshot! Quem vence?

A minissérie Longshot acabou não sendo muito marcante, eu sei, mas tenho um certo carinho pelo personagem. Acabei conhecendo-o primeiro em X-men e lembro que foi bacana, mesmo que um pouco confuso, saber de onde ele saiu. Lembro em especial do Mojo e de como curti o vilão no desenho animado dos X-men, nos idos dos anos 90 também. Sempre curti uma boa quebra da quarta parede e o episódio dele foi bem bacana, mesmo com apenas um vislumbre do Longshot em uma cena de ação perdida.

Se quiser, você ainda pode adquirir a primeira edição da mini clicando abaixo (e encontrar os outros números na própria Amazon) e de quebra ainda tem o “Longshot Saves the Marvel Universe”, um encadernado com as histórias do personagem depois que a Marvel resolveu deixá-lo de lado por um tempo.

  

E você? Curtia o Longshot? Qual personagem de quadrinhos com cara de cantor famoso você prefere? Tá se sentindo com sorte, vagabundo?

Longshot vale três trevinhos de quatro folhas (que com sorte, viram quatro). 🍀🍀🍀🍀

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2019-10-09T15:31:29+00:00 30 de setembro de 2019|0 Comentários