Rebobinando #98 | Rambo

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Faixa vermelha na testa, lança-foguetes nas mãos, músculos inchados cintilando de suor. A macheza em pessoa. Rambo foi um dos maiores heróis do cinema dos anos 80, mas na Rebobinando de hoje vamos rever como o filme é sobre os traumas de guerra em seus soldados.

Rambo no Ramboverso!

Rambo: Programado para Matar é um daqueles filmes que a gente lembra mais das sequências do que do filme em si. O primeiro, lembro de ter assistido no Cinema em Casa do SBT uma vez e de ter achado um pouco chato, na verdade. Não acontecia muita coisa até meados do filme, quando o Rambo passa a ser perseguido pela polícia e dá uma de, bom, “Rambo” nos policiais. 

A imagem clássica dele, do “exército de um homem só”, do “machão infalível” que eu tinha através do desenho animado (!!!) da Xuxa só surgiria depois, em Rambo II: A Missão e Rambo III. São nesses filmes que graças à capacidade de Hollywood de transformar tudo num produto que o herói vira quase uma paródia de si mesmo e entra naquela onda que a gente adora tanto, no fim das contas. Talvez influenciado por outros brucutus de sucesso como o Shwarza em Predador, ou mesmo Comando para Matar. Rambo em princípio era levado bem a sério, assim como uma outra obra do Stallone, Rocky, que também teve seus, ahem, percalços no cinema (tô olhando para você Rocky III).

Coisa típica de crianças nos anos 80. Brucutus armados até os dentes. O que poderia dar errado?

Obviamente, eu não tinha idade o suficiente para compreender todas as nuances que Rambo I apresentava. A guerra do Vietnã sempre foi algo muito distante para mim, a guerra fria ainda me era um conceito estranho e meu conceito de bem e mal ainda eram muito definidos pelo preto-e-branco dos Comandos em Ação. Hoje em dia, acredito que o filme mereça ser assistido com um pouco mais de contexto não só sobre esse background histórico, mas também com o conhecimento de como guerras podem, obviamente, afetar os soldados negativamente. Causando traumas por vezes irreversíveis que não os transformam em machões invencíveis, muito pelo contrário, arruína qualquer chance que eles possam ter de uma vida normal.

Boa tarde, estaria interessado em um banho de mangueira?

O Primeiro Sangue 

O filme é baseado em um livro de 1972 de mesmo nome, First Blood, escrito por David Morrell. Segundo o próprio autor, a ideia do livro veio dos relatos que ele ouvia de seus alunos que haviam lutado no Vietnã. Ele baseou o herói Rambo (que não tem um primeiro nome no livro), em um herói real da segunda guerra, Audie Murphy, condecorado com todas as medalhas de batalha do exército americano! Dá uma olhada na página da Wikipédia dele, porque o cara é praticamente um “Rambo+Capitão América” (sem os anabolizantes mágicos, claro). Ainda assim o cara também sofria de Transtorno de Estresse Pós-traumático, e teve um fim triste, mas menos triste que o personagem do livro. 

Em First Blood as coisas começam bem parecidas, mas o Rambo é um pouquinho mais violento na história. Nela, ele não se preocupa com os policiais e a guarda nacional que o estão caçando e mata todos para sobreviver. No final, sobram apenas ele e o delegado da cidadezinha que trocam tiros e se ferem mortalmente. Ainda assim eles dão continuidade à perseguição até o limite de suas forças e Rambo, desistindo de se matar por desejar uma morte honrosa em combate, se decepciona por matar o delegado antes. Só então um tiro do próprio Coronel Trautman acerta o herói na cabeça, concedendo-lhe seu desejo. 

Olá, estaria interessado em uma ginsu 2000?

De Balboa a Rambo

Todo mundo sabe do processo de criação de Rocky e em como Sylvester Stallone batalhou duramente para vender o seu roteiro e colocar a si mesmo como o protagonista. Em Rambo, o ator usou o seu star power adquirido com os dois primeiros filmes do garanhão italiano para efetuar mudanças significativas na história, fazendo Rambo ficar um pouco mais relacionável. Essa falta das muitas mortes do livro, e o final,  foram mudanças trazidas por Stallone. 

O roteiro ficou por cerca de dez anos num limbo de produção desde o lançamento do livro passando por várias versões e produtores. O nome genérico “John” foi dado ao personagem principal por causa de uma canção antiga, datada da guerra civil, chamada “When Johnny Comes Marching Home”. A canção em si é sobre um soldado voltando pra casa após a guerra e recebendo os louros da vitória, sendo celebrado por todos em seu país com um herói a ser reverenciado. Bem diferente do que acontece com o próprio Rambo, que é esquecido pelo seu governo, abandonado por causa de seus traumas e perseguido em sua própria casa. 

Não a toda mudaram também o nome da cidadezinha que no livro era Madison, no Kentucky, mas que no filme virou Hope, em Washington. “Hope” que significa “esperança” em inglês.

Tô LendoPontos Fortes
  • Temática. Às vezes a gente tem uma ideia muito errada de um filme baseado em como a gente assistiu na época. Não que ele tenha sido feito especificamente como uma crítica em mente, afinal de contas ele é vendido até hoje como um “filme de ação”, além de ter o Stallone, conhecido por papéis de brucutu de ação, como ator principal. Mas o filme tem um peso completamente diferente quando paramos para prestar atenção nos detalhes. 
  • Ação. Dito isso, acho a ação muito boa. Apesar do desenvolvimento lento, acho até curioso como a noção de ação em 1982 é bem diferente de hoje em dia. Com menos técnicas de filmagem, ela tinha uma cara muito mais bruta e real do que as peripécias que vemos atualmente em Hollywood.
Tô LendoPontos Meh
  • Lentidão. Como já disse, é um filme de outra época. Antigamente levava-se muito mais tempo para desenvolver uma história num roteiro do que nos dias de hoje, então para o público mais novo, mais acostumado a explosões logo nos primeiros instantes de filme, Rambo 1 pode parecer uma tartaruga subindo a ladeira num fusquinha 1979 em primeira marcha.
  • Sequências. Não quero falar mal dos outros Rambos, na verdade. Eu até curto bastante os dois filmes seguintes (não vi o 4), mas foi como eu falei. Curto quase como uma paródia de filmes da época mesmo. Em especial o 3. Mas isso é uma mudança de opinião muito recente minha, porque eu não lembrava do quanto Rambo 1 tinha uma carga emocional tão forte que se perde nos filmes seguintes.

Hora do mergulho!

Mas é isso. Acho muito curioso esse novo olhar que a gente tem sobre certos filmes que a gente via quando crianças. Seja pro bem, ou pro mal. Às vezes eles podem ser muito piores do que lembramos e às vezes podem ser melhores e isso é o bacana da gente rebobinar por aqui. 

Para encerramos numa nota feliz, achei curioso que o Rambo teve o seu nome tirado de um tipo de maçã nos EUA. Tudo porque enquanto o autor do livro pensava num nome para o seu personagem, sua esposa chegou em casa com uma caixa de maçãs deste tipo, haha. Ainda assim, o nome da fruta veio provavelmente do responsável por cultivá-las e trazê-las para a América, um imigrante Sueco de sobrenome “Rambo”, que provavelmente deu origem aos sobrenomes “Rimbaud” e “Rambeau” em Francês, e que significa “Ninho de Corvos”. 

Vibe “Old Man Logan”, mas com um “Young Man Stallone” nas selvas da Columbia Britânica.

Prum cara que matou tanta gente no cinema, nada mais do que justo. Você provavelmente já deve ter visto o filme, mas se ficou interessado em ler o livro, é só dar uma conferida no link aqui embaixo. 

    

E você? Tem algum filme que ficou melhor pra você depois de velho? Tem algum Rambo preferido? Quer me xingar porque eu falei mal de Rambo 3? Coloca aí nos comentários! 

Rambo: Programado para Matar vale cinco Rebobinandos. 📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2019-10-09T15:51:12+00:00 23 de setembro de 2019|0 Comentários