Rebobinando #97 | Pulp Fiction

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“Grandes artistas roubam, eles não fazem ‘homenagens’”, teria dito Quentin Tarantino certa vez, em uma entrevista. O curioso é que esta citação é um roubo em si, já que é uma adaptação de uma citação de Pablo Picasso, que disse “grandes artistas não copiam, eles roubam”. Então é nesse ambiente de cópia, roubo e homenagem que vamos rebobinar hoje um dos maiores clássicos do cinema, Pulp Fiction – Tempo de Violência

O ano é 1994, dois filmes fazem grande referência ao passado e um deles é sucesso de crítica e público, e outro só de crítica mesmo (mas com um público bastante seleto). Um deles é uma comédia épica bem água-com-açúcar dirigida por Robert Zemeckis, Forrest Gump – O Contador de Histórias; e o outro era de um diretor (até então) indie, com o seu primeiro trabalho de grande estúdio já chamando a atenção e ganhando um monte de prêmios, claro que eu estou falando de Pulp Fiction – Tempo de Violência, do Quentin Tarantino. Tá na capa, né? Só que, muito embora os dois filmes tenham saído na mesma época, eu só pude ver um por causa da minha idade, ainda que a minha curiosidade mórbida, aos 12 anos me fizessem querer assistí-lo mais do que tudo na vida!

Acabou que só conseguir ver o filme propriamente quando ele passou, muito provavelmente, numa sessão de cinema do SBT à noite alguns anos depois. Mais tarde eu consegui assistí-lo mais algumas vezes alugando na locadora perto de casa e sempre ficando muito chocado e encantado ao mesmo tempo com o conteúdo. Sempre gostei muito de filmes e, ao chegar na faculdade acabei me tornando um daqueles esnobes alunos que adora criticar e falar sobre cinema mesmo sem entender muito bem do que estava falando. Coloco muito a culpa disso em Pulp Fiction na verdade, pois foi o primeiro grande trabalho referencial que caiu no meu colo e me fez catar feito um louco as obras iniciais que serviram de “inspiração” para o filme. Muito parecido com como Matrix veio me afetar logo depois.

Apesar de bonita, essa Mia não cheira bem, viu?

Tirando isso, eu sempre namorei a trilha sonora, mesmo quando não podia assitir o filme e achava muito maneira a capa do CD quando via na coleção de discos da minha tia. Botava para escutar e achava aquelas músicas antigas, misturadas às novas uma combinação muito interessante (de novo, sem fazer ideia do que se tratava). Era isso, eu já era um adolescente e as coisas mais abusadas, obscenas e contraventoras eram o que mais me chamavam a atenção. E disso, o cinema do Tarantino, em especial Pulp Fiction tem de sobra!

O “PULP” DA “FICTION”

Curiosamente, eu acabei assistindo Amor à Queima-Roupa (True Romance, 1993) antes mesmo de Pulp Fiction. Para quem não sabe, o filme dirigido por Tony Scott tem Quentin Tarantino e Roger Avary creditados como roteiristas e, se não me engano, é o primeiro trabalho de grande nome dele em Hollywood. O filme fazia parte da “Videoteca Caras Grandes Clássicos do Cinema” (hahaha) e eu comprei vários exemplares da revista de fofoca dos famosos só para ter em casa cópias de fitas em VHS dos filmes queu adorava (e alguns que eu não conhecia): Highlander, O Exterminador do Futuro, Sociedade dos Poetas Mortos, Despedida em Las Vegas, entre outros.

Acho que este é o momento de maior vergonha que eu já passei aqui na Rebobinando, mas vamos lá.

Foi dividindo o seu tempo entre a locadora e o Skank que o Tarantino escreveu seu primeiro filme em Hollywood.

Amor à Queima-roupa foi meio que a porta de entrada para o universo tarantinesco de violência sanguinárias e diálogos cheios de piadinhas. Mas como não era dirigido pelo próprio Tarantino, muito do estilo do cara “se perde” na história, mesmo sendo muito bem trabalhado pelo Tony Scott que era um baita diretor de ação (Um Tira da Pesada 2, Top Gun, Perdedores). Mas mesmo assim, acho que foi uma boa introdução ao trabalho do cara. Eu só veria Cães de Aluguel muitos anos depois de Pulp Fiction, quase adulto, e o impacto seria completamente outro. Se você não viu nenhum desses dois (ou desses três, quem sabe) posso até te recomendar esta ordem, só para ter uma ideia geral do Tarantino: 1) Amor à Queima-roupa; 2) Pulp Fiction; e 3) Cães de Aluguel.

Muita gente reduz o trabalho do Tarantino meramente à violência exagerada. Mas certamente os filmes dele são muito mais do que isso! Como eu disse lá no início, o Tarantino rouba suas ideias (vamos colocar assim mesmo) de um banco de dados gigantesco que existe em sua cabeça. Como vocês podem conferir no vídeo abaixo (só em inglês, sorry), o cara não teve uma formação de cinema clássica, de ir para a faculdade estudar e tals. Ele “se formou” em uma locadora onde ele trabalhava, vendo filmes diariamente. Claro, além disso, tem os filmes que ele já curtia e assistia desde mais jovem, que acabaram virando suas referências mais fundamentais: os filmes de velho oeste.

 

Pulp Fiction, como ele bem coloca na definição de dicionário que aparece no início do filme, tem como referência direta os clássicos das pulp magazines da primeira metade do século XX. O auge dessas revistas se deu durante os anos 20 e 30 nos EUA, mas elas foram publicadas até meados dos anos 50, quando começaram a dar lugar aos gibis de super-heróis. Tarantino nasceu depois dessa onda, claro, mas isso não o impediu de usar o material como referência no filme. Além disso, vemos as influências do velho oeste em várias cenas, como o impasse à mexicana no final do filme, ou mesmo as ações de Vincent Vega e Jules Winnifield e seus bangue-bangues sem misericórdia.

As histórias das pulp magazines eram conhecidas por serem bem violentas e chamativas, sempre embarcando pelo terror, ou pelas histórias de “crimes reais”, mostrando detetives carrancudos, bandidos perigosos e donzelas que não eram tão inocentes, como todo mundo passando a perna um no outro. Lá pelos anos 50, quando o Comics Code Authority entrou com tudo censurando os gibis, essa linha de revistas acabou falindo porque não havia mais mercado para elas. Nesse ponto, o nome do filme faz tanto alusão ao material usado para a produção destes gibis, que eram impressos em papel barato, feito de uma polpa (“pulp”) dos restos do material que era usado para fazer um papel “bom”. E também da violência dos títulos, que sempre descambavam para uma “polpa de sangue” no final, haha. 

Nada se cria, tudo se copia.

O TEMPO DE VIOLÊNCIA

Os anos 90 foram uma década esquisita. Com o fim da Guerra Fria, acabou aquele medo de um apocalipse nuclear que nos mataria a todos, então o cinema começou a ter um breve sopro de esperança no futuro. Ainda assim, começaram a surgir as primeiras preocupações com o meio ambiente e em como o ser humano tem essa carga de maldade dentro de si para acabar com tudo. É nesse aspecto que Pulp Fiction entra de sola, fazendo dele, segundo muitos críticos, o filme mais emblemático do “pós-modernismo” no cinema. Ao invés de ser épico de dar um vislumbre de um futuro melhor (como fazia Forrest Gump), ele olha para dentro do ser humano e vê as piores coisas, tudo isso embalado num recorte de referências que aparentemente não tem dono.

Tarantino usa o diálogo para nos dar um vislumbre de quem são os personagens que compõe essa história, e fazendo deles essencialmente os vilões diante de tanta violência. São todos gângsteres, bandidos, ou pessoas da pior espécie… mas ainda assim, você não sente raiva por nenhum deles porque acabam todos sendo apresentados diante de uma luz diferente, criando até uma empatia. Assim, ao mesmo tempo que Vincent Vega pode metralhar alguém por conta de uma maleta, ele pode estar conversando minutos depois sobre o nome do quarteirão com queijo na França (Royale with cheese). E essa sagacidade do diálogo é muito carismática! Talvez mais até do que em qualquer outro filme dele. 

“Zed’s dead, baby. Zed’s dead.”

Os recortes e as referências são a cereja do bolo para quem entende muito de cinema, mas mesmo para quem não pesca, não incomoda e não deixa o filme ininteligível. A estrutura do filme, contando três histórias ao mesmo tempo, em linhas de tempo diferentes também fez a cabeça de muito aluno de cinema na época (e todos os outros que viriam depois), e foi, quiçá, a ideia mais bacana que fez Pulp Fiction estourar. Se tivesse sido contada “correta” e cronologicamente do início ao fim, talvez o filme não tivesse o mesmo impacto cultural que tem hoje em dia.

Goste ou não, as referências de Tarantino fizeram dele uma referência para o cinema.

RISE FROM YOUR GRAVE

O elenco teve lá suas variações durante o estágio de produção, com muita gente sendo cooptada pelo diretor e pelos produtores, inclusive o agora malquisto Harvey Weinstein e sua produtora Miramax. Mas o fato é que o filme foi tão bem recebido nos festivais de cinema, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes, e teve várias indicações ao Oscar daquele ano, ganhando o prêmio de Melhor Roteiro Original

Com tudo isso algumas carreiras que estavam por baixo, como a de John Travolta e Bruce Willis ganharam um boost considerável, com o caso de Travolta sendo o mais notório. Uma Thurman teve um grande destaque e isso alavancou sua carreira pro estrelato! Além disso, reza a lenda que foi durante a filmagem de Pulp Fiction que ela e Tarantino conversaram e acabaram criando a história da Noiva, a personagem principal do que viria a ser o meu filme favorito do diretor, Kill Bill

Tô LendoPontos Fortes
  • Diálogo. Pode não parecer, mas nada é desperdiçado. Tudo tem o seu lugar no desenvolvimento da história e em como esses personagens são e de onde vêm. 
  • Música. Se você nunca ouviu a trilha sonora de Pulp Fiction, vai lá cara. Essa é uma das outras marcas registradas do diretor e criou todo um séquito de “uso de músicas maneiras, mas velhas, em trilha sonora” que é usado até hoje por caras como Edgar Wright e James Gunn.
  • Temas adultos. No sentido de que tem muita droga, palavrão e sangue. Pra quem curte é uma mina de ouro!
Tô LendoPontos Meh
  • Piscou, perdeu. O filme exige atenção. A história não é contada de forma cronológica e se você tem preguiça de pensar em filme, pode não ser uma boa.
  • Muita violência. Hoje em dia acho o filme até meio light, sabe? Na época ele era super grotesco e chamativo e muita gente o criticou por esse aspecto. Com o passar do tempo a gente vai se anestesiando mais e mais com a violência de Hollywood e, se bobear, nem é tão sanguinário o quanto eu me lembro.
  • Referências. Não é um ponto ruim em si. Mas pra sacar tudo, é preciso um alto grau de nerdice cinematográfica, algo que eu confesso que não tenho, mas gosto mesmo assim.

A ficção da polpa.

MUSIC FROM THE MOTION PICTURE

Falei ali mais em cima sobre a trilha sonora, mas gostaria de terminar falando mais um pouco sobre ela. Essa é hoje em dia uma das marcas registradas do Tarantino e parece que não há um só filme dele em que as músicas não tenham um impacto significativo. Lembro de ler entrevistas dele sobre Kill Bill dizendo que havia cenas no filme que ele fez de acordo com músicas específicas que ele tinha em mente para usar. E isso é algo que se faz notar. Como a maioria das referências dele são de filmes bem antes até mesmo do nascimento dele próprio, elas ficam jogadas no ar até que alguém mais experiente às pegue! Em Pulp Fiction ele disse uma vez que escolheu músicas da era da Surf Music porque elas eram animadas e lhe remetiam aos rock’n’rolls clássicos, bem como as músicas dos velhos filmes de faroeste italianos. Além disso, a trilha sonora oficial do filme vinha com partes dos diálogos entre as faixas, algo que eu nunca tinha visto antes (e achava muito maneiro)!

Misirlou, inclusive, é um exemplo clássico dessa cultura “pós-moderna” (ahem) de copia-e-cola de referências. A música é muito mais antiga do que se tem notícia, tendo suas origens na música folclórica árabe, turca, grega e egípica, durante o período do Império Otomano. Não se conhece o autor original da música, mas ela era conhecida por todos esses povos pelo menos desde 1920. A primeira versão gravada dela é de 1927, além de uma outra gravada no EUA em 1946. O sucesso ocidental mesmo só veio com a versão surf music de Dick Dale, de 1962, que foi a utilizada por Tarantino no filme. Depois disso, várias outras bandas a regravaram como os Beach Boys, os Ventures e, claro, os Black Eyed Peas.

Se o Tarantino já sabia de tudo isso quando escolheu? Não faço ideia. Mas essa é a prova de que everything is a remix! Se você ainda curte mídias físicas, tem o Blu-ray disponível pra comprar e também um disco de vinil com a trilha sonora… Só coisa de velho cool!

  

E você? Tem alguma opinião forte contra ou a favor de Tarantino? Qual o seu filme favorito dele? Conta aí nos comentários!

Pulp Fiction vale com certeza cinco revólverezinhos de água (porque os emojis são anti-violência). 🔫🔫🔫🔫🔫

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2019-10-09T15:54:57+00:00 16 de setembro de 2019|0 Comentários