Rebobinando #96 | Batman The Animated Series

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Peraí! Batman? DE NOVO? Sim, meu pequeno jovem nerd™, porque além do personagem ter feito 80 anos este ano, na última semana foi o aniversário de VINTE E SETE ANOS daquela que foi a série animada de super-heróis mais revolucionária de todos os tempos. Vamos rebobinar BATMAN: THE ANIMATED SERIES!

Detalhe que eu percebi que tenho falado muito do Batman ultimamente, mas é só porque o personagem tem estado muito em foco ultimamente, levando-se em consideração o aniversário de 80 anos do personagem, o aniversário de 30 anos do filme do Tim Burton, a escolha de um novo ator para interpretá-lo e o filme mais recente do Coringa prestes a estrear. O mais curioso é que além disso tudo, descobri que no último dia 05 de setembro, a série animada que estreou em 1992 fez 27 anos!!! 

Quer dizer, por lá, pelos EUA, né? Não lembrava exatamente quando o desenho estreou por aqui, mas encontrei referências de que muito provavelmente foi só dois anos depois, em 1994, pelo SBT, que queria concorrer com os X-men da Globo. Engraçado como que naquela época as coisas demoravam horrores para chegar ao Brasil. É impensável considerar um atraso de dois anos entre as estreias de um desenho como esse hoje em dia!

“Você não gostaria de me ver zangado!”

Como muita coisa no início dos anos 90, este novo desenho surfava na onda do filme de 1989 e de sua continuação de 1992. Tanto surfava que a música de abertura é a mesma (ou quase) criada por Danny Elfman para os filmes e foi conduzida por Shirley Walker, compositora e condutora de orquestra que já havia trabalhado com Elfman, Hans Zimmer, e compôs as músicas do seriado do Flash dos anos 90! Walker, que já tinha uma carreira promissora no cinema, diz que ficou receosa em trabalhar com um “desenho animado”, mas mudou de opinião assim que soube como o desenho seria. Ao longo da série, ela compôs sua própria versão da abertura, além da música orquestrada de todos os episódios. Nesta faixa do album disponível no spotify ela comenta sobre as variações do tema de abertura e como ele funciona em diferentes momentos do desenho. 

E foi assim que o desenho foi agregando um valor absurdo que fez dele, sem sacanagem, a segunda maior série em desenho animado dos EUA (quiçá do mundo?), ficando atrás apenas dos Simpsons. E claro, boa parte disso se deve aos criadores da série Bruce Timm e Eric Radomski

A PRODUÇÃO

A produção de BTAS (vamos fazer assim pq escrever Batman The Animated Series é muito comprido) é conhecida no meio da animação por ser uma das mais visionárias e corajosas da época. Muito por conta desses “causos” de bastidores onde ficamos sabendo de algumas decisões que os produtores tomaram e em como isso poderia gerar um grande impacto (leia “problemas”) com  a censura americana. 

Um destes problemas foi a violência. Não sei se você lembra, mas comentei quando falei de He-Man tem um tempo que o desenho animado sofria intervenções diretas de grupos de pais preocupados em “cuidar das crianças”, que não permitiam que o herói principal do desenho, um bárbaro seminu empunhando uma espada gigante socasse seus inimigos, ou mesmo lutasse contra eles com a espada. Em Comandos em Ação, por exemplo, todas as armas eram de laser, para serem “irreais” e não incentivar as crianças a pegarem armas de verdade para brincar. 

Nada mais divertido do que ver o morcegão estancando os bandidos na porrada!

Timm e Radomski diziam que era essencial que o Batman lutasse contra bandidos que empunhavam armas reais e que, bom, pudesse dar socos e chutes e usar golpes de luta neles. Posteriormente, esse approach mais real do desenho acabou rendendo um horário nobre na TV, pq claramente os temas eram um pouquinho mais complexos para serem exibidos durante as manhãs infantis. 

Outro ponto interessante da produção era o cuidado técnico da animação. O visual retrô da série não foi por acaso, obviamente, já que foi inspirado diretamente no visual retrofuturista escolhido por Tim Burton. Além dele, uma outra fonte de inspiração foi utilizada para dar um ar mais “clássico” à série: os antigos desenhos do Superman dos Estúdios Fleischer, de 1940. E é incrível como este efeito foi conseguido com uma animação simples, fluida, elegante. Se você por um acaso não soubesse que BTAS era uma série atual, se fosse pego de surpresa poderia jurar que era a reprise de algo raro na televisão. Para efeitos de comparação, dá uma olhada nos dois vídeos abaixo. O primeiro é uma coletânea de todos os curtas animados produzidos em 1940 pelos Estúdios Fleischer (não precisa ver tudo agora, tá?)

E o segundo vídeo é só uma cena de do episódio 40 da primeira temporada, “Se você é tão esperto, porque não está rico?”, com a primeira aparição do Charada!

Bem parecido, né? Pois esse era o efeito que eles queriam. Além claro de todo o design de personagens que foi inovador por deixar todos mais simples, com menos detalhes, mas ainda assim dando uma cara mais antiga. Gotham City também sofreu suas alterações e o estilo arquitetônico seguiu por um Art Déco com influências Noir das décadas de 1920 e 1930, tudo num ambiente bem sombrio. A salada foi tanta que os desenhistas acabaram apelidando o estilo de “Dark Déco”. E é essa cara antiga que dá familiaridade ao desenho, fazendo parecer algo que você já viu, mas ainda assim com elementos modernos como tecnologia, e o estilo de storytelling.

Contra todas as probabilidades, Gotham não foi inspirada no estilo gótico!

Se você rever a série hoje em dia, pode até parecer que tudo é meio escuro demais, mas essa foi exatamente a intenção! Na época em que foi feita, a série ainda era desenhada e colorida à mão, já que a pintura digital virou o modus operandi geral das animações mais ou menos na virada deste século. Então os cenários de fundo onde a ação aconteciam eram feitos como qualquer outro desenho, claro, com uma folha qualquer de papel branco e tintas. A sagacidade de Timm e Radomski foi acrescentar um tom sombrio a mais ao programa, utilizando folhas de papel preto para desenharem os cenários. Desta forma, o preto ficava ainda mais preto e imprimia um clima noir bem legal (sendo que “noir” quer dizer “preto” em francês, ou seja…).

Os executivos ficaram enlouquecidos com tanta inovação e tinham muito medo do que o desenho fosse ser um fracasso! Armas de verdade?! Música de Orquestra de cinema?! Papel preto para os cenários de fundo?! Era muita coisa arriscada para um desenho infantil. O episódio-piloto, no entanto, “Asas de Couro”, onde o Batman enfrenta o Morcego-Humano, mudou tudo!

AS VOZES

Em 1992 Andrea Romano era só uma produtora de elenco iniciante, mas foi graças a ela que tivemos os grandes medalhões da dublagem inicial (hoje em dia mais conhecidos por conta dos jogos de videogame e da possibilidade de ver os desenhos no idioma original, seja via internet, ou coleções de DVD e Bluray). Então Kevin Conroy foi escolhido como Batman e para muita gente ele é a versão definitiva do personagem, capaz de imprimir uma jovialidade e animação ao Bruce Wayne, ao mesmo tempo em que fica sério e soturno como o Batman.  Além dele temos, claro, Mark Hamill como o Coringa, também outro que ficou marcado como a voz e interpretação definitiva do príncipe palhaço do crime! É curioso saber inclusive que ele não foi a primeira opção para a dublagem original. Ficando com o papel só depois que o ator escolhido, Tim Curry, teve bronquite durante as gravações iniciais e ficou impedido de atuar. Convenhamos, ele também não era uma má escolha. Outras vozes curiosas do original consistiam em John Glover (o pai do Lex em Smallville e o pai do Dr. Silvana em Shazam) como o Charada, o grandalhão Ron Pearlman como Cara-de-Barro, e até mesmo Adam West com o Fantasma Cinzento.

Um herói. Duas vozes. Um dossiê!

Aqui no Brasil tivemos o pré-dossiê e imortal Márcio Seixas, como Batman e Bruce Wayne, imprimindo a mesma qualidade na voz que o dublador original em sua interpretação. Já o Coringa, foi dublado pelo saudoso Darcy Pedrosa, que era a voz do Jack Nicholson antigamente e dublou o personagem durante toda a série. Infelizmente ele faleceu em 1999, mas os dubladores seguintes José Sant’anna (Liga da Justiça) e Márcio Simões (Justice League Action) mantiveram o bom trabalho. Inclusive, Sant’anna foi o dublador de Harvey Dent/Duas-Caras na série original e Simões fez o Chapeleiro Louco. Ainda contamos com o talento de Élcio Omar (o Snarf de Thundercats) como o Charada, Garcia Júnior (He-Man) como Cara-de-Barro, Mauro Ramos (Pumba) como Pinguim e Iara Riça (Florzinha de Meninas Superpoderosas) como Arlequina!

Uma galeria de vilões dessas, bicho…!

Tô LendoPontos Fortes
  • Roteiro. Sem medo de se levar a sério, o desenho tratava de temas sombrios e tinham histórias de clima detetivesco, mas que às vezes flertavam com o terror. Mas eram cheias de ação, de comédia e no geral eram bem instigantes.
  • Animação. Coisa clássica, desenhada e pintada à mão com algumas cenas ação muito boas. Dá até pra dizer que é um estilo clássico americano, lembrando a qualidade cinematográfica dos primeiros Tom & Jerry e Pica-Pau, por exemplo. Mas claro, com o Batman sendo levado a sério.
  • Inovação. Não só na técnica, no design, ou no roteiro. A inovação se deu através de um novo olhar para a galeria de vilões do Batman e a criação de novas origens, tão boas que acabaram sendo incorporadas ao universo tradicional da DC Comics. Eu tô falando de um Harvey Dent que já sofria de dupla personalidade antes do acidente. De um Sr. Frio com um passado trágico. Do Cara-de-Barro como um ex-ator falido. E, claro, da criação da Arlequina! Que começou como assistente e interesse romântico do Coringa e hoje é uma personagem de destaque em filmes, séries e jogos!
Tô LendoPontos Meh
  • Cancelada. Tô procurando coisa pra falar, porque amo esse desenho como poucos na vida. Mas sim, foi cancelada em duas temporadas, mas como a maioria dos desenhos antigos, suas temporadas tem um número muito irregular de episódios, o que ainda dá bastante coisa.
  • Incomparável. Se você cresceu depois dos anos 2000 e nunca viu esse desenho, mas curte o Batman, cuidado. Grandes chances de você ser contaminado e NUNCA MAIS GOSTAR DE NENHUM OUTRO DESENHO DO BATMAN porque com certeza ele nunca vai superar esta série. E isso não é só o meu saudosismo falando. BTAS é, de fato, a versão definitiva do Batman para a TV. Em vários aspectos, aliás. Mas em especial pelo seu caráter detetivesco que é algo que falta em muitas obras atuais envolvendo o morcegão.
  • Difícil de achar. Digo, a versão brasileira, né? Se quiser rever o desenho com os dubladores brasileiros originais, dá pra encontrar algumas unidades disponíveis nos sites de leilões talvez, na casa dos 100 reais mais ou menos. Fora isso, só a versão em inglês mesmo na Amazon ou Saraiva.

Os title cards da série eram maravilhosos e eu gostaria de ter vários deles como pôsteres em casa!

BTAS foi um desenho incrível que marcou época. Aqui no Brasil eu lembro de assistir às vezes alguns episódios reprisados ad infinitum no Warner Channel da tevê a cabo. Nem chamavam de “série animada” mas só de “Batman: Volume 2”. Até hoje eu não havia entendido o porquê.

Na verdade, a série tem um total chocante de 85 episódios! Um número considerável se levarmos em conta que ela só tem duas temporadas. Acontece que a primeira temporada de BTAS é composta por 65 episódios de 20-poucos minutos cada. E esse é o desenho de maneira geral como conhecemos. Os 65 episódios foram divididos em 3 volumes, com os episódios de 1 a 28 fazendo parte do Volume 1; do 29 ao 56 no Volume 2; e de 57 a 65 no Volume 3. O Volume 4 da coletânea da série completa se trata da segunda temporada de 20 episódios, indo de 66 ao 85, com um novo design e um novo nome, The Adventures of Batman and Robin, já que a presença do menino-prodígio passa a ser maior, tendo em vista a mudança de Dick Grayson para Tim Drake. No fim, eu acho que o canal da Warner em 1996 só tinha os mesmos dvds do Volume 2 para passar todo dia. 

Recentemente a WB relançou a série em HD e BluRay. Essas são as capas dos quatro volumes.

A série teve uma vida curta, durando de 1994 a 1995, mas deu a luz a todo um novo universo da DC Comics na animação, liderados agora não apenas pelos produtores originais, como também o roteirista Paul Dini. Em seguida tivemos a série animada do Superman, seguindo a mesma linha e depois a Liga da Justiça e o que eu considero o projeto mais audacioso deles, Liga da Justiça Sem Limites, sempre mantendo o alto padrão de qualidade e histórias incríveis! 

Não à toa quando a gente reclama do universo cinematográfico da DC a gente olha para as animações hoje em dia e grita, incrédulo: É SÓ FAZER IGUAL, SEUS MALDITOS!

E você? Tem algum episódio marcante de Batman The Animated Series? Qual é? Conta pra mim aqui nos comentários!

Batman The Animated Series vale cinco morceguinhos! 🦇🦇🦇🦇🦇

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2019-09-09T15:54:38+00:00 9 de setembro de 2019|0 Comentários