Rebobinando #95 | Batman: Asilo Arkham

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“VoCê eSTá nO MUnDo rEal aGoRA, e oS LunÁtiCoS tOmARaM cOnTa dO aSiLo!” É assim que o Coringa recebe o Batman no mais famoso hospício da DC Comics. E para os detentos do Asilo Arkham, o verdadeiro asilo, a verdadeira “casa dos loucos” é aqui fora. Quem diria que veríamos um Coringa tão levado a sério dentro de sua insanidade? Ou um Batman tão indefeso? Vamos passar através do espelho e rebobinar Batman: Asilo Arkham!

A capa original da graphic novel e a arte foderástica de Dave McKean.

Publicada em 1989 nos EUA, e em 1990 aqui no Brasil, a graphic novel chegou de forma um pouco chocante no mercado de quadrinhos. Publicada na onda da Batmania que se seguiu ao filme do Tim Burton, a HQ foi tida como pedante e clichê por algumas pessoas dentro da própria DC Comics antes do lançamento. Este foi ainda o primeiro trabalho de Grant Morrison com o Batman e, com certeza, foi uma de suas maiores obras com o personagem! Tanto que não é à toa que esta é a graphic novel mais vendida nos EUA, com algo em torno de 600 milhões de cópias. A obra ajudou a catapultar os talentos de Morrison e do artista Dave McKean (Sandman, Orquídea Negra, Coraline) ao estrelato do mundo dos quadrinhos. Além de ter servido de fonte de inspiração para o primeiro jogo da série Arkham do Batman no PlayStation.

Aqui no Brasil, eu não cheguei a ler na época da publicação original, infelizmente. O meu mundo de quadrinhos na época ainda era muito fechado na clara divisão entre o bem e o mal e eu tinha apena 9 anos. ¯\_(ツ)_/¯ Mas isso não quer dizer que ela não passou pela meu radar nos anos seguintes. Conforme eu fui crescendo e me interessando por temas mais adultos, acabei tendo a oportunidade de ler muitas coisas bacanas que foram publicadas antes de eu poder entendê-las. Assim foi com Cavaleiro das Trevas e Watchmen, por exemplo. Asilo Arkham só foi cair na minha mão mesmo lá em 2003 durante o primeiro relançamento da editora Panini. E, cara… QUE PORRADA de história, viu?

A primeira vez que o Coringa aprendeu a fazer um “lápis desaparecer”…

Através do Espelho

A graphic novel é um desbunde visual, onírico e perturbador. Há uma carga muito grande de simbolismo por trás das imagens que McKean utiliza, já que sua arte mistura elementos fotográficos, pinturas, texturas e objetos reais que dão uma cara de sonho/pesadelo muito legal e que combina um bocado com o clima da história. Não à toa ele saiu daí pra fazer as capas da releitura de Sandman pelas mãos de Neil Gaiman, tem tudo a ver. Tudo isso complementado pelo excelente trabalho de letreiramento de Gaspar Saladino, que parece conseguir transmutar o visual em som para nós, com os balões escuros do Batman, ou as palavras caóticas do Coringa, que não parecem sequer obedecer às ordens dos quadrinhos e ficar dentro de um balão. Quer dizer, pelo menos na edição original, se você conseguir pôr as mãos nela. A “edição definitiva” da HQ, lançada em 2013 e a edição de 2003, ambas têm um trabalho, no mínimo, preguiçoso com relação às letras. Coisa assim de pedir socorro pro Neil Gaiman no twitter, sabe?

HALP @NEILHIMSELF COME TO BRAZIL

No entanto, muita gente reclama de Asilo Arkham porque o Morrison coloca o Batman completamente indefeso na história e “descaracterizado”. E sim, sabemos que o homem-morcego é um estrategista de primeira, sempre preparado e que jamais teria medo de entrar em um hospício cheio de louco fazendo pessoas de refém. Mas acho que este não é o ponto principal da história, sabe? Hoje em dia, já sabemos que o Grant Morrison tem um pezinho na “magia” e que ele curte mesmo escrever histórias com personagens doidos em situações mais doidas ainda. Em Asilo Arkham ele tem parece ter a sua primeira oportunidade de se soltar um pouco e, baseado em uns poucos parágrafos escritos por Len Wein na enciclopédia da editora, a Who’s Who on DC Comics, ele consegue criar uma história maior e ainda amarrando com a mitologia do Batman no processo. Claro que isso passa pelo semi-pedantismo habitual do escritor em utilizar ideias tiradas da psicologia de boteco e conceitos sem muita profundidade, mas ainda assim tem um aspecto legal e até mesmo perturbador nisso tudo. Acredito que muito em parte por conta da arte, como já falei antes. Na mão de qualquer outro artista, talvez o peso da história não fosse o mesmo.

O pequeno histórico do asilo escrito por Len Wein, que Morrison transformou na graphic novel.

Morrison estabelece um paralelo entre o próprio criador do asilo, o Dr. Amadeus Arkham e o Homem-morcego. No primeiro caso, nós acompanhamos a sua derrocada no mundo da loucura após inúmeras tragédias pessoais, e no segundo, acompanhamos como o Batman se agarra à sua sanidade graças a sua extrema obstinação vinda também de inúmeros traumas pessoais. Tudo isso tendo como pano de fundo a Instituição do Asilo Arkham e seu prédio. Não à toa, o nome original da graphic novel é Asilo Arkham – Uma Séria Casa Em Um Sério Mundo. O personagem principal não é o Batman, Amadeus Arkham, o Coringa, ou mesmo a extensa galeria de vilões do herói. É a própria casa onde tudo ocorre.

O Batman parece indefeso e alheio à tudo sim, mas só porque o Morrison quis desviar completamente do que estava sendo feito com o personagem até então. Lembremos que essa história saiu logo depois do filme, e depois da publicação dos clássicos Cavaleiro das Trevas e Piada Mortal. Ao querer se distanciar disso, nós temos um homem que se veste de morcego e que, às vezes, é capaz de questionar sua própria sanidade em meio a um mundo de loucos. A diferença entre o Batman e seus vilões, no fim, é só o quanto ele ainda decide se agarrar ao resquício de sanidade e humanidade que ele tem. Pra mim, isso faz dele muito mais forte do que o Batman velho carcomido e porradeiro de Frank Miller.

Seja em 1920, ou em 1989, a mansão Arkham continua assustadora… Brrr…

Você pode conferir que quiser, adquirindo o seu aqui:

  

Tô LendoPontos Fortes
  • Arte. É o ponto alto na verdade. McKean e Saladino fazem um baita trabalho no original. Com os devidos parabéns à eterna Lilian Mitsunaga que fez as letras da edição original de 1990, da Abril.
  • História. Com pontadas de terror psicológico, ela é muito boa para quem já conhece bastante coisa do Batman e dá um gostinho a mais sobre o mythos do personagem, apresentando a origem de uma das figuras não-humanas mais presentes nas histórias dele.
  • Disponibilidade. Tem edição definitiva. Tem reedição de 2003. Tudo fácil de achar na Amazon ou sua loja de preferência. Muito embora eu recomende procurar pela edição de 1990 por diverso motivos, mas se possível, em bom estado! Afinal de contas lá se vão 30 anos!
Tô LendoPontos Meh
  • Leitura difícil. Pra fãs novos em específico. Não acho que seja bacana como ponto de iniciação para ninguém, especialmente a criançada. Tem uns temas adultos e sugestões de pedofilia, coprofagia, e umas coisas nojentas que pode ser meio traumático pros mais sensíveis.
  • Leitura difícil (2). Não que não dê para entender, até porque o enredo é bem tatibitate e tudo se explica no final com o monólogo do vilão. Mas os meandros da história podem ser um tanto confusos pra quem já se irrita normalmente com o pedantismo do Morrison. Eu curto (até certo ponto), mas realmente não é pra todo mundo. Apesar de ter o Batman, não é um gibi de heróis propriamente dito, mas uma análise psicológica de personagens disfarçada de gibi.

P-p-por h-hoje é s-s-só, p-pessoal!

Ainda assim, eu curto demais Asilo Arkham e acho que é uma obra essencial para se compreender o universo do Homem-morcego, claro, partindo do princípio que você já leia as histórias dele há algum tempo. É uma visão diferente do personagem, mas nem por isso uma versão “menor”. E introduz alguns conceitos bacanas que acabaram sendo capturados pelo imaginário da maioria dos fãs para justificar as atitudes do Coringa, por exemplo.

É nesta graphic novel que é citado pela primeira vez que o caso do Coringa pode ser classificado como supersanidade. Onde ele não consegue lidar com a quantidade absurda de informação de forma coerente e simplesmente se adapta ao fluxo, criando uma nova personalidade, um novo modo de agir todos os dias. Isso é uma forma de justificar porque o personagem age de maneiras tão diferentes ao longo dos anos. Além disso, muita gente ainda teoriza que a tal da supersanidade dá ao Coringa uma percepção completamente da realidade que o faz saber que é um personagem de quadrinhos/filmes/videogames. Com isso ele está sempre quebrando a quarta parede, ainda que de maneiras menos óbvias que o Deadpool, ou a Mulher-Hulk, mas que desta forma ele sabe que o gibi é do Batman e por isso ele tem esta obsessão pelo herói. Ele sabe que se o Batman morrer, ou a revista acabar, ele também deixa de existir…

Retcon? Desculpinha? Pseudo-psicologia? Grantimorrinice?

Tudo isso, claro é teoria de fã. Mas é pra isso que estamos aqui, oras! E você? Me diz aí nos comentários, você também acha que a gente vive numa história em quadrinhos? Se sim, quem é o seu protagonista? 😜

Batman: Asilo Arkham vale quatro rebobinandos! 📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2019-09-04T12:58:15+00:00 2 de setembro de 2019|0 Comentários