Rebobinando #94 | Mulher-Hulk (Fase Byrne)

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Ela é o grande e forte braço (verde) da Lei! A única capaz de enfrentar o Demolidor em um confronto direto, caso este confronto ocorra nos tribunais, claro. E ela já vem quebrando a quarta parede desde muito antes do Deadpool sair das fraldas! Eu tô falando da Mulher-Hulk, claro, da fase do John Byrne! Vamos Rebobinar!

Ei, tá olhando o quê?

Admito que eu nunca fui muito fã dos Vingadores antigamente. Curtia bem mais o Aranha e os X-men. E muito por conta dos mixes estranhos daquela época, eu acabava curtindo algumas histórias de outros heróis que faziam parte do gibi também. Tudo isso só pra dizer que o meu primeiro contato com a Mulher-Hulk foi quando ela fazia parte do Quarteto Fantástico (e quando as histórias do QF faziam parte do mix de Homem-Aranha)

A personagem nunca me pareceu particularmente importante na época por diversos motivos. Entre eles eu ser jovem demais para sacar a importância que uma personagem feminina teria para outros leitores (e principalmente leitoras), e só achar maneiro a figura sexy dela com peitões gigantes. Mas também o fato de que, em geral, ela era “só mais uma versão feminina” de um herói que era “muito mais legal” originalmente. Essencialmente para mim não havia diferença entre ela, a Supermoça, a Bat-Moça, a Mulher-Aranha, etc. 

Presta atenção na história, seu nerd safado!

E para todos os efeitos ela, como a maioria das personagens citadas, surgiu de maneira igual: Eram apenas um jeito que seus criadores deram de garantir o máximo de direitos sobre os personagens masculinos, sem que outra pessoa viesse e criasse uma personagem qualquer de nome parecido para surfar na fama do personagem original. No caso específico da Mulher-Hulk, ela foi criada depois do sucesso do seriado do Hulk, de 1977 (sim, tô devendo uma Rebobinando dele). Na mesma época, o seriado do Homem de 6 Milhões de Dólares (1973) também fazia muito sucesso e acabou gerando um spin-off, A Mulher Biônica (1978). Com medo de que alguma rede de TV resolvesse fazer o mesmo e registrar uma “Hulka” antes da Marvel, Stan Lee correu atrás e registrou o nome “She-Hulk”, a versão feminina do herói, caso alguém quisesse fazer uma outra série de TV (e vocês aí reclamando da ganância da Disney). 

Sendo assim, em 1980 estreou nas bancas americanas The Savage She-Hulk, trazendo a pequena e frágil Jennifer Walters, prima de Bruce Banner, que através de uma transfusão de sangue depois de um acidente (a história é um pouquinho mais complexa) acabou herdando o sangue radioativo do primo e se transformando na Selvagem Mulher-Hulk. Inicialmente se transformando apenas quando estava com raiva, com o tempo ela foi sendo mudada e adaptada e, diferente de Bruce, ela passou a ficar permanentemente com o seu corpo “hulkado” mas mantendo sua personalidade real. 

Primo “sangue-bom” esse, hein?

Depois de muitas idas e vindas, revistas canceladas e passagens por outros grupos, ela foi adotada por um cara que não tinha como errar naquela época: John Byrne. Assim sendo, em 1989 foi lançado The Sensational She-Hulk! Aqui no Brasil, as histórias da verdinha chegariam apenas em 1992, primeiro em Grandes Heróis Marvel #36 e depois aos poucos ela foi aparecendo no mix de O Incrível Hulk a partir da edição #111. Daí por diante foi aquela bagunça da Abril Jovem publicando algumas histórias sim, outras não, mas infelizmente quase nada acabou saindo por aqui, só um tiquinho mesmo.

Os dois lados de uma mesma Mulher-Hulk! Feminismo Porradeiro x Piadinhas Sexistas.

O Legado de Byrne

Pausa. Percebi recentemente que sempre li o nome do artista errado. Durante anos pronunciava “Byrne” como “B-A-I-R-N”, quando na verdade deveria ser “B-U-R-N”. Que belo professor de inglês eu sou, haha. Enfim. Eu curto muito o trabalho do John Byrne do passado. Sua fase nos X-men é memorável. Assim como toda sua redefinição do Superman (que ficou valendo por décadas, antes dos inúmeros reboots da DC), tanto em matéria de texto como de arte, acho que o cara consegue imprimir um dinamismo muito legal nas páginas, a movimentação e as expressões dos personagens são ótimas e todo o detalhismo dos cenários… bom, curto muito mesmo. E acho que foi em Mulher-Hulk que ele começou a ousar mais um pouco e relendo parte das histórias hoje em dia eu acabei achando tudo muito mais divertido!

Sabe como o Stan Lee sempre conversou com os leitores nas caixas de narração da história? Isso é um resquício dos gibis de antigamente e tinha muita coisa tipo “você não perde por esperar, meu querido leitor”! Não é exatamente novo, mas foi feito de maneira eficaz que trouxe muito dos fãs de quadrinhos para dentro das histórias da Marvel. Pois bem, Byrne também fazia isso, mas em Sensational She-Hulk ele deu um passo além que foi primordial no sucesso do gibi. Ele colocou a heroína para quebrar a quarta parede!

– Ah, Kadu, mas isso nem é novo também. Um monte de gente fez isso antes e depois! 

A Mulher-Hulk, a “Dora Aventureira” dos quadrinhos…

Sim, sim. Mas Byrne começa como quem não quer nada. Primeiro ele menciona que as revistas da Marvel existem dentro do universo marvel. Depois ele faz a Mulher-Hulk comentar com alguém que a Marvel fez um acordo com os Vingadores para publicar gibis usando a imagem dos heróis e que ela, mesmo sendo uma super-heroína na “vida real” possui um gibi contando suas aventuras. Depois ela faz um comentário do tipo “nossa, quero ver como vão explicar isso no meu gibi”, e de repente ela tá olhando para você, querido leitor, suspeitando que você já sabe muito mais da história dos bastidores do que ela.

A Mulher-Hulk caiu de maduro… hein? Hein?

Durante todo o run da revista, que nem contou com tanta presença do Byrne assim, diga-se de passagem, essa ideia dela ter consciência de que está em um gibi é bem permanente. Mesmo passando pelas mãos de outros roteiristas como Steve Gerber (que escreveu a maior parte do título), Simon Furman e Peter David. Na arte, além de Byrne, eu descobri HOJE que um dos artistas regulares do título foi ninguém menos do que um Bryan Hitch em início de carreira! É quase engraçado vê-lo desenhando tanta coisa no “estilo Marvel” e é quase impossível de acreditar que ele é o mesmo cara que atrasou a entrega dos volumes de Os Supremos por ser um desenhista tão detalhista!

Algumas edições memoráveis do run todo para mim é um onde o Papai Noel a ajuda a resolver um caso de assassinato e outra, da edição #50 (que saiu aqui em Hulk #140) onde a heroína descobre que o John Byrne “morreu” e conversa com uma editora da Marvel sobre os possíveis substitutos para a revista. Nessa conversa vemos a Mulher-Hulk sendo representada (e desenhada) por várias outras lendas dos quadrinhos, nos estilos de Dave Gibbons, Walt Simonson, Frank Miller, Adam Hughes, entre outros.

Mulher-Hulk by Frank Miller e Walt Simonson.

Tô LendoPontos Fortes
  • Humor. Se você conhece um mínimo do mercado de quadrinhos, vai rir pra caramba. Ótimas piadas de metalinguagem e já nessa época ela fazia graça das armas e das quantidades de bolsos dos anos 90.
  • Desenhos. Comentei que para mim foi uma época auge do John Byrne, né? O cara mandava muito bem. Mas até hoje eu não consegui engolir aquele run horroroso dele em Homem-Aranha.
  • Sexy. É, eu sei. Byrne dela uma mulher determinada, forte, cheia de carisma e bom humor. Fez dela uma personagem dona da própria história, literalmente. Mas ainda assim, ela era uma gostosona de dois metros de altura. CA-LARO que ele encheu o gibi de situações onde ela era forçada a lutar de biquíni, ou trocava de roupa, essas coisas. Pruma mente fértil de um jovem de 12 anos, não precisava de muito mais do que isso.
Tô LendoPontos Meh
  • Disponibilidade. Não tem muita coisa disponível se você quiser reler. Tem que peneirar as edições do Incrível Hulk nos sebos e no mercado livre e torcer para achar alguma coisa. Tem uma edição da coleção da Salvat contendo apenas os oito primeiros números da revista, com arte e roteiro do Byrne, mas é só. Há outras maneiras mais ilícitas de acompanhar as histórias, se você quiser enveredar pelo lado sombrio deste mundo dos quadrinhos. 
  • Edições Fantasmas. A Abril fazia muito disso e tomava algumas decisões meio loucas, ignorando solenemente alguns arcos de histórias dos gibis originais. A princípio, quase toda a fase dela foi deixada de lado do mix das histórias, com uma ou outra edição aparecendo. Uma pena, porque teve coisa bastante divertida nas histórias.

Uma das piadas recorrentes de Byrne é que ele colocaria ela na capa pulando corda, nua. O evento só ocorreu dentro das páginas e… bom…

Apesar dos pesares, tenho uma memória afetiva muito boa desta fase da Mulher-Hulk e fiquei até curioso para ler um pouco mais. Mas fica aí a pergunta, então? Qual a tua fase preferida do John Byrne? Partindo do princípio, é claro, que você goste dele, hahah. Existe alguma fase que você ache mais bacana da Mulher-Hulk? Diz aí nos comentários.

A Sensacional Mulher-Hulk vale quatro rebobinandos! 📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2019-08-27T00:58:05+00:00 26 de agosto de 2019|0 Comentários