Rebobinando #92 | Inferno

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Fim dos tempos! Fogo e enxofre! Histeria em Massa! Cães e gatos vivendo juntos! O próprio Inferno na Terra com demônios lutando para governá-la! . Calma,eu não estou falando da situação do país pós-eleições, mas sim de um dos crossovers mais ousados do início dos anos 90. Vem comigo rebobinar X-men: Inferno.

ABRE O OLHO, CICLOPE!

Comentei tem um tempo que o primeiro grande crossover de editora que eu peguei foi Desafio Infinito, e que o meu primeiro gibi de X-men foi na verdade no meio do crossover Programa de Extermínio. Mas como eu já era leitor de Homem-Aranha há um tempo, na época em que a Saga saiu eu só peguei a rebarba da invasão demoníaca de NY pelas páginas do aracnídeo. Lembro inclusive que uma das consequências mais permanentes da história foi a transformação do mercenário Jason Philip Macendale, o Duende Macabro, em uma criatura demoníaca depois de um pacto com um dos demônios mais proeminentes da história. Claro que todo o rebu em torno da identidade do Duende Macabro é por si só um quebra-cabeças escrotíssimo do universo do Aranha, mas isso não vem ao caso agora.

Aqui no Brasil o crossover foi publicado nas edições de X-men #46-49 da antiga Abril jovem. Mas nos EU da A o negócio se expandiu mais além, sendo dividida entre as edições de New Mutants #71-73Uncanny X-men #239-243X-Factor #35-40X-Terminators #1-4, e Excalibur #6-7. Ufa. Tudo isso além dos tie-ins com Demolidor, Homem-Aranha, Power Pack, Manto & Adaga, etc. etc.

As capas das edições brasileiras, cortesia do guiadosquadrinhos.com

Tábula Rasa

O crossover foi pensado como mais uma faxina nos x-books da época. E Inferno funciona quase como uma sequência imediata de A Queda dos Mutantes, que não por acaso também foi uma outra fase de “faxina”. Mas enquanto Queda era uma faxina de plot, buscando colocar os mutantes em um novo status quo, Inferno era uma faxina de personagens e de pontas soltas muito antigas, a principal delas, claro, era uma ponta solta chamada: Madelyne Pryor!

Segundo consta, não havia nada de mais extraordinário na personagem de Madelyne Pryor, exceto claro, que ela era muito parecida com a então falecida Jean Grey! Desde sua aparição, ela tinha sido apenas uma personagem secundária que deu a Scott a chance de deixar a vida de lutas para trás para tentar viver uma vida mais “normal”. O quanto normal poderia ser a vida um ex-combatente mutante capaz de soltar rajadas ópticas de concussão. Depois de um certo tempo, a personagem acabou fazendo parte do grupo de X-men liderado por Tempestade e virou uma personagem importante por si só. Talvez até mais interessante que a própria Jean jamais foi.

Tem mulher que faz a vida dos outros um inferno mesmo, né?

Nesta época, a situação dos X-men era meio confusa. O time original havia se separado e cada um foi viver sua vida. Após a morte de Jean, Ciclope não conseguiu mais liderar a equipe e resolveu ir morar no Alasca, onde viviam os seus avós. Trabalhando para eles estava Madelyne e a paixão foi imediata. Só acho esquisito que o Scott não tenha nenhum amigo de verdade para avisar que a atual dele era idêntica à ex e que isso só podia dar merda no final! #ScottNãoTemAmigos O problema surge, na verdade, quando ele descobre que Jean estava viva e resolve abandonar esposa e filho recém-nascido para conferir se a mulher que ele ama mesmo tinha voltado à vida. Como este foi um dick move do caraleo, todos os roteiristas tentaram justificar de alguma forma sua decisão, fazendo-o retornar descobrir que ambos estavam “mortos”.

Nada mais longe da verdade, claro. Madelyne havia sido atacada pelos Carrascos, a mando do Sr. Sinistro. Resgatada pelos X-men, Madelyne continuou com a equipe na esperança de recuperar o seu filho, que havia sido raptado pelos vilões. Enquanto Scott abandonou a busca pelos dois por acreditar que estavam mortas, Madelyne nunca desistiu. De certa forma, o crossover também veio para apagar a culpa de Scott ter abandonado esposa e filho no Alasca assim que soube que sua ex-namorada estava viva. 

Mentira, Scott. A culpa É TODA SUA! O troféu “Pai de Merda” é todo seu!

A história

Tudo começa com a “possessão” de Madelyne durante a primeira aventura dos mutantes em Genosha. O “Inferno” já começa a dar as caras indicando que ela teria feito algum pacto com o demônio N’astirth em troca de encontrar o filho. Depois disso, ela tem uma espécie de sonho bizarro sobre não passar de uma cópia de Jean Grey (o que é no mínimo curioso, do ponto de vista metalinguístico, já que ela surgiu exatamente como uma “Jean de segunda mão” para dar ao Scott um final feliz). A partir daí nós já tínhamos uma suspeita de que havia o envolvimento de um vilão razoavelmente novo nas X-histórias, o Sr. Sinistro. O personagem em si seria muito mais louco do que ele já é, ainda mantendo relações diretas em sua origem com o mega vilão Apocalipse. Mas segundo o próprio Claremont, ele não conseguiu levar para frente a sua ideia, precisando deixar a origem do personagem na mão de outros roteiristas. 

Pois bem, a história em si começa no Limbo e com a participação dos Novos Mutantes e, em especial da irmã de Colossus, Illyana Rasputin. Com a permanência dela na Terra, seu domínio sobre o Limbo começa a enfraquecer, criando uma luta pela dominação do lugar. De um lado está o demônio Sym, fortalecido pelo vírus transmodal (que torna tudo em uma espécie de computador-vivo) e do outro, o demônio mestre nas artes mágicas, N’astirth. Por ser mais traiçoeiro, N’astirth trabalha em várias frentes a fim de derrotar Sym e durante a história ele vai acumulando poder através do, ahem, comércio de almas, do acúmulo de bebês mutantes para um ritual mágico afim de abrir um portal entre o Limbo e a Terra e, claro, da possessão de Madelyne Pryor. 

Nos anos 80, não tinha muita diferença uma NY normal e uma cheia de demônios nas ruas…

Em batalha contra os Novos Mutantes, os demônios conseguem abrir um portal diretamente em Nova Iorque, em cima do Edifício Empire State, que estava servindo de “antena” para o Limbo. Durante esta abertura do portal, a cidade enlouquece por completo gerando alguns momentos tensos, dignos de filme de terror, e outros hilários como os nova-iorquinos não dando a mínima para a invasão demoníaca, achando que tudo está “normal” na cidade. Ao enfrentar diretamente os Novos Mutantes, N’astirth se deixa infectar pelo vírus transmodal de Sym, e mescla-se ao supercomputador que ele havia criado para manter o portal aberto com ajuda de magia e tecnologia, aumentando ainda mais o seu poder. Os aprendizes de Xavier conseguem banir boa parte dos demônios de volta para o Limbo, mas N’astirth persisth, digo, persiste. Hehe. Isso porque não era só o seu poder que mantinha a invasão demoníaca ativa, mas o poder de Madelyne Pryor, a Rainha dos Duendes!

Cabe agora aos X-men e ao X-Factor resolver o problema, que parece ter aumentado em uma escala absurda! 

Ficamos entendendo tudo durante a GRANDE BATALHA DA EXPOSIÇÃO (típico do nosso querido Claremont)! Se você nunca entendeu porque os fãs dizem que a história da Jean é uma das mais complicadas, ESSA É A HORA! Vamos lá, porque tudo começa, como sempre, na Fênix. 

É tanta exposição que eu preciso de um filtro solar FPS 50 e óculos escuros pra ler!

Quando Jean morreu da primeira vez salvando o ônibus espacial e voltou como Fênix, todo mundo achou que ela havia sofrido uma grande transformação. Mas na verdade a Fênix havia copiado a aparência de Jean e assumido uma forma humana com o objetivo de compreender a humanidade. A verdadeira Jean havia sido colocada em um casulo no fundo do mar, em animação suspensa por tempo indeterminado. Quando a Fênix se sacrificou na lua, ela enviou de volta para Jean o que lhe “restava” da psiquê da heroína que ela havia copiado, junto com suas principais memórias e tudo o que havia vivido até então. A verdadeira Jean, presa no casulo, rejeitou essa fração da Fênix+Jean por estar “maculada” com o genocídio cometido pela entidade cósmica. Foi assim que esse poder sem dono procurou a primeira coisa compatível para se atrelar e este foi o corpo clonado de Jean no laboratório do Sr. Sinistro: Madelyne Pryor. 

Foi desta forma convoluta que os editores da Marvel encontraram para também eliminar a culpa de Jean e acabar com todas as cópias fazendo dela uma personagem só novamente. Ao derrotar Madelyne, esse poder da Fenix+Jean+Madelyne fica sem “dono” de novo e Jean Grey se vê obrigada a aceitá-lo, linkando finalmente todas as personagens em uma só. E talvez fazendo de Jean uma personagem mais interessante do que só o interesse romântico de metade da equipe de X-men. 

Na batalha final, os X-men derrotam N’astirth, a Rainha dos Duendes e o Sr. Sinistro. Bom, pelo menos por enquanto. 

Madelyne morre com a graça de uma modelo da Playboy e Sr. Sinistro acaba se despedaçando de inveja.

Tô LendoPontos Fortes
  • Arte. Como sempre, minha fase favorita do Marc Silvestri nos X-men, bem como do Walt Simonson no X-Factor. 
  • Roteiro. O plot geral do crossover é muito bacana. E é uma mudança bem radical na galeria de vilões dos Mutantes, colocá-los para enfrentar demônios de uma dimensão infernal foi algo que pouquíssima gente esperaria ler em um gibi dos X-men. 
  • Tie-ins. Em uma época onde os tie-ins estavam apenas começando, foi bacana ver os eventos do Inferno se estenderem para as edições periféricas dos heróis urbanos de Manhattan como Demolidor e Homem-Aranha. Em alguns casos com efeitos de longa duração. 
  • Republicado. Desde 2018 a Panini vem republicando a saga em uma série de 6 encadernados. Sua chance de ter um pedaço da história dos X-men com qualidade.
Tô LendoPontos Meh
  • Novos Mutantes. Vou dizer que nunca curti muito as histórias da equipe, infelizmente. Reler hoje em dia também não ajudou muito, acho as tramas meio arrastadas e eu não consigo me interessar pelo dilema da Illyana e o Limbo. 
  • Quarteto Futuro. Outro grupo que não me interesso muito e que em geral eu pulava as histórias na época. Na coletânea dos encadernados, o grupo tem um encontro com os Novos Mutantes que I just couldn’t care less.
  • Retcons. Meo jesois, é muito retcon, muito revisionismo de cronologia e muitos “MAS NA VERDADE O QUÊ ACONTECEU FOI…” tudo na tentativa de explicar umas coisas que pro público geral talvez nem precisasse muito de explicação. Haha. A quem estou enganando? Nerd é nerd em qualquer lugar, em qualquer época! Claro que precisava, mas foi cansativo!

Quando a gente acha que essa bicha dessa Fênix morreu, ELA VOLTA DE NOVO!

Inferno é uma das sagas que eu lembrava muito vagamente, mas a memória me dizia que ainda assim eu curtia muito. Com o relançamento dos encadernados da Panini eu tive a oportunidade de reler a história na ordem certa e posso dizer que curti bastante. Mesmo com as partes mais chatas dos Novos Mutantes, juro. Coisa que eu só tinha lido meio capenga, com edições encontradas em sebos espalhados pelo Rio de Janeiro. 

Minha única reclamação da coleção de encadernados é de que ela poderia ter sido mais curta, e consequentemente mais barata. De seis edições, pelo menos umas três são só com edições “de preparação” para o evento. Coisa que poderia ter sido explicada numa página de “O que aconteceu com eles até o momento”… Essas coisas estão ali só para mostrar como a Madelyne Pryor foi caindo aos poucos para o lado do mal e, bom, não é tão necessário assim se vc quer ver só o evento estourando em Nova Iorque. 

De qualquer maneira, a coleção é bacana e tem uma parte da história dos X-men que eu tenho muitas saudades. 

E eu sei que é machismo, mas meu eu de 13 anos era XONADO nessa roupa da Rainha dos Duendes. ❤️

Inferno vale 5 rebobinandos! 📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2019-08-20T21:58:37+00:00 12 de agosto de 2019|0 Comentários