Rebobinando #91 | Fúria Cega

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Esta semana infelizmente perdemos uma grande estrela dos anos 80. Responsável por alguns dos filmes mais memoráveis da Sessão da Tarde (ou do Cinema em Casa, no SBT). Rutger Hauer se foi, mas seus clássicos vivem em inúmeras coleções de DVD ou filmes piratas no YouTube. Então pega seus óculos escuros e vamos Rebobinar Fúria Cega.

Ele virou um mestre espadachim só para fazer esta barba!

Esses dias vi uma piada na Internet falando como a gente cresceu pagando multa em vídeo locadora e baixando filme com legenda dessincronizada pra hoje em dia reclamar se não tem um filme específico na Netflix. Achei engraçado porque lembrei de como eu cresci mesmo alugando filme em locadora (mesmo que eu não entregasse com atraso) e em como minha mãe trazia basicamente os mesmos filmes a cada final de semana para entreter a mim e a minha irmã. Clássicos como Labirinto, História Sem Fim, A Lenda e, claro, O Feitiço de Áquila eram filmes que eu devorava de novo e de novo e novo. Mesmo morrendo de medo em certas partes (porque os filmes de fantasia dessa época nunca se preocuparam em não serem assustadores). O Feitiço de Aquila foi o meu primeiro contato com Rutger Hauer, na verdade. Eu não era uma criança muito de ligar para o nome dos atores, mas era um rosto conhecido. 

Fúria Cega é um filme de 1989. Eu não lembro de tê-lo visto no cinema, claro, porque eu tinha 7 anos na época. Mas lembro de alguns anos depois, lá pelos meus 11 ou 12, quando os meninos na pré adolescência começam a querer ver os “filmes de porrada” eu ter alugado algum Máquina Mortífera, ou Duro de Matar, e ter visto o trailer de Fúria Cega antes do filme. 

Ainda bem que ele já é cego, porque não é assim que se usa uma espada, né?

Parêntese porque aparentemente isso é uma coisa que ninguém tem ideia de que existia. Assim como no cinema, as fitas VHS em locadoras vinham com trailers de outros filmes, em geral do mesmo gênero, claro. Afinal, sem internet e com poucos veículos de mídia dando tanta atenção a lançamentos de fitas para alugar, esse era um dos principais meios de fazer o povo alugar um filme novo. Era sempre tudo meio tosco e com uma voz de narrador que hoje em dia é copiada pelo cara do Honest Trailers. Fecha parêntese. 

Ao ver o trailer de Fúria Cega e reconhecer o Rutger Hauer, eu fiquei doido para ver o filme! O cara baixava o cacete em todo mundo, e era cego! E ELE AINDA TINHA UMA ESPADA ESCONDIDA NA BENGALA! Cara, isso foi muito sensacional para minha cabeça infanto juvenil. E arrisco dizer que é provavelmente um dos motivos pelo qual eu curto tanto os heróis com alguma deficiência, como o próprio Demolidor, ou ainda o Shiryu de Dragão

Adoro que o cartaz original do filme tem uma pinta SUPER GALHOFA!

O filme 

Eu não sabia disso, mas Fúria Cega é uma adaptação americana de um personagem clássico japonês, Zatoichi. Este personagem é quase um “James Bond” no Japão, com uma série cinematográfica de 26 filmes. O 17º, Zatoichi Challenged, foi o filme que serviu de base para Fúria Cega. 

Segundo o próprio Rutger Hauer, esse foi um dos filmes mais difíceis de sua carreira justamente por ter de aprender a lutar e a interpretar uma pessoa cega. Muito anos antes de Matrix nos impressionar com o treinamento de Keanu Reeves e Hugo Weaving, Rutger Hauer já estava nos impressionando em várias cenas de luta sem dublê. Vale dizer que não são todas, óbvio, mas o suficiente pra me deixar impressionado ao rever o filme neste final de semana. 

O original e a adaptação.

A história.

Simples e direta. Não a toa que o filme tem apenas uma hora e meia. Curto talvez até para os padrões da época. 

Nick Parker é um veterano da Guerra do Vietnã. Durante a guerra ele e seu amigo Frank Devereaux sofrem uma emboscada. Nick salva a vida do amigo, mas acaba ficando cego e largado para trás. Logo em seguida ele é salvo por uma tribo de vietnamitas (???) onde tratam de suas feridas e o ajudam a lidar com este seu novo status de vida. Nick aprende a se guiar pelos seus outros sentidos e, de quebra, ainda leva umas aulas de kendô de quebra. Porque uma tribo vietnamita saberia como ensinar uma arte milenar de lutas com espadas japonesas? Quem se importa, né? O fato é que após um bom tempo, Nick volta aos EUA como um mestre nessa arte, mesmo sem enxergar. 

Nos EUA, ele vai atrás do amigo e chega em sua casa. Lá ele encontra apenas a ex-mulher e o filho de Frank. E ela lhe conta que Frank se separou dela por algum motivo que ela não entende, mas que ele havia se metido com as pessoas erradas em Nevada, um estado dos EUA. 

Estes dois estão mais PERDIDOS do que CEGO EM TIROTEIO, hein? Hein?

Frank Devereaux (interpretado por um Terry O’Quinn novinho, antes de fazer o John Locke de LOST) de fato estava metido com as pessoas erradas. Após a guerra ele passou a trabalhar como químico e tinha desenvolvido uma nova droga para um sindicato do crime. Com a família ameaçada, Frank abandonou os dois em Miami e passou a trabalhar como um escravo produzindo a droga. 

Quando Nick chegou à casa do amigo em Miami, coincidentemente chegaram lá os capangas do vilão. Dois policiais corruptos e o capangão-mor, uma espécie de “Jim Hopper do Mal”, interpretado pelo boxeador Randall “Tex” Cobb. A ex-mulher de Frank acaba sendo morta e, antes de morrer, pede que Nick leve o garoto até o pai. Com uma promessa nas mãos e sem entender completamente no que estava se metendo, ele decide atravessar os EUA com o moleque à tiracolo para entregar ao amigo. 

Slag, o capanga-chefe do bando. Também conhecido por mim como “Hopper do Mal”.

A partir daí, o filme vira uma espécie de caçada com vários capangas tentando interceptar Nick e o garoto antes que eles cheguem até Frank. Tem situações muito maneiras, como o ataque no meio do milharal e outras hilárias como quando Nick rouba um furgão e começa a dirigir pela cidade, cego, com o garoto dizendo para onde ir. O ato final, na cabana do bandidão no meio das montanhas tem várias cenas de ação maneiras e uma luta entre Nick e um capanga japonês que também luta com espadas. 

– Ei, você é cego?

– Sim. E qual é a SUA desculpa?

Tô LendoPontos Fortes
  • Divertido. Se você não se preocupar muito o filme diverte e bem. As cenas de ação ainda são boas e não envelheceram. Alguns efeitos especiais parecem meio toscos, mas é coisa de época mesmo. No geral o filme é meio tosco, mas é aquela coisa: “Tosco é bom porque é ruim, seria melhor se fosse pior”!
  • Rápido. Sério. Um hora e meia. Dá pra ver rapidinho, sem nem suar. Esse filme hoje em dia teria no mínimo uma hora a mais só de enrolação. 
  • Rutger Hauer. Um dos papéis mais maneiros da carreira! Eu acho, pelo menos. Saudades eternas!
Tô LendoPontos Meh
  • Chato de achar. Talvez algum DVD à venda no mercado livre ou algo do tipo seja a melhor opção para assisti-lo direito. Há algumas versões dubladas e legendadas no youtube, mas com qualidade péssima. Mas você também pode alugar pelo próprio youtube, se quiser.
  • Cómedia. No IMDb o filme está classificado como “comédia de ação”, o que pra mim foi meio que uma surpresa, porque eu até lembrava de uns momentos engraçados, mas não o suficiente para classificá-lo como “comédia”.
  • Tosco. Filme antigo, né? Tem uns momentos mega toscos. Se isso não é a sua praia, passe longe. Eu curto bastante.

Comentei que este filme é tão emblemático que me fez curtir alguns outros personagens parecidos. Tenho até uma teoria de que John Romita Jr. usou o próprio Rutger Hauer neste filme como base para o seu Matt Murdock no clássico “O Homem Sem Medo” (que é de 1993-94). 

E aí? O que vocês acham?

Fúria Cega vale quatro rebobinandos! 📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2019-07-28T20:10:58+00:00 29 de julho de 2019|0 Comentários