Rebobinando #90 | Cavaleiros do Zodíaco

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Seja fazendo elevar o cosmo do seu coração, ou combatendo por um mundo ideal, uma coisa é certa: Se você tem cerca de uns trinta anos, você CERTAMENTE já ouviu falar dos Defensores de Atena! Vem comigo rebobinar um dos animes responsáveis pela nova explosão da cultura pop japonesa no Brasil nos anos 90! Vamos falar de Cavaleiros do Zodíaco!

O ano era 1994. O mês era setembro. A rede de televisão era a Manchete. E Cavaleiros do Zodíaco estreava sem muito alarde na tv brasileira. Com apenas 12 anos de idade, e ainda viciado em Tartarugas Ninja e afins, eu deixei passar, mas alguns dos meus colegas da escola não. Coisa de um mês depois, lembro de ouvir uma conversa deles sobre o episódio do dia anterior e perguntei qual era o assunto. Quando me falaram que era um desenho novo chamado de Cavaleiros do Zodíaco, de uns caras que tinham poderes e usavam armaduras, eu imaginei algo COMPLETAMENTE diferente do que o desenho era. Minha cabeça tinha uma visão muito… bom… mais européia e menos super-heróica do que consistia um “cavaleiro”, ainda mais do “zodíaco”. 

Como eu já era fã dos super sentais e tokusatsus como Changeman, Jiraiya, Jaspion e afins, assim como meus amigos da escola, não é absurdo dizer que eu simplesmente AMEI o tal desenho! Super dramático, cheio de lutas, violência e sangue voando, e ainda tinha uma liçãozinha de mitologia grega ali no meio, só pra temperar. Claro, pirralho como eu era, o meu padrão para histórias muito boas ainda era meio baixo… Mas ainda assim, já era uma evolução dos desenhos habituais aos que eu estava acostumado a assistir. Como todas produções japonesas, as lições de moral não eram super tatibitate, havia muita dualidade, muita área cinza que, pelo menos para mim, faziam a gente se questionar sobre coisas como o bem e o mal, o valor de uma luta, dedicação e autossacrifício.

Era isso o que eu achava que era um Cavaleiro do Zodíaco quando ouvi falar do anime pela primeira vez.

O ANIME

Vou me ater unicamente ao anime aqui, já que o mangá é um outro assunto, para uma outra rebobinando. 😉

Como quase todo mundo sabe, as produções japonesas às vezes seguem um caminho único só delas. Ora um anime surge vindo de um mangá, ora ele surge vindo de um videogame e, quem sabe um dia veremos um anime surgido de um meme, não sei? Enfim, CdZ seguiu o caminho mais natural e foi adaptado de um mangá de mesmo nome, Saint Seiya, lançado originalmente no Japão em 1986, pelo mangaká Masami Kurumada. Uma coisa curiosa do autor era que ele é da mesma escola de Osamu Tesuka (o pai do mangá japonês) e usa os “mesmos” personagens em diferentes obras. Talvez para poupar tempo, ou talvez para criar uma certa “assinatura” no seu estilo próprio, isso fazia com que ele usasse certos rostos já usados em mangás anteriores quase como um diretor que só trabalha com os mesmos atores (OI, TIM BURTON!) Sendo assim, Seiya, o protagonista de Saint Seiya tinha a mesma cara Teppei, o protagonista de B’t X (não, eu não sei como se pronuncia isto). Não por acaso os mangás envolviam jovens guerreiros com armaduras.

O anime original foi ao ar no Japão também em 1986, alguns meses depois do lançamento do mangá, e teve um total de enxutos 114 Episódios (AO CONTRÁRIO DE OUTROS ANIMES POR AÍ, NÉ ONE PIECE?). Adaptando duas sagas usadas no mangá (Santuário e Poseidon) e criando uma saga nova, baseada numa história solo de um dos personagens (Asgard). Com um design de armaduras muito superior ao do mangá, inclusive! Pelo menos durante boa parte do desenho. Aqui no Brasil, o anime chegou uns bons anos depois, em 1994, na TV Manchete, depois de ter feito um sucesso estrondoso na Europa (em especial na França), no México e em outros lugares do mundo. Curiosamente, só nos EUA o anime não chegou a fazer sucesso, e eu nunca entendi bem o porquê, honestamente. O público americano tem gostos super-específicos, eu sei, e os tokusatsus só foram fazer sucesso por lá após serem adaptados como Power Rangers, no entanto, Dragonball Z e Naruto são coisas absurdamente japonesas que são um enorme sucesso lá. Vai entender!

As armaduras da primeira fase do desenho eram muito mais maneiras.

Produzido pela Toei Animation, o anime durou de 1986 a 89, com as três sagas já mencionadas. Além de uma pá de filmes que contavam histórias muito similares, mas com Deuses diferentes. Dois deles eu lembro de ter assistido no cinema em 1995, que foi a Batalha de Abel e a Saga da Deusa Éris. Os dois, inclusive, eu acabei comprando a fita em VHS para ver de novo em casa. Ahem. Somente alguns muitos anos depois, com inúmeros fãs cobrando a continuação do anime, foi que a Toei se empolgou a lançar a Saga de Hades em animação. Adicionando cerca de 30 episódios no run original da série.

As Sagas.

O anime contava a história do pequeno órfão Seiya, que havia sido separado de sua irmã no orfanato quando foi adotado por um magnata japonês chamado Mistumasa Kido. Levado para a mansão do velho, ele se encontra com mais uma dezena de jovens adotados como ele, que seriam enviados para diferentes lugares do mundo para treinar e voltarem como Cavaleiros, uma honraria concedida a poucos. Sem muita explicação do porquê, honestamente. Mas cada um dos jovens acabou aceitando a missão, em troca de alguma coisa em específica. Para Seiya, no entanto, a promessa foi de que ele se reencontraria com sua irmã se voltasse da Grécia com a Armadura de Pégaso. E assim, todos esses jovens foram enviados cada um para um lugar e lá treinaram por anos a fio, em treinamentos árduos e às vezes até meio sádicos, mas todos voltaram com suas armaduras sagradas nas costas.

Nunca entendi como o Mestre Ancião conseguia caber na armadura…

O Velho Kido tinha uma neta, uma garotinha mimada chamada Saori Kido. Ela era super metida e tratava os meninos como capachos, em geral. A virada na história se dá quando descobrimos, mais à frente na história, que a menininha mimada é na verdade a reencarnação da Deusa Atena na Terra. Enviada para proteger a humanidade de si mesmo e dos ataques de outros deuses como Poseidon e Hades. Acontece que há 13 anos, enquanto o jovem senhor Mitsumasa Kido passeava pela Grécia, ele deu de cara com um jovem guerreiro chamado Aioros que entregou à ele sua Armadura Sagrada de Sagitário e um bebê de colo. Explicando rapidamente, ele disse que a vida da criança corria perigo e que deveria ser protegida a todo custo. Antes de morrer ele lhe conta sobre a lenda dos Cavaleiros, a identidade do bebê e suplica por ajuda. Kido levou a criança para o Japão em segredo e criou-a como se fosse sua neta. E, na esperança de que surgisse um jovem que pudesse vestir a armadura de ouro, adotou outras crianças e as enviou para se tornarem cavaleiros. Tudo para que pudessem proteger Atena e o mundo.

Sempre acho que o cara podia ter contado o seu plano desde o início, mas infelizmente esse não foi o caso. Após muitas revelações ficamos sabendo que o Santuário, um lugar secreto na Grécia (ou seja, talvez nem tão secreto assim), é o local onde vivem os Cavaleiros e a Deusa Atena. Como ela não pode ser perturbada por preocupações mundanas, o controle do Santuário é cedido a um cavaleiro de alta ordem intitulado o Grande Mestre. Lembro que na dublagem original pelos Estúdios da Gota Mágica, havia uma confusão enorme sobre o nome do personagem que ora aparecia como “Árnies”, ora como “Ares” e às vezes até mesmo “Áries”, causando inúmeras confusões nas crianças quando elas descobriam que o “Mestre Áries era o Cavaleiro de Gêmeos”…

O Mestre do Mal. Mestre do Santuário. Arnes. Ares. Áries. Ah, o cara das ombreiras heavy metal!

Dividido em três sagas, o anime (que me pareceu muito mais longo do que originalmente ele era) tinha a seguinte coniguração:

Saga do Santuário: Com o Grande Mestre como o inimigo principal, os 5 cavaleiros protagonistas da série lutavam contra cavaleiros enviados pelo Santuário. Essa fase do anime se divide entre várias outras, mas podemos resumir tudo em três partes também; 1) Ikki de Fênix e os Cavaleiros Negros; 2) Os Cavaleiros de Prata; e 3) As Doze Casas dos Cavaleiros de Ouro.

Saga de Asgard: Dominada secretamente por Poseidon através do Anel de Nibelungos, Hilda de Polaris, a representante de Odin na Terra declara guerra à Atena. Os cavaleiros precisam enfrentar os sete Guerreiros Deuses de Asgard e salvar Saori, que está se sacrificando para proteger a humanidade. Essa saga só existe no anime e foi livremente baseada numa história solo do Hyoga no mangá contra os Guerreiros Azuis da Sibéria.

Saga de Poseidon: Poseidon foi acordado antes do previsto pelo irmão gêmeo do Grande Mestre e tem sido manipulado desde então. Declarando guerra à Atena e ao mundo todo, ele lança chuvas torrenciais para causar um novo dilúvio e expurgar a humanidade. Os cavaleiros, mais uma vez, precisam enfrentar seus sete Generais Marinas, e destruir os sete Pilares de Sustentação dos Sete Mares, para só então conseguirem destruir o Pilar Principal do Reino Submarino de Poseidon e, adivinha? Salvar Atena, que está presa lá dentro se sacrificando pela humanidade.

Esse é o Shiryuy chorando sangue depois de ver o anime de CdZ da Netflix…

Tô LendoPontos Fortes
  • Animação: Animado pela Toei, o anime tem um bom nível de qualidade. Alguns episódios de filler tinham muita cara de que foram encomendado em estúdios na Coréia. Mas no geral, era tudo muito bacana.
  • História: Mais do mesmo. Deus do mal surge. Atena propõe sacrifício. E têm apenas doze horas para salvá-la. Mas mesmo assim, como é de costume na cultura japonesa, o drama e os temas eram fortes os suficientes para mascarar um pouco a falta de criatividade no enredo geral.
  • Música: Sérião. Os animes desta época em geral tem músicas muito boas. Um misto de rock e heavy metal, coisa bem dinâmica e diferente do pop costumeiro das animações americanas da mesma época também. Graças ao advento da internet pouco tempo depois do anime chegar ao Brasil, pudemos ter contato até com o tema de abertura original (que é muito melhor que a versão kid-friendly da Manchete).
  • World building: Masami Kurumada criou um mundo muito rico em histórias baseado na mitologia grega, se você souber aproveitar as lendas direito.
Tô LendoPontos Meh
  • Roteiro: Apesar de contar com a chutação de balde usual dos japoneses em estabelecer a história e já partir pra porrada logo de cara, como eu disse antes, o anime tem um enredo muito fuén de Saori-em-perigo-precisamos-salvá-la. 
  • Masami Kurumada: Eu conversava com os meus amigos que, enquanto criador deste mundo de cavaleiros, Kurumada tinha ótimas ideias. Mas como escritor da história por si só, ele era meio ruim mesmo. Quase um George Lucas, para ser sincero. Em geral, as histórias de CdZ que vieram depois, tentando capitalizar no sucesso da franquia após a revitalização com a Saga de Hades, tem um desenvolvimento bem mais bacana do que o run original do próprio Kurumada.
  • Filler: Eu vou para sempre reclamar dos episódios-filler porque quase nunca acrescentam nada de bom e só esticam mais e mais a história. CdZ nem tem tanto, mas tem o suficiente para eu colocar aqui.

Nossa, como eu perdi dinheiro…

Tenho ótima memórias do anime. Colecionei os bonecos, o álbum de figurinhas, e as revistas sobre anime que estouraram na época também. Assisti alguns episódios mais recentemente e morri de rir com o dramão mexicano em certas partes, e achei muito bacana rever alguns personagens que eu curtia sob uma nova ótica. Gargalhei com os casos de surdez crônica de todos os personagens que repetiam incansavelmente “O QUÊ DISSE?” a cada três linhas de conversa.

 

E você? Quantos bonecos teve? Já era mais velho e curtia Ultraman? Ou era mais novo e curtiu só Naruto? Qual é o seu signo?!

Cavaleiros do Zodíaco vale três rebobinandos! 📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2019-07-22T18:53:37+00:00 22 de julho de 2019|0 Comentários