Rebobinando #88 | Wolverine #39

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O que você faria se não conhecesse o próprio passado? Antes de Origem, antes de Dinastia M, um dos grandes buracos na cronologia da Marvel era o passado do Wolverine. Cada roteirista do gibi do baixinho invocado tinha lá suas teorias e no fim tudo virou uma bagunça só. Mas em 1995 tivemos um vislumbre sobre alguns desses mistérios em Wolverine #39. Bóra rebobinar comigo!

WolveRambo!

Sempre achei o Wolverine um personagem meio superestimado. Assim, eu achava algumas histórias maneiras e nessa época eu tinha começado a ler X-men por causa do desenho animado no Xou da Xuxa (ou já era TV Colosso?). Mas no geral eu implicava um pouco com ele, muito provavelmente porque ele era quase uma antítese do meu herói favorito, o Homem-Aranha. E em geral nas histórias do Aranha onde o Wolvie aparecia, sempre rolava uma discussão sobre os métodos de cada um. Mas enfim, ele era um personagem bacana no fim das contas e o início dos anos 90 foi um período onde ele teve um surto de popularidade.

Surgido em 1974 pelas mãos de Roy Thomas, Len Wein e John Romita Sr. (vulgo “Romitão”), o carcaju canadense passou boa parte dos anos 70 sendo colocado de lado em X-men, já que Gil Kane e Claremont gostavam mais do Noturno. Só quando o também canadense John Byrne assumiu os desenhos do título alguns anos depois é que ele começou a bombar mais e mais. Daí para o primeiro título solo dele em 1988 foi um pulo. As histórias dele agindo sozinho em lugares como Madripoor ou Japão chegaram aqui no Brasil só em 1992 mesmo, pela Abril Jovem. Até então o passado do personagem só era um “mistério” porque ninguém ainda tinha se importado em dar um passado para ele. E como já era estabelecido que ele era um cara mais velho, mais experiente, diversos roteiristas começaram a contar suas histórias colocando o herói cada vez mais no passado. Lutando ao lado do Capitão América na Segunda Guerra, ou com os Wild C.A.T.s, ou na Guerra do Vietnã, etc. etc.

Wolverine com sangue nuzóio!

Só quando Barry Windsor-Smith se propôs a contar parte da origem dele no CLÁSSICO Arma X (#AMarvelTemClássicos) é que começamos a perceber como o buraco era mais embaixo e em como o adamantium foi parar nos ossos dele. A partir daí muitas histórias sobre o passado dele ficaram cada vez mais confusas, com diversos furos que a Marvel não sabia como consertar. Afinal de contas, ele lutou na segunda guerra? Foi criado por lobos? Ou ele vivia com os índios pé-pretos no Canadá? Dentes-de-Sabre era o seu pai? Seu irmão? Quando foi que ele foi pro Japão? Ele foi um agente secreto da CIA? Do governo canadense? No fim, TANTA coisa havia acontecido que não teria como ele ter vivido por tudo isso se ele não tivesse pelo menos uns 200 anos! Ou se boa parte dessas memórias fossem implantadas!

As capas das edições americanas.

Wolverine #39

Reunindo três edições da revista americana Wolverine, dos números #48-50, lançados em 1991, a edição que saiu aqui nas bancas prometia muita coisa! A capa vinha com um rasgo das garras do “próprio” Wolverine, deixando à mostra a primeira página da história e vinha com os carimbos “ULTRA SECRETO” e “Não pode ser vista pelo Major Logan”. E de fato, a revista revela até um bocado de coisa, mas nem o tanto quanto a gente gostaria. As revelações mais importantes mesmo, surgiriam anos depois. Mas se alguém me perguntar, eu colocaria esta revista numa pilha de “leituras essenciais” para entender o personagem, juntamente com Arma X (1991) e Origem (2001). 

Mesmo não sendo hiper fã do cara, eu tive que dar o braço a torcer e comprar essa revista! Porque, né? ELA VINHA COM A CAPA RASGADA PELO WOLVERINE! Haha. Que idiota eu era.

Sonho meu, sonho meu, vai buscar a Arma X, sonho meu…

Sonhos Sangrentos Parte 1, 2 e 3.

Tudo começa com Wolverine e Jubileu visitando um dos lugares onde o Projeto Arma X havia se instalado. Logan buscava respostas sobre o seu passado e deu de cara com um depósito abandonado. Decidido a investigar, ele vai tendo flashes de memória a cada corredor escuro que encontra. Jubileu é um sopro de vida numa história que começa super sombria, conforme vamos passando junto com Wolvie pelos eventos que o trouxeram até ali. Tem menções diretas ao arco de Armas X, como o rapto inicial do herói e sua fuga pelo complexo. Tipo em X-men 2, o filme, quando deram uma adaptada de leve nessa história. Tem uns momentos dele com o Dentes-de-Sabre numa memória à la Pulp Fiction, e mais dúvidas sendo colocadas em sua cabeça.

Na história seguinte, ele volta à Mansão X para uma sessão de terapia psíquica com o Professor Xavier e Jean Grey. Logan revive mais intensamente os momentos de sua fuga do complexo do Projeto Arma X, além de sua visita junto com Dentes-de-Sabre durante uma certa revolução em Cuba. Tudo isso intercalado com uma tentativa do mutante de atravessar uma porta gigantesca de aço na sua memória, com o nome “Shiva”. Durante um reencontro com sua querida Raposa Prateada, Wolverine desconfia de partes de suas lembranças e começa a desvendar que eram falsas. Quando as memórias passam a ficar perigosas e traumáticas demais, o Professor Xavier interrompe a sessão. Wolverine sai indignado se declarando um ser humano, não um animal e sai de moto pela noite.

Taí um motoqueiro com garra!

E por fim, na terceira história, Logan descobre uma ligação do Projeto Arma X com o governo americano. Ele invade o porta-aviões voador da SHIELD e vai bater papo com o Nick Fury (pré Samuel L. Jackson) para descobrir que ligação é essa. Acontece que o projeto era um esforço conjunto dos governos americano e canadense para criação de super soldados. Como era um projeto secreto, ele era bancada através de empresas fantasmas que recebiam verbas do governo dos EUA através do “Setor de Controle de Pestes” Ministério da Agricultura! Hehe. 

Logan sai com um arquivo enorme de, ahem, disquetes! E em sua pesquisa ele descobre muito pouco sobre o seu passado, mas muitos detalhes sobre o projeto em si. Além de um armazém que foi utilizado na época e abandonado até hoje. Sua investigação não passou desapercebida, porém. Tanto o Professor e Hines, duas figuras por trás dos implantes de adamantium de Logan, estão a par de seus movimentos. Além disso, uma figura sombria em posição de liderança na Hydra também está acompanhando tudo de longe. 

Ai, meu São Claremont! Haja balão!

Com a ajuda dos X-men, Wolverine chega ao tal armazém abandonado em uma cidade do Canadá. Lá dentro ele encontra diversos sets de filmagem com locais similares aos de suas memórias, e outros que ele nunca tinha visto antes. Quantos mutantes tiveram implantes de memória ali? Muitos, aparentemente. O Professor aciona uma salvaguarda, capaz de lidar com seus assassinos e proteger os seus segredos. 

Veja bem, o Projeto Arma X queria criar assassinos perfeitos em todos os sentidos. Pessoas aparentemente comuns, que poderiam ser acionadas à distância para cometer assassinatos em nome do “bem maior”. Claro que os governos envolvidos ficaram inquietos com a possibilidade de se colocar matadores treinados no meio do público comum e exigiu um método capaz de eliminar tais matadores caso eles dessem problema. Assim foi criado o programa Shiva. Uma inteligência artificial com um suprimento limitado de corpos robóticos que podem ser acionados conforme o corpo anterior é eliminado (lembra do robô dos Incríveis? É quase a mesma coisa).

Vai uma mão aí, Wolverine?

Ao acessar o sistema do complexo, os X-men descobrem uma lista de prioridades do programa que tem Wolverine como o número 1. Depois de muita luta, Wolverine destrói pelo menos uns dois robôs até que ele para de incomodá-lo. Parece que o programa pulou Wolvie e foi para o segundo da fila: Dentes-de-Sabre. 

Tadinho. 

O que aconteceu foi que a figura misteriosa da Hydra era ninguém menos que a própria Raposa Prateada, ex-amor de Wolverine, dada como morta há anos, pelas mãos de Victor Creed, o Dentes-de-Sabre. Ela reconhece parte dos cenários de sua memória e se pergunta sobre a Cabana no Canadá, sua única memória boa, assim como a de Logan. 

Vamos abrir a porta da esperança!

O Professor reclama do maldito implante da cabana, o que a enfurece e, tão misteriosamente quanto surgiu, ela força o velho a tirar o nome de Wolverine da lista e o mata. Hines, que estava desacordada, é encontrada pelos X-men e conta que não sabe o que aconteceu. 

Alguns mistérios sobre o passado de Wolvie acabam sendo revelados, mas como sempre, novos mistérios surgem para ocupar o seu lugar. 

Tô LendoPontos Fortes
  • Arte. Adoro o Marc Silvestri. Nessa época eu achava as mulheres que ele desenhava muito gatas e queria muito desenhar do mesmo jeito. Acho que ele tem uma coisa de anatomia exagerada tipo o Jim Lee, mas com mais poses e expressões diferentes do que nosso querido Coreano baixinho. 
  • Roteiro. Foi uma das segundas coisas que se propuseram a elucidar parte do mistério de Wolverine na época. Se não me engano, foi a primeira menção dos implantes de memória e em como algumas coisas do seu passado não eram verdadeiras. 
  • Capa. Truque barato, mas que funcionou incrivelmente pro meu eu de 13 anos.
Tô LendoPontos Meh
  • Leitura Solo. Não é muito recomendável ler essa história sem saber muita coisa do Wolverine. Lembro de ter ficado boiando em algumas partes justamente porque eu não tinha o background necessário. Coisa que foi resolvida com os sebos, claro.
  • Retcons. Eu sempre reclamo dos retcons, mas é que eles precisam ser extremamente bem-feitos para não causar problemas. Essa história abriu a possibilidade de muitos roteiristas brincarem com o passado de Logan, causando mais mal do que bem. Graças a Bendis e Dinastia M isso tudo foi resolvido. Ainda assim, tem algumas coisas legais e é uma pena que os leitores atuais não tenham pegado esta fase, ainda assim.

Hoje, graças aos filmes e aos desenhos, o Wolverine é um dos heróis mais conhecidos do planeta. Enquanto que no iníciozinho dos anos 90 ele era só um “personagem de nicho”, o que permitia que algumas histórias mais ousadas fossem contadas com ele. Depois de virar figurão, a Marvel precisou dar o exemplo e fazer dele uma figura mais heroica e menos controversa (ainda que com garras mortais nas mãos). 

Kadu, isso é só um jeito diferente de dizer que o Wolverine da sua época era melhor! 

Talvez, mas mesmo não sendo tão fã dele assim, eu percebi que me diverti mais relendo algumas histórias dele, do que a maioria de hoje em dia. Mas estamos aí, né? Ele morreu, voltou, o Professor morreu, voltou, morreu, voltou e morreu de novo… Então parece que é só mais um dia comum na Casa das Ideias. 

Wolverine #39 vale quatro rebobinandos! 📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2019-07-08T23:48:43+00:00 8 de julho de 2019|0 Comentários