Rebobinando #87 | Mysterio

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Acho que cada um de nós lembra qual foi a primeira edição de um gibi que nós compramos. Digo, um que compramos por vontade própria, na banca. Sendo o primeiro passo para uma coleção que levaria anos sendo montada. Pois bem, acontece que a primeira revista que eu comprei contava não apenas com o retorno de uma personagem muito querida da vida do Aranha, como também foi o meu primeiro contato com o vilão do mais novo filme do Aranha: Mysterio.

O MYSTÉRIO NO ECZISTE!

Eu sempre gostei do Mysterio. Sei que você vai acabar ouvindo isso muito de alguns fãs do Homem-Aranha e vai achar que é “só por causa do filme” e, bom, não posso falar pelos outros. Mas para mim, eu posso garantir que ele é o meu segundo vilão preferido do Aranha. O primeiro, claro, é o Doutor Octopus (e isso coloca Homem-Aranha 2 como o meu filme preferido). Mas sempre achei que o vilão do aquário na cabeça tinha um certo charme… Todo o histórico do técnico de efeitos especiais que foi passado pra trás e por isso resolveu entrar na vida de crimes é até acreditável. E as origens do personagem estão lá naqueles circos itinerantes do passado, cheio de mistérios (heh), magia e misticismo. O próprio nome “Mysterio” dá o tom chamativo do personagem.

Mas a história do homem chamado Mysterio é, err, um mistério? Heheh. Desculpa. Mas é uma história no mínimo confusa. Inicialmente, o homem por trás do aquário era o técnico de efeitos especiais chamado Quentin Beck. Esse é o vilão que a maioria das pessoas conhece e que costuma ser adaptado para as outras mídias, como os desenhos e o filme mais recente. Depois dele veio o Segundo Mysterio, que foi o que eu conheci (sem saber). Essa segunda encarnação do vilão era o ex-dublê Daniel Berkhart. Ele e Beck haviam trabalhado anos antes na indústria do cinema, mas ele também caiu na vida de crimes depois de ter perdido o emprego. O problema de identidades acontece meio que depois dessa época com as muitas mortes falsa de cada um deles (teve um lance de irmã ocupando o lugar também) e outros imitadores, como o vilão Halloween (uma espécie de mistura de Duende Verde e Mysterio). A terceira encarnação do vilão veio pelas mãos de Kevin Smith e Terry Dodson na mal-fadada história do Aranha com a Gata Negra, chamada O Mal no Coração dos Homens. Francis Klum era um mutante com poder de teleporte que “comprou” a identidade de Mysterio com o Rei do Crime e foi atrás de vingança dos dois heróis.

A essa altura o Aranha já deveria estar mais acostumado com essa galera que volta dos mortos… OH MEODEOS NÃO PÉRA

Teia do Aranha #29

Imagina você sendo um moleque e abrindo a revista pela primeira vez e dando de cara com isso aqui!

Meu calhambeque, bi-bi, quero passear no calhambeque, bi-bi-rubiduba…

Isso mesmo! O Buggy-Aranha! A idéia idiota mais maravilhosa que alguém já teve nesta vida! O nosso herói aparece fugindo dos policiais em meio às ruas de Nova Iorque, pensando o que diabos o levou a querer ressuscitar esse carro? Nessa época, o vilão Chacal já havia dado as caras e atormentava a vida de Peter com uma certa frequência. Perdido em pensamentos e virando em beco após beco para escapar da polícia, o Aranha acaba passando por uma névoa misteriosa e cai nas águas do rio Hudson, com buggy e tudo. Sem entender como é que ele se distraiu o suficiente para não ver um rio na sua frente ele volta para casa a pé, porque seus lançadores de teia ficaram cheios de água.

No dia seguinte ele dorme em meio a uma aula do Professor Warren que dá um sermão sobre como ele tem um belo potencial, mas que parece estar desperdiçando (o que é muito sinistro, se você já conhece a identidade vilanesca do professor). Em seguida ele encontra a MJ, pensa na Gwen Stacy, rouba o lanche de um cara na rua (??) e coisa e tal. Uma história típica do Homem-Aranha. Pela segunda noite seguida, a névoa surge ao redor de Peter fazendo ele cair de cima de um prédio. Na queda, ele tenta se agarrar em uma escada de incêndio e acaba deslocando o ombro, num ataque de sorte que só ele pode ter. Logo em seguida ele é atacado de frente pelo próprio Mysterio! 

Imagens clássicas. Você nunca leu Homem-Aranha se você não o viu deslocar o ombro numa queda.

Ele sente que há algo de estranho, porque claro, ele tinha acabado de machucar o braço, mas o próprio vilão parecia estar diferente, mais forte. O Aranha toma um cacete como nunca na vida, mas não desiste. Corre atrás de Mysterio, mas logo em seguida é atacado por um caminhão andando pelas paredes, depois por todos os seus maiores vilões até que, depois de socar uma parede achando que eram os seus inimigos ele apanha mais um pouco e desmaia. No dia seguinte, a grande revelação. Ao chegar no Clarim Diário e justificar seus hematomas com um “fui pego no meio de uma luta entre o Aranha e o Mysterio”, Peter descobre que Quentin Beck havia morrido na cadeia há mais de um ano!

Claro que era mentira! Mas nessa época ninguém sabia disso ainda. Nem mesmo o próprio Mysterio II, diga-se de passagem. Ainda atordoado pelo gás alucinógeno, Peter tem algumas visões isoladas durante o dia. Uma hora ele vê o Rei do Crime avançando por trás de seus amigos. Outra hora é o Duende Verde no Clarim. E ainda tem uma visão de Gwen Stacy saindo do Clarim Diário e atravessando a rua! Quer dizer, Peter ACHA que é uma visão, mas nós bem sabemos o que estava acontecendo ali. Gwen voltaria como um clone somente umas duas edições depois (nos EUA), mas ainda no final desta edição brasileira.

Essa cena ficou muito na minha cabeça quando eu comecei a ler gibis.

Nos EUA, as histórias foram publicadas entre The Amazing Spider-Man #141-144. Mas no Brasil ela saiu pela primeira vez (e quiçá a única?) na minha querida Teia do Aranha #29. Tudo de uma vez, ufa!

Quem é o novo Mysterio?

E ele teria conseguido se não fossem essas crianças e esse cachorro…

Mais tarde Peter descobre que durante uma das lutas contra o Cabeça-de-Aquário, o vilão conseguiu colocar um indutor de imagens em suas roupas, que faziam as ilusões parecerem mais reais ainda. A névoa só servia para deixá-lo atordoado e o resto eram as invenções de Quentin Beck. O Aranha consegue rastrear o aparelho até o covil do bandido e descobre que Quentin havia “mesmo” “morrido” (heh, quadrinhos) e que o novo Mysterio era apenas um ex-colega de profissão. Um dublê chamado Daniel Berkhart, que queria agradecer ao amigo “nova chance” que ele teve na vida, buscando vingança contra o Homem-Aranha.

No fim, ficamos sabendo que o Berkhart havia sido contratado por J. Jonah Jameson para se fazer de Msyterio e que, ao ser pego, ligou direto para o editor do Clarim, exigindo um advogado. Jameson que até este ponto ainda não tinha cansado de financiar supervilões só para pegar o Aranha (foram quantos? Escorpião, Esmaga-Aranha, Mysterio II…), se desepera e foge para a Europa na esperança da poeira baixar para ele poder voltar mais tarde.

Essa linha de enredo se liga com a história seguinte da revista e leva Robbie Robertson e Peter Parker à França para investigar uma reportagem. Lá eles encontram um vilão francês chamado Ciclone, metido com um roubo e o próprio Jonah, claro. Na volta às Américas, temos a grande revelação de que Gwen Stacy está viva e Peter Parker oficialmente perdendo a cabeça!

Mal sabia eu que havia começado a ler Homem-Aranha em uma época tão providencial para os anos 90, pegando o iniciozinho da Saga do Clone.

Tô LendoPontos Fortes
  • Arte. Muito se fala do “jeito Marvel” de fazer gibis e como a maioria dos desenhos naquela época eram feitos para serem muito parecidos entre si, quase como a Turma da Mônica é até hoje em dia. Mas cara… Ross Andru era sensacional. A noção de espaço, de enquadramento e cenas de ação dele eram limpinhas. Fico feliz desse ter sido um dos meus primeiros contatos com o mundo dos quadrinhos.
  • Roteiro. As histórias dessa época eram mais “fantabulosas”, com bastante drama e emoção pulando dos quadros. Olhando em retrospecto é até mais maneiro ver as ligações que eles procuravam fazer jogando pistas no meio de uma história que só iria se resolver mais para a frente.
  • Saudosismo. Nossa, muito saudosismo. As histórias eram mais escapistas e menos “mundo real” como são hoje em dia e… confesso, com tanta coisa ruim acontecendo atualmente, sinto um pouco de falta.
Tô LendoPontos Meh
  • Confusão. Muitas dessas pontas soltas às vezes não eram resolvidas antes da troca de equipe criativa e isso só gerava mais confusão ainda mais para a frente. Ou então, no futuro, alguém ia olhar para este exato momento no passado e pensar que seria uma boa ideia ressuscitar esse lance de clone do Aranha, né não?
  • Retcon. Muito por conta do próprio Mysterio. Porque nós já sabemos que ele não estava morto de verdade nessa época, né? O que causa problemas quando vamos ver o histórico do personagem e quantas vezes ele apareceu depois e, eu juro que em um determinado momento, é bem provável que houvessem dois Mysterios agindo ao mesmo tempo e com planos diferentes. Sem contar as versões diferentes e o vai e volta da morte, envolvendo até (pasmem!) ressuscitações e (err) pactos com o demo!

Tenho boas memórias dessa época, e lembro de ter curtido muito essa história do Mysterio. Ainda mais sendo o primeiro vilãozão clássico do Aranha que eu peguei pra ler puramente por acidente. Então esse carinho todo fica aí guardado e na esperança de que o novo filme do Aranha faça jus às duas-caras e o passa-perna clássico do Cabeça-de-Aquário.

Muito embora eu queria era ver mesmo mais um filme do Sam Raimi com o Msyterio como vilão porque eu acho que era super a cara dele usá-lo numa história. Ainda mais se você considerar que o Raimi tem um passado de efeitos especiais maneiros com Darkman: Vingança Sem Rosto e com os tentáculos do Doutor Octopus em HA2, que eram em boa parte animatrônicos e não só CGI. Ver o Mysterio pelas mãos dele, com o Bruce Campbell no papel seria lindo! 

Mas ok. Mas só de ver o Aquário no trailer do cinema eu tô feliz, admito.

Mas só para constar, Teia do Aranha #29 vale cinco rebobinandos e… OPA! PEGADINHA DO MYSTERIO! Vale seis rebobinandos! 📼📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2019-09-04T12:59:12+00:00 1 de julho de 2019|0 Comentários