Rebobinando #86 | Toy Story

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Todo mundo gosta de brinquedo, né? Ainda temos memórias de nossos brinquedos favoritos de quando éramos crianças (por fora, pelo menos). Só que naquela época a gente chama a de “hominho” e não de Action Figure™. E todo mundo gosta de histórias, também. Porque não? Elas nos fazem viajar pra longe, viver outras vidas, sem sair do lugar. Claro que um filme com o nome de Toy Story acabaria sendo um sucesso! Vem comigo rebobinar este clássico de 1995.

Sou um grande fã de animação e curtia bastante os lançamentos da Disney dos anos 90. Cresci vendo filmes como Aladdin e o Rei Leão no repeat do videocassete lá de casa. Cheguei até a trabalhar nos parques da Disney muitos anos depois e utilizei todo o meu conhecimento adquirido nessa época (quem diria?). Então quando foi anunciado que a Disney lançaria um desenho animado INTEIRAMENTE FEITO POR COMPUTADOR, nossa, é claro que eu fiquei empolgado.

Vamos lembrar que na época, o uso de computadores e animação digital ainda eram uma espécie de experimento no mundo do entretenimento. Até então os maiores expoentes eram o videoclipe do Dire Straits, Money For Nothing, e alguns efeitos de “Cosmo” nas batalhas de Cavaleiros do Zodíaco. Heh. OK. Pra mim eram os maiores expoentes. Apesar de gostar muito de animação, eu não acompanhava muita coisa na época. Eu tinha treze anos ou menos…

Nem os meus brinquedos na vida real tem uma resolução tão boa assim! OLHA O BRILHO DESSE CHÃO!

Enfim. Nos próprios desenhos da Disney, o uso de computação gráfica ainda era limitado a poucas cenas, mas desde 1990 a Casa do Rato já colaborava com a Pixar no uso de computadores. A empresa havia sido criada em 1986 pelos grandes expoentes da animação hoje em dia, John Lasseter, Andrew Stanton, Pete Docter, entre outros. E logo depois ela foi comprada por ninguém menos que Steve Jobs. Graças ao tino comercial dele que um bando de nerdinhos animadores começaram a crescer e ocupar alguns espaços no mundo do entretenimento.

Para Jobs, claro, a Pixar era só mais um meio dele desenvolver os seus computadores e tentar voltar pra Apple e… Bom, isso é toda uma história à parte. Mas para Lasseter e cia, foi uma mão na roda enorme. Em 1988 o estúdio ganhou o seu primeiro Oscar, graças ao curta de animação Tin Toy (logo abaixo). Hoje em dia a animação é meio creepy, mas fofinha. Mas se vc tivesse um olho bom no fim dos anos 80, com certeza enxergaria o potencial de um filme assim. E sabe quem tinha esse olho bom na época? Ele mesmo. Jeffrey Katzenberg.

O babaca.

Pausa. o bebê deste vídeo é o bebê MAIS MEDONHO que você vai ver na vida!

Pixar vs Disney

Lasseter já queria fazer um filme em animação desde muito cedo, quando ainda trabalhava na Disney e fez um pitching (quando você faz uma proposta de uma nova produção para os donos da grana) do filme A Torradeira Valente (1987) todo em computação gráfica. Aparentemente o pitching foi tão horroroso que ele foi demitido imediatamente depois. Sem trabalho, mas com uma ideia bacana ele procurou outros estúdios e acabou produzindo o seu filme, mas em animação tradicional, junto a Hyperion Pictures e… Bem, acho que isso explica porque tão pouca gente conhece esse filme.

Nesse meio tempo rolou a criação da Pixar, o envolvimento de Jobs, e o Oscar de Tin Toy. Katzenberg entrou em contato com Lasseter e Steve Jobs e disse que queria produzir um filme com eles. Na verdade, ele queria mesmo era recontratar Lasseter e pegar pra Disney os programas de computador que ajudaram as produções de A Pequena Sereia, A Bela & a Fera e Aladdin. Sacando qual era a do babaca, Jobs interveio e salvou a Pixar de ser tomada de assalto (e da falência, pq as coisas não andavam muito boas pra eles apesar de tudo). E o acordo foi feito.

Detalhes como essa escadaria da Pequena Sereia, o Salão de Baile em a Bela & a Fera e o Tapete Mágico em Aladdin foram criados pelos computadores da Pixar.

A Pixar produziria um filme PARA a Disney e não DA Disney, o que é uma diferença. A Casa do Rato no entanto teria controle criativo dos personagens e Poderia, mas não era obrigada, a bancar mais dois filmes depois disso. A Pixar também ganharia um quarto da bilheteria. O que foi providencial para o estúdio, já que Toy Story fez cerca de 370 milhões de dólares no mundo inteiro. Posteriormente um novo acordo foi feito para a produção de 8 filmes originais, que culminou no magnífico Wall-E (Toy Story 2 não conta). Até a compra do estúdio pela Disney em 2006.

O Processo de Criação

Difícil imaginar que, ao ver John Lasseter como o chefe de criação dos Estúdios Disney até pouco tempo (ele saiu em 2018 depois de alegações de abuso, provando que a gente não pode confiar em mais ninguém hoje em dia), ele teria sido demitido da Disney no passado, ou mesmo que não sabia nem como escrever um roteiro.

Bo-Peep era a namoradinha de Woody em Toy Story e está de volta em Toy Story 4!

Durante o estágio de produção de Toy Story tanto ele quanto os futuros diretores de clássicos da Pixar, Pete Docter e Andrew Stanton, não faziam muita ideia de como contar a história de um grupo de brinquedos que ganham vida quando seus donos não estão olhando. Para isso eles escreveram o que pode ser classificado como um tratamento de roteiro e, graças a influência do roteirista Robert McKee eles começaram a desenvolver melhor a história. A princípio o herói seria Tiny, o mesmo protagonista de Tin Toy e um amigo que seria um boneco de ventríloquo e Woody seria o vilão da história.

Depois da intromissão de Jeffrey Katzenberg na direção do roteiro, o babaca “sugeriu” que o filme fosse feito na mesma dinâmica dos “filmes de parceiro” (ou buddy movies, em inglês). Como referência ele sugeriu que todos vissem os filmes 48 Horas (com Eddie Murphy e Nick Nolte) e Acorrentados (um filme de 1958, com Sidney Poitier e Tony Curtis). E no fim, tudo aconteceu como o próprio Katzenberg descreveu: “Dizem que eu sou um tirano, e é verdade. Mas eu sou um tirano que está sempre certo”!

Depois desse encaminhamento, as Aventuras de Tiny e o Boneco de Ventríloquo com o nome provisório de “História dos Brinquedos” acabou virando uma aventura repleta de emoção com Woody o Caubói e Buzz Lightyear o Astronauta! A evolução e os outros personagens foram aos poucos sendo acrescentados por outros roteiristas como Alec Sokolow, Joel Cohen (não confundir com o Joel Coen, dos irmãos Coen) e, pasmem, Joss Whedon.

Se você reparar, um dos cartazes originais de Toy Story ainda faz uma referência direta a um dos filmes que serviu de inspiração…

O elenco

Depois do sucesso de Aladdin e Robin Williams, todo mundo queria investir em atores famosos para fazer as vozes dos seus desenhos animados. Para Woody nunca houve dúvida sobre a escalação de Tom Hanks (muito embora tivessem pensado também em Paul Newman). Seguindo inclusive a estratégia de Aladdin, os animadores fizeram uma animação de teste do personagem com a voz de Hanks em outro filme para convencê-lo a aceitar o trabalho. Para o Buzz, no entanto, eles consideraram vários outros comediantes como Billy Crystal, Chevy Chase e  Bill Murray. No fim, o astronauta ficou com Tim Allen. O curioso é que tanto Billy Crystal quanto Paul Newman viriam a trabalhar na Pixar anos depois como Mike Wazowski de Monstros S.A. e Doc Hudson em Carros, respectivamente.

Este teste de animação mostra alguns dos testes utilizando as vozes dos atores que eles gostariam de usar nos papéis principais e ainda tem o primeiro rascunho do Woody, meio caubói, meio boneco de ventríloquo, mas claramente o vilão da história.

Tô LendoPontos Fortes
  • Grande Filme. Pra quem não sabia muita coisa de roteiro, esses caras mandaram muito bem nas histórias que eles criaram e quiseram contar. A saga inteira dos brinquedos tem temas bastante claros que ressoam com a maioria (quiçá todos) que assistem o filme.
  • Roteiro. O roteiro do primeiro filme é bem consistente e, querendo ou não, tenho que dar o braço a torcer para o Katzenberg. A inspiração em filmes de parceiros foi providencial.
  • Música. Uma das condições da Pixar sobre os seus filmes era que eles não queriam fazer um musical. No fim, chegaram a um meio termo dando a Toy Story uma música-tema linda. You Got a Friend in Me, de Randy Newman. A música aparece em momentos importantes do filme, mas pelo menos nenhum dos brinquedos sai cantando.
Tô LendoPontos Fracos
  • Animação. Pros padrões atuais, a animação tá muito feia. Quer dizer, em 1995 só tecnologia de ponta para fazer aquilo que a gente vê no filme e, levando em consideração que os personagens principais são brinquedos, a gente percebe como isso foi uma ideia de gênio! Sendo brinquedos, os animadores podiam brincar com texturas diferentes dos humanos e até mesmo com formatos mais estranhos. Mesmo com a presença curta de Andy, sua mãe e do vizinho Sid, os corpos e as dimensões humanas na história não tem tanto peso assim. E a gente deixa passar.
  • E é isso. Juro que não consigo pensar em mais nada de ruim pra falar desse filme. Desculpaí.

Graças a deus que os computadores melhoraram desde 1995.

O bacana de Toy Story é que os filmes ainda são criados pela mesma galera desde 1995 e, assim como os personagens principais, o público em geral que viu o primeiro nos cinemas cresceu junto com a franquia. Então até sair Toy Story 3, muita molecada estava indo para a faculdade junto com o Andy. Além disso, sabendo de algumas histórias dos bastidores da produção do filme, fica ainda mais bacana notar alguns “easter eggs” do próprio Estúdio dentro dos filmes, como o fato dos brinquedos se esconderem das crianças pequenas em Toy Story 3 da mesma forma que no curta Tin Toy, a inspiração máxima para os filmes. E pelos trailers de Toy Story 4, parece que vamos ter alguns bonecos de ventríloquo como vilões, assim como foi Woody antes de tudo.

Esses dias eu brinquei dizendo que Toy Story 1 é sobre inveja e a chegada de um irmãozinho novo na família. Toy Story 2 é sobre adolescência e encontrar o seu lugar no mundo, sua identidade real. Toy Story 3 é sobre crescimento e deixar pra trás certas coisas na vida. E Toy Story 4 parece ser quase filosófico, sobre o que é ser um brinquedo!

E só pela música do fim do trailer eu já estou emocionado então… confio plenamente na capacidade desses caras que fazerem filmes bons.

Toy Story vale cinco rebobinandos! 📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2019-09-04T12:59:55+00:00 24 de junho de 2019|0 Comentários