Rebobinando #85 | Fênix Negra

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É difícil dizer quantas vezes a Jean Grey já morreu. Se você fizer uma análise cuidadosa, considerando a cronologia oficial da Marvel, isso dá um mínimo de 9 vezes. Se você for mais aberto a interpretações sobre “o que é estar morto”, esse número sobe a pelo menos 15! Mas hoje nós vamos rebobinar uma dessas mortes que virou um clássico super mal adaptado para o cinema: A Saga da Fênix Negra.

Das cinzas às cinzas, o início e o fim da Fênix! Mais ou menos…

Lançada em Uncanny X-men #129 (1980) nos EUA, a Saga da Fênix Negra começou na verdade mesmo alguns anos antes na edição #101 (1976) da mesma revista. Aqui no Brasil ela foi publicada originalmente em Grandes Heróis Marvel #7 (1985) e posteriormente em inúmeras reedições e encadernados. Um dos quais, lançado em 2006 pela Panini, é o que eu guardo com carinho em casa porque foi a primeira vez que eu tive a chance de ter essa história pra guardar em casa.

Não cheguei a ler essa história na época em que saiu, obviamente, mas durante meu “intensivão” de X-men pelos sebos do Rio de Janeiro acabei uma hora ou outra esbarrando com menções a personagem e suas inúmeras mortes. Além claro das referências diretas em sagas como Inferno e crossovers como Grandes Encontros Marvel e DC: X-men & Os Novos Titãs. Então na minha memória eu sempre soube que ela havia sido a Fênix e que havia sido uma vilã em algum ponto da cronologia, só não tinha lido de fato até aquela época. Isso sem contar uma das melhores adaptações dessa história para o meio audiovisual, que foi a do desenho animado dos X-men nos anos 90!

O início

A saga começou pelas mãos do nosso noveleiro favorito Chris Claremont, lá em 1976 em Uncanny X-men #101. A história todo mundo conhece. Jean Grey e os X-men estão voltando de uma missão em órbita da Terra, porém o ônibus espacial está sendo bombardeada por uma erupção solar. Para se salvarem, a tripulação e os heróis precisam se proteger em outra parte da nave. Porém um piloto ainda seria necessário para levar a todos em segurança e Jean se sacrifica utilizando seus poderes telecinéticos para formar um escudo ao seu redor e “pega emprestado” telepaticamente as habilidades do astronauta capaz de pilotar a aeronave. Em um curto espaço de tempo entre uma edição e outra, vemos a Garota Marvel alcançando a capacidade máxima de suas habilidades telepáticas e telecinéticas, e se tornando um ser de “pensamento puro” no processo. A mesma edição ela é dada como morta pelos seus companheiros só para reaparecer, mais poderosa e com um novo uniforme, se auto-intitulando “A vida e o fogo encarnados, a Fênix!”.

Durante várias edições, Jean vai demonstrando um poder cada vez maior e, a princípio, de acordo com Claremont, ela era ela mesma. Só mais e mais poderosa. Até culminar em uma outra aventura da equipe no espaço onde os mutantes vão até a sede do Império Shi’ar e salvam toda a existência em uma aventura no interior do Cristal M’kraan. Lá temos algumas pistas de que Jean pode não ser a mesma pessoa, mas muito leve. As histórias dos X-men, no fim continuaram normalmente até meados de 1980, logo após o arco de histórias da Ilha Muir, com Moira McTaggert e seu filho Proteus.

A primeira morte a gente nunca esquece…

A Sombra da Fênix

Jean Grey vem aos poucos sendo influenciada a distância por Jason Wyngarde, o Mestre Mental. Ela começa a se sentir meio esquisita e tem visões do que seria uma antepassada sua, que possuía ligações com o Clube do Inferno, um “clubinho” de gente rica comandado pelo Círculo Interno, que é um grupo de mutantes muito poderosos e ricos, cheios de influência. Na verdade, tudo não passa de uma ilusão de Wyngarde que, com o auxílio de Emma Frost, a Rainha Branca, consegue colocar essas visões diretamente na cabeça de Jean. O plano deles consiste em utilizar os grandes poderes da Fênix em proveito próprio, fazendo dela a nova Rainha Negra do clube. Um clubinho meio machista no fim das contas porque mesmo com duas mulheres telepatas muito fodas nesse Círculo Interno, elas ainda são obrigadas a se vestir de lingerie e capa enquanto que os caras usam aquelas roupas bufantes da Era Vitoriana.

Adoro chamar o Claremont de noveleiro, mas é por carinho, juro. Gosto muito do jeito que ele escreve algumas coisas de maneira natural e como ele coloca pistas em suas histórias que dariam frutos muito mais lá pra frente. O único porém é que muitas vezes a gente não sabe se ele vai continuar por muito tempo e suas pistas ficam largadas deixando pontas soltas que nunca são fechadas (ou são muito mal fechadas, vide a paternidade do Noturno). Nesse ponto, os encadernados compilam as histórias que contam com a primeira aparição de uma pá de personagens que permaneceriam por anos nas Equipes X, como Kitty Pryde, Allison Blaire (a Cristal), e o próprio Clube do Inferno e seus integrantes.

Kitty Pryde, Cristal e Emma Frost fazem suas primeiras aparições na Saga da Fênix Negra.

Durante uma mal fadada “infiltração” no Clube do Inferno, a maioria dos X-men acaba capturada. Quer dizer, todo mundo foi pego, menos o Wolverine, claro. Essa foi, inclusive, uma das primeiras histórias onde Claremont e John Byrne, puderam “soltar” o carcaju baixinho e deixá-lo mais a vontade para eliminar alguns soldados rasos e dar um “up” no seu fator de cura (decisões que foram levemente revogadas pelo editor da época, mas tudo bem). Eu fiquei com a impressão de que até então ele era só um reclamão invocado, mas que finalmente teve o devido destaque que o levou a celebridade que é hoje em dia!

No fim, durante uma ilusão onde o Mestre Mental “mata” Ciclope diante de Jean, ela consegue escapar do seu domínio e utiliza os seus poderes para libertar seus amigos e baixar o cacete no clubinho inteiro! Durante a fuga, no entanto, Jean perde o controle de suas habilidades e, por conta da influência de Wyngarde que a ajudou a despertar um lado mais sombrio de sua personalidade, ela se torna a Fênix Negra!

One Girl, Four Cups.

Apogeu e Queda da Fênix

Após um pequeno quebra-pau no Central Park, a Fênix sai em direção ao cosmos e desaparece. Atônitos, os X-men não sabem muito bem o que fazer e acabam contando com a ajuda do Fera, que nesta época estava com os Vingadores. Juntos eles começam a elaborar um plano que pudesse eliminar a Fênix da mente de Jean Grey e trazê-la de volta ao normal. Enquanto isso, do outro lado do universo a ruiva cósmica sente que está fraca e resolve se reabastecer… buscando o mesmo tipo de experiência que ela teve enquanto estava no Cristal M’kraan, onde ela entrou em contato com uma pequena estrela de neutrons, a Fênix resolve consumir o Sol de um sistema solar próximo. O problema é que ao fazer isso, ela causa uma explosão enorme que destrói todos os planetas desse sistema, inclusive o planeta de um povo pacífico chamado D’bari. Assim 5 bilhões de vidas foram, literalmente, pro espaço!

Uma nave do Império Shi’ar estava próxima e viu o que aconteceu (mais ou menos, mas não vamos entrar nesse mérito de como você pode ver a explosão de um sol a uma distância segura e ainda assim ver quem causou o problema) e reportou diretamente à Imperatriz Lilandra, antes deles mesmos serem destruídos pela Fênix. Pronto. O problema já estava causado.

Os D’bari tavam lá D’boa até que D’repente o sol fez D’BUUUUM! D’bye, D’bye, D’bari!

Saciada, a Fênix volta a Terra e vai direto para a casa onde cresceu, onde seus pais ainda moram. Chegando lá ela começa a surtar novamente porque não consegue parar de ler as mentes de todos a sua volta. É quando os X-men a atacam colocando em sua cabeça um embaralhador psíquico criado pelo Fera. Após uma batalha onde tudo se prova infrutífero, Charles Xavier surge e começa uma luta psíquica contra o lado sombrio de sua aluna. Com a ajuda do “lado bom” de Jean, os dois conseguem prender a Fênix no seu subconsciente e tudo parece resolvido. Quase em meio as risadas como num fim de episódio do He-Man, todos os X-men são teletransportados por uma força misteriosa!

Das Cinzas às Cinzas

O teleporte levou a equipe mutante para a Nave Imperial da Imperatriz Lilandra! Lá aliada com outras raças da galáxia como os Kree e os Skrulls, todos expressam sua preocupação com a falta de controle que Jean Grey acabara de demonstrar. Os X-men ficam sabendo do Sistema Solar que ela destruiu e ficam chocados com o genocídio cometido pela amiga. É proposto um julgamento no qual Jean seria punida com a morte ao fim dele, quando de repente, Charles Xavier propõe uma espécie de “julgamento por duelo” onde os X-men lutariam contra os Guerreiros de Elite do Império Shi’ar pela vida de Jean.

Como uma Deeeeuuuusaaaa! Você me mantéeeeeem!

Em uma arena na lua, os mutantes enfrentam os guerreiros Shi’ar e um a um vão sendo derrotados. Jean, preocupada com seus amigos e abalada em saber que havia sido a responsável pela destruição de um planeta inteiro, se coloca em frente a um raio mortal que a incinera por completo, diante dos olhos de Scott Summers. Em meio as suas cinzas, ele percebe que ela se colocou em frente ao raio porque ela resolveu se sacrificar, em nome de todas as suas vítimas. Sem redenção para os seus atos, a única solução foi se entregar ao sacrifício.

Os Bastidores da Fênix

A Saga da Fênix Negra foi um tanto controversa. Não muito para os fãs, se bem me recordo, mas nos bastidores da Marvel rolou uma problematização que acabou interferindo em como o final seria feito por Chris Claremont. Até então, a Fênix não era uma “entidade cósmica” que havia possuído o corpo de Jean, mas sim a própria Jean Grey ensandecida de tanto poder. Uma coisa meio Bruce Banner/Hulk, ou Dr. Jekyll/Mr. Hyde. A ideia original envolvia o Império Shi’ar dando um power down na Jean, retirando dela assim o poder da Fênix e deixando-a sob a custódia dos X-men.

“Jean, eu estou tão abalado que você morreu. De novo. Que vou fazer um monólogo aqui pra mim mesmo explicando o que você acabou de fazer, caso não tenha ficado claro para alguém que esteja acompanhando a nossa história, se a nossa vida fosse um gibi e…”

O problema é que Jim Shooter, o editor-chefe da época achou tudo isso muito ruim. Tanto do ponto de vista de roteiro, quanto moral. Para ele, era como se ao fim da Segunda Guerra, os Aliados tirassem o exército alemão das mãos de Hitler e o deixassem governar a Alemanha livremente após isso. Oras, a mulher havia cometido genocídio! Ela matou 5 bilhões de pessoas e não sentiu nada! Para Shooter, não tinha como ela sair ilesa disso. John Byrne e Jim Salicrup (o Editor-Mutante da Marvel) argumentaram pela primeira vez que não enxergavam a Fênix Negra como se fosse a própria Jean Grey e até usaram o filme O Exorcista como exemplo da inocência da personagem.

Nada disso teve nenhum efeito e foi assim que Claremont blefou, dizendo que a solução seria matá-la, já que ele sabia da “regra” da editora que (até aquela época) proibía que os personagens principais das histórias fossem mortos nos gibis. O problema foi que Jim Shooter comprou a ideia e deu passe livre para que a história fosse concluída desta forma. Há uma “versão não oficial” deste final que foi publicada em diversos outros encadernados americanos, mostrando as diferenças de algumas das últimas páginas de Uncanny X-men #137.

Assim sendo Jean Grey teve que morrer. Mais uma vez. E eles nem imaginavam o que poderia acontecer…

Essa Saga também serviu pra mostrar que o Wolverine se vira muito bem sozinho… (Adoro esse desenho do Byrne)!

Tô LendoPontos Fortes
  • História. Cara, a história é super bacana. Mesmo lendo os 18 km de texto que o Claremont costuma escrever, todo o desenvolvimento dos personagens e de como a Jean vai de mulher normal, para superpoderosa, para destruidora de mundos é bem elaborado e detalhado.
  • Desenhos. Tempos áureos do John Byrne. Uma aula de quadrinização a cada página!
  • Personagens. Nos Anos 90 muita gente reclamava do Scott e da Jean dizendo que eles eram mais “meh” do que picolé de chuchu. Mas isso só porque as atenções estavam voltadas pro Wolverine, Psylocke, Gambit e Vampira. Nessa época, Jean era muito sinistrona e o Scott, bom, era um bom líder.
Tô LendoPontos Meh
  • Ressurreições. Começou aqui, né? Esse negócio de morre e volta. Assim, eu sei que o nome dela é “Fênix” e que isso tá na job description dela, mas isso virou uma espécie de paródia dentro dos próprios gibis dos X-men. Foi aqui, depois da Fênix, que toda e qualquer morte de qualquer mutante da Marvel não foi levada mais a sério.
  • Retcons. Retcons também são um grande mal dos quadrinhos e eu não tenho exatamente como garantir que foi aqui que isso começou, maaaaaass… a ressurreição de Jean Grey após a Fênix Negra foi sem sombra de dúvida um dos grandes retcons da história da ruiva.

Taí, ó! “Yet, Jean Grey IS Dark Phoenix!”

Pouca gente sabe, mas o responsável pela ideia de trazer a Jean de volta foi ninguém menos do que Kurt Busiek. Na época apenas um fã de quadrinhos ele bateu um papo com Roger Stern onde falou sobre como a heroína poderia voltar à vida sem ser a culpada por um genocídio de 5 bilhões de vidas! Foi aí que a Fênix virou a “Forca Fênix” e que se apoderou do corpo de Jean durante a explosão solar que derrubou o ônibus espacial que ela pilotava. A Entidade então colocou o corpo de Jean numa espécie de casulo, no fundo da Baía onde eles pousaram, enquanto copiou tanto o corpo quanto a mente de Jean e ocupou o seu lugar durante aquele tempo todo. Desta forma, a “verdadeira” Jean ficou em animação suspensa até ser encontrada pelos Vingadores e o Quarteto Fantástico no início da nova série mensal X-Factor (1986). Stern já havia conversado com Claremont e Byrne sobre como trazê-la de volta, mas a oportunidade nunca surgiu. Quando Bob Layton trouxe a ideia do X-Factor pra Marvel, Byrne ligou pra ele dizendo “cara, olha só…” e o resto é história!

Claro que Busiek levou o mérito pela ideia. No fim, deu tudo certo e Jean voltou a vida para morrer mais uma vez. E mais uma vez… e mais uma vez… e mais uma v…

A Saga da Fênix Negra vale mais rebobinandos do que os ciclos de morte e ressurreição da Jean Grey! 🐦🔥🐦🔥🐦🔥🐦🔥🐦🔥🐦🔥🐦🔥🐦🔥🐦🔥🐦🔥🐦🔥🐦🔥🐦🔥🐦🔥🐦🔥🐦🔥

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2019-06-10T15:27:01+00:00 10 de junho de 2019|9 Comentários