Rebobinando #84 | Belas Maldições

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Deus age de maneiras misteriosas, ainda que convolutas. Na verdade, Deus não joga dados com o universo, mas sim um jogo inefável de sua própria criação. Algo que pode ser comparado, do ponto de vista dos outros jogadores (que é todo o resto do mundo), a uma versão muito obscura e complexa de pôquer, jogado no mais completo breu, com cartas em branco, com apostas infinitas, e um crupiê que não te diz as regras, mas que sorri o tempo inteiro! – Vamos rebobinar Belas Maldições! Vem comigo!

Gaiman e Pratchett, dois bons amigos ingleses que provavelmente assistiram Monty Python de uma maneira nada saudável.

Já comentei aqui outra vez o quanto eu sou fã do Neil Gaiman. O que não é um mérito em si, claro, visto que o cara tem fãs ardorosos na comunidade nerd há tempos. Sandman (que eu sei que já estou devendo na Rebobinando) é uma das séries em quadrinhos mais aclamadas em especial pelo público brasileiro. Seus primeiros livros podem até ter uma fórmula semelhante no jeito de contar histórias, como Stardust: O Mistério da Estrela, NeverWhere, Os Filhos de Anansi ou mesmo Deuses Americanos, mas toda ambientação é tão rica e tão bem estudada, criada, que a gente até deixa passar o mesmo protagonista bonzinho inocente que vira um fodão até o fim do livro.

Meu contato com Belas Maldições foi logo no início dos anos 2000. Eu havia recentemente entrado na faculdade e encontrado um grupo de amigos nerds que fizeram a diferença na minha vida. Por volta de 2003/2004 um papo rolava sobre livros e enquanto eu tecia enormes elogios a Neil Gaiman e emprestava Deuses Americanos para uma amiga, ela me dizia que havia outro livro dele, escrito com um cara chamado Terry Pratchett que era muito engraçado! Assim sendo, trocamos os livros por um tempo e eu fui me divertir com a história maluca que esses dois autores haviam criado. Incrivelmente, este foi o meu primeiro contato com qualquer coisa escrita por Pratchett, o que me fez correr atrás dos livros dele da série Discworld, que são maravilhosamente hilários. Recomendo.

A versão britânica mais bem-humorada de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”.

Quem escreveu o quê?

Como foi um livro feito em conjunto, sempre rolou uma discussão sobre quem foi o autor de qual piada, claro. Fãs trocavam sopapos dizendo que as Fitas do Queen eram criação do Pratchett enquanto outros sacavam suas cópias de Sandman para dar na cara de quem dissesse que não foi o Gaiman quem bolou o lance dos asteriscos! Com dois bons lordes britânicos, os dois autores deram o seu parecer sobre quem escreveu qual parte do livro em algumas entrevistas. Gaiman disse que:

Vivíamos ambos na Inglaterra, quando começamos a escrever. Se eu tiver que calcular, apesar de nunca termos contado na verdade, eu diria que Terry provavelmente escreveu cerca de 60.000 e eu escrevi umas 45.000 palavras “brutas” de Belas Maldições. No geral, Terry ficou com a maior parte do plot do Adam e Eles e eu fui escrevendo coisas mais tangenciais à história. Exceto que, mais pro final, isso acabou indo pro brejo quando nós começamos a trocar de personagens para que os dois escrevessem pelo menos uma parte de todos eles. Além disso, nós reescrevemos e adicionamos as notas de rodapé nas partes um do outro conforme a coisa fluía e arregaçamos as mangas na hora de passar do primeiro para o segundo rascunho (eram muitas palavras). Dessa forma, no fim, nenhum de nós sabia exatamente quem é que tinha escrito o quê. Isso foi tudo escrito através de longas chamadas telefônicas diárias e nós mandávamos disquetes um para o outro pelo correio toda hora (e isso foi em 1988, uma época onde os disquetes eram bem maleáveis).

Já Terry Pratchett disse que:

Creio que essa seja uma história bem honesta sobre o processo de escrita de Belas Maldições. Foi razoavelmente fácil manter um controle de tudo porque mandávamos disquetes um para o outro. E como eu também era o Guardião Oficial da Cópia Mestre, posso dizer que eu escrevi um pouco mais de dois terços do livro. No entanto, nós nos falávamos todo dia por telefone pelo menos uma vez. Então se você tem uma ideia no meio de uma sessão de brainstorm com outro cara, de quem é essa idéia? Se um deles vai lá e escreve 2.000 palavras depois de trinta minutos de conversa, como é que funciona esse processo? Eu fiz a maior parte da escrita física por algumas razões:

  1. Tinha que ser eu. Neil estava escrevendo Sandman, e eu pude parar um pouco com Discworld;
  2. Uma pessoa precisava ser o editor geral e fazer toda a edição, corte, recorte, costura no texto e, como falei antes, concordamos que seria eu. Se tívessemos escrito um gibi, com certeza seria o Neil e não eu a ter esse trabalho;
  3. Eu sou um fdp egoísta e queria escrever todas as partes boas antes do Neil.

No início eu escrevi boa parte do Adam e Eles, e Neil escreveu a maior parte dos Quatro Cavaleiros e o resto foi meio que escrito por qualquer um. No final, grandes partes do livros estavam sendo escritas por uma criatura amálgama chamada Terryeneil, seja lá quem fosse que estivesse apertando as teclas. Por conta de um acordo, eu posso dizer que a vida e a morte de Agnes Nutter foram completamente minhas. Neil se responsabiliza pelos vermes, além de ter a maior influência no início do livro. Eu, no final. Em conclusão, foi um livro feito por dois caras que fizeram tudo isso por diversão, dividiram o lucro igualmente, e jamais fariam de novo!

Os Quatro Motoqueiros do Apocalipse!

Com essa ação conjunta hercúlea, o livro foi publicado na Inglaterra em maio de 1990, concorrendo a prêmios em festivais de literatura no ano seguinte (mas não ganharam, porém, porque críticos de livros são mais esnobes que os de cinema e não reconhecem um talento nem que esteja debaixo dos narizes deles!). Aqui no Brasil demorou um pouco mais e o livro foi publicado em dezembro de 1998, pela Editora Bertrand. A versão antiga tá super careira, mas tem uma edição nova, de 2017, que deve estar super fácil de achar hoje em dia!

As Belas e Precisas Profecias de Agnes Nutter, Bruxa

Contando a história sobre o Fim dos Tempos pelo ponto de vista de um anjo e um demônio, o livro já parte de uma premissa tão absurda que você já abre um sorrisinho. Claro, Anjos e Demônios sendo meio que “amigos” nem é tão inovador assim, acho eu. Mas o relacionamento construído entre Crowley, o demônio, e Aziraphale, o anjo, está mais para um casamento de milhares de anos do que uma mera amizade. Os dois estão juntos desde que Adão e Eva foram expulsos do Éden e nesse meio tempo criaram uma certa afetividade pela raça humana, algo que os faz reconsiderarem todo esse negócio de “fim do mundo”. Com personagens divertidíssimos e um jeito de contar histórias que parece ter sido baseado em uma mistura de todas as temporadas de Monty Python com Douglas Adams, esse livro é com certeza uma das grande pérolas do humor britânico já publicadas.

O bom velhinho e uma de suas citações de Belas Maldiçoes.

Além dos dois, acompanhamos também a saga do jovem Adam, o Anticristo,  também conhecido como o Adversário, o Destruidor de Reis, Anjo do Fosso Infernal, a Grande Besta chamada Dragão, o Príncipe deste Mundo, Pai das Mentiras, Cria de Satã e Senhor da Escuridão, um garotinho de 11 anos, criado em um subúrbio inglês. Junto dos seus amigos, eles tocam o terror na vizinhança figurativamente, até que depois do seu aniversário de onze anos, este terror passa de figurativo a literal. Coisas estranhas começam a acontecer e isso chama a atenção não só de Crowley e Aziraphale como a de Anathema Device, uma das descententes de Agnes Nutter, a única profetisa que acertou precisamente todas as suas previsões sobre o Fim do Mundo. Além dela, um grupo de “caça-bruxas” também faz parte da história assim como os Quatro Cavaleiros do Apocalipse: Guerra (uma belíssima mulher, correspondente de guerra/traficante de armas), Fome (um famoso executivo/médico de dietas e dono de uma cadeia de fast food), Poluição (que entrou no lugar da Peste, que se aposentou depois da invenção da penicilina) e, claro, ele O MORTE. Pra quem já leu a série Discworld  do Pratchett, a figura já é mais do que conhecida! O personagem é escrito da mesma maneira, o que nos leva a entender que é a mesma, ahem, “pessoa”. E uma característica marcante dele, que é difícil traduzir para a televisão ou cinema, é que o personagem sempre fala em “CAIXA ALTA”. E sei lá, é uma solução tão metalinguística para uma voz sombria que eu acho super engraçado até hoje.

Eu até gostaria de contar um pouco mais da história, mas se você nunca leu (e a chance é grande, já que não é um livro ou série de livros super famosos), eu não quero estragar nenhuma surpresa para você. O livro é repleto de piadas ótimas e maravilhosas, algumas com um humor super específico, mas nada que te impeça de rir, ainda mais com a internet aí pra buscar as referências (OI, RODOVIA ORBITAL M25 DE LONDRES). Não vou fazer com você o que fizeram comigo antes de ver Monty Python e o Cálice Sagrado onde me contaram quase todas as boas piadas do filme antes de eu ver! Se você quiser ler o livro, ou ver a série incólume, vai em frente, você não vai se decepcionar!

Neil Gaiman e uma das minhas citações favoritas deste livro.

Tô LendoPontos Fortes
  • O melhor de dois mundos. Neil e Terry? É uma dupla perfeita. Tipo Arroz e Feijão. Batata Frita e Hambúrger. Se você curte as histórias de fantasia de qualquer um dos dois, esse livro é perfeito.
  • Humor. Tem pra todos os tipos. Humor galhofa. Humor inteligente. Humor sombrio. Parece meio que chover no molhado usando as mesmas referências sempre, mas se você curte de Monty Python até Douglas Adams, vale super a pena.
  • Asteriscos. A versão física do livro tem um recurso maravilhoso para muita das piadas que consiste na utilização de asteriscos e rodapés de página que às vezes complementam parte da história e muitas vezes complementam e extendem as piadas a níveis inimagináveis de loucura.
  • Disponível. Nunca saiu de impressão, creio. Mas ainda assim, já tem uma versão relativamente nova lançada em 2017, quando começaram a anunciar que o livro viraria uma minissérie de tv.
Tô LendoPontos Meh
  • Humor Específico. Não chega a ser ruim, mas algumas piadas são bem específicas para os ingleses, em especial londrinos.
  • Tradução. Eu, como professor de inglês, prefiro ler no idioma original (esnobe), mas li da primeira vez a primeira edição em português e achei bem boa. Até mesmo na tradução e adaptação das piadas. Não sei se a nova edição continua igual, mas se inglês não for o seu forte, nada tema. Pelo menos a primeira versão do livro tá bacana!

– Tá vendo aquele Doutor ali? / – Quem?

A minissérie baseada no livro estreou na Amazon Prime agora no fim de Maio de 2019. São seis episódios (que eu ainda não vi), mas que já me chamaram a atenção por 1) o elenco e 2) foi o próprio Gaiman quem escreveu o roteiro dos episódios. Como fã de Doctor Who há quase uma década, ver o David Tennant trabalhando é sempre um prazer! Michael Sheen também não fica atrás (não vou dizer que sou super fã do cara, porque não sou, mas ele é um ator bacana, já vi séries legais com ele, então tudo ok). Lembro de notar na descrição dos personagens e nas roupas que os autores usavam na foto da quarta capa do livro, que eles estavam vestidos de maneira igual, com o Neil Gaiman sempre de preto fazendo às vezes de Crowley e o Terry Pratchett de Aziraphale. Durante muito tempo, a minha imagem mental para esses dois personagens foi essa. Algo que nunca imaginei que fosse mudar, até essa série sair.

As imagens desta coluna de hoje (como é sobre um livro, é complicado achar “imagens oficiai”, então me deixa), são de um cara chamado Sean Phillips. É um artista inglês de quadrinhos que já trabalho com Juiz Dredd, Hellblazer e até mesmo Wild C.A.T.s. Essa arte para Belas Maldições foi feita a pedido da BBC4 que lançou uma novela de rádio baseada no livro em 2014 (que infelizmente não está mais disponível no site).

O Adversário, o Destruidor de Reis, Anjo do Fosso Infernal, a Grande Besta chamada Dragão, o Príncipe deste Mundo, Pai das Mentiras, Cria de Satã e Senhor da Escuridão e o seu Cão.

Belas Maldições, as Belas e Precisas Previsões de Agnes Nutter, Bruxa, com certeza valem cinco rebobinandos! 📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2019-09-04T13:00:19+00:00 3 de junho de 2019|0 Comentários