Rebobinando #83 | Aladdin (1992)

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Abram alas para o Príncipe Ali. Não, não. Aquele outro! Não, pô! Aquele ali! O de desenho animado de 1992! Heh. Há mais de 25 anos um desenho animado chegava aos cinemas com um nome de peso no elenco e uma trilha sonora arrebatadora, provando de uma vez por todas que o período da Renascença da Disney não era mera coincidência. Hoje vamos rebobinar Aladdin, sobe no tapete mágico e vem comigo!

A “Caverna dos Tesouros” era como a minha namorada chamava a… não, péra.

Aladdin é um daqueles desenhos animados que ficou na memória de muita gente. Precedido por outros clássicos modernos da Disney como A Pequena Sereia (1989) e A Bela & a Fera (1990), os animadores e diretores do desenho sentiram uma certa “pressão” para fazer tudo acontecer. Na verdade, os planos para o desenho já vinham de longa data e ele já estava em produção até mesmo antes dos filmes mencionados, mas como as coisas não andavam muito boas na Casa do Rato naquela época, foi sendo empurrado com a barriga até a chegada do então presidente Jeffrey Katzenberg, uma das figuras mais polêmicas que já passaram pelo Estúdio de Animação.

Katzenberg é reconhecidamente um dos maiores babacas do mundo da animação e, se você perguntar por aí, duvido que encontre uma só pessoa que fale bem dele. O “problema” é que mesmo sendo odiado por muita gente, foi durante sua gerência do estúdio que a Disney começou e terminou seu período de renascença, com os já clássicos mencionados além de outros como Uma Cilada Para Roger Rabbit (1988) e O Rei Leão (1994). Além disso, ele foi o responsável por alguns outros sucessos da empresa através da Touchstone Pictures como Três Solteirões e um Bebê, Bom Dia Vietnam e Sociedade dos Poetas Mortos (estes últimos com uma figura muito importante em Aladdin, ahem). Ele também foi o cara que fechou negócio com uma pequena empresa de animação que utiliza a computadores e estava começando nessa época… Uma tal de Pixar.

Jafar e seu alívio cômico shakesperiano, Yago.

Com relação a Aladdin, Katzenberg pegou a ideia original do desenho animado que havia sido apresentada mais ou menos um ano antes, com canções escritas e um roteiro quase completo e disse à equipe para “refazer tudo”. O design do Aladdin era de um garoto mirradinho e tímido, e ele pediu que o personagem fosse transformado em um “tipo mais interessante, mais confiante” como Tom Cruise em Top Gun. Aladdin tinha uma mãe que foi completamente eliminada da história porque, segundo Katzenberg, “ela não acrescentava nada”. Sem contar outras inúmeras mudanças, MAS sem mudar a data de lançamento do filme! Algo que deixou a produção toda em polvorosa, apelidando o dia em que a notícia foi dada de “Sexta-feira Sombria”.

Robin Williams, no entanto, já havia sido escolhido para o papel pelos diretores/produtores Ron Clements e John Musker, ele só não sabia disso! Sabe-se lá por qual razão o ator estava super hesitante em aceitar o papel, mas no fim acabou sendo convencido quando Eric Goldberg (o supervisor de animação do Gênio) fez uma animação rápida do personagem utilizando o áudio de um dos números de stand-up de Williams. Dizem que ele rolou de rir e aceitou o convite para interpretar o Gênio da Lâmpada na mesma hora. No entanto, como o filme ficou muito tempo parado para essa reestruturação toda, o ator acabou aceitando outros papéis e foi trabalhar em outros projetos. Um desses projetos, inclusive, foi um outro filme animado de 1992 chamado FernGully, onde ele interpretava o morcego chamado Batty Koda. Além disso, Toys: A Revolta dos Brinquedos, que era o “projeto de coração”de Robin, iria meio que ser lançado na mesma época em que Aladdin. Reza a lenda que Williams fez um acordo com a Disney de não usar seu nome, rosto, ou voz para fazer propaganda do filme, assim como o Gênio não deveria ter mais destaque que os outros personagens e não ocupar mais do que 25% do espaço das peças de publicidade.

Basicamente a lista de exigências de Williams e a Disney se livrando dela.

Pois bem, como Robin Williams havia sido contratado primeiro para FernGully, Katzenberg (o babaca) queria passar na frente e puxá-lo para dublar o Gênio antes. Ao ouvir um sonoro “não”, o CEO da Disney fez de tudo para atrasar a produção de FernGully, alugando de antemão os estúdios para que não fossem usados, tentando comprar o prédio onde a produção do filme trabalhava, essas coisas… Já com Toys o papo foi  outro. Robin não queria uma “competição” no cinema com um anúncio tipo “olha aqui dois filmes com o Robin Williams”, ainda assim, ele havia concordado com fazer a voz do personagem e estabeleceu outras regras como disse numa entrevista ao Los Angeles Times na época:

“Quando você trabalha para a Disney é que você descobre porque o camundongo só tem quatro dedos – porque ele não se esforça para pagar nenhuma conta. Tínhamos um acordo. A única coisa que eu disse foi que eu faria a voz. Eu estava fazendo só porque queria fazer parte da tradição da animação. Queria algo para os meus filhos. O acordo era, eu só não quero vender nada – tipo Burguer King, brinquedos e outras coisas.”

Claro que a gente percebe que era até uma proposta inocente, quando se trata de Disney e seus bilhões em investimento. Mas ainda assim, no cartaz do filme dá pra notar que o Gênio não ocupa mais do que 25% do espaço, mas ele ocupa isso tudo sozinho, enorme, no topo de tudo. E teve coisas do tipo:

E convenhamos, mesmo não usando a voz de Williams no comercial, foi um golpe meio baixo pro ator, que cortou relações com o Estúdio até muito tempo depois da saída de Jeffrey Katzenberg (o babaca), em meados dos anos 90. Muitos ainda consideram a participação de Williams no filme como o início dessa moda de “chamar famosos” para fazer vozes em filmes, ao invés de fazer testes, ou convidar atores e dubladores já consagrados e com anos de experiência na área. Katzenberg (o babaca) acabou criando a Dreamworks SKG, uma espécie de “xerox da xerox da Pixar” (TRAGO VERDADES) e também lançou muitos sucessos seguindo a fórmula do “ator de Hollywood para herói, com a mocinha de Hollywood para a mocinha e o comediante famoso” como sidekick do herói. Um dos maiores sucessos da Dreamworks nas mãos do cara foi, claro, Shrek. Só pra termos uma ideia de até onde isso vai.

Nunca serão!

As músicas

As músicas eram muito importantes para o filme e, sem sombra de dúvida, foi uma das coisas além do histrionismo do Gênio que levaram o filme ao sucesso. O filme foi indicado para três categorias, ganhando a de Melhor Trilha Sonora. Além de um Globo de Ouro na mesma categoria e um Prêmio Especial para Robin Williams pelo papel do Gênio (o que deve ter sido um agrado da Disney, que não funcionou, claro).

A ideia inicial do filme surgiu em 1988 através do liricista Howard Ashman, que propôs um musical baseado na obra As 1001 Noites e a história de Aladdin, mas num estilo meio jazz de  1930 (o que agora faz todo o sentido ao ouvir A Friend Like Me). Com a ajuda de seu amigo Alan Menken escreveram cerca de 14 músicas e o roteiro durante o “limbo” que o filme ficou engavetado na Disney. Depois que o filme finalmente entrou em produção, Ashman infelizmente veio a falecer, sendo substituído por Tim Rice. No fim, apenas seis músicas fizeram parte do filme e da trilha sonora. O que foi o suficiente, visto que ela não só levou o Oscar pra casa naquele ano, como a versão “oficial” de A Whole New World cantada por Peabo Bryson e Regina Belle ganhou o Grammy de Cancão do Ano, em 1994.

Animação e Referências

Antes de Aranhaverso houve um outro filme que foi praticamente animado duas vezes. Aladdin, claro. D’oh. Acontece que o processo envolvia tanta gente e o design dos personagens era tão fluido que a maioria dos desenhos dos animadores precisava ser “passado por cima” para deixar o traço mais limpo. As influências dos supervisores animação de cada personagem, em especial o do Gênio, Eric Goldberg, surgiram não só do estilo gráfico do alfabeto árabe, como também do cartunistas Al Hirshcfeld. As linhas limpas, contínuas e sinuosas que compõem a maioria dos personagens pode ser vista em toda obra do cara.

Dá um google me “Al Hirschfeld”, o trabalho do cara é fenomenal!

A animação também foi quase revolucionária no uso de computadores junto com os desenhos. A Disney já havia arriscado com a nova tecnologia antes, graças em parte à própria Pixar e Steve Jobs, olha só. Produzindo o primeiro cenário digital que foi uma escadaria numa cena rapidíssima em A Pequena Sereia, e depois com várias inclusões digitais (heh) de cenários e objetos em movimento, como o salão de baile, o lustre e o número musical do banquete em A Bela e a Fera. Aqui, no entanto, eles foram mais ousados, misturando digital com desenho à mão na criação do Tapete Mágico que era um personagem por si só. Como seria muito difícil animar na mão todos os detalhes do tapete, a solução foi desenhar o contorno do personagem na mão como qualquer outro, dando a ele expressões corporais bem vívidas e definidas, como um mímico. E digitalmente aplicar o padrão de tapete persa por cima desse contorno. O resultado dá pra ser bem visto hoje em dia. Além disso, a cena de fuga da Caverna dos Tesouros, em meio a desmoronamentos e lava quente, tem muita cara do jogo DOOM misturado com desenho. A própria Caverna em si também foi criada no computador e, como sua textura era bem diferente, hoje em dia fica ainda mais notável essa diferença.

Só sei que eu, quando moleque, não sabia de nada disso, mas achei tudo lindo fantástico, foda e diferente de tudo o que eu já havia visto!

Personagens Afinados

Ok que o Robin Williams carrega boa parte do filme nas costas, mas se você considerar que de um filme de uma hora e meia, o Gênio leva meia hora até aparecer, é preciso de um elenco bom e personagens carismáticos pra segurarem a bola até a grande estrela aparecer. E ainda bem que eles tinham uma história antes de pensar só nas vozes mais famosas. Saído direto do seriado  Três É DemaisScott Weigner deu vida ao jovem ladrão protagonista. A mudança exigida por Katzenberg (o babac… ah, você entendeu) também fez a diferença. Através da primeira música One Jump Ahead (Correr pra Viver, em português) dá o tom de como é a vida de uma pessoa pobre em Agrabah. Weigner não era cantor e portanto quem empresta a voz a Aladdin na hora de soltar o gogó foi o ator e cantor Brad Kane. No Brasil a voz ficou a cargo do dublador Marcos Jardym.

Assim como o protagonista, a princesa Jasmine teve duas vozes. Linda Larkin deu vida à personagem no desenho mas foi a atriz de musicais Lea Salonga que cantou e encantou a whole new world com sua voz. A mulher não é coisa pouca, não! Ela já ganhou um Prêmio Tony, fez vários musicais e foi a primeira asiática a interpretar Epónine e Fantine em Les Miserables. Além disso ela também foi a voz cantante da protagonista Mulan em 1998. Os outros personagens não tem muita música, como o Sultão, ou mesmo Jafar e seu capanga Yago. Mas vale a pena ressaltar como foi grande a mudança entre o par de vilões! A ideia inicial era que o vilão Ja’Far fosse meio histriônico também, bem parecido com o que aconteceu com o vilão Hades em Hércules. Porém ao ver o teste do comediante Gilbert Gottfried para o papel de Yago, os produtores mudaram na hora. O vilão acabou ficando muito mais ameaçador na voz calma e pacífica de Johnathan Freeman, enquanto o papagaio dava os seus ataques de pelancas! Aqui no Brasil, Jasmine foi dublada por Silvia Goiabeira, enquanto Jafar e Yago ganharam as vozes de, respectivamente, Jorgeh RamosRodney Gomes.

Esse desenho era bem mais… er… adulto do que eu lembrava.

Tô LendoPontos Fortes
  • História. Simples, direta e quase adulta, quase inacreditável que fizeram algo assim para crianças naquela época. O filme tem apenas uma hora e meia de duração e tem menções a morte, gargantas cortadas, decapitações e coisas do tipo. Bem mais que a maioria dos outros clássicos da Disney.
  • Músicas. O filme foi pensado como um musical, então já era de se esperar que as músicas fossem boas mesmo. Alan Menken e Howard Ashman pensaram bastante em como melhor contar essa história através das músicas! Não à toa o filme ganhou oscar, grammy e ainda virou musical na Broadway.
  • Robin Williams. Um gênio. No sentido completo da palavra. Eu amava esse cara de paixão desde que vi Sociedade dos Poetas Mortos na época em que este filme fazia muito sentido pra mim. Senti um baque como se fosse um parente meu que tivesse morrido quando ele se foi. Não acredito que o filme teria sido o mesmo sem ele dando vida ao Gênio da lâmpada.
Tô LendoPontos Meh
  • Continuações. Graças a briga com a Disney, Williams se recusou a voltar ao papel por muitos anos, até um pedido de desculpas público do novo CEO. Nesse meio tempo, foram lançadas outras continuações e até um desenho animado que não tinham o mesmo charme na voz original. Mesmo que o substituto tenha sido o próprio Homer Simpson, Dan Castellaneta.
  • Videogames. Desculpa, mas é que eu lembrei agora. Nada a ver, eu sei. Mas o jogo do NES era meio ruim e o do Mega Drive, mesmo com gráficos infinitamente melhores era extremamente fácil.
  • Famosos Dublando. O legado do sucesso de Aladdin virou meio que uma chaga no meio dos estúdios de animação. Até mesmo a Disney copiou o próprio método em inúmeras outras produções como Mulan e Eddie Murphy, ou Frozen com o Josh Gad. E, embora em alguns isso tenha funcionado muito bem, em outros a gente tem… bom… Bee Movie. Bleh.

Shalalalala Beije a Moça… não, péra… filme errado!

Aladdin deixou uma marca especial depois que eu assisti o filme. Obviamente eu vi dublado quando criança então a voz do Gênio como sendo do Robin Williams não foi particularmente significativa pra mim naquela época. A voz do Márcio Simões foi a minha referência por muito tempo. Mas como um grande fã de Disney, eu acabei vendo muito mais os filmes no idioma original depois de velho (e de me formar no cursinho). Dá até pra notar que o próprio Williams dublou o mercador que aparece no início do filme, contando a história da lâmpada para nós. O segredo era que este personagem na verdade era o próprio Gênio disfarçado e que ele apareceria de novo no final, pouco antes dos créditos. Uma pena que a ideia não foi pra frente, mas fica aí a curiosidade.

Estou curioso pelo novo filme? Um pouco. Meu lado de fã purista não acha que esse remake é necessário (e quase nenhum é). Além disso, o fato de eu gostar tanto do Robin Williams me deixou muito receoso em ver o que o Will Smith faria com o personagem. Não que eu ache que ele fosse “estragar” ou algo assim, mas lembremos que o Gênio foi escrito da maneira que foi justamente porque o ator a interpretá-lo seria o Robin Williams. O personagem foi escrito pra ele! E eu acho que deve ser muito difícil pegar um pap desses feito para outra pessoa, mesmo com as adaptações.

As crianças A-DO-RAM uma imitação do Rodney Dangerfield e do Jack Nicholson!

Enfim, achei que ele teve uma coragem desgraçada porque esse é um papel perigoso pra quem já tem uma carreira de longa data. Muita gente elogiou as novas versões das músicas e em como o próprio Smith fez um gênio próprio dele. Me sinto dividido, porém. Mas depois de ver o remake eu faço um PS aqui.

Então esfrega essa lâmpada porque Aladdin (1992) vale tranquilamente Cinco Djinns com poderes cósmicos e fenomenais dentro de uma lâmpadazinha. 🧞🧞🧞🧞🧞

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2019-05-27T22:10:47+00:00 27 de maio de 2019|8 Comentários