Rebobinando #79 | Ultimatum

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Há dez anos, a Marvel publicava em sua linha Ultimate, um evento que daria muito o que falar. Há quem ame, há quem odeie, mas é fato que este evento abalou tanto as estruturas do Universo Ultimate que não houve outra alternativa a não ser recomeçar suas histórias praticamente do zero. Vem comigo rebobinar ULTIMATUM.

A gente não sabia, mas o “ultimato” era pra ser “Marvel Eu Te Mato” de tanta gente que morreu.

O Ultiverso

No início dos 2000, depois de uma década “perdida” nos quadrinhos, a Marvel amargava baixas vendas e estava a perigo de falir. Sagas enormes como Era do Apocalipse e a Saga do Clone afastaram ainda mais os novos leitores que percebiam que precisam de um conhecimento prévio de mais de 40 anos de gibis para se atualizar com os personagens. Isso sem contar que as tentativas de reboot da Distinta Concorrência, como Crise nas Infinitas Terras e Zero Hora, acabaram causando mais problemas do que resolvendo quando o assunto é cronologia.

Entra em cena, Bill Jemas, um advogado que só havia trabalhado previamente na indústria de Trading Cards. O cara propôs para o então editor chefe, Joe Quesada, uma ideia de rebootar os heróis da editora para um novo público, num ambiente mais moderno, século XXI e tals… Nada fora do sensacional, se você parar pra pensar. Afinal de contas, próprios anos 90,o Universo 2099 surgiu mais ou menos da mesma maneira. Quesada, porém, curtiu bastante a ideia, e levaram a coisa adiante.

As capas dos tie-ins contando as histórias entre o massacre de personagens, perfeitamente batizada de “requiem”.

Ao invés de cancelar 40+ anos de história e começar do zero, o novo projeto, que havia sido apelidado de “Ground Zero”, seria uma linha de histórias em paralelo. Conhecendo seu público, Quesada preferiu manter as coisas em separado, e com o lançamento de Ultimate Spider-Man em 2000, passou a usar aquilo que seria conhecido como o Universo Ultimate (ou Ultiverso) como uma espécie de “área de testes” para uma posterior “atualização” do universo 616 tradicional.

Com Brian Michael Bendis comandando o roteiro de Spider-Man, as histórias ganharam um “quê” de seriado de TV, com diálogos mais dinâmicos, sem balões de pensamento, cores mais sóbrias e um desenvolvimento de personagens mais lento e consistente. Levando em consideração que em Amazing Fantasy #15 aprendemos tudo sobre Peter Parker e o Homem-Aranha em 11 páginas, levar 5 ou 6 edições de Ultimate Spider-Man só para ver o Tio Ben morrer pareceu uma eternidade! O novo estilo caiu nas graças do público e a Marvel resolveu ousar mais e mais colocando o controverso Mark Millar para escrever Ultimate X-men e mais tarde os Ultimates. Outros personagens da linha não obtiveram muito sucesso, mas como ela era encarada como um universo de testes, não tinha problema. Tanto que houve pelo menos duas versões de Ultimate Iron-Man e Ultimate Fantastic Four.

Diálogos simplesmente horrorosos!

O caminho para o Ultimato

Em 2004,Bill Jemas, o idealizador original do Ultiverso, sai da Marvel. A série The Ultimates 2 começa a ser publicada e, assim como a primeira, sai com uma série de atrasos. Pra se ter uma ideia, The Ultimates 1 teve treze edições publicadas ao longo de dois anos (2002-2004). Já The Ultimates 2 foi de dezembro de 2004 a maio de 2007, também com treze edições! Apesar das críticas favoráveis, foi tempo o suficiente para esfriar um pouco os ânimos relativos à nova empreitada da Casa das Ideias, fazendo com que Quesada elaborasse um plano para “reavivar” o interesse na linha. E qual o melhor jeito de fazer isso senão com um “crossover event”?

Numa das piores decisões que ele já teve, além de One More Day (#neverforget), o editor-chefe contrata Jeph Loeb para uma terceira série de The Ultimates, que estabelecesse uma ligação com o novo evento de crossover denominado Ultimatum. Loeb foi responsável por algumas boas histórias nos X-men, e pela série Cores da Marvel, que era bem tocante e bonita. Não vou tirar o mérito do cara como um bom roteirista por completo, mas aparentemente ao pegar a linha Ultimate para escrever ele deve ter sentido alguma pressão para ser polêmico, sei lá. Não faço ideia do que aconteceu.

Só sei que foi tudo uma merda.

Tipo, BEM merda.

Em Ultimates 3 a trama gira em torno do assassinato de Wanda Maximoff. Nas histórias de Millar, o incesto foi apenas sugerido, mas Loeb tira toda luva de pelica da história e coloca cenas como os dois saindo abracadinhos de dentro de um dos quartos da mansão dos Supremos sob olhares tortos do Capitão América. Há também a sugestão de leve de que Wanda e Pietro sejam filhos do Wolverine e que este é um dos motivos de Magneto e Logan meio que odiarem um ao outro. No fim, com Wanda morta, e o caos reinando com Magneto meio enlouquecido, o Gavião Arqueiro atira contra o Mestre do Magnetismo só para ver Mercúrio se jogar na frente da bala, morrendo também. A arte de Joe Madureira, que eu até achava maneira na época, não ajuda muito com a “trama adulta” e, em determinados momentos eu podia jurar que ele estava canalizando as energias de Rob Liefeld na anatomia.

Com a ligação estabelecida, é hora de começar o Ultimato!

Na rua, na chuva, no tsunami…

O Ultimato

Aqui no Brasil o evento foi publicado em janeiro de 2010 juntamente com as edições de Requiem de Spider-Man, Fantastic Four e X-men, na extinta Marvel Millennium: Homem-Aranha, nas edições #97-100. Nos EUA a publicação das cinco edições se deu a cada dois meses, de janeiro a setembro de 2009 e eu não faço ideia de como sustentaram isso, mas beleza! Segue o baile!

Pois bem, louco de raiva pela morte dos dois filhos, Magnus se isola no seu “asteroide M“, que é só uma fortaleza numa rocha flutuante perto do pólo norte. De lá, ele altera os pólos magnéticos do planeta, causando uma devastação sem tamanho e causando uma inundação e um tsunami que atingem Nova Iorque em cheio. Pego de surpresa, vários heróis são mortos assim, num estalar de dedos. Fera, Noturno, Cristal e Demolidor morrem afogados e fora de cena. Hulk, Homem-Aranha e Anjo sobrevivem e passam a ajudar os sobreviventes.

O Edifício Baxter e o Triskelion (a base dos Supremos) também são atingidos e, Capitão América fica em coma, assim como a Valquíria. Johnny Storm e Janet Pym estão desaparecidos. Sue Storm tenta impedir o tsunami e expelir toda a água da cidade com seu campo de força, mas Reed tenta impedi-la. Sem lhe dar ouvidos, ela consegue, porém o esforço a coloca em coma. O impele Richards a sair em busca do culpado! Enquanto isso, Gavião Arqueiro e Hank Pym forma uma dupla improvável e vasculham a cidade em busca de Vespa.

Thor encontra o corpo sem vida de Valquíria e resolve invocar Hela para ir atrás de sua alma. Em uma batalha nos portões do inferno, o Deus do Trovão se sacrifica para salvar as almas de sua amada e do Capitão América (isso mesmo, do nada). Enquanto isso, o pau come em NY e os heróis contabilizam os mortos. E, se alguma cena dessa história pode ser usada para resumir o quanto ela é pessimamente escrita e de extremo mau-gosto é essa aqui:

Hank e Clint encontram Blob comendo o corpo da Vespa, dizendo “tem gosto de frango”. Além de uma violência incrivelmente gratuita, não há a menor explicação de como, quando, é porquê o Blob foi parar lá e porquê raios ele virou um canibal de repente!

O festival de atrocidades continua com Magneto indo à Mansão X e quebrando o pescoço do Professor Xavier, com Hank Pym arrancando a cabeça do Blob na base mordida, e depois se sacrificando para salvar o Triskelion de um exército de Homens-Múltiplos suicidas com bombas no corpo. Como se não bastasse, o Doutor Estranho também morre da forma mais indigna ao enfrentar um recém-liberto Dormammu. Cada página virada você presencia a morte de mais alguém, além de um desastre de diálogo, roteiro, e até mesmo de arte! David Finch é um ótimo desenhista num dia normal, mas aconteceu alguma coisa em Ultimato que nem ele se salva.

Como quebrar um ovo pruma omelete.

A resolução se dá da forma mais esdrúxula possível, claro. Com um ataque coordenado entre X-men, Supremos e Quarteto, sob a tutela de Nick Fury. Acontece que Fury estava desaparecido e em sua busca pelo culpado, Reed Richards se depara com Namor e com o Doutor Destino. Destino assume a culpa de ter matado Wanda, com o plano de enlouquecer Magneto e esperar que ele e os heróis se matassem no processo, afim de dominar o mundo logo depois. O problema é que Destino não esperava que Magnus causasse tanto estrago! Ao chegar no Asteroide M, a batalha ainda clama as vidas do Anjo e de Wolverine. Valquíria arranca o braço de Magneto e o vilão fica incapacitado, até que surge Fury com uma nova linha de ação.

Ele pede que Jean crie um link entre sua mente e a de Magnus para que o vilão finalmente descubra as origens da raça mutante no universo Ultimate. Veja bem, numa história anterior a essa, chamada Ultimate Origins, nós ficamos sabendo que no Ultiverso, o gene mutante não surgiu naturalmente. Ele foi descoberto e “ligado” por cientistas humanos no projeto Arma X, que tinha James Howlett como o “mutante zero”. O ativador do gene é passado pelo ar e foi impossível de se conter, se espalhando assim pelo mundo todo.

Sem Xavier, Fury é o único careca capaz de parar Magneto.

Toda a ideia que Magneto tinha, então, de que a raça mutante havia sido escolhida por Deus para substituir o homo sapiens vai por água abaixo. O vilão então desfaz a inversão de pólos do planeta e roga por clemência diante de um Ciclope impassível, que destrói sua cabeça com uma rajada óptica! 😱

Aí quando você acha que não dá pra morrer, Ciclope aparece dando uma coletiva de imprensa na frente da Mansão em meio a protestos anti-mutantes e leva uma bala na cabeça! Em meio a choros e indignação somos levados a última página da história que revela que quem deu o “tiro” foi o Mercúrio, que ainda está vivo. Atrás dele uma figura feminina em meio às sombras e eles conversam sobre como Magneto andava meio mole para executar “a revolução necessária” e que daqui por diante o mundo ia ver só!

E isso nunca deu em nada.

De tanta gente morrendo eu quase desejei ser o próximo pra não ter que lembrar dessa história…

Tô LendoPontos Fortes
  • HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH
  • Que piada, gente.
  • “Pontos Fortes” hehehehe…
Tô LendoPontos Meh
  • Na boa. É só reler a coluna inteira. Toda a história é um enorme “ponto meh” na continuidade do Ultiverso.

E ainda mais no finalzinho, quando é aí que você acha que não morre mais ninguém mesmo, ainda temos tipo uma “cena pós créditos” com o Coisa indo até a Latvéria dar um jeito em Van Damme (não pergunta) e esmaga a cabeça do Doutor Destino dentro do próprio capacete!

Com um body count de 32 personagens em apenas cinco edições, Ultimatum foi rejeitada por praticamente todo mundo, sendo classificada até como “a pior saga do ano” em alguns sites especializados na época. Não a toa, Jeph Loeb aparentemente saiu dos quadrinhos na época e foi continuar como consultor em séries de televisão até ser nomeado como vice presidente executivo e chefe do departamento de televisão da Marvel, a Marvel Television. Atualmente ele é o responsável pela criação de novos seriados e desenhos animados para a TV (contanto que ele passe longe dos roteiros, não vejo problema).

Wolverine morre! Blob morre! Anjo morre! Ciclope morre! Noturno morre! Doutor Estranho morre! TODO MUNDO MORRE NESTA EDIÇÃO!

O único ponto razoavelmente positivo do evento foi eliminar tanta gente do universo Ultimate que não houve outra alternativa senão recomeçar a “área de testes” do zero. O impacto negativo gerou um novo interesse nos leitores que queriam saber o que viria depois, mesmo com a história sendo tão ruim. E em até certo ponto podemos arriscar dizer que serviu de inspiração para o próprio Bendis matar o nosso querido Peter Parker em A Morte do Homem-Aranha e nos agraciar com um personagem não menos maravilhoso: Miles Morales, o Homem-Aranha Ultimate. Miles foi um personagem tão certeiro que foi o único a ganhar sobrevida depois do fim definitivo da linha ultimate depois das novas Guerras Secretas.

Ainda assim, Ultimatum vale só uma Rebobinando. 📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2019-04-29T22:53:36+00:00 29 de abril de 2019|7 Comentários