Rebobinando #76 | Shazam

Início/Destaques, Leia!, Rebobinando/Rebobinando #76 | Shazam

É só falar a palavra mágica e se transformar em um dos heróis mais poderosos da Terra! Opa, esse título é de outra editora (assim como o nome original dele, heh)! Mas não tem problema, a Rebobinando de hoje relembra um clássico moderno do antigo Capitão Marvel, pela mãos de ninguém menos do que Alex Ross! SHAZAM: O Poder da Esperança!

Pelos Poderes dos Deuses Antigos, EU SOU O CAPITÃO INFRAÇÃO DE DIREITO AUTORAL!

Nunca fui muito fã de Shazam para ser bem honesto. Meu status de marvete é bem óbvio, aliás. 😉 Mas isso não quer dizer que eu não conheça o personagem. Lembro de ter visto o seriado dos anos 70 em algum canal de tv perdido nos anos 80, lembro da presença dele em alguns desenhos animados e lembro mais especificamente de adultos comentando sobre o herói. A mítica do personagem e como ele se transformava de um garoto mirrado para um campeão da Justiça apenas gritando uma palavra mágica era muito forte. Quase como a relação entre o Popeye e o seu espinafre, ou Clark Kent e uma cabine telefônica!

Desde sua concepção, no finalzinho dos anos 30, ele chegou a influenciar uma dezena de outros heróis, assim como diversos desenhos animados, seriados e outras produções que trabalhavam o conceito de “palavras mágicas, identidades secretas e transformações”. O personagem não foi o primeiro a ter uma identidade secreta, claro, muito menos o primeiro com tantos superpoderes (afinal de contas, a DC processou a Fawcett justamente porque ele parecia demais com o Superman), mas é bem provável que ele tenha sido um dos primeiros super-heróis a ter uma identidade secreta tão distinta de sua identidade heróica. Se não foi o primeiro, certamente foi o mais popular! Afinal de contas, quer mais identificação com o público alvo do que colocar um garoto de 10 anos que vira um super-herói? Nem o Homem-Aranha eternamente no Ensino Médio consegue isso!

Recentemente o personagem ganhou um pouco mais de popularidade com o relançamento de uma série nova pelos Novos 52 da DC Comics e logo em seguida pelo Rebirth. O Tiberio falou dele na semana passada, vale dar uma olhada Nas Prateleiras! ✌🏻Isso sem contar o filme que acabou de sair nos cinemas e que está com uma crítica bem favorável! Ou seja, ainda veremos o Mortal mais Poderoso da Terra por muito tempo!

Um pôster de Alex Ross chamado “Os Ecos de Shazam”, com todas as influências do Capitão Marvel original e sua palavra mágica pela cultura pop!

Roteiro e Arte

Paul Dini é super conhecido pela maior, e talvez melhor, reformulação de um dos grandes medalhões da DC. Estou falando, claro do Batman e a famosa (maravilhosa, estupenda, incrível, dark, maneira, foda) Batman: The Animated Series. Ele é um dos criadores responsável pela série juntamente com o desenhista Bruce Timm, e chegou na Warner Bros. Animation no início dos anos 90 depois de passar como roteirista em diversos estúdios responsáveis por grandes clássicos da nossa infância como He-Man, Comandos em Ação, Caverna do Dragão, e até mesmo Jem e as Hologramas!

Alex Ross é um dos artistas de quadrinhos mais admirados do mercado. Desde sua grande estreia pela editora Marvel com a minissérie Marvels (1994), ele vinha ganhando cada vez mais destaque produzindo outras tantas obras. Com Kurt Busiek ele contou a origem do universo das “maravilhas” pela ótica de um fotógrafo-jornalista e com Mark Waid ele nos mostrou a visão de um futuro sombrio da DC comics através de um pastor religioso em O Reino do Amanhã (1996)! Além de outras obras como Astro City (1995), pela Image, e Uncle Sam (1997), pelo selo Vertigo,  foi mais ou menos em 1998 que a DC veio com um projeto corajoso em comemoração aos 60 anos de suas principais estrelas!

O projeto consistia em uma série de edições de luxo em formato de tablóide, de caráter comemorativo, escrito por Paul Dini e desenhado por Ross, como forma de homenagear os maiores personagens da editora. A primeira edição Super-Homem: Paz na Terra, foi publicada em 1998, seguida de Batman: Guerra ao Crime (1999), Mulher-Maravilha: Espírito da Verdade (2001) e, claro, Shazam: O Poder da Esperança, que foi publicado em novembro de 2000 nos EUA, também em comemoração aos 60 anos do Capitão Marvel! Aqui no Brasil a edição saiu em Abril de 2001.

A arte de Ross, sempre citada como estática pela maioria dos críticos cai como uma luva em uma edição como essa, que serve mais como uma homenagem do que uma HQ propriamente dita. Cada página é um painel riquíssimo em detalhes, com imagens bastante “posadas” que engrandecem ainda mais as figuras heróicas retratadas por Ross. O texto de Dini também tem um caráter de engrandecimento, colocando os personagens em situações clássicas de super-heroísmo como tapar vulcões, prender ladrões de banco, impedir estouros de represas, etc. Tudo muito com uma vibe anos 40, mas sem soar brega demais. O resultado final é uma declaração de amor a tudo que um super-herói representa para a humanidade e, pros fãs. O poder e a força de conceitos como Paz, Verdade, Esperança e Justiça, coisas tão esquecidas por CERTOS CINEASTAS MODERNOS QUE ADORAM COLOCAR OS HERÓIS PARA QUEBRAR PESCOÇOS EM SEUS FILMES, NÉ?

E mais uma vez o dia foi salvo, graças ao MENINO SUPERPODEROSO!

O Poder da Esperança

A história gira em torno de Billy Batson, claro, e seu questionamento sobre o que é ser o Capitão Marvel. Er, o Shazam. Sua vida tem sido apenas uma sucessão de impedir crimes como super-herói e trabalhar como um locutor-mirim de rádio. Depois de cair na rotina, Billy começa a duvidar se ele está fazendo de fato alguma diferença até que é surpreendido por um pedido no mínimo incomum da produtora do seu programa. Aparentemente, como ele fala e parece ter bastante contato com o Shazam (vamos chamá-lo assim de agora em diante), muitas pessoas começaram a enviar cartas para a emissora de rádio, na esperança de que chegassem até o herói. Num esforço conjunto de todos os funcionários, cada um resolveu pegar um punhado de cartas para responder no melhor estilo “adote uma cartinha para o Papai Noel”. Billy se sente responsabilizado, claro, e resolve levar um saco enorme de cartas para responder em casa por conta própria.

Entre pedidos de namoro e pedidos de dinheiro, Billy esbarra em uma cartinha enviada por uma médica de um Hospital Infantil. A carta continha vários desenhos feitos pelas crianças internadas e pedia com carinho pela visita de Shazam ao lugar. Em dúvida se utilizar os poderes do Mago para fazer esta visita configuraria como “utilização de poderes em favor de si mesmo” Billy voa até a pedra da eternidade em busca de conselho. Lá, o Mago Shazam percebe que há algo de errado com o seu campeão e lhe dá sua benção para ir ao hospital, bem como um aviso. Ele diz que o herói “deve estar mais forte do que nunca, não apenas por si mesmo, como também para aqueles que buscam inspiração em tudo o que ele representa”. O Mago continua “as crianças são as mais impressionáveis, porque são elas que acreditam com mais força” e que “como uma fagulha, a fé em seus campeões brilha forte, mas precisa ser alimentada, ou então se apagará”. Ele ainda termina com uma previsão de que em algum momento, uma criança em desespero vai olhar para Shazam em busca de esperança e que ele deveria estar pronto para este dia. Apavorado com a previsão, Shazam vai ao hospital para atender o pedido das crianças.

A hora do recreio nunca foi tão divertida!

Chegando lá, ele é recebido com olhares espantados e sorrisos, exceto por um garoto em uma cadeira de rodas. Ao atender rapidamente todas as outras crianças, Shazam se volta para o menino emburrado e pergunta se ele gosta de beisebol, já que o garoto carrega uma bola e uma luva do esporte nas mãos. O menino nada diz e vai embora. Intrigado, o herói vai conversar com a médica que diz que várias outras crianças estão super empolgadas com a presença dele no hospital. No fim, ele promete passar o final de semana para atender a todos e levar as crianças em algumas aventuras.

O Mortal mais Poderoso da Terra arranja uma van e carrega o veículo para lá e para cá, levando as crianças em diversas excursões pelo país. Em um determinado momento ele carrega um especialista japonês para atender uma menina doente. Mas é durante uma das aventuras na qual ele precisa impedir um grupo de homens tentando acessar uma mina abandonada sobre uma represa, que ele percebe o risco de levar consigo as crianças. Felizmente nada mais desagradável ocorre e o herói volta um pouco assustado e com mais dúvidas sobre suas ações. E é no hospital em que acontece duas situações que valem a pena toda a história escrita por Dini.

Uma outra menina, com uma doença terminal, acaba falecendo de mãos dadas com Shazam enquanto ele a conforta. Em meio ao luto e a percepção de que seus super poderes não podem ajudar nesse caso é que ele percebe a presença do primeiro garoto que ele viu quando chegou ao hospital. Ao se aproximar dele, ele percebe que o garoto se retrai e se sente muito incomodado com a presença de um adulto. Se transformando em Billy, ele volta e percebe que pode conversar melhor agora, de igual para igual.

Billy descobre que o garoto apanha do pai e que sua perna quebrada não foi fruto de uma “queda da escada”. E é aí que ele percebe o quanto o seu poder é inspirador, porque ele não precisou ser o Shazam a princípio para se conectar com o menino, já que ele além de órfão, sofreu violência de seu tio que o jogou na rua para ficar com sua herança. Tomado de uma nova força, Billy vai tomar satisfação com o pai do garoto e acaba resolvendo parte do problema (mesmo que tenha sido usando de um pouco de intimidação através de sua figura imponente como Shazam). Com o espírito renovado ele volta à pedra da eternidade para conversar com o Mago sobre suas novas descobertas.

“Sim, meu filho, você pode ir lá brincar com o seu novo coleguinha!”

Veja bem, a previsão do Mago Shazam não se referia ao garoto de perna quebrada, e sim ao próprio Billy que estava duvidando se sua capacidade como herói. Ao entrar em contato com as crianças ele percebeu que é justamente pelo fato dele ser um garoto que ele consegue se conectar melhor com os pequenos e que mesmo ele ainda precisa de algumas lições para compreender seu lugar no mundo. Ao perceber que seus poderes e que nem o próprio Shazam não são úteis em todas as ocasiões, ele percebe que aquilo que faz dele um herói é o próprio Billy Batson e seu coração.

É a sua esperança em um mundo melhor.

*chuif* dá licença. Caiu uma lagriminha aqui.

Ti Tapitaum maix fofinhu!

Tô LendoPontos Fortes
  • Alex Ross. Arte foda. Se você tiver duas edições pode deixar uma pra ler e arrancar as páginas da outra pra transformar em quadro.
  • Paul Dini. Acho que poucas pessoas entendem a função de um super herói e suas histórias como o Paul Dini. O cara revitaliza um jeito clássico de contar histórias que tinha tudo pra ser brega e é lindo.
Tô LendoPontos Meh
  • Disponibilidade e preço. Na época em que saiu, os gibis custavam cerca de dois reais, ou menos e essa edição saiu à R$ 13,50. Era super caro porque era uma “edição limitada”. Não sei exatamente quantas cópias foram, mas sei que não devem ter muitas a venda por ai e os preços estão variando desde 40 pratas até 150 pelo mercado livre. Então é por sua conta e risco.

Immortal Hulk e Amazing Spider-Man pelas mãos do mestre Ross.

Acho a edição fodona. Todas essas da coleção de 60 anos dos heróis da DC, inclusive. Não canso de elogiar e admirar a arte do Ross e acho incrível como ele mantém se mantém consistente por tanto tempo. Algumas das capas mais recentes dele para Immortal Hulk e Homem-Aranha tem sido especialmente bacanas. Até hoje lembro da minha cara de embasbacado ao ver a primeira edição de Marvels nas bancas.

Também acho incrível o trabalho dele de referência fotográfica e conseguir retratar um Capitão Marvel… er, Shazam, com uma cara IGUALZINHA a dos desenhos originais da Editora Fawcett. O que é uma pena pra mim porque no fim eu fiquei com esse rosto de referência pro herói e toda vez que eu olho pro Chuck de Shazam, eu acho que ele tá fazendo cosplay.

Mas prometo que vou ver o filme e não deixar isso me incomodar.

Cara de um, focinho do outro! OLHA SÓ O QUEIXO DE BUNDINHA!

Shazam: O Poder da Esperança vale de boaça cinco relampaguinhos! CABRUM! ⚡⚡⚡⚡⚡

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2019-04-09T00:23:39+00:00 8 de abril de 2019|9 Comentários
  • Ricardo Varotto

    O trabalho do Ross, estático ou não, sempre é um deleite para os olhos. Aproveito para avisar que, finalmente, e certamente por conta da recente estréia, foi lançada aqui em DVD a série dos anos 70. É bizarra? Sem dúvida. Mas vale a pena para quem tem um cantinho para ela em seu coração. E se assistir com boa vontade, nem deve destruir a imagem que você tinha dela. E ainda conservaram o nomitcho Marvel.

    https://www.saraiva.com.br/dvd-capitao-marvel-serie-completa-5-discos-20002314.html?pac_id=123134&gclid=CjwKCAjwhbHlBRAMEiwAoDA34_znTIHsXqVb0gLpaPrtpPB5MT814m_Soj3nDom5RaXffnAu_5yPyRoCdZcQAvD_BwE

    https://uploads.disquscdn.com/images/fc624758d38488e5b4afdcac11b8d34f5053a5425094065f0806cc14ead0398b.png

    • Eita. Lembro pouquíssimo da série, na verdade. Só que eu sempre achei o Billy Batson meio esquisito,vendo as imagens do seriado hoje em dia, esse sentimento não mudou. Hehe.

  • Roberto Hunger Junior

    Para mim o Capitão Marvel, dentro da DC é uma exceção, ao contrário dos demais personagens que são sempre tido como Deuses intocáveis, sérios e profundos, mas o Capitão não, ele toca o lado infantil das pessoas, devido ao personagem em si ser uma criança/jovem. E isto ficou bem claro na revista, algo que a DC aproveitou no filme atual muito bem. Paul Dini teria feito toda a diferença no universo cinematográfico da DC, pois entende a essência dos personagens como pouco autores…

    • Verdade. Sem sombra de dúvida a presença do Dini é que fez o universo animado da DC ser tão reverenciado como é, moldando até a cabeça de uma galera que só conhece o John Stewart como Lanterna, por exemplo.

      (é só um caso isolado, mas eu lembro de uma faxineira de um curso onde eu trabalhava que amava ver o desenho da Liga e, quando o filme com o Ryan Reynolds saiu, ela veio me perguntar “mas o Lanterna Verde não é negro?”)

      • Roberto Hunger Junior

        Então, este aspecto heroico que permeia toda esta parceria do Alex com o Dini, e que foi sentido também nas animações onde o Dini pode dirigir ou escrever, é que se perdeu na DC cinema e em algumas animações atuais mais adultas, e sem falar em muitos dos quadrinhos 52… E para mim a animação da Liga foi melhor que a fase de quadrinhos daquela época, tanto pelas idéias originais quanto pelas referências ao mundo dos quadrinhos.

        • Justamente. O trabalho dele virou referência da própria DC, desde Batman TAS, inclusive. As origens de Mr. Freeze, e Cara de Barra o, por exemplo foram redefinidas pelo desenho, bem como, claro, a criação da Arlequina.