Rebobinando #74 | Batman (1989)

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Em junho de 2019 celebraremos trinta anos de um dos maiores sucessos da DC Comics nos cinemas. Dirigido por um então desconhecido diretor e com um ator conhecido por comédias no papel principal, ninguém botava muita fé em Batman! Vamos rever este clássico do Tim Burton  na Rebobinando de hoje!

Se o batsinal entrasse pela minha janela desse jeito eu também iria passar a noite acordado.

Lançado no verão dos EUA em 1989, Batman só chegou em terras tupiniquins no final de outubro do mesmo ano. Até então eu ainda tinha meros sete anos de idade e estava empolgadíssimo com a estreia do filme! O único problema era a censura. Proibido para menores de 12 anos de idade, foi impossível convencer a minha mãe, ou o meu pai, de me levarem ao cinema! Eles tinham medo porque ouviram histórias de que era um filme “muito violento” e, dado o padrão de violência dos filmes dos anos 80, e a memória que os meus pais tinham do seriado de 1966, temos de concordar que era realmente muito chocante.

Uma pena, porque tive que esperar o filme sair na Tela Quente (ou será que foi no Cinema em Casa do SBT?) para poder finalmente assistir. E foi uma pequena decepção porque já com uns 9, ou 10 anos, o lance de ser “muito violento” não me chocou muito. O que faz a gente pensar no que é que nós assistíamos quando crianças, não é mesmo? De qualquer maneira, eu lembro de ter achado o filme muito legal, e logo em seguida eu já tinha idade o suficiente para assistir Batman: O Retorno em 1992. Desta vez no cinema.

Nas horas vagas, Burton também atuava como vocalista do The Cure.

Diretor Gótico

Tim Burton começou a carreira como desenhista de arte conceitual para a Disney. E até chegou a fazer artes conceituais para os filmes O Cão e a Raposa, O Caldeirão Mágico, e Tron que, infelizmente, não foram utilizadas. Em seu início de carreira ele produziu muitos curtas animados e em stop-motion, até ser demitido da Casa do Rato por “utilizar recursos da empresa para fazer desenhos que crianças não podem assistir”. O que chega a ser muito curioso se você parar para pensar que hoje em dia ele está de volta dirigindo versões mais sinistras, sombrias e góticas de grandes clássicos do estúdio como Alice no País das Maravilhas e, mais recentemente, Dumbo.

Batman foi o primeiro grande filme de estúdio do diretor, mas o terceiro de sua filmografia oficial, vindo depois de As Grandes Aventuras de Pee-Wee e Os Fantasmas se Divertem (Beetlejuice, no original). Como os dois filmes são comédias com um orçamento relativamente baixo, isso assustou muito os fãs do Homem-Morcego que, já nesta época, tinha elevado o seu status de mero super-herói colorido para uma criatura das trevas nas mãos de Alan Moore e Frank Miller. Burton, inclusive, se declarava como uma pessoa que não era fã de quadrinhos:

“Eu nunca fui um grande fã de HQs, mas eu sempre amei a imagem do Batman e do Coringa. O motivo pelo qual eu nunca fui fã de quadrinhos – e eu acho que isso começou quando eu era criança – foi porque eu nunca conseguia acompanhar qual era o quadro seguinte que eu deveria ler. Eu não sei se era dislexia, ou coisa parecida, mas foi isso o que me fez amar A Piada Mortal. Porque foi a primeira vez que eu consegui saber qual era o próximo quadro na sequencia de leitura. Foi o primeiro quadrinho que eu amei de verdade. E o sucesso desse tipo de história acabou fazendo as nossas ideias (para o filme) serem mais bem aceitas.”

Artes Conceituais de Bruton para Batman e Batman Returns.

O fato é que o filme não poderia ter sido mais diferente do que os fãs estavam esperando. Tendo em vista o passado do diretor e também do ator principal, Michael Keaton, que tinha vindo de algumas comédias de sucesso, como o próprio Beetlejuice e, além disso, não tinha o porte atlético necessário para o personagem. Mas isso não foi um problema no fim. Graças a visão sombria de Burton e uma estupenda direção de arte (que rendeu um oscar para o filme naquele ano), Batman acabou sendo o sonho molhado de todos os fãs da época. Quer dizer, mais ou menos, né? Porque fã que é fã sempre tem que reclamar de alguma coisa.

Soneca após o almoço, ou violência gratuita para maiores de 12 anos?

O Longo Dia das Bruxas do Filme de Batman

Foi uma luta pra botar esse filme nos cinemas. A produção dele começou lá em 1979, vinte anos antes de sua estréia. Na rabeira do sucesso do Superman (1978) de Richard Donner a ideia mais óbvia era produzir um filme do Batman, claro. Dois produtores Benjamin Melnicker e Michael E. Uslan compraram os direitos do filme e tentaram, sem sucesso, vender a ideia de um filme do herói como seus criadores o conceberam: uma criatura da noite, sombrio, perseguindo bandidos nas sombras. Todo mundo tinha a ideia do seriado antigo e imaginavam um filme apenas como comédia. E eu acho incrível nós não sabermos sequer o nome desses caras porque eles estão envolvidos com filmes TODOS os filmes do Batman desde então. Até hoje, os caras são produtores executivos de filmes como a primeira franquia do Batman nos anos 90, a franquia do Nolan de 2008, os longas animados da DC para televisão, o seriado animado de Bruce Timm e Paul Dini, e até o filme do Batman Lego! Se tem um milionário vestido de morcego no meio, esses dois estão envolvidos!

Em seguida, outros dois produtores de renome entraram no projeto, Peter Guber e Jon Peters. Os dois juntaram um certo “star power” de produção para o filme, o que ajudou a Warner Bros. a entrar no barco também. E se um desses nomes não te soa estranho, é verdade, esse Jon Peters é o mesmo Jon Peters do qual o Kevin Smith fala em um dos Q&A mais hilários de que se tem história que é o dele comentando como ele se envolveu na produção do mal-fadado Superman Lives que, graças a Rao, nunca saiu do papel.

O filme então passou por um limbo de produção que durou uns dez anos, com roteiros indo e vindo, sofrendo alterações, trocando personagens, colocando personagens, passando por diversos diretores e coisas que parecem boatos de tão incrivelmente absurdas que são! Como quando Ivan Reitman (Caça-Fantasmas) e Joe Dante (Gremlins) estavam associados como diretor e roteiristas do filme, querendo colocar Bill Murray e Eddie Murphy como Batman e Robin, respectivamente. Até chegarmos em 1985 e Tim Burton.

Graças ao sucesso do filme de Pee-Wee, a Warner Bros se interessou pelo diretor. Novo e barato, com promessa de grandes bilheterias, claro que chamou a atenção do estúdio. O lançamento de O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, em 1986 e posteriormente o lançamento de A Piada Mortal, de Alan Moore, fez com que o estúdio considerasse a pegada mais sombria do personagem e encontrar um espaço na agenda para finalmente tirar o filme do papel! Finalmente o Homem-Morcego chegaria às telonas!

E eu finalmente posso dizer I’M BATMAN!

O filme

Fugindo um pouco do esquema de contar origens, a história já começa com um Batman agindo em Gotham City há relativamente pouco tempo. Toda a sequência da morte dos Wayne é tratada em flashbacks e tem ligação com um grande mistério na trama, que se resolveria apenas no final. E que fez boa parte dos fãs arrancarem as próprias meias de morceguinho pela cabeça! Graças a uma greve de roteiristas na época e uma ideia de última hora do próprio diretor, decidiu-se que um jovem Jack Napier, que viria a se transformar no Coringa, seria o assassino de Thomas e Martha Wayne! Num momento terrível, mas não tão terrível quanto Save… Martha…”, o Coringa repete para o Batman as mesmas palavras que repetiu ao pequeno Bruce Wayne na noite em que seus pais se foram: “Você já dançou com o demônio sob a luz do luar?”.

A grande reviravolta da história se dá na relação entre os próprios antagonistas, sendo que Batman, ao caçar Jack na fábrica da Axis Chemicals (e não “Ace” como nos quadrinhos) acaba criando o Coringa, o próprio vilão criou o herói antes. E, segundo o diretor, isso cabe bem dentro da temática do filme que é “um grande duelo de aberrações. Uma luta entre duas pessoas completamente perturbadas”. Isso fica ainda mais evidente na cena do museu, onde o Coringa aparece destruindo inúmeras obras de arte conhecidas por sua beleza e bom gosto até chegar numa pintura de Francis Bacon, chamada (heh) “Figuras com Carnes”. A pintura é uma versão de uma outra pintura, de Velázquez, chamada “Retrato de Inocêncio X”. Na versão de Bacon, a imagem do Papa aparece de maneira perturbada, em tons sombrios e com dois pedaços de carne enormes como se fossem as cortinas e, ao se aproximar da imagem, o Coringa diz a seu capanga: “Eu até que gosto dessa, Bob. Deixa assim.”

Rebobinando também é cultura, mas o ironia de Bacon pintar um quadro chamado Carnes eu deixo para vocês de presente!

Além de Jack Nicholson, outros atores foram cotados para o papel do vilão, como Robin Williams e John Lithgow. Nicholson acabou sendo a escolha mais acertada por trazer público com o seu star power e foi o ator mais caro da película. 6 milhões e parte da bilheteria garantiram sua presença para viver o príncipe palhaço do crime. Já Michael Keaton não foi a primeira opção. Astros de ação da época foram cotados para viver Bruce Wayne, como Mel Gibson, Charlie Sheen, Harrison Ford e Dennis Quaid. Como nenhum aceitou, já que viver um super-herói de gibi não era lá grandes coisas em 1989, o papel acabou ficando com Keaton mesmo muito por conta de seu trabalho prévio com Burton em Beetlejuice.

E olha, tirando o fato de que o Batman de Burton mata meio que indiscriminadamente, eu não tenho muitos problemas com o filme, não. De verdade. Eu sei que muita gente chia por conta da armadura de borracha e do “fator torcicolo” do herói e de toda essa história do “demônio no luar”, mas para uma adaptação que serviu como um revival do Batman em uma mídia de grande público, eu acho que foi um ótimo primeiro passo! Pela primeira vez em anos, pessoas que não eram fãs do quadrinho estavam vendo o Batman como um super-herói sério pela primeira vez. Eu lembro que eu mesmo tive essa sensação, porque até para mim, um moleque recém-iniciado nos gibis, só tinha memória do Batman como um cara certinho dos Superamigos e um pateta bolachudo do seriado dos anos 60.

Seria o Jack Nicholson a melhor versão do Coringa até hoje? Pelo menos nós sabemos COMO ele conseguiu as cicatrizes!

Tô LendoBat-Pontos Fortes
  • Design. Roupa nova. Tudo preto. Couro, borracha e art decó. Mistura de estilos arquitetônicos criando uma Gotham meio esquizofrênica. Expressionismo alemão e revistas pulp como referências diretas visuais tanto do herói, como do vilão e da cidade, que era uma personagem à parte. Para quem conhecia o herói desde o princípio deve ter sido como ler de novo as histórias originais de Bill Finger e Bob Kane.
  • Música. A música de Danny Elfman é um marco por si só no filme. Referência usada até hoje para tudo que tem a ver com o Homem-Morcego e, pra mim, um equivalente à altura do Tema de Superman criado por John Williams.
  • Batmóvel. Esse é simplesmente o Batmóvel MAIS IRADO DE TODOS os Batmóveis estacionados na bat-caverna! Outra referência que foi usada e reusada por diversos outros artistas tanto em desenhos animados, quando nos quadrinhos, seriados, filmes, etc. etc.
  • Animated Series. Graças ao filme também que saiu do papel aquela que talvez seja a versão definitiva do herói para muita gente. Batman: The Animated Series estreou em 1992 e trazia muito do clima noir e sombrio que Burton tentou estilizar em seus filmes, além da mesma trilha sonora, o mesmo batmóvel e a voz definitiva do herói: Kevin Conroy para os americanos e Márcio Seixas no Brasil.
Tô Lendo Santos Pontos Fracos, Batman!
  • Roteiro. Meio inconsistente, convenhamos. É bacana ver o Batman sendo levado a sério com um uniforme maneiro e um vilão carismático! Mas o plano do Coringa é dominar Gotham através de cosméticos envenenados? O Batman perde tempo subindo com sua nave para fazer seu símbolo na lua? Alfred deixa a Vicky Vale entrar do nada na batcaverna? Como o coringa anda com aquela arma comprida nas calças? Enfim. O roteiro é só uma coleção de situações absurdas (mas divertidas), entremeadas por um fiapo de história. Quer dizer que o filme é ruim? Nem de longe! Eu adoro! Mas pra quem cresceu com Nolan como referência, assistir Batman 89 pode ser meio risível.
  • Muita promessa.  Os tratamentos de roteiro anteriores incluiam o Robin e o Pinguim. Além disso, Burton havia escolhido Billy Dee Wiliams (o eterno Lando Calrissian) como Harvey Dent porque tinha planos de usá-lo como Duas-Caras no futuro, trabalhando uma temática meio racista de “preto-e-branco”. Desses três só o Pinguim apareceu na continuação e Duas-Caras e Robin, só em Batman Eternamente! E não foi legal.
  • Continuações. Tim Burton saiu da direção, mas continuou como produtor nos filmes seguintes, por incrível que pareça. E eu fico imaginando se os filmes tivessem ido para as mãos de alguém mais competente, como tudo teria sido? Jamais saberemos.

Eu já te disse que EU SOU O BATMAN?

A era sombria do morcegão que veio depois deve muito à essa interpretação radical de um herói que era tido como um palhaço por praticamente uma geração inteira. Quase como a releitura feita por Zack Snyder e James Wan na hora de usar o Jason Momoa como Aquaman! Os curtinhas do Cartoon Network que o digam. Se Miller e Moore foram o ponto de partida para todo um novo grupo de leitores ter um novo Batman para ler, Tim Burton foi a nova referência de Batman para o cinema e as séries. E ainda arrisco dizer para os videogames e desenhos animados também. Porque foi graças ao “design de armadura” apresentado em 1989 que os novos criadores começaram a perceber que não dava só pra um milionário botar um collant e sair na rua batendo em pacientes psiquiátricos. Ele precisava de um aparato melhor pra quebrar essa gente toda com propriedade!

Ou seja, hoje em dia se você curte os jogos de Arkham Asylum, mande uma cartinha agradecendo ao Tim Burton!

Batman (1989) vale com certeza cinco morceguinhos rebobinando! 🦇🦇🦇🦇🦇

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2019-03-25T13:26:42+00:00 25 de março de 2019|7 Comentários
  • Jean Carlos

    Boa Kadu, acho que esse foi filme foi onde começou a Batmania no Brasil, mais apesar de ser fã do Jack Nicholson eu ainda acho que o Heath Ledger foi o melhor coringa, e na minha opinião ele junto com Malcolm McDowel interpretando Alex Delarge são sinônimos de vilões todo ator que for interpretar um vilão tem que se espelhar nesses caras.Abraço Kadu!!!!

    • Pô, Jogar o Malcolm McDowell nesse meio é sacanagem! Mas sim, eu acho o Coringa do Ledger muito bom! MAs como todo fã vai te responder “são visões diferentes do mesmo personagem”. Eu acho a versão do Nicholson mais parecida com a versão do Coringa que eu conheci quando era criança. A mesma versão dos desenhos animados e do seriado, mas com um tom um pouco mais sombrio também.

  • Roberto Hunger Junior

    “Nas horas vagas, Burton também atuava como vocalista do The Cure.”kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  • Roberto Hunger Junior

    “Bill Murray e Eddie Murphy como Batman e Robin, respectivamente.”… Céus, só de imaginar isto meu lado anos 80 se estremece de vergonha. Ainda bem que não ocorreu. Excelente coluna, como sempre. Não sabia que o filme tinha passado por tantos problemas até acontecer. E mesmo que em alguns detalhes ele tenha envelhecido ou ficado datado, pra mim ainda é um bom filme. Mesmo que o personagem tenha atitudes não condizentes com o morcegão, Tim Burton ainda conseguiu entender mais o que é ser um Batmam que muita gente hoje em dia… https://uploads.disquscdn.com/images/bf93a55e7a61eba17ae4ec17609215e76cecfcaebb6d77d19fd03f79c493759b.jpg

    • Hahahahaha, para sempre chutaremos este cachorro morto! Hahaha

  • Ricardo Varotto

    Apesar de, olhando em retrospectiva, parecer um tanto bocó, o Batman do Burton com certeza foi um divisor de águas na carreira cinematográfica do personagem.

    • Justamente. Hoje em dia a gente percebe o quanto o filme é meio bobinho, mas foi uma visão até audaciosa para o personagem na época.