Rebobinando #71 | A Morte do Capitão Marvel

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Há uma história na Marvel sobre regras gerais que jamais poderiam ser quebradas. Tipo a que diz que Bucky ou o tio Ben “devem permanecer mortos”. Sabemos que essas regras nunca são cumpridas à risca, taí o Soldado Invernal que não nos deixa mentir. Mas entre mortes e ressurreições, uma que continua bem permanente (a princípio) é a de um dos grandes heróis da editora nos anos 70. Vem comigo rebobinar A Morte do Capitão Marvel!

Captain Marvel Adventures #4, da Editora Fawcett. Marvel Super-Heroes #12 com a primeira aparição de Mar-Vell. Captain Marvel #25 com a chegada de Jim Starlin à equipe criativa do guerreiro Kree.

Como muitos de nós já devem saber, o Capitão Marvel original não foi o da Marvel Comics. O personagem criado pela Fawcett Comics apareceu pela primeira vez em 1939 na revista Whiz Comics. O jovem Billy Batson gritava a palavra mágica Shazam e se transformava no campeão da justiça dotado dos poderes dos deuses gregos! Acontece que por conta das semelhanças entre o seu personagem e o Super-Homem, a DC Comics acabou movendo um processo contra a Fawcett. Em 1953, editora acabou cancelando a revista e o personagem foi parar nas mãos da Distinta Concorrência. E, enquanto o Shazam ficou na geladeira da DC, o registro do nome do personagem acabou expirando. Então em 1967 a Marvel, que não é boba nem nada, registrou o nome para si e lançou em Marvel Super-Heroes #12 a origem do novo Capitão Marvel, o guerreiro Kree Mar-Vell, pelas mãos de Stan Lee e Gene Colan.

Diferente do personagem da Fawcett (e talvez mais similar ao Super-Homem na origem), Mar-Vell era um guerreiro do Império Kree que veio à Terra como um espião, afim de avaliar o risco que o planeta e seus habitantes ofereciam ao império intergaláctico. Ele assume a identidade secreta de um cientista chamado Walter Lawson e durante sua estadia por aqui, se afeiçoa ao planeta. Ocasionalmente ele usa seu uniforme de guerreiro para salvar a vida das pessoas que ele foi mandado para observar e, assim, acabou tendo seu nome confundido e foi apelidado de Capitão Marvel. Numa jogada interessante de Stan Lee, desta vez ele fez o nome do herói ser de fato o nome do personagem! Parece até ironia, ou de propósito, se levarmos em consideração a confusão de nomes gerada pelo Capitão Marvel que é da DC Comics, que grita Shazam para se transformar.

A origem da Capitã Marvel em Captain Marvel #18 e a mesma origem em Ms. Marvel #1

A Vida do Capitão Marvel

O sucesso do personagem no entanto, não veio. Pelo menos não imediatamente. A popularidade de Shazam (vamos chamá-lo assim de agora em diante pra evitar confusão) era muito alta nos anos 40, sendo esse o principal motivo da DC processar a Fawcett por violação de direitos autorais. Mar-Vell não vendia muito, ainda mais diante dos outros sucessos da editora como o Homem-Aranha, Quarteto e Vingadores. Em Capitain Marvel #17, Roy Thomas e Gil Kane revitalizaram o personagem, pouco mais de um ano depois de sua criação, com um novo uniforme e introduzindo a dinâmica da “troca de corpos” entre o herói e seu sidekick, Rick Jones. Mar-Vell havia ficado preso na Zona Negativa e só podia vir para o universo positivo quando Rick Jones batia seus nega-braceletes um contra o outro!

Desde o princípio quem também acompanhava as aventuras do herói era uma certa oficial da Força Aérea Americana chamada Carol Danvers. Apresentada como coadjuvante logo em Marvel Super-Heroes #13, foi somente em 1969, após a revitalização de Thomas e Kane, que ela sofreu o acidente que fez com que absorvesse os poderes do herói, transformando-a em Miss Marvel. Essas mudanças todas, porém, não surtiram muito efeito nas vendas da revista, que foi cancelada na edição de Captain Marvel #21, em 1970.

Carol Danvers reaparece nas histórias e Nitro faz sua primeira aparição!

Só dois anos depois deste cancelamento que a revista iria para as mãos do mestre Jim Starlin. Recomeçando da edição #22 como se nada houvesse acontecido, Starlin começou sua revitalização a partir de Captain Marvel #25. E parece que ele tinha um jeito todo próprio de trabalhar os personagens cósmicos da Casa das Idéias, já que eles nunca haviam sido particularmente grandiosos desde o princípio. Não podemos negar que algumas das melhores histórias de Thanos, Mar-Vell e Adam Warlock saíram da cabeça e das mãos de Starlin (não deve ser à toa que ele tem “star” no nome, né?).

Aqui no Brasil, a primeira fase do personagem saiu em 1969 nas revistas da Editora GEP. Oi? Editora GEP? Sim, o nome da revista, inclusive, era Edições GEP! Coisa de louco o que a gente descobre na internet. Segundo me consta, isso não durou muito e já em 1970 ele foi para a clássica Heróis da TV da Editora Abril. Em meados dos anos 80, já na fase do Starlin, ele passou a fazer parte do mix das revistas do Homem-Aranha.

As edições de Capitão Marvel da Editora GEP. Heh. E a Heróis da TV #16 com a história de apresentação do vilão Nitro, que faz a ligação direta com a Morte do Capitão.

A Morte do Capitão Marvel

– Afe! Finalmente, Tio Kadu. Quanta enrolação!

Querido, se você não sabe nem quem é o Capitão Marvel, qual o impacto? Sempre tem a Morte do Super-Homem para gente relembrar, se você não tiver paciência! Embora eu acredite que, mesmo você conhecendo pouquíssimo sobre o personagem, ler A Morte do Capitão Marvel é uma experiência incrivelmente emocional. Escrita como poucos, com o objetivo de ser a canção final de um herói que era tido como exemplo pelos outros heróis da editora. Mesmo sem um sacrifício final, como no caso do Super-Homem, você tem uma sensação de respeito e perda muito fortes. E isso dez anos antes do kriptoniano bater as botas, hein?

Como eu disse na Rebobinando #51, no início dos anos 80 Jim shooter, editor-chefe da Marvel, decidiu lançar uma nova linha de quadrinhos mais pomposos chamada de Marvel Graphic Novel, para aproveitar um aumento de vendas durante o verão dos EUA! A linha apresentava histórias com os personagens da Marvel em uma publicação de capa dura, no formato europeu (21 cm x 28 cm) e com papel especial. Era uma tentativa de alavancar os títulos da editora ao patamar de arte. Ou talvez fosse só um jeito de arrancar dinheiro dos fãs. O fato é que funcionou bem e de 1982 a 1993 eles publicaram bastante coisa dentro dessa linha. A Morte do Capitão Marvel foi a primeiríssima edição da Marvel Graphic Novel escrita e desenhada por Jim Starlin.

Composto Treze: A Morte Instantânea!

A história, porém, começa bem antes da publicação da Graphic Novel. Mais especificamente em 1974 nos EUA, em Captain Marvel #34. No Brasil, a história “O Homem Que Explodia” foi publicada em outubro de 1980, na edição Heróis da TV #16. O título fazia alusão à primeira aparição um vilão que ficaria conhecido como o estopim da Guerra Civil da Marvel anos depois, Nitro. Criado pelo próprio Starlin, o destruidor de Stamford tem sua origem nas mãos de um cientista Kree, que lhe concedeu seus poderes de explodir e reformar seu próprio corpo. Com a missão de roubar um misterioso gás nervoso chamado Composto Treze, o vilão atacou o comboio que transportava o produto de uma base aérea americana sob os cuidados de Carol Danvers (que havia desaparecido das histórias desde o cancelamento de sua revista).

Após o ataque e o roubo do composto treze, ele se acidenta batendo com o seu caminhão no carro em que Rick Jones estava, no meio da estrada. O jovem sidekick estava entrando em turnê com seus amigos quando o vilão praticamente caiu no seu colo. Percebendo o perigo, Rick troca de lugar com o Capitão Marvel e os dois começam a sair no tapa. Depois de algumas explosões, Nitro foge novamente e Carol Danvers chega para explicar o tamanho do problema. Em seguida, rola uma perseguição e mais umas bordoadas até Mar-Vell conseguir derrotar o novo bandido. Só então ele percebe que o recipiente do gás está vazando! Usando as próprias mãos, ele consegue fechar o tubo e impedir o composto treze de causar um desastre incomensurável. Porém ele não consegue evitar de respirar o produto venenoso e desmaia logo depois.

O princípio do fim.

Após suas muitas aventuras que culminaram em sessenta e duas edições da revista Captain Marvel e outras aparições em revistas de outros heróis, Mar-Vell descobre que está com um cancêr inoperável. Acontece que o tal do composto treze era um carcinogênico potente e, ao respirá-lo, o herói foi imediatamente afetado. Em sua última aventura, ao lado do pai e irmão de Thanos, o Capitão Marvel conta pela primeira vez que está morrendo. Os Titãs se preocupam e começam a investigar uma forma de conter a doença, porém o herói já se mostra resignado, dizendo que com o seu poder de Consciência Cósmica, nada pode se esconder dele, nem mesmo a verdade sobre sua própria doença.

A edição então toma um tom mais sombrio quando ele começa a buscar reparações com amigos distantes, dizer adeus e contar a verdade a todos a sua volta. Mentor, o pai de Thanos, busca toda ajuda possível entre os especialistas de Titã, sem sucesso. Ao perguntar se os Kree não poderiam ajudá-lo, Mar-Vell conta que por ser considerado um traidor do império, ele jamais obteria ajuda da sua raça. E mesmo que conseguisse, não seria garantia nenhuma de que eles tivessem algum tipo de cura, por se tratarem de uma raça guerreira e não cientista. Ao alertar Rick Jones sobre sua condição, os dois acabam tendo uma grande discussão, o que leva ao jovem ex-sidekick a ir buscar ajuda por conta própria. Ao perguntar se Reed Richards, o Fera, Hank Pym e mesmo o Doutor Estranho não poderiam fazer alguma coisa, Rick se decepciona com todos e sai revoltado e desesperado.

Tossir em filmes, séries e gibis aparentemente é uma sentença de morte. Se sair sangue então, xiiii!

Com a notícia finalmente dada a todo o universo Marvel, todos vão à lua de Saturno, Titã, prestar seus respeitos e, quem sabe, ajudar um dos maiores heróis do universo. Queimando a mufa para arranjar um jeito de derrotar ou pelo menos retardar mais o câncer do Capitão Marvel, os maiores cientistas da editora se unem para avaliar o caso e percebem algo inusitado. Acontece que a energia negativa dos nega-braceletes do Capitão foi capaz de retardar todos os efeitos do câncer por muito tempo, prolongando sua vida muito além do esperado. A doença, porém, foi se adequando a essas energias, mutando e ficando mais resistente. Além disso, os próprios nega-braceletes também impedem que qualquer método de combate ao câncer conhecido seja usado eficientemente para eliminar a doença. Seja ciência ou magia, nada passa pelas energias negativas dos nega-braceletes que, ironicamente, são a única coisa que o mantém vivo. E também são o que impede as maiores mentes do universo de curá-lo!

Derrotados, nada mais resta a não ser dizer adeus ao Capitão Marvel. Um por um, os heróis da Terra vão entrando no quarto do herói moribundo, lamentando, contando histórias, trocando memórias e, num determinado ponto, um general Skrull aparece. Tocado pela emoção do momento, ele declara que, como uma raça guerreira, os Skrulls não poderiam de homenagear aquele que eles consideram um grande guerreiro, mesmo que ele seja um inimigo de batalha. O general entrega a Mar-Vell uma medalha de honra e vai embora. Ao fim de tudo ele entra em coma e somos levados ao final da história.

Se ATÉ O THOR tentou, é porque estavam desesperados mesmo.

Thanos, que havia sido derrotado anteriormente em A Saga de Thanos, foi transformado em uma estátua de pedra. Ao final da vida de Mar-Vell, ele desperta e, ao lado de sua amada Morte, vai em busca do Capitão. Decepcionado com um fim de vida sem luta, ele transforma o herói em sua versão saudável e os dois caem na porrada. No fim, nós entendemos que esta é uma batalha mais metafórica do que real, onde Mar-Vell aprende que a morte é o caminho de todas as coisas vivas, mesmo elas estando no universo Marvel ou não.

Ao finalmente aceitar a morte, sem disfarces, sem desculpas, Mar-Vell cruza o portal em companhia da Morte e de seu grande inimigo. Finalmente em paz.

A Viagem.

Tô LendoPontos Fortes
  • Emocional. É uma história forte e muito bem construída. A emoção rola solta no fim e, se você tiver algum caso da doença na família, ou algo do tipo, é uma porrada. Mas tudo escrito com muito cuidado, sem sensacionalismo.
  • Arte. Impecável. Pelas mãos de Jim Starlin, ele faz uns painéis com cenas de batalhas e com todos os heróis da Marvel que são lindíssimos.
  • Disponibilidade. Fácil de achar. Se não for a edição original de Marvel Graphic Novel #3 que saiu no Brasil em 1988, existem as edições das coleções da Salvat (#25, de 2017) e a da Panini (também lançada em 2017).
Tô LendoPontos Meh
  • Mix dos Encadernados. Os encadernados tem uma série de histórias para justificar o volume e o preço que você poderia facilmente deixar de lado. Tirando talvez a edição de Captain Marvel #34 que seria uma leitura interessante só pela primeira aparição do Nitro e ser o estopim da doença que matou o Capitão Marvel, o resto é meio “meh”, ok.

Os painéis super detalhados de Starlin.

Se você nunca leu, eu recomendo fortemente! Mesmo com todos os potenciais spoilers na coluna, não duvido que a história vai te pegar de qualquer jeito. Foi uma morte de super-herói como poucas que eu já vi. Nem mesmo o Super-Homem teve um impacto tão permanente nas histórias da DC. Mesmo com os gimmicks de histórias posteriores que trouxeram o personagem de volta a vida só para morrer de novo depois, isso não afeta o legado que ele deixou, em especial para a Carol Danvers. O cara é praticamente o tio Ben da Capitã Marvel. Às vezes vai, às vezes volta, mas a regra é mantê-lo morto como inspiração para a heroína atual.

O que é bacana, porque para mim a Marvel sempre teve uma lacuna na posição “Mulher-Maravilha” da editora. Tanto que no crossover Marvel x DC, a adversária direta da Diana foi a Tempestade e isso para mim nunca teve muito a ver. Ter a Carol Danvers como Capitã Marvel e como uma powerhouse dos Vingadores, além de ser a heroína que carrega o nome da editora foi uma jogada muito bem pensada da Marvel em 2012 e aparentemente está rendendo frutos até hoje.

Se você quiser saber mais sobre as histórias recentes da Carol Danvers, o Tibério falou de dois encadernados da heroína Nas Prateleiras dessa semana! Confere lá!

A Morte do Capitão Marvel vale 5 Rebobinandos! 📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2019-03-11T09:23:19+00:00 4 de março de 2019|9 Comentários
  • Ótima recordação e bela consideração sobre o papel da nova capitã na Marvel. Tenho a revista que trouxe a história pela primeira vez ao Brasil. Sem capa dura, foi uma das primeiras da série Graphic Novel. A primeira foi uma dos X-Men, se não me engano.

    • Sim, aqui no Brasil a primeira foi “Deus Ama, o Homem Mata” (que serviu de inspiração para X-Men 2). A Morte do Capitão Marvel foi a edição #3 por aqui, se não me engano.

  • Jean Carlos

    Caraca kadu, esse falta na minha coleção mais vou comprar um dia e acho que todo colecionador de Gibis tem que ter esse na coleção.

    • Concordo, Jean. Essa Graphic Novel é essencial para um colecionador de quadrinhos. Pelo menos com o status de clássico que ela tem, fica mais fácil de achar, né? Vale super a pena!

  • Mais uma bela coluna, Kadu! Sinto que a gente deveria ter lido ela antes de gravar o Podcrastinadores da Capitã Marvel (gravamos na sexta passada). Tem várias coisinhas que você citou na sua pesquisa que podem ser classificadas como homenagens e easter eggs no filme!

    • Pô, bacana. Pena que não saiu antes! Mas vale a menção se vocês fizerem um vídeo dos Três Elementos sobre a Capitã Marvel dessa vez com spoilers do filme! 😜

  • Mr_MiracleMan_Jr

    Excelente coluna sobre essa excelente Graphic Novel.

    Só queria dizer que o Thor ajudou ali porque ele era/é (meio confuso essa parada…) o médico Dr. Donald Blake.

    • Ah, bom saber! Nem lembrei que ele tinha passado de médico na época. Valeu pela lembrança! 😜

  • Ricardo Varotto

    Também tenho a edição original. Realmente é uma história pesada e altamente emocional.