Rebobinando #68 | Feitiço do Tempo

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Mais uma segunda-feira. Mais uma semana. Mais um ciclo mundano e interminável de casa-trabalho/escola-casa. Repetimos muitas coisas todos os dias e às vezes nem notamos. Chamamos isso de rotina. Mas e se essa repetição fosse mais literal ainda e tivéssemos que reviver O MESMO DIA por aproximadamente 10 anos? Segue na Rebobinando de hoje, que temos a resposta com Feitiço do Tempo!

Existem filmes que já nascem clássicos e existem filmes que viram clássicos ao longo do tempo. Incrivelmente, Feitiço do Tempo se encaixa nas duas categorias! Lançado em Fevereiro de 1993, o filme recebeu boas críticas, mas teve uma passagem meio morna pelos cinemas americanos. Acredito que pelos brasileiros também, visto que eu não dei muita bola quando saiu. Mas claro, 1993 foi um ano ocupadíssimo pros fãs de cinema de 11 anos como eu, que vibraram com Jurassic Park, O Último Grande Herói,Um Dia de Fúria, Família Addams 2 e, er… Uma Babá Quase Perfeita. Também teve, hã, Tartarugas Ninja 3? (vamos deixar esse último pra lá, vai?)

Enfim! Bill Murray e o Dia da Marmota passaram batidos por mim, isso é fato. E Feitiço do Tempo acabou sendo um dos filmes que eu passei a curtir nas reprises da TV e depois em DVD, quando eu já estava lá pela faculdade de comunicação nos anos 2000. Tendo algumas aulas sobre cinema e roteiro, e discutindo com alguns amigos sobre filmes bacanas comentei que dentre vários outros, este havia sido um que eu não lembrava de ter visto. Ao que me responderam daquele jeito clássico VOCÊ NUNCA VIU FEITIÇO DO TEMPO? PRECISAMOS REMEDIAR ISSO AGORA! E assim foi.

Será que Phil está com sorte?

E de fato, é um filme memorável. Além de ser daqueles que, ironicamente ou não, melhoram a cada vez que você o assiste. Porque ele é tão cheio de nuances e feito com tanto cuidado que você por vezes nota coisas que não havia notado das outras 37 vezes que o assistiu. Parece só uma comédia bobinha, um filme de romance qualquer, mas o roteiro te leva a indagar até o seu modo de vida, dependendo de como você o interpreta. Um ponto bacana levantado pelo saudoso Harold Ramis, o diretor do filme e caça-fantasmas aposentado, são as várias interpretações que diferentes pessoas tem ao assistí-lo.

Se você não sabe muito bem inglês, vamos lá:

É uma metáfora para muitas coisas. Foi algo que fiquei sabendo quando o meu amigo Trevor Albert me ligou num domingo – o filme havia estreado numa sexta –  ele me ligou e me disse que tinha um grupo de judeus ortodoxos amontoados na frente do cinema com cartazes na mão. Eu perguntei sobre o que eles estavam protestando e Trevor me respondeu que não estavam. Eles estavam com cartazes que diziam “você está vivendo o mesmo dia de novo, de novo e de novo?” (…) Minha sogra viveu por 35 anos num centro de meditação zen-budista e eu liguei imediatamente para ela no fim de semana e ela me contou que os abades e os monges amaram o filme e que acharam que era uma expressão fundamental de conceitos budistas. (…) E eu comecei a receber cartas de padres católicos e pastores cristãos, batistas e evangélicos dizendo que o filme expressa totalmente a filosofia cristã. (…) E a comunidade de psicólogos também apareceu dizendo que o filme é uma metáfora da psicanálise, já que nela revisitamos as mesmas histórias de novo, e de novo, para identificar padrões e rompê-los. (…) A minha idéia é de que o filme é como a Torá. Eu sou judeu e todos os anos os judeus lêem a Torá. Eles lêem a mesma parte nos mesmos dias do ano e todo ano o ciclo se reinicia. A Torá não muda, mas todo ano quando a lemos, nós estamos diferentes. Nossas vidas mudaram, nós estamos mais velhos. Nós temos filhos, ou não. Nossos relacionamentos mudaram, etc. E assim encontramos um novo significado. Não estou comparando o Feitiço do Tempo com a Torá, porque o filme é mais divertido (…) mas tem algo nele que permite que as pessoas reconsiderem o ponto em que estão em suas vidas a cada vez que assistem o filme e questionar suas atitudes.

Profundo, né?

Profundo, mas quem é que aguenta o NED RYERSON?!

O Roteiro

Danny Rubin foi o autor do roteiro que deu origem ao filme. Recém-chegado à Los Angeles, seu agente lhe sugeriu que ele escrevesse um roteiro que servisse de “cartão de visitas”, que ele poderia apresentar a inúmeros produtores em Hollywood. Assim sendo, ele começou a trabalhar no conceito de Feitiço do Tempo. A ideia partiu de uma pergunta incomum: “se uma pessoa fosse imortal, como ela mudaria com o passar do tempo?”. Como mudar o mundo ao redor de uma pessoa imortal seria muito trabalhoso de se fazer, ele resolveu juntar essa ideia a uma outra que ele teve de um cara vivendo o mesmo dia todo dia. Com isso ele conseguiu dar “um sentido” à repetição que o personagem principal viveria e veríamos como ele mudaria de acordo com esse tempo que passa só para ele.

A ideia de usar o dia da marmota foi puramente coincidental. Como o plano era fazer um sujeito “mudar de vida” durante o filme, ele tinha certeza de que deveria colocar a história próxima a algum feriado, tipo os filmes de natal. Porém o plano original era que tudo se passasse em meados ou final de janeiro. Como o dia da marmota, comemorado nos EUA e Canadá, acontece no dia 2 de fevereiro, essa foi a data escolhida! E por ser um feriado pequeno e sem muita pompa, ele parecia perfeito para um filme de comédia.

Comédia, romance, ação, marmotas… Esse filme tem de tudo!

Quando eu digo que o roteiro de Danny Rubin “deu origem ao filme” é porque ele não foi usado da forma que foi escrito. Um ponto interessante é que originalmente, o filme ia começar pelo meio! Tem um termo pomposo para isso chamado “in media res” e vários filmes que conhecemos começam assim. Seríamos apresentados ao personagem de Bill Murray, Phil Connors, já no meio do loop de tempo e descobriríamos aos poucos o que estava acontecendo. O estúdio não curtiu muito a ideia e mandou mudar. Harold Ramis, já sabendo que iria trabalhar com Bill Murray, também deu uma mexida no roteiro para agradar ao amigo e além disso, já no meio da produção, Bill passou uns dias com o roteirista para mexer ainda mais um pouquinho e adaptar as coisas pro seu estilo.

Então coisas como Phil terminando com a namorada no início do filme fazendo com que ela jogue uma maldição nele criando o loop de tempo foram cortadas. Ainda bem. O tempo do loop também mudou, já que segundo o próprio Harold, o plano era fazer durar 10.000 anos. No fim todos concordaram que seriam apenas 10 anos o tempo em que Phil ficaria preso vivendo o mesmo dia. Mas tem gente sem tempo na internet que fez as contas e aparentemente ele ficou preso no loop por 8 anos 8 meses e 16 dias. Ufa!

O Phil é todos nós numa segunda-feira de manhã…

Tudo nos Detalhes!

Apesar da história se passar na cidade de Punxsutawney, ela não foi gravada em Punxsutawney! Oh, que choque! Na verdade, a cidade é tão pequena mesmo que a produção não a achou “cinematográfica” o suficiente, indo gravar assim em Woodstock, no estado de Illinois, nos EUA.  Por conta disso, o verdadeiro Punxsutawney Phil, a marmota que prevê o clima, foi proibida de aparecer no filme. Houve, no entanto, pelo menos três outras marmotas disponíveis, uma das quais mordeu Bill Murray algumas vezes.

Mas uma das curiosidades mais mágicas que eu descobri sobre o filme, enquanto escrevia essa coluna foi mais um daqueles detalhes que fazem a diferença entre uma simples comédia e um clássico. Um cara percebeu que quando Phil vai aprender piano, a ele lhe é dado uma peça de Rachmanioff chamada Rapsódia Sobre Um Tema de Paganini. A questão é que a música é composta do chamam de variações. Pega-se um tema, uma parte de uma outra música, neste caso de Paganini, e toca-se essa mesma parte de novo, e de novo. Cada variação tem uma coisa diferente da anterior, mas ainda é a mesma música. O que é o mesmo tema de Feitiço do Tempo, claro! E olha que isso é apenas um detalhe, de uma cena curtinha!

Um virtuoso!

Tô LendoPontos Fortes
  • Bill Murray. O cara é sempre um ponto forte, considerado um dos gênios da comédia. É sempre bom ver seus personagens sacanas, mau-humorados despejando sarcasmo na telona.
  • Harold Ramis. Outro dos caça-fantasmas originais. Também é um ótimo diretor com um currículo de filmes muito bacanas.
  • Roteiro. Baita história. Engraçado, comovente, e como já comentamos, capaz de fazer você reconsiderar suas escolhas de vida.
Tô LendoPontos Meh
  • Difícil de achar. Vi na Netflix tem uns anos, mas não está mais no catálogo. Não passa mais com tanta frequência assim na televisão. Se você tem tevê a cabo, dá pra achar nesses serviços de streaming deles, ou baixar na internet.
  • Cópias. Depois dele o termo “groundhog day” acabou ficando popular para descrever tramas que se repetem, ou repetem o mesmo dia. Vários filmes depois surgiram com esse mesmo tema, uns bons, outros nem tanto. Mas este é o originalzão mesmo!

Durante as filmagens de Feitiço do Tempo, Bill Murray e Harold Ramis brigaram e ficaram uns bons anos sem se falar. Reza a lenda que Bill, sendo a diva que é, estava mais difícil de lidar no set por conta de problemas conjugais. Harold o mandou passar umas semanas com o roteirista Danny Rubin para “acertar o roteiro” e, de novo de acordo com a boca pequena, Murray ficou chateado porque esperava mais apoio do amigo. Felizmente, os dois acabaram se acertando novamente pouco antes do diretor falecer em 2014. Uma grande perda para o cinema.

O fato é que os dois formavam uma boa dupla tendo trabalhado em Clube dos Pilantras, Stripes e, claro, Os Caça-Fantasmas! E é sempre bom ver um filmão de comédia clássico dessa época de novo. E de novo. E de novo. E de novo…

Feitiço do Tempo vale 10 anos de rebobinadas! 📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼📼 …

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2019-02-04T10:33:24+00:00 4 de fevereiro de 2019|16 Comentários
  • Eu vi Feitiço no Tempo e lembro bem porque fui com meus pais.

    Mas nunca tinha me ligado que o loop tinha durado tanto tempo. Em pensava em coisa de meses até 2 anos, no máximo.

    • Cara, ele aprende piano, a fazer escultura de gelo, francês, entre outras coisas. Dois anos é muito pouco se você parar para pensar. Mas imagina a tortura que não é passar 10 anos passando pelas mesmas coisas? 😱

      • Roberto Hunger Junior

        Sim, a primeira vez que assisti eu senti que eram semanas, mas depois quando revi adulto realmente, ELE FICA ANOS naquele dia, pense bem, aprender música, conhecer todas as pessoas da cidade, foram sem dúvidas anos a fio naquele mesmo dia.

  • Fernando Ramos

    Filme maravilhoso! Parabéns pelo ótimo post, Kadu! Ah, e aproveitando, tem disponível no Prime Vídeo da Amazon!
    Abração!

    • Ah, bom saber. Eu não tenho Amazon Prime, tiver que ver por meios “interneticos” pra poder escrever o post, hehe.

  • Maneiro vai ser você repetir o post na segunda que vem

    • Hahahaha. O pior é eu pensei nisso! 😜

  • Ricardo Varotto

    Cara, você já postou isso antes. E antes, e antes, e antes, e antes…

  • Jean Carlos

    Esse com certeza vale 10 rebobinadas, eu consegui achar ele somente em download, é aquele tipo de filme que você assisti varias vezes. Mandou bem demais neste post Kadu!!!!

    • Acabei de saber que tá disponível na Amazon Prime. No NOW da Net também, 7 taokeys. 😉

  • Roberto Hunger Junior

    Nossa, como sou fã da sua coluna. Kadu, este filme merece mil rebobinadas, sempre. Recomendo que quando puder assista o lançamento da Netflix BONECA RUSSA, em um primeiro momento parece um plágio de O DIA DA MARMOTA, eu comecei a ver e me vi dizendo: “Ah não, sério que vão copiar o filme assim? “, uma estrutura e mecanismos de roteiro idênticos, a música grudenta, personagens caricatos que facilitam a memorização, etc e tal; contudo a história segue um rumo diferente lá pelo 4 episódio e eu acabei vendo as semelhanças mais como homenagens que cópias no final. Uma série redondinha, com FINAL (até permite um anova temporada, mas eles terminam a história nesta temporada), e um final bem amarrado, seguindo as mesmas lições de vida do Dia da Marmota. Confere lá e depois diz aqui o que achou.

    • Eu tava bem curioso com essa série, mas não tinha informação nenhuma sobre ela. Bom saber que é bacana, vou arranjar um tempinho pra assistir. Valeu! 😉

      • Roberto Hunger Junior

        Assista, ela tem seu ritmo próprio. Compensa.

  • Bruno Messias

    Eu já usei a musiquinha de Sony e Cher como despertador! Combina bem com minha rotina…