Rebobinando #66 | Corpo Fechado

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Os anos 2000 foram um ano de reviravoltas para o cinema. Um ano antes, as Wachowski haviam explodido a mente de todo mundo com Matrix! O verão americano havia explodido recentemente com os X-men de Bryan Singer. E mais pro finalzinho, o diretor “revolucionário” de O Sexto Sentido voltava às telonas com o seu segundo filme de grande estúdio. Que foi meio #FUÉN nas bilheterias, mas que ao longo dos anos seria elevado ao status de cult! Isso mesmo, bora se benzê que hoje é dia de Corpo Fechado!

Aquela sensação quando chegou tudo novo na banca, menos o gibi que você quer.

Eu gosto do M. Night Shananãn Shyamalan. Embora eu tenha que olhar três vezes no Google para saber como escrever o nome dele. Os filmes do cara em geral me agradam, pelo menos os de início de carreira. Lembro de looongas discussões que eu tive com alguns amigos cinéfilos durante a época da faculdade onde, eu procurava defender um ponto do roteiro, ou uma escolha de plano, e tinha que ouvir horas de “palestrinha” sobre cinema. Era divertido, porque no final ninguém concordava e ia todo mundo ver Senhor dos Anéis juntos. Discussões acaloradas sobre cinema com amigos de faculdade é o ápice do esnobismo que qualquer ser humano pode vivenciar.

Enfim, eu fui um daqueles que assistiu O Sexto Sentido tomando spoiler, sabe? Então eu pude conferir desde o início as “pistas” deixadas pelos diretor para o final chocante. E que final, viu? Esse foi um dos pontos altos da carreira do cara, que eu acho que também foi o seu calcanhar de Aquiles. Depois do twist de o Sexto Sentido, pareceu que todo filme que ele fez depois ele tentava surpreender a audiência de alguma maneira inesperada! Como se todos estivessem esperando isso dele (e estavam) e como se ele fosse contratualmente obrigado a colocar uma grande virada no roteiro para sempre (o que ele estava) (não,péra…)

No final, acho que foi essa expectativa que acabou levando a carreira dele pro buraco…quer dizer, que buraco, né? Ele tá lá fazendo filmes e sendo rico e eu não, mas vocês entenderam o que eu quis dizer. Quando antes os trailers de filmes dele vinham antecedidos com tags do tipo “do mesmo diretor de O Sexto Sentido”, agora a maioria tenta passar o nome do cara de forma despercebida, como quem não quer nada. Ainda assim, pode não parecer depois de tanta crítica, eu curto bastante além de O Sexto Sentido e Corpo Fechado, Sinais e A Vila. Acho que são bons suspenses. Mas só.

Se a capa do David fosse vermelha a gente ainda podia dizer que ele tem o corpo fechado por causa de São Jorge e tals…

Perdido na Tradução

Fui rever recentemente o filme para me preparar para a estreia de Vidro, e para escrever esta coluna, e algo curioso aconteceu. Minha esposa, que nunca havia visto o filme perguntou sobre ele e achou que houvesse alguma coisa “mística” ou uma espécie de pacto com alguma entidade espiritual, ou algo assim, que justificasse a escolha do nome do filme: “Corpo Fechado”. Achei engraçado porque lembrei de comentários na época da estreia de que o nome não condizia exatamente com o tom do filme. Vale lembrar que na umbanda, ter o “corpo fechado” quer dizer que você tem alguma espécie de proteção espiritual contra energias negativas, e tal. Não quer dizer que você pode levar tiro, ou se jogar na linha do trem e sair ileso.

Muito embora o termo tenha caído na gíria popular e ganhado esse sentido, o nome escolhido para a tradução de “unbreakable” (inquebrável), foi até esperta, mas para um espectador mais descuidado, vai dar uma ideia totalmente errada do que é filme. Ainda mais se você considerar a relação entre David Dunn e Elijah Price! Onde um se quebra como vidro e o outro é… inquebrável. De qualquer forma, isso é só birra minha mesmo, eu não tenho uma solução melhor para o nome do filme e Corpo Fechado funciona ok.

Apesar de ter várias referência a quadrinhos conhecidos, a produção bolou algumas capas para usar como referência direta no filme.

Ode aos Quadrinhos

Pro fã de quadrinhos mediano, isso pode até ter passado despercebido numa primeira assistida. Passou pra mim, sendo bem sincero. Mas o filme é uma homenagem do início ao fim às histórias em quadrinhos! Foi uma produção super bem bolada em cima de uma pá de conceitos que só a gente que se alimenta de gibi é capaz de reconhecer. Se você tiver alguma chance de re-assistir esta pérola, tira um tempinho, pois o filme é curto e dura só 1h40min. Vai ver de novo! Tá na Netflix e tudo!

O Timbaland Shyamalan começou a bolar o roteiro durante a produção de O Sexto Sentido, e conversou com Bruce Willis sobre a possibilidade de trabalharem juntos novamente. Ele havia pensado em Samuel L. Jackson para o papel do Sr. Vidro e usando o bom e velho “networking”, afinal os dois trabalharam juntos em Duro de Matar 3, conseguiu que o roteiro chegasse às mãos do maior mothafucker em Hollywood! É bom ter contatos!

O plano inicial era fazer uma história clássica de herói em três atos: “A origem”, “o aprender sobre os poderes e luta com vilões genéricos” e o final na “luta com o arquiinimigo”. A maioria dos filmes de super-heróis funcionam com essa fórmula, desde Homem-Aranha do Raimi até o Homem-Formiga do MCU. Por achar que a origem continha mais elementos interessantes, Shyamalan decidiu focar apenas no nascimento de David Dunn como herói.

Outros detalhes do filme são os planos que o diretor escolheu. Num lance de gênio muito mais eficiente que o Hulk de Ang Lee em 2003, o Tio Shya usa como base os ângulos meio loucos que vemos apenas nos gibis. Umas câmeras invertidas, uns giros meio doidos, uns contra-planos mais ousados. Ou ainda como em vários momentos os personagens se encontram em frente a lugares como portas ou janelas bem demarcadas, parecendo que estão dentro dos quadrinhos de um gibi.

O destaque das cores de quem faz coisa ruins, como esta mãe que maltrata o filho, e que acaba esbarrando em David.

E apesar das cores do filme serem meio lavadas, quase como no estilo sem-humor do Zack Snyder, tanto o herói quanto os vilões têm cores específicas que os destacam da multidão, como os seres únicos que são. Em geral, as roupas de David e tudo o que o envolve são verdes, como itens de decoração da sua casa ou mesmo sua capa de chuva que também faz às vezes de capa de super-herói, duh. No caso de Elijah a construção do personagem foi além da cor. Podemos ver como predominam o roxo (porque o Samuel L. Jackson curte roxo, claro) e os itens de vidro! Coisas como a fachada da sua loja, a Limited Edition, com aparência de vidro quebrado, ou mesmo sua bengala que é feita de vidro. Até mesmo a peruca que o ator usa no filme foi inspirada no cabelo do estadista abolicionista Frederick Douglass. “Doug” + “Glass”… entendeu? Hein? Hein?

Ainda com relação às cores, outros malfeitores que aparecem em tons de destaque como vermelho ou laranja gritantes. Como o zelador do mal que David enfrenta no final do filme, ou a mãe que maltrata o filho, mais para o início do filme. O uso mais óbvio da temática de quadrinhos, inclusive, é o próprio nome do personagem principal, David Dunn. Uma aliteração muito comum para quem conhece Peter Parker, Clark Kent ou Matt Murdock.

O vilão Mr. Glass e o abolicionista Frederick Douglass!

Tô LendoPontos Fortes
  • É um bom filme. Òtimo suspense. E mesmo que o “twist” final pareça meio jogado de graça e até desnecessário, pelo menos da forma que foi feito, não compromete o tempo investido assistindo, sabe?
  • Clássico Cult. Daqueles incompreendidos na bilheteria do cinema, mas que vendem DVD para caramba porque são admirados por poucos, aos poucos. Pena que ninguém mais compra DVD.
  • Atores ótimos! Fala sério! Bruce Willis e Samuel L. Jackson! Sem contar a Robin Wright, a Sra. House of Cards! (e o garotinho viria a ser o Werner Von Strucker em Agentes da S.H.I.E.L.D.)
  • Be-a-bá dos quadrinhos. A cada aparição de Elijah Price ele dá uma pequena aula sobre quadrinhos. São curiosidades bem bacanas.
Tô LendoPontos Meh
  • Final meio jogado. Eu acho meio ruim esse lance de final com “legendas sobre o que aconteceu depois”, mas é mais birra minha do que qualquer outra coisa. Achei que a apresentação da vilania do Sr. Vidro como um twist também meio desnecessária, mas, ei, funciona prum filme do Mináite Jambalaya, M. Night Shyamalan.
  • Continuação. Demorou muito para ter uma continuação e, confesso, só fui assistir Fragmentado em 2017 depois que me contaram que ele fazia parte de um Shyamalanverso! Quero ver Vidro, mas tenho minhas dúvidas ainda.

Muito giro!

E você? Tem algum filme do Sienkiewicz Shyamalan que você odeia? Ou que abomina? Ou ainda algum que você goste, mas não conta pra ninguém? Pode contar aqui pra mim! Eu juro que guardo segredo, afinal de contas, já estragaram para mim o final de o Sexto Sentido mesmo… eu sei bem como é ter um segredo revelado e ir ver um filme sabendo que o Bruce Willis está morto desde o início! Opa.

Corpo Fechado vale cinco rebobinandos, até debaixo d’água! 📼📼📼📼📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2019-01-21T12:20:39+00:00 21 de janeiro de 2019|11 Comentários