Rebobinando #65 | A Saga do Clone

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Antes de existir um Aranhaverso, antes de existir um Aranha-Gedon, houve um terrível evento que juntou centenas de Homens-Aranha numa mesma história. Ou melhor, centenas de Peter Parkeres, já que todos eram ele mesmo e não meras versões de universos alternativos. Sim, a Rebobinando abre o novo ano falando da infame SAGA DO CLONE!

A Teia do Aranha #31 e o “fim” do clone, antes dessa confusão toda!

Vou te dizer que quando a Saga do Clone chegou aqui no Brasil, em idos de 1997, eu achei a ideia maneirissima. Como não havia Internet em larga escala por aqui (cofcofcof, #velho, cofcofcof) eu tirava minhas informações extras sobre quadrinhos das revistas sobre quadrinhos que existiam aos montes na época (tipo a finada Wizard, sdds). Como eu havia começado de fato a ler o Homem-Aranha em uma edição da Teia do Aranha que mostrava o retorno de Gwen Stacy, acabei pegando logo de cara a primeira Saga do Clone, na verdade. Quase um ao vivaço, já que A Teia reimprimia edições mais antigas. Então um dos primeiros super vilões que eu tive contato foi o Chacal!

A única coisa que eu não entendi foi como ele passou de um uniforme marrom para verde. Porque eu lembro claramente que a roupa de chacal dele era um bege/marrom, mas hoje nas reedições encadernadas que eu achei online eles mudaram tudo pra verde e eu tô me sentindo em 1984, o livro, porque a Marvel mudou o passado e eu não tenho meus gibis velhos para confirmar (me ajudem, #OCHACALNUNCAFOIVERDE)!

A saga tinha todos os ingredientes dos Anos 90 que chamariam a atenção da molecada, mas que após uma análise fria na idade adulta não se sustenta de jeito nenhum! Era uma época onde o Super-Homem havia morrido, onde o Batman havia ficado aleijado, e esses heróis foram substituídos por versões mais musculosas, mais violentas, mais RRRRAAAARRRGH, e com mais trabucos do tamanho de uma vaca! Então o que poderia dar errado ao aplicar esses mesmos conceitos a um super-herói mega boa praça e cheio de alegria como o amigão da vizinhança?

A princípio, muita coisa. Vem comigo!

As capas de tudo o que começou a dar errado nos anos 90!

A Morte do Super-Homem.

Como eu disse antes, parte da culpa recai sobre a Distinta Concorrência e a morte do último filho de Krypton. A DC havia matado seu principal herói numa tentativa quase desesperada de alavancar as vendas. Com o sucesso absurdo da história, ela atacou de novo aleijando o morcego de Gotham, resultando em outro saldo positivo nas vendas. Comendo poeira no mercado de gibis, a Marvel percebeu que precisava fazer algo parecido com os seus personagens e assim surgiu um “plano de reformulação” do Homem-Aranha.

Veja bem, o Aranha estava passando por momentos difíceis em meados da década de 90. Tendo lançado Venom ao estrelato de anti-herói, as próprias histórias do aracnídeo começaram a ter um tom mais sombrio! Aí alguém achou que seria uma boa pegar o clima de pesadelo de A Última Caçada de Kraven e fazer disso a base temática de todas as revistas mensais. Sendo assim Peter encarava muitas histórias daquelas com teor psicológico mais pesado, com cenas escuras e aquelas caixas de texto com uma palavra só tipo “chuva”, “frio”, “dor”, “morte”. Decisões editorias acabaram por matar Harry Osborn. Aí trouxeram de volta os pais de Peter, só pra matá-los novamente porque eles eram construtos artificiais criados pelo Camaleão (não pergunte). Então adoeceram (de novo) a Tia May. E aos poucos começaram a fazer o Aranha se afastar cada vez mais de sua humanidade.

Enfim, era uma depressão só.

Até o clone estava parecendo os fãs reclamando da falta de humor do Peter Deprêrker!

Os editores e roteiristas sentiam que o público não estava mais se conectando com o Homem-Aranha porque ele estava deprê demais e “adulto” demais, com problemas no casamento, sendo despejados de seu apartamento, Mj começando a fumar, etc. Perceberam então que precisavam de uma saga onde pudessem “resetar” o herói para suas “configurações de fábrica”, tipo o próprio Super-Homem que voltou de cabelo comprido, ou mesmo o Batman que foi substituído pelo Azrael.

Em uma reuniã, o roteirista Terry Kavanaugh sugeriu trazer de volta o clone da história dos anos 70. Foi uma ideia que todos odiaram, pelo menos até que J.M. DeMatteis percebesse as enormes possibilidades que esse retorno traria! Em suma, dizer ao público que Peter era o clone e que o clone perdido era o verdadeiro Peter. Todos sabiam que esse aspecto da história iria gerar muita controvérsia, mas se eles conseguissem encaminhar tudo direitinho, o Aranha poderia sofrer seu tão sonhado reset e, de quebra, ser solteiro de novo! Sim, porque o maior problema de qualquer um que escrevia para o Homem-Aranha naquela época era o casamento com a Mary Jane. Afe! Vai entender!

Então, com tudo estabelecido era só uma questão de tempo até colocarem o clone de volta pra jogo. Nos planos originais, a Saga do Clone deveria ter durado apenas seis meses, culminando na troca entre Ben e Peter na edição de número #400 de The Amazing Spider-Man.

Mas não foi bem assim porque ao veio a…

Porquê tanto ódio nesse coraçãozinho, Peter?

Crise Nos Infinitos Mercados de Quadrinhos

O início dos anos 90 viu um boost de vendas como nunca antes! X-men #1 de Lee e Claremont vendeu mais de 8 milhões de cópias! As agruras de Super-Homem e Batman vendiam que nem água… e tudo isso gerou uma movimentação no mercado de quadrinhos. Gente que nem comprava gibi estava comprando mais e mais edições com o intuito de guardar para vender num futuro próximo, na esperança de ganhar milhões . Nessa época, já havia histórias de gente encontrando uma Action Comics #1 em bom estado e vendendo por uma grana alta. Isso gerou muita especulação e uma oferta muito grande de gibis nas bancas e Comic Shops.

Mas é aquela máxima do capitalismo, né? Oferta e procura. Veja bem, uma Action Comics #1 só vende bem hoje em dia porque existem pouquíssimas edições originais. X-men #1 de 1990 vendeu mais de 8 milhões de cópias. Provavelmente hoje em dia deve valer até menos do que o preço de capa.  

Os clones do Aranha nos anos 90 talvez sejam a MÁXIMA METÁFORA sobre quantidade não ser a mesma coisa que qualidade!

Por conta disso, o mercado entrou numa crise grande, quase levando à falência a Casa das Ideias. Inclusive foi mais ou menos nessa época que a editora vendeu os direitos de seus heróis mais famosos para os grandes estúdios de cinema, causando essa nossa ânsia de ver o acordo entre a Fox e a Disney finalmente dar certo, para podermos ter um filme do Capitão América e Wolverine se encontrando na Segunda Guerra! 😉

Só que quando uma empresa entra em crise, uma das primeiras coisas que ela faz é demitir pessoas! Desta forma, o editor-chefe da Marvel, e um dos idealizadores da saga, Tom DeFalco, foi mandado embora. Porém antes de aceitar a ideia de trazer o clone de volta, DeFalco exigiu que fosse criado uma espécie de salvaguarda que permitisse o retorno de Peter como o verdadeiro Homem-Aranha, caso a resposta do público fosse muito negativa à revelação de que Ben Reilly não era o clone. Com ele fora da jogada, essa condição meio que foi pro buraco…

Mal sabia você, Ben…!

O Reino das 5 Marvels.

Com a crise e as demissões, a Marvel passou por uma reestruturação onde acabou a figura do editor-chefe, e cinco novos editores foram nomeados para cuidar cada um do seu canto na Marvel, respondendo diretamente ao CEO. Assim sendo, a casa das ideias passou a ter um editor responsável pelo Aranha, outro pelos X-men, outro pra tomar cuidar do que chamavam de “Marvel classic” (Vingadores e quarteto), mais um para a “Marvel edge” (Justiceiro, Demolidor, etc) e um último para a Marvel Entertainment, responsável pelos desenhos animados, videogames e afins.

Era muita muito cacique para pouco índio!  Sem contar que nesse tantão de gente mandando começou a surgir muita competição para ver quem vendia mais. O que acabou dando para a galera de Marketing & Vendas um poder de decisão maior, que afetava diretamente os títulos de acordo com o que eles achavam que estava “vendendo mais”. Dessa forma, a Saga do Clone passou a ser esticada indefinidamente. Assim, quando estavam perto de uma conclusão, ela foi adiada para colocar mais clones, com a edição especial Clonagem Total (fazendo referência a outra história bem anos 90, Carnificina Total). Só que depois disso ela precisou ser esticada de novo para não bater com a conclusão de a Era do Apocalipse! Essa saga dos mutantes, por sua vez também já tinha sido esticada além do necessário, além de ter sido concebida como uma resposta do editor, Bob Harras, à própria saga do clone.

O final sofreria um adiamento mais uma vez, quando Ben Reilly já estava agindo como Homem-Aranha há algum tempo, para não bater com a conclusão de Massacre, uma saga que envolvia nãos só os X-men dessa vez, mas também os Vingadores e o Quarteto.

Além disso, a área de marketing da Marvel passou a interferir quase que diretamente, exigindo que as histórias do Aranha trouxesse mais e mais clones, porque “era isso que a molecada queria”, gerando cada vez mais plot twists, cada vez mais vilões absurdos (Aracnocida, alguém?), cada vez mais mistérios e possíveis masterminds!

O grande momento! Desenhado pelo Sal Buscema. #FUÉN

Eu, eu mesmo e minha Aranha!

Um dos editores da época, Mark Bernardo disse o seguinte:

“Ironicamente, esse arco de histórias, que deveria simplificar o Homem-Aranha e trazê-lo “de volta às origens”, acabou confundindo tudo de uma maneira que ninguém esperava!”

E foi bem por aí. Durante seus seis primeiros meses, talvez, a Saga do Clone fez bastante sucesso entre os leitores. Muita gente se viu intrigada com o retorno do clone e muitos curtiram demais a introdução do Aranha Escarlate no lore do Homem-Aranha. Mas aos poucos foi ficando claro que ninguém mais sabia que direção tomar. Twists foram sendo acrescentados em cima de outros twists, mistérios em cima de mistérios e eu acho que eu nunca vi tanto roteirista perdido assim numa história desde LOST.

Personagens foram apresentados e esquecidos sem a menor cerimônia. Pessoas que pareciam ter algum plano secreto acabaram sendo deixadas de lado ou transformadas em manés. Alguém lembra de Judas Traveller? O viajante super poderoso que queria estudar a “origem do mal”, mas que era só um psicólogo maluco que desenvolveu tardiamente seus poderes mutantes de ilusão? Ou do Scrier, uma figura sinistra, parecendo a morte, mas que na verdade era um bando de capanga vestido de preto que fingiam ser uma entidade só? Ou ainda do Ogro, um cara cadavérico numa roupa de suporte vital, que parecia ser o mandante da saga toda, mas na verdade era só o Mendell Stromm disfarçado.

Aracnocida, Scrier, Judas Traveller, Ogro… tantos personagens, tantos furos no roteiro…!

Nesse meio tempo, uma saga que deveria ter durado seis meses, já estava rolando há dois anos e dois meses! Ela havia começado em outubro de 1994 e só foi terminar em dezembro de 1996! No finalzinho, Ben já havia se tornado o novo Homem-Aranha, e Peter havia perdido os poderes e saído de Nova York. Mas aí ele ganhou os poderes de volta, e retornou a Nova York com Mary Jane está a prestes a ter um bebê. Kaine o novo vilão já havia virado uma espécie de “amigo” enfim, muita coisa já tinha rolado e muitos buracos sobrando.

A essa altura, tanto os leitores quanto a Marvel queriam mais é que essa saga acabasse de uma vez por todas e socorro!

Entra de novo, Bob Harras. Durante as muitas mudanças na Marvel na época, Harras virou o novo Editor-chefe geral. E para encerrar de vez a história ele usou uma ideia dada por Dan Jurgens, que havia entrado pra Marvel recentemente para trabalhar no Aranha-Reily. Mas o escritor e desenhista odiava o Ben Reilly, ele queria resolver tudo de uma vez para começar a trabalhar com Peter Parker. Para Jurgens, o jeito ideal de resolver tudo era fazer com que “Ben se sacrificasse e derretesse ao morrer, mostrando que era de fato um clone, com Peter voltando à ativa, e o vilão por trás de tudo era Harry Osborn. Ah, e MJ perde o bebê”.

Um dos momentos mais tristes da Saga do Clone.

Com os inúmeros adiamentos do final, Jurgens já estava se sentindo meio frustrado e ameaçou se demitir. Por conta da Saga Massacre, e mais um adiamento, Dan Jurgens caiu fora, assim como Bob Budianski, um dos editores do Homem-Aranha que acompanhou boa parte do sofrimento que foi escrever essa saga. Antes de sair, porém, ele mandou um memorando para todos na editora fazendo uma única ressalva para o fim da história. Que o grande vilão fosse o Harry, mas que de jeito nenhum fosse Norman Osborn! Para ele, a morte do vilão em “A Noite que Gwen Stacy Morreu” é clássica e não deveria ser mexida. “Deixem que ele descanse em paz”, Budianski pediu.

Bob Harras escutou?

Óbvio que não.

Tô LendoPontos Fortes
  • Deu uma Mexida. Claro, o objetivo era sacudir a vida do Aranha pra aumentar as vendas. Trazer um “novo” Homem-Aranha, sem tanta bagagem, solteiro, etc. Era um reboot de leve que, se feito de maneira decente, poderia até durar mais do que durou.
  • Início bom. Convenhamos, o comecinho da saga não foi de todo ruim, mas o problema maior foi que ela foi feita em uma época muito ruim da editora, com muitas mudanças internas e necessidade de fazer dinheiro rápido. O que culminou nessa zona que ninguém mais sabia como terminar!
  • Desenhistas consistentes. Não todos, claro. Mas nessa época Mark Bagley e John Romita Jr. desenhavam bastante coisa do herói e eu curto muito os dois. Joe Bennet, Mark Wieringo, Luke Ross entraram durante a parte da saga com Ben Reilly já de Homem-Aranha e também mandaram muito bem.
Tô LendoPontos Meh
  • Tudo, né? Depois dessa explicação toda sobre o porquê da saga ter falhado miseravelmente, acho que não resta dúvidas. Todos os plot twists, os mistérios não revelados, ou os mistérios meia-bunda revelados, só mostraram que ninguém tinha o menor controle sobre o que estava acontecendo ali. Uma pena. Se tivesse durado pouco tempo e resumido tudo isso em, sei lá, um terço do que foi, talvez tivesse sido uma saga memorável.
  • Desenhistas ruins. Parece que pela falta de grana, a Marvel tava contratando qualquer um na época. O que foi meio triste, porque foi um samba lelê de desenhista ruim que valha-me deus, viu? Tirando um ou outro medalhão, como eu já mencionei, a maioria parecia bem iniciante mesmo e tem umas histórias enoooormes com uns desenhistas sofríveis que eu mal lembro o nome.

Reilly foi o Homem-Aranha por um tempo. Com um uniforme esquisito, mas com histórias “ok” no final das contas.

Taí uma memória ruim, viu? Apesar de ter curtido o iniciozinho, lembrar de coisas como “Clonagem Máxima”, ou o Chacal Verde de sobretudo de couro, ou o Aracnocida, ou toda a viagem que foi essa saga é uma tristeza. Mesmo a parte em que Ben se torna o Aranha, algo que seria o “fim” da história, tem seus momentos legais. Ainda assim fica tudo meio ofuscado pelo festival de cocô que é o restante da saga. Uma pena. Porque poderia ter sido um marco positivo nas histórias do Cabeça-de-teia.

Ainda assim, alguns anos depois, em 2009, com Tom DeFalco de volta à Marvel, a Saga do clone foi relançada “da maneira certa”. Baseada nas linhas gerais das primeiras reuniões, DeFalco, juntamente com Howard Mackie, escreveu uma mini em seis edições, desenhadas por Todd Nauck. É bacana, no final, mas ainda fica um gosto amargo, sabe?

Pelo menos eles não usaram uma das ideias que foram jogadas enquanto pensavam num dos muitos finais, que envolvia viagem no tempo, um loop temporal e o Mefisto mandando o Peter pro passado para ele viver como Ben Reilly até o presente e fazendo com que Ben e Peter sejam de fato a mesma pessoa.

Porque esses editores adoram usar o Mefisto pra justificar as merdas que eles fazem com o Aranha?

*ufa* A Saga do Clone vale apenas uma Rebobinando e olhe lá! 📼

Kadu Castro

Por: Kadu Castro

Quadrinista, criador do “Escalafobético, O Ornitorrinco” ( e ainda esperando o sucesso). Professor de Inglês. Fã de quadrinhos. Aprendeu a desenhar vendo o Jim Lee, mas é fã mesmo do Scott McCloud. Acessórios vendidos separadamente. Não inclui pilhas.

2019-01-16T14:09:18+00:00 14 de janeiro de 2019|23 Comentários